Chapter 3

Acaso governaria já AffonsoVquando o conde partiu para Ceuta? Parece que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé do infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei lhe conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D. Alvaro Vaz voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse oCapitãocom tanto agrado?Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta durante a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo que offereciam alli os genovezes.Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel de AffonsoVe a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei acabou por ceder e tirar{98}a D. Alvaro o governo do castello de Lisboa[52].Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado aoCapitãoo cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo National[53].{99}O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.Na celebre carta que o infante dirigiu{100}de Coimbra, em 30 de dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys delles por que lhe esto devesse{101}de ser feito vós sabees; deram-lhe por ellese em especial pollo que agora fez em Ceita, ho gallardam que dam a mim de meus serviços e trabalhos».Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaroviera de Ceuta, onde praticára novos e gloriosos feitos.Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em Lisboa.Certamente n'este ultimo anno[54]veiu a Portugal Jacques de Lalain, famoso cavalleiro{102}da côrte do duque de Borgonha. Foi recebido pelo joven rei AffonsoVe pelo regente D. Pedro com grandes honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora, sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros senhores e cavalleiros portuguezes[55].Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por estreitos laços de parentesco e affecto.Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro{103}dos mais afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido d'essa honra e gloria.Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante D. Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.O infante D. Henrique acampanhou-o.Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o que cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A reunião do conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança tinha sido chamado á côrte.Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a passagem ao duque[56].{104}Este parecer foi acceito.Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para a Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda confiada a D. Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O proprio D. Pedro commandava a rectaguarda.Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de Bragança estava apenas a meia legua de distancia.Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais delongas. Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi vêr o arraial do duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro acolheu-o com tristeza, pesaroso de que elle o não tivesse consultado primeiro.Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.D. Alvaro respondeu com decisão:—Senhor, venho de vêr vossos inimigos,{105}de quem prazendo a Deus, e ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não alongueis a vida a quem se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e afortallesa não quer vir ávante, e ou se tornará para traz como veio, ou escondido se salvará por outro caminho»[57].O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue, não{106}acceitou o conselho, nem acreditou a prophecia.Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da Estrella, escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo jornada para Lisboa.D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha. Dizia-lhe ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. AffonsoVo iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto, encarcerado ou desterrado.D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou profundamente abatido.Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro, sem fazer a menor allusão á boa occasião que{107}o infante havia perdido, disse com inabalavel firmeza:—Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas, fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante mandasse pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença de seus inimigos ou haver pelas armas satisfação das injurias que propalavam, e que se el-rei nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e sobre elles viesse, que se defendessem no campo como bons e esforçados cavalleiros[58].Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado: estas heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D. Pedro.{108}Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro. Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se. Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle.Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.Tal era o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella fosse.Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro:«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse—conde, sabe que eu sinto já minha alma aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de{109}se sair de suas paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida, honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa{110}honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados. Senhor,respondeu o conde,para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa».Ferdinand Denis torna esta scena mais{111}rapida, e por isso mesmo talvez mais verdadeira.O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.D. Alvaro responderia com laconica firmeza:—Acaso não sou eu vosso irmão de armas?Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o discurso de Ruy de Pina.Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para comparecer na egreja de S. Thiago.Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando ambos, sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa Clara, com{112}as quaes tinha particular devoção, e, recolhendo ao paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil homens, e para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar.Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo, na hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um esplendor verdadeiramente principesco.«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames; et il y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute chevaleresque, qui l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours de l'Allemagne et de l'Aragon»[59].Como que está a gente a vêr o amavel{113}donaire d'esses dous cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a paizagem formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a carriagem de bois e bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas bandeiras, cujos lemmas diziam, n'uma,Lealdade, na outra,Justiça e vingança.O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que abalava em som de guerra.**      *Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante fizera,{114}porque não regressou jámais, lembra até certo ponto a attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu fiel companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus. Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus pais, quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio devia ir povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio Maior, onde o infante reuniu o conselho.Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força, retrocedesse para Coimbra.O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu ordem para que o exercito marchasse na direcção{115}de Alcoentre: para a morte é que era o caminho.Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura, de fogoso ardor militar.Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado pelos esclarecedores do exercito real.Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal{116}era um Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique»[60].Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou. Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. AffonsoVhavia partido de Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito do rei, que se aproximava.Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a toda a gente a sua impressão, menos ao infante.«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o deixasse{117}com sua gente alli onde folgaria acabar por seu serviço»[61].Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o infante por ser perjuro e fraco»[62].Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.{118}O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.Luiz de Azevedo[63], poeta doCancioneirode Rezende, põe na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o pensamento n'essa angustiada hora final:Nam ha rreynos em Cristãosque em todos nam andasse,e que sempre nom achassenos rreys d'eles doces mãos;Fydalguos e cydadaõsme seruiam lealmente,e agora cruelmenteme matarom meus yrmãos.Eu andey per muytas partese por outras boas terras,muyta paz e tam bem guerrasvy tratar per muytas artes.{119}Mas aqueste dia Martesfoy jnfeles pera mym;o meu sangue me deu fime rrompeu meus estandartes.Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais leal dos cavalleiros portuguezes.Ruy de Pina escreve:«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse—Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto.—E o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço—Cala-te e aqui o não digas a ninguem.—E{120}com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria, e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não de seu sangue, mas de muito alheio que{121}espargiu; porque em quanto andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse em altas vozes:Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas.E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que disse,ora fartar, rapazes, e outrosora vingar, villanagem. Cujo corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada. E os outros fidalgos e nobre gente{122}que eram com o infante, vendo tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos, feridos, ou presos não escapou algum».Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de Alvaro{123}Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que, embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na vertigem do combate, pronunciára: «Jantar aqui, ceiar no inferno». Era um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa. D. AffonsoVprocurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei ultrapassou o respeito devido aos mortos.O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias. Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete partidas do mundo[64],{124}ainda depois da morte errou n'uma longa peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa, finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na esperança de obter mercê[65]. Feito pedaços, retalhado de golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de Alfarrobeira,{125}até que a requerimento de seu irmão bastardo, João Vaz de Almada[66], e não sem difficuldade, foi enterrado honradamente na capella de familia.Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de Lisboa, era chamadados Abranches(corrupção de Avranches), por n'ella ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.{126}«Está sepultado—descrevia no seculoXVIIo auctor daHistoria serafica—no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem estas letras:Aqui jaz um Christão.Na parede sustentavam dous leões uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos cavalleirosos[67]. E por quanto uma ruina do tecto a tem feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa do{127}Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».Por carta de D. AffonsoV, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449, foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios, honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto os vivos como os mortos.«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de reo de alta traição: a casa da actual rua doAlmada, sobre o Calhariz, campo então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou em 25 de agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho de Lourenço Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei D. AffonsoV. Esses bens conservam-se{128}ainda, na sua maior parte, em poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez de Vallada, etc.»[68]Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de Avranches, espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe chamam, que deu o nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto senhor de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua mulher a celeberrima D. Leonor Telles[69].{129}A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nosRetratos dos varões e donas, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo encontra-se a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua biographia:Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.2.º D. Leonor, solteira.3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas, capitão de ginetes, do qual se apartou.4.º D. Isabel da Cunha, mulher de{130}Alvaro Pessanha, filho de micer Carlos Pessanha, almirante[70].5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher D. Isabel de Athayde.D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar o titulo de conde de Avranches, confirmado em França por LuizXI.D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de esperar, visto que não podia encontrar outro{131}marido, que excedesse em gloria o primeiro.Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D. Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.**      *De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e confuso, que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz de Almada.Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dosdoze de Inglaterra, emparceirando-o{132}alguns, n'esta cavalheiresca aventura, com seu pai.Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.Dêmos desde já um exemplo.Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal, diz a respeito de Alvaro Vaz de Almada:«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger l'honneur outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette occasion, en alterant toutefois son nom»[71].Ora, no episodiodos doze de Inglaterra, Camões apenas nomeia um só, que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do{133}conde de Avranches é no cantoIV, quando descreve a batalha de Aljubarrota. E ahi é que lhe troca o nome. Vejamos:E da outra ála que a esta corresponde,Antão Vasques de Almada[72]é capitão,Que depois d'Abranches nobre conde,Das gentes vai regendo a sestra mão.Logo na rectaguarda não se esconde,Das quinas e castellos o pendão,Com Joanne rei forte em toda a parte,Que escurecendo o preço vai de Marte.Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia estar, porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro, não teria ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,—ahi armado cavalleiro.Effectivamente, um cavalleiro, chamado{134}Antão Vasques, de Almada acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito com o gascão Guilherme de Montferrant[73].E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre de Aviz com a bandeira real de Castella.Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem, antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que prova que era muito novo então.Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera o nome do conde de Avranches quando descreve{135}o episodio dosdoze de Inglaterra; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques de Almada foi depois conde de Avranches.Vamos agora á lenda dosdoze.Será acaso nosLusiadasque pela primeira vez apparece noticia d'esta lenda?Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora oPalmeirim de Inglaterra, por Francisco de Moraes, e no capituloCLXIIIda segunda parte d'esta obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da lenda dosDoze.Mas oPalmeirim de Inglaterraserá uma obra original, uma traducção fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert{136}de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de sua lavra.No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra oMemorial das proezas da segunda tavola redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no capituloXLVIIse lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João deBoa Memoriasabemos que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas do duque de Alencastro».{137}Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença de serem treze os cavalleiros em vez de doze.O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. JoãoI, seria Jorge Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dosRetratos dos varões e donas, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra, collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. JoãoIcom D. Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações de Portugal com a Inglaterra[74],{138}e foi depois da batalha de Aljubarrota (1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.Prosigamos. Mariz, nosDialogos da varia historia, publicados em 1594, referindo-se a uma relação antiga,{139}Chronica antigua hujus temporis, publíca uma narrativa do feito dosDoze, occorrido, segundo elle, no reinado de D. JoãoI. Cita, entre osDoze, apenas quatro, mencionando o nome deum que se chamava Alvaro de Almada.Faria e Sousa, commentando osLusiadas, em 1639, tambem se refere a umpapel antiguo, em quetoscamentese historiava o episodio dosDoze.Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla de uma ordem de cavallaria, a ordem daDama Branca, que foi organisada para defeza das damas ultrajadas,plusieurs dames et damoiselles, veufves et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes[75], e publíca o texto das cartas de armas{140}pelas quaestrezecavalleiros francezes, messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França, Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères, Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut, Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça de 1399.Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes, porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. JoãoI, falleceu em 1399.Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e, portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada paiz aproprial-a a cavalleiros seus.{141}O catalogo completo dosDozeportuguezes appareceu pela primeira vez no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro,Desafio dos Doze de Inglaterra, publicado em 1732[76].Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam: Alvaro de Almada, oJustador; Alvaro Gonçalves Coutinho, oMagriço; Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.Este catalogo tem para nós muito pouco{142}valor. Os nossos antigos chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo, que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis, chronologicamente, com a época dosDoze de Inglaterra[77]. Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os substituir pelos de representantes seus.Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada, oJustador, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto cavalheiresco.Não será acaso Alvaro de Almada, oJustador, um desdobramento da individualidade de Alvaro de Almada, o conde de{143}Avranches, por errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?Talvez por descobrir este equivoco seria que José da Fonseca, na edição dosLusiadas, feita em Paris em 1846, substituiu Alvaro de Almada, o designadoJustador, por João Fernandes Pacheco, que no catalogo de Védouro figura como primeiro supranumerario.A ter-se como certa a ida dosDozecavalleiros portuguezes a Inglaterra, o que não póde ter-se como certo, parece-me, é que Alvaro Vaz de Almada fosse um d'esses cavalleiros.Elle, que foi armado cavalleiro em Ceuta em 1415, e que pela primeira vez estivera na Inglaterra em Janeiro d'esse anno, quando alli fôra levantar as trezentas e cincoenta lanças, não poderia tomar parte n'um torneio, que se teria realisado no fim do seculo anterior.A sua inclusão na lenda dosDozeexplica-se,{144}decerto, por ter sido um dos mais famosos cavalleiros portuguezes do seu tempo.Sobretudo, as suas viagens e a sua morte em Alfarrobeira, que tanta impressão causou pelas circumstancias cavalheirescas que a revestiram, despertariam, na imaginação popular, o sentimento do maravilhoso. D'aqui talvez o associarem-n'o á lenda.Mas Alvaro Vaz de Almada não precisa d'essa gloria, aliás duvidosa, porque sobeja gloria lhe adveio dos seus brilhantes feitos e singulares aventuras.NaChronicade Monstrelet falla-se de um combate que, no anno de 1414, houve em França entre tres cavalleiros portuguezes e tres gascões: sendo o pretexto o amor das damas, comquanto o verdadeiro mobil fosse o odio que existia entre os francezes e os inglezes, de que os portuguezes eram então alliados.{145}Os portuguezes foram D. Alvares, D. João e D. Pedro Gonçalves[78]; e os gascões François de Grignols, Archambaud de la Roque e Maurignon.O combate ter-se-ia realisado em Saint-Ouen, na presença do rei: Os portuguezes portaram-se com bravura, mas foram vencidos. Pudera! ou a versão não fosse franceza...Desculpe, meu caro snr. Lugan. O orgulho das nações chega a ser uma cousa respeitavel.Para fazer justiça ao valor dos seis campeões, foram passeiados, todos, pelas ruas de Paris, em triumpho, ao som de trombetas e acclamações enthusiasticas.Ora estes tres nomes, mudado Alvares para Alvaro, correspondem justamente aos{146}dos tres cavalleiros da familia Almada: o pai e os dous filhos.E o appellido de Gonçalves poderá talvez explicar-se por confusão com o doMagriço, que, como sabemos, se chamava Alvaro Gonçalves (Coutinho).Vimos como Alvaro Vaz de Almada fôra com seu pai a Inglaterra levantar armas para a guerra de Ceuta. Naturalmente tambem iria Pedro de Almada. O pai estava na côrte de HenriqueVem setembro de 1414, como consta doQuadro diplomatico, e Alvaro ainda alli estava em Janeiro de 1415.A commissão requeria brevidade, porque D. JoãoIqueria partir para Ceuta, e não me parece provavel que a familia Almada se demorasse então em França a combater gascões.Mas é possivel.O que é provavel é que Alvaro Vaz de Almada, e seu pai, e seu irmão, na Inglaterra,{147}na França ou mesmo na Allemanha, onde Alvaro Vaz se encontraria mais tarde com o infante D. Pedro, praticassem, collectiva ou individualmente, algum feito galante em honra das damas, tomassem parte em qualquer dos torneios cavalheirescos, que eram n'aquella época frequentes.Após o combate entre os tres portuguezes e os tres gascões, houve um duello entre outro portuguez e um cavalleiro bretão, de appellido La Haye, na presença de CarlosVI.«Foram, diz Vulson de la Colombière, por ordem do rei igualmente honrados, comquanto se diga que La Haye obteve vantagem».Reiffenberg dá noticia de que D. JoãoIconvidára muitos cavalleiros francezes para um torneio em Lisboa[79].{148}Era este o requinte da galanteria militar da época. Portanto Alvaro Vaz ou qualquer dos outros cavalleiros da sua familia bem poderiam ter praticado semelhantes proezas no estrangeiro, de 1414 a 1415, ou depois da tomada de Ceuta, quando se viram obrigados a emigrar.Infelizmente, não posso precisar quaes fossem esses feitos cavalheirescos praticados por elle ou pelos seus.Camões, na sequencia do episodio dosDoze, refere-se ao duello que oMagriçoteve com um francez, e ao desafio que um outro dos cavalleiros portuguezes tivera na Allemanha.O cavalleiro francez morto, no campo, peloMagriçofoi, segundo a tradição, mr. De Lansay.O duello do outro portuguez com o allemão:{149}Outro tambem dos doze em AllemanhaSe lança, e teve um fero desafioC'um germano enganoso, que com manhaNão devida, o quiz pôr no extremo fio;bem podia ser vaga recordação de alguma façanha de Alvaro Vaz quando combateu pelo imperador Sigismundo, embora essa façanha nenhuma relação tivesse com a lenda dosDoze. Mas, no poema, quando Velloso está n'este lance da narrativa, o mestre de bordo toca o apito, a manobra começa, as conversações na tolda interrompem-se.Camões conta que Magriço não recolhera logo depois do torneio:Mas dizem que comtudo o grão MagriçoDesejoso de vêr as cousas grandes,Lá se deixou ficar, onde um serviçoNotavel á Condessa fez de Frandes.E Mariz, nosDialogos, diz que tambem ficaram no estrangeiro, além de Magriço,{150}mais dous, «fazendo taes obras em armas, que um d'elles alcançou de el-rei de França o condado de Abranches em França, pelas obras que em seu serviço fizera», e que este veio depois a morrer em Alfarrobeira.Ora não foi o rei de França, mas o de Inglaterra, como já está dito, que deu o condado de Avranches a Alvaro Vaz de Almada. E, dizendo a lenda que o torneio dosDozese realisou em vida do duque de Lancaster, não podia Alvaro Vaz tomar parte n'elle, por não ser ainda nascido ou por estar ainda na primeira infancia.Em conclusão, meu caro snr. Lugan:Na formação das lendas, a imaginação popular não olha a anachronismos. Alvaro Vaz foi um cavalleiro famoso por seus feitos d'armas, pelo seu grande valor; combateu ao serviço de Inglaterra e em Inglaterra foi mais tarde agraciado: a{151}lenda cavalheiresca dosDozeenvolveu-o portanto nos seus magicos véos, para nos servirmos de uma expressão de Pinheiro Chagas, sem attender á chronologia. Tambem em torno do infante D. Pedro se fórma a lenda dassete partidas, originada nas suas viagens. A imaginação popular não podia deixar de envolver no maravilhoso das tradições nacionaes estes Castor e Pollux do seculoXV, tão unidos moralmente, tão consubstanciados, na vida e na morte, por um estreito laço de relação historica.**      *Seria longo trabalho enumerar as menções e referencias que de Alvaro Vaz de Almada fazem tanto os escriptores portuguezes,{152}como os estrangeiros que se têm occupado em estudar a historia do nosso paiz.D'estes, alguns, Ferdinand Denis á frente, lamentam que tão pouco se saiba da vida do conde de Avranches. Um d'elles, que é dos que melhor conhecem a litteratura portugueza, mr. Francisque Michel, chega a escrever: «Nous ne savons rien de sa vie».Quanto aos escriptores nacionaes, não quero, comtudo, deixar de citar Gomes Eanes de Azurara, porque escrevia em circumstancias verdadeiramente embaraçosas para elle. Azurara fôra encarregado por D. AffonsoVde escrever aChronica do descobrimento e conquista de Guiné. Por D. AffonsoV, note-se, por D. AffonsoV, que moveu o seu exercito contra o infante D. Pedro, e que tão severo se mostrou com todos os que combateram em Alfarrobeira ao lado do infante.{153}Azurara acabou de escrever a suaChronicaem fevereiro de 1453, isto é, menos de quatro annos depois do deploravel acontecimento, quando ainda não estavam de todo apagadas as paixões politicas que lhe deram origem.Pois, não obstante estas difficeis circumstancias em que se via collocado, Azurara, com louvavel hombridade, faz esta referencia a D. Alvaro Vaz de Almada:«... batalha da Alfarrobeira, naqual o dicto iffante foe morto e o conde Dabranxes que era com elle, e toda sua hoste desbaratada, onde, se o meu entender pera esto abasta, justamente posso dizer, que lealdades dos homees de todollos segres (seculos) forom nada em comparaçom da sua. E postoque o serviço nom seja tamanho, quanto ao trabalho, segundo os que já disse, certamente as circonstancias lhe dam splandor e grandeza sobre todollos{154}outros, cuja perfeita declaraçom remeto aa estorea geeral dos feitos do regno»[80].D. AffonsoVleu isto, que foi escripto na sua propria casa—acabousse esta obra na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa—e sentiu, porventura, passar ainda por diante dos olhos o vulto d'esse cavalleiro fascinante, que elle quiz por força vêr quando D. Alvaro ia caminho da Ameeira, e que tamanha influencia exercia no seu juvenil espirito, que os inimigos do infante D. Pedro, quando o conde de Avranches regressou de Ceuta pela segunda vez, julgaram conveniente a seus fins levar o rei para Cintra, de modo a evitar nova entrevista.AffonsoVleu isto, e certamente lhe pesou na alma o remorso de ter cedido ás perfidas suggestões dos inimigos do infante.{155}As palavras que Azurara havia escripto, ficaram. O rei não as cancellou. O espirito de AffonsoVfez justiça ao chronista e ao conde, conservando-as.**      *Tal era o homem, o heroe.Elle bastaria por si só a caracterisar uma época, o occaso da idade-média em Portugal, se, a dous passos de distancia, os descobrimentos maritimos, promovidos pelo infante D. Henrique, não tivessem vindo relegar para o segundo plano do vasto quadro da civilisação universal todos os outros factos, e todos os vultos humanos que não collaboraram directamente n'essa colossal epopêa das aventuras maritimas.Alvaro Vaz de Almada é até certo ponto prejudicado pelo esplendor de uma{156}época gloriosissima, que marca o inicio dos tempos modernos. Eramos então tão felizes que sobejavam heroes, heroes de uma raça unica, inexcedivel, para todos os generos de celebridade. Mas a grandeza do vulto do conde de Avranches, podendo medir-se pela bitola dos maiores e melhores cavalleiros do cyclo medieval, tanto se abalisou nas tradições da Europa cavalheiresca, que não ficou de todo offuscada pelo esplendor da sua propria época.Quando quizermos recordar o periodo aureo em que o espirito aventuroso dos portuguezes investia com as lendas tenebrosas do oceano, para rasgal-as com a prôa das caravellas descobridoras, e affrontava os perigos das explorações terrestres por sertões inhospitos, teremos que figurar na nossa imaginação o vulto do infante D. Henrique, de pé sobre o promontorio de Sagres, dominando o mar, que se lhe quebrava aos pés humilde como um{157}leão vencido, e que, no seu eterno refluxo, ia levar a longinquas plagas o prestigio do nome portuguez.Mas quando quizermos figurar a agonia extrema da cavallaria portugueza, quando quizermos procurar a chave de ouro que fechou, n'esta região do occidente, o periodo do valor militar, das aventuras galantes, da coragem no soffrimento, da dedicação na amizade, da abnegação na existencia e da heroicidade na morte, teremos que figurar o conde de Avranches, brandindo primeiro a lança, floreando depois a espada, no campo de Alfarrobeira, onde o infante D. Pedro era já cadaver, até que, extenuado, sentindo exhalar-se o derradeiro alento, cae sobre a terra da patria, offerecendo aos golpes dos adversarios o corpo que já podia menos do que a alma, e exclamando ao despedil-a:Ora vingar, villanagem!Se o infante D. Henrique é o traço de{158}união que para todo o sempre, emquanto se não perder a memoria das grandezas passadas com a existencia do ultimo homem, nos liga ao Oriente, cujas portas abrimos, cujos mares devassamos, cujos emporios vencemos, D. Alvaro Vaz de Almada é o vinculo eterno que nos prende ao Occidente cavalheiresco, ás tradições aventurosas do brio militar e do militarismo galante que foram, na Europa da idade-média, a suprema expressão da nobreza da alma humana.Um, o infante, é a aurora do novo dia que começa a raiar para a humanidade do seculoXV, aurora resplendente de fulgurações prismaticas, de arreboes dourados, de rosicler cambiante.O outro, o conde, é o occaso da idade-média, o sol-pôr de um seculo de feitos heroicos, de primores e gentilezas de cavalleiros intemeratos,—occaso opulento de tintas e de sombras grandiosas, em que a{159}luz briga ainda com as trevas, affirmando na lucta o valor que certamente havia aprendido com os cavalleiros d'esse tempo.Estes dous homens, o infante e o conde, são como uma dupla personificação da sua época, do momento de transição solemne em que a poesia das espadas, a epopêa das cavallarias errantes, que preparavam a alma humana para todas as concepções arrojadas e para todos os feitos destemidos, vai ceder o passo á quilha das caravellas e das naus, que iam em demanda do Oriente para trazel-o ás portas de Lisboa, estreitando as relações dos povos, desenvolvendo a navegação e o commercio, fomentando a industria pela abundancia de capitaes e pela exploração de novos mercados, pela nobilitação do trabalho, que não tardaria a deixar de ser um mister de escravos para converter-se n'uma applicação honrosa da actividade humana.O infante e o programma, ainda então{160}mal desenrolado, da transformação economica da Europa culta.O conde é o livro, prestes a fechar-se, do espirito militar da idade-média, o ultimo clarão da cavallaria moribunda.São uma época, estes dous homens. Completam-se um pelo outro.Ora, no momento em que a cidade do Porto vai prestar uma grande homenagem collectiva ao infante Descobridor, que n'essa boa terra nasceu, e fazer resuscitar por alguns dias o periodo mais brilhante da nossa historia nacional, pareceu-me justo, agora o repito, recordar o vulto do homem que, ao lado de D. Henrique, synthetisa o seculoXV, a transição da idade-média para os tempos modernos, na historia de Portugal.Tendo, meu caro snr. Lugan, de lhe enviar esta carta a tempo de poder ser publicada por occasião da festa centenaria do infante, fui obrigado a circumscrever-me{161}a estreitissimos limites, e a passar rapidamente por acontecimentos que mereciam longa attenção.Não é um trabalho litterario perfeito o que lhe mando, porque o fazel-o excederia os meus recursos e não caberia nos poucos dias de que pude dispôr. É, pois, uma simples carta, escripta ao correr da penna, sem preoccupações academicas, mas inspirada unicamente no desejo de corresponder á louvavel resolução do meu bom amigo e de, por minha parte, render homenagem ás glorias da minha patria.Lisboa, 2 de fevereiro de 1894.

Acaso governaria já AffonsoVquando o conde partiu para Ceuta? Parece que não. Se esta viagem tivesse sido um meio de o tirar de ao pé do infante D. Pedro, se tivesse sido «um castigo», como explicar que o rei lhe conservasse o castello de Lisboa, que só lhe retirou quando D. Alvaro Vaz voltou de Ceuta? E como explicar igualmente que recebesse oCapitãocom tanto agrado?

Parece mais verosimil e provavel que Alvaro Vaz partisse para Ceuta durante a regencia e por indicação do infante, em razão talvez do perigo que offereciam alli os genovezes.

Por fim, como era natural que acontecesse, dada a idade impressionavel de AffonsoVe a insistencia dos inimigos do infante, o joven rei acabou por ceder e tirar{98}a D. Alvaro o governo do castello de Lisboa[52].

Durante a regencia, o infante D. Pedro não só havia conservado aoCapitãoo cargo de alcaide-mór, mas tambem lhe fizera importantes doações, como se póde vêr por documento existente no Archivo National[53].{99}

O infante magoou-se profundamente com o acto pelo qual seu sobrinho tirára o governo do castello de Lisboa a D. Alvaro: não só o feriam directa e pessoalmente, imputando-lhe crimes atrozes, mas tambem na pessoa do seu mais dilecto amigo o queriam ferir.

Na celebre carta que o infante dirigiu{100}de Coimbra, em 30 de dezembro de 1448, ao conde de Arrayolos, que de Ceuta viera expressamente para defendel-o, dizia D. Pedro:

«... por me fazerem deshonra tiraram o castello de Lisboa ao conde d'Avranches, o qual se tinha feito serviços a estes Reynos e aos Reys delles por que lhe esto devesse{101}de ser feito vós sabees; deram-lhe por ellese em especial pollo que agora fez em Ceita, ho gallardam que dam a mim de meus serviços e trabalhos».

Este periodo da celebre carta mostra não só o profundo resentimento do infante D. Pedro, mas tambem que D. Alvaroviera de Ceuta, onde praticára novos e gloriosos feitos.

Não podemos precisar o anno em que o conde esteve pela segunda vez em Ceuta. Mas, pelo dizer o infante, sabemos que no fim de 1448 já tinha regressado, e por outra noticia sabemos tambem que em 1446 estava em Lisboa.

Certamente n'este ultimo anno[54]veiu a Portugal Jacques de Lalain, famoso cavalleiro{102}da côrte do duque de Borgonha. Foi recebido pelo joven rei AffonsoVe pelo regente D. Pedro com grandes honras e festas. Quando De Lalain se aproximava da cidade de Evora, sahiram a recebel-o, em nome do rei, Alvaro Vaz de Almada e outros senhores e cavalleiros portuguezes[55].

Não houve justas nem torneios, porque a De Lalain foi dito, em nome do rei, que elle não podia consentir que nenhum cavalleiro portuguez fizesse armas contra outro da casa de Borgonha, a que estava ligado por estreitos laços de parentesco e affecto.

Perdeu-se assim uma excellente occasião de vêr o conde de Avranches justar, em Portugal, com um cavalleiro estrangeiro{103}dos mais afamados, porque Alvaro Vaz de Almada não teria certamente prescindido d'essa honra e gloria.

Vamos agora caminhando rapidamente para Alfarrobeira.

Depois de fallar ao rei, Alvaro Vaz correu ancioso a abraçar o infante D. Pedro, que estava em Coimbra, nas suas terras.

O infante D. Henrique acampanhou-o.

Houve então alli um como conselho de familia para se deliberar sobre o que cumpria fazer. O momento era angustioso; a resolução difficil. A reunião do conselho repetiu-se quando se soube que o duque de Bragança tinha sido chamado á côrte.

Alvaro Vaz de Almada opinou que a todo o custo o infante devia impedir a passagem ao duque[56].{104}

Este parecer foi acceito.

Para o executar, D. Pedro moveu a sua gente, que de Penella seguiu para a Louzã, e da Louzã para a aldeia de Villarinho, sendo a vanguarda confiada a D. Jayme, filho do ex-regente, e a D. Alvaro Vaz de Almada. O proprio D. Pedro commandava a rectaguarda.

Quando chegaram ao logar de Serpiz, soube o infante que o duque de Bragança estava apenas a meia legua de distancia.

Logo que isto constou a D. Alvaro, não lhe soffreu o animo mais delongas. Sem dizer nada ao infante, metteu esporas ao cavallo, e foi vêr o arraial do duque. Quando voltou, vinha radiante; mas D. Pedro acolheu-o com tristeza, pesaroso de que elle o não tivesse consultado primeiro.

Perguntou-lhe o infante o que tinha visto.

D. Alvaro respondeu com decisão:

—Senhor, venho de vêr vossos inimigos,{105}de quem prazendo a Deus, e ao bemaventurado S. Jorge, vos eu darei hoje se quizerdes mui boa vingança, e peço-vos por mercê que a não dilateis para mais, e ahi logo dar n'elles; porque na desordem e tristeza em que estão, dão já certos signaes de serem cortados com medo e meio desbaratados, e não percaes tão bom dia; porque já em vossa vida nunca havereis outro tal, e não alongueis a vida a quem se lh'a hoje dais, sabei que a encurtára mui cedo a vós, tendo por certo que o duque na maneira em que se repaira e afortallesa não quer vir ávante, e ou se tornará para traz como veio, ou escondido se salvará por outro caminho»[57].

O infante D. Pedro, querendo certamente adiar o derramamento de sangue, não{106}acceitou o conselho, nem acreditou a prophecia.

Mas D. Alvaro fôra n'essa occasião um vidente.

O duque de Bragança conseguiu atravessar furtivamente a serra da Estrella, escapando-se d'este modo ás mãos do infante, e seguindo jornada para Lisboa.

D. Pedro e os seus tornaram para Coimbra.

Ahi foi surprehender o infante uma carta de sua filha, a rainha. Dizia-lhe ella que no dia 5 de maio (estava-se em 1449) D. AffonsoVo iria cercar, e que, se elle infante fosse vencido, seria morto, encarcerado ou desterrado.

D. Pedro mostrou-se alegre e tranquillo perante o mensageiro, mas ficou profundamente abatido.

Reuniu o conselho dos seus amigos. As opiniões dividiram-se. D. Alvaro, sem fazer a menor allusão á boa occasião que{107}o infante havia perdido, disse com inabalavel firmeza:

—Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.

Desenvolvendo esta these, aconselhou que, vestindo todos as suas armas, fossem caminho de Santarem, onde a côrte estava, para que o infante mandasse pedir a el-rei que ou lhe permittisse defender-se na presença de seus inimigos ou haver pelas armas satisfação das injurias que propalavam, e que se el-rei nenhuma d'estas concessões quizesse fazer, e sobre elles viesse, que se defendessem no campo como bons e esforçados cavalleiros[58].

Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado: estas heroicas palavras calaram no animo, até ahi indeciso, do infante D. Pedro.{108}

Conheceu que a razão e a honra estavam do lado de D. Alvaro. Acceitou-lhe o conselho. As duas almas entendiam-se, completavam-se. Tinha chegado o momento decisivo: só restava apparelhar para elle.Antes morrer grande e honrado que viver pequeno e deshonrado.Tal era o dilemma. A voz da cavallaria portugueza fallára pela bocca de D. Alvaro.

Preparou-se o infante D. Pedro para a sorte das armas, qualquer que ella fosse.

Ruy de Pina, que segue os moldes de Tito Livio, pondo longos discursos na bocca dos personagens historicos, descreve d'este modo a scena intima, que se déra entre D. Pedro e D. Alvaro:

«E passados alguns dias depois estes conselhos, o infante não se esfriando em seu proposito, apartou só em uma camara o conde d'Abranches, e lhe disse—conde, sabe que eu sinto já minha alma aborrecida de viver n'este corpo, como desejosa de{109}se sair de suas paixões e tristezas, e considerados os seus combates que minha vida, honra, e estado cada dia recebem, com esperança de não minguarem, mas cada vez crescerem mais, certo se as cousas n'esta viagem me não succedem como eu desejo, e seria razão, eu todavia determino morrer e acabar inteiro, e não em pedaços, e como quer que tenho outros bons criados e servidores, que por suas bondades folgariam e não se escusariam de morrer comigo, porém em vós sobre todos tomei esta confiança, assim pela irmandade que comigo merecestes ter, na santa e honrada ordem da Garrotea em que somos confrades, e como por creação que vos fiz, e principalmente pela certidão que de vossa bondade e esforço tenho muito ha conhecido, e por tanto quero saber de vós, se no dia que d'este mundo me partir, querereis tambem ser meu companheiro, e com isso lembre-vos para satisfazerdes aos primores de vossa{110}honra, que sendo vós tão conhecidamente meu criado e servidor, e tão publico imigo do conde d'Ourem e arcebispo de Lisboa, depois de minha morte não podeis ter vida, salvo reservada para com mãos d'algozes a perderdes em lugares vis, e com pregões deshonrados. Senhor,respondeu o conde,para caso de tamanho contentamento, como foi sempre e é para mim viver e morrer por vosso serviço, muitas palavras nem os encarecimentos não são necessarios, eu vos tenho muito em mercê escolherdes-me para tal serviço, e eu sou muito contente ter-vos essa companhia na morte, assim como vol-a tive na vida, e se Deos ordenar que deste mundo vossa alma se parta, sede certo que a minha seguirá logo a vossa, e se as almas no outro mundo podem receber serviço umas das outras, a minha n'esse dia irá acompanhar e servir para sempre a vossa».

Ferdinand Denis torna esta scena mais{111}rapida, e por isso mesmo talvez mais verdadeira.

O infante teria perguntado a D. Alvaro, com uma simplicidade e rudeza proprias do caracter de ambos, se estava disposto a morrer por sua causa.

D. Alvaro responderia com laconica firmeza:

—Acaso não sou eu vosso irmão de armas?

Esta concisa resposta vale bem, segundo as ideias d'aquelle tempo, o discurso de Ruy de Pina.

Foi avisado um sacerdote, homem abalisado, o doutor Alvaro Affonso, para comparecer na egreja de S. Thiago.

Por mão d'este sacerdote commungaram o infante e D. Alvaro, jurando ambos, sobre a hostia consagrada, que juntos triumphariam ou morreriam.

Depois o infante visitou as egrejas da Sé, de Santa Cruz e de Santa Clara, com{112}as quaes tinha particular devoção, e, recolhendo ao paço, deu ordem para que estivessem prestes os seus seis mil homens, e para que n'essa noite se abrissem e illuminassem os salões do solar.

Tendo cumprido os deveres de bom christão, queria despedir-se do mundo, na hypothese de ser vencido, se não era presentimento, como bom cavalleiro.

E elle, que tão modesto vivera sempre, deu ao sarau d'essa noite um esplendor verdadeiramente principesco.

«La veille de son départ pour Santarem, une fête fut donnée aux dames; et il y brilla de cette grâce de langage, de cette noblesse toute chevaleresque, qui l'avaient rendu maintes fois l'admiration des cours de l'Allemagne et de l'Aragon»[59].

Como que está a gente a vêr o amavel{113}donaire d'esses dous cavalleiros, o infante e D. Alvaro, fallando ás damas, pisando gentilmente tapetes macios que encobriam a cratera de um vulcão ameaçador.

Ao romper da manhã, quando o sol da primavera aclarava docemente a paizagem formosissima de Coimbra, a cavallaria, a infanteria, a carriagem de bois e bestas, principiaram a mover-se, desfraldando duas bandeiras, cujos lemmas diziam, n'uma,Lealdade, na outra,Justiça e vingança.

O infante D. Pedro, tendo abraçado sua esposa, seguira o exercito que abalava em som de guerra.

**      *

Esta Jornada, a mais curta e ao mesmo passo a mais longa que o infante fizera,{114}porque não regressou jámais, lembra até certo ponto a attracção da chamma sobre a borboleta. Tambem o infante e o seu fiel companheiro D. Alvaro pareciam attrahidos pela morte.

Iam procurando os templos famosos como para encommendar sua alma a Deus. Estiveram na Batalha, onde D. Pedro ajoelhou diante do tumulo de seus pais, quedando-se tambem algum tempo diante do jazigo que elle proprio devia ir povoar. Estiveram em Alcobaça, e d'alli seguiram para Rio Maior, onde o infante reuniu o conselho.

Todos, á excepção de D. Alvaro, aconselhavam D. Pedro a que não avançasse mais; diziam-lhe que, feita aquella demonstração de força, retrocedesse para Coimbra.

O infante ouvia-os engolphado n'uma abstracção melancolica. Mas deu ordem para que o exercito marchasse na direcção{115}de Alcoentre: para a morte é que era o caminho.

Cbegados ahi, D. Alvaro Vaz de Almada pratíca um novo acto de bravura, de fogoso ardor militar.

Ayres Gomes da Silva, a quem coube a guarda das forragens, fôra cercado pelos esclarecedores do exercito real.

Mal que isto se soube em Alcoentre, no acampamento do infante, «o conde de Abranches com grande trigança logo sahiu, e com elle quasi todos os do arraial não guardando alguma regra em sua sahida, antes com muita desordem e desmando romperam por muitas partes o palanque, e deram com muita força nos corredores, de que alguns d'elles achando-se atalhados, querendo-se salvar cairam em um grande tremedal e lagoa, de que não poderam sahir, onde entre mortos e presos ficaram logo até trinta, e os vivos levaram logo ante o infante, entre os quaes o principal{116}era um Pero de Castro, fidalgo e criado do infante D. Henrique»[60].

Impellido por este acontecimento, o exercito de D. Pedro avançou. Sahiu-lhe ao caminho a noticia de que D. AffonsoVhavia partido de Santarem ao seu encontro. Sabido isto, o infante mandou fazer alto, a pequena distancia de Alverca, junto ao ribeiro de Alfarrobeira.

O conde de Avranches, que era sempre o primeiro, foi observar o exercito do rei, que se aproximava.

Fez-lhe impressão a grandeza d'esse exercito. Mas, voltando, occultou a toda a gente a sua impressão, menos ao infante.

«... e alguns disseram que o Conde pedira e requerera ao infante, visto a desigual comparação que havia de uns a outros, que só se fosse e salvasse, e o deixasse{117}com sua gente alli onde folgaria acabar por seu serviço»[61].

Se isto assim foi, o infante recusou o offerecimento. Lembrou porventura a D. Alvaro que o voto feito por ambos era de morrerem um pelo outro.

«Mas o que mais verdadeiramente ácerca d'isto se deve crêr, é que o Conde pela certa sabedoria que tinha do proposito do infante, que era morrer, e pelo consagramento que ambos por isso tinham feito, não lhe commetteria nem ousaria commetter tal cousa, em que ao menos ficava o infante por ser perjuro e fraco»[62].

Foi ahi, junto ao ribeiro de Alfarrobeira, que n'esse dia, uma terça-feira, 20 de maio, o infante D. Pedro esperou o exercito do rei.{118}

O conflicto, rapido e decisivo, devia comtudo ficar memoravel na historia de Portugal. Uma setta, certeiramente despedida, fôra cravar-se no peito do infante, que pouco tempo sobreviveu.

Luiz de Azevedo[63], poeta doCancioneirode Rezende, põe na bocca do infante moribundo lastimas que talvez lhe atravessassem o pensamento n'essa angustiada hora final:

Nam ha rreynos em Cristãosque em todos nam andasse,e que sempre nom achassenos rreys d'eles doces mãos;Fydalguos e cydadaõsme seruiam lealmente,e agora cruelmenteme matarom meus yrmãos.

Eu andey per muytas partese por outras boas terras,muyta paz e tam bem guerrasvy tratar per muytas artes.{119}Mas aqueste dia Martesfoy jnfeles pera mym;o meu sangue me deu fime rrompeu meus estandartes.

Vamos, na confusão do rapido combate, procurar o conde de Avranches. O infante é morto. D. Alvaro ha de cumprir o seu juramento como o mais leal dos cavalleiros portuguezes.

Ruy de Pina escreve:

«O conde d'Abranches andando a cavallo em outra parte do arraial, provendo e resistindo em sua estancia, como bom e ardido cavalleiro, a muitas affrontas que o perseguiam, um moço chegou a elle e chorando lhe disse—Senhor conde, que fazeis? porque o infante D. Pedro é morto.—E o conde com quanto esta embaixada era de morte, que sem escusa nem dilação desafiou logo sua vida, elle com a cara segura e o coração esforçado disse ao moço—Cala-te e aqui o não digas a ninguem.—E{120}com isto feriu rijamente o cavallo das esporas, e foi-se descer em seu alojamentor onde sem alguma turvação pediu pão e vinho, de que por esfoçar mais seu esforço comeu e bebeu alguns bocados, e tomou suas armas para com ellas honrar sua sepultura, que era a terra em que havia de cair, e saiu a pé pelo arraial, que de todas as partes era já entrado e vencido, e como foi conhecido, logo os d'el-rei uns sobre os outros carregaram sobre elle acommettendo de todas as partes para o matar, mas elle logo com uma lança que cortaram, e depois com sua espada os feria, e escarmentava de maneira, que os que a primeira vez o acommettiam, de mortos ou feridos não volviam a elle a segunda, e assim pelejou um grande pedaço como mui valente e accordado cavalleiro, não sem grande espanto dos que o viam trazendo as mãos, e todas suas armas cheias não de seu sangue, mas de muito alheio que{121}espargiu; porque em quanto andou em pé e se poude revolver, nunca sua carne recebeu golpe que a cortasse. E emfim vencido já de muito trabalho, e longo cansaço, disse em altas vozes:Ó corpo, já sinto que não podes mais, e tu minha alma já tardas.E com isto se deixou cair estendido no chão, e uns dizem que disse,ora fartar, rapazes, e outrosora vingar, villanagem. Cujo corpo que já não resistia, foi logo de tantos golpes ferido, que em breve despediu a alma de si para ir acompanhar a do infante como lhe tinha promettido, e alli um seu amigo, que não usou do que devia, lhe cortou e levou a cabeça com que a el-rei foi pedir acrescentamento e honra de cavallaria, e o tronco ficou no chão feito em pedaços, até que por requerimento de João Vaz d'Almada seu irmão bastardo, que era valor d'el-rei, houve logo enterramento no campo, e depois sepultura honrada. E os outros fidalgos e nobre gente{122}que eram com o infante, vendo tão caro seu destroço, cada um desamparou a defeza das estancias, que lhe foram encommendadas, e como desesperados das vidas não lhe fallecendo o coração e accordo para vingarem suas mortes, se soltaram pelo arraial á aventura que se lhes offerecesse, e emfim de mortos, feridos, ou presos não escapou algum».

Realmente, um frémito de enthusiasmo põe no nosso organismo uma vibração violenta, ao chegarmos a esta pagina, a ultima, da biographia de Alvaro Vaz de Almada. Os heroes da epopéa costumam cair assim. Na morte, esse homem extraordinario parece ainda sobrepujar a grandeza de toda a sua vida. Para os livros de educação popular, nenhum exemplo de valor militar e de leal amizade poderá ser mais apropriado do que este.

Os nobiliarios da Torre do Tombo referem entre as phrases finaes de Alvaro{123}Vaz uma que o chronista aliás não cita. Contam que, embravecido em vingar a morte do seu amigo, o conde de Avranches, na vertigem do combate, pronunciára: «Jantar aqui, ceiar no inferno». Era um leão que se vingava, cego de colera, imponente de magestade.

Estes acontecimentos causaram uma profunda impressão em toda a Europa. D. AffonsoVprocurou attenual-a enviando embaixadores ás principaes côrtes, encarregando-os de explicarem os motivos do seu procedimento.

Mas a impressão foi tanto maior, quanto é certo que a vingança do rei ultrapassou o respeito devido aos mortos.

O cadaver do infante ficou insepulto sobre o campo, durante tres dias. Depois levaram-n'o sobre um escudo para a egreja de Alverca. Aquelle desgraçado principe, de quem o povo conta que, em vida, andou as sete partidas do mundo[64],{124}ainda depois da morte errou n'uma longa peregrinação, porque os seus ossos foram successivamente trasladados de Alverca (onde o rei receiou que os fossem roubar) para o castello de Abrantes, de Abrantes para o mosteiro de Santo Eloy em Lisboa, e de Lisboa, finalmente, para a Batalha, a instancias da infeliz rainha D. Isabel.

Ao cadaver do conde de Avranches foi, como diz Pina, cortada a cabeça por um dos adversarios, aliás seu antigo amigo, que a levou a el-rei na esperança de obter mercê[65]. Feito pedaços, retalhado de golpes, o corpo de D. Alvaro ficou tambem insepulto sobre o campo de Alfarrobeira,{125}até que a requerimento de seu irmão bastardo, João Vaz de Almada[66], e não sem difficuldade, foi enterrado honradamente na capella de familia.

Esta capella, que confinava com a casa do Capitulo em S. Francisco de Lisboa, era chamadados Abranches(corrupção de Avranches), por n'ella ter sido sepultado D. Alvaro Vaz.{126}

«Está sepultado—descrevia no seculoXVIIo auctor daHistoria serafica—no meio d'esta capella, debaixo de uma pedra, na qual se vêem estas letras:Aqui jaz um Christão.Na parede sustentavam dous leões uma arca pequena, ennobrecida com as armas dos Almadas, em que estavam os ossos de seu pai João Vaz de Almada, e de seu irmão Pero Vaz de Almada, os quaes ausentando-se do reino por razões, que para isso tiveram, fóra d'elle fizeram celebre seu nome com muitos feitos cavalleirosos[67]. E por quanto uma ruina do tecto a tem feito em pedaços, e a mesma capella se ha de incorporar em a Casa do{127}Capitulo, com mais gosto deixamos escripta esta memoria».

Por carta de D. AffonsoV, de 10 de outubro d'aquelle anno de 1449, foram privados de todos os seus beneficios, dignidades, officios, honras, prerogativas, isenções, privilegios, liberdades, etc., os partidarios do infante que se acharam em Alfarrobeira.

O conde de Avranches não escapou a esta medida geral, que abrangia tanto os vivos como os mortos.

«Morto o conde de Avranches, foram-lhe logo os bens confiscados como de reo de alta traição: a casa da actual rua doAlmada, sobre o Calhariz, campo então, e afastado, e mais uns terrenos em Caparica. Tudo se doou em 25 de agosto de 1449 a Alvaro Pires de Tavora, chamado o velho, filho de Lourenço Pires de Tavora e de Alda Gonçalves, e do conselho d'elrei D. AffonsoV. Esses bens conservam-se{128}ainda, na sua maior parte, em poder do actual representante dos Tavoras, o sr. marquez de Vallada, etc.»[68]

Quantos lisboetas ignorarão ainda hoje que foi o famoso conde de Avranches, espelho da cavallaria portugueza, como muitos escriptores lhe chamam, que deu o nome a essa aliás modesta rua, proxima do Calhariz!

Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches, casou duas vezes.

A primeira com D. Isabel da Cunha, filha de Alvaro da Cunha, quinto senhor de Pombeiro, o qual era filho de João Lourenço da Cunha e de sua mulher a celeberrima D. Leonor Telles[69].{129}

A lista dos filhos de Alvaro Vaz de Almada, publicada nosRetratos dos varões e donas, é deficiente. Nos nobiliarios da Torre do Tombo encontra-se a seguinte noticia genealogica, que deve completar a sua biographia:

Do primeiro casamento, nasceram cinco filhos, a saber:

1.º D. João de Almada, cuja geração se extinguiu.

2.º D. Leonor, solteira.

3.º D. Violante da Cunha, primeira mulher de Fernam Martins Mascarenhas, capitão de ginetes, do qual se apartou.

4.º D. Isabel da Cunha, mulher de{130}Alvaro Pessanha, filho de micer Carlos Pessanha, almirante[70].

5.º Dona V... da Cunha, que casou em Inglaterra.

Em segundas nupcias casou D. Alvaro Vaz de Almada com D. Catharina de Castro, filha de D. Fernando de Castro (casa Monsanto) e de sua mulher D. Isabel de Athayde.

D'este segundo cazamento nasceu D. Fernando de Almada, que veio a herdar o titulo de conde de Avranches, confirmado em França por LuizXI.

D. Catharina não teve pela memoria de D. Alvaro o respeito que era de esperar, visto que não podia encontrar outro{131}marido, que excedesse em gloria o primeiro.

Casou outra vez. Casou, depois da morte do conde de Avranches, com D. Martinho de Athayde, conde de Athouguia, seu primo co-irmão.

É triste recordar esta pagina de fragilidade feminina.

Mas a patria, essa, ficou eternamente viuva do grande cavalleiro.

**      *

De proposito deixei para o final d'esta carta um assumpto, vago e confuso, que anda lendariamente relacionado com a vida de D. Alvaro Vaz de Almada.

Os chronistas fazem d'este famoso capitão um dosdoze de Inglaterra, emparceirando-o{132}alguns, n'esta cavalheiresca aventura, com seu pai.

Não póde ser mais completa a confusão de datas e de nomes, que obscurece esta lenda em si mesma e na sua referencia á familia Almada.

Dêmos desde já um exemplo.

Ferdinand Denis, que com tanto cuidado estudava a historia de Portugal, diz a respeito de Alvaro Vaz de Almada:

«Il faisait partie, dit-on, des douze preux qui allèrent venger l'honneur outragé des dames anglaises; et Camoens l'a celebré en cette occasion, en alterant toutefois son nom»[71].

Ora, no episodiodos doze de Inglaterra, Camões apenas nomeia um só, que «Magriço se dizia». Onde o poeta falla do{133}conde de Avranches é no cantoIV, quando descreve a batalha de Aljubarrota. E ahi é que lhe troca o nome. Vejamos:

E da outra ála que a esta corresponde,Antão Vasques de Almada[72]é capitão,Que depois d'Abranches nobre conde,Das gentes vai regendo a sestra mão.Logo na rectaguarda não se esconde,Das quinas e castellos o pendão,Com Joanne rei forte em toda a parte,Que escurecendo o preço vai de Marte.

Quem esteve em Aljubarrota não foi Alvaro Vaz de Almada, nem podia estar, porque, sendo aproximadamente da mesma idade do infante D. Pedro, não teria ainda nascido: mas foi seu pai, João Vaz de Almada,—ahi armado cavalleiro.

Effectivamente, um cavalleiro, chamado{134}Antão Vasques, de Almada acrescentam alguns, commandava a ala esquerda do exercito com o gascão Guilherme de Montferrant[73].

E este mesmo Antão Vasques, depois da batalha, cobriu os pés do Mestre de Aviz com a bandeira real de Castella.

Não se póde confundir este cavalleiro com João Vaz de Almada, a quem, antes de ser armado cavalleiro, não dariam o commando da ála esquerda do exercito. Já sabemos que João Vaz foi armado ahi, em Aljubarrota, o que prova que era muito novo então.

Assim, temos que Ferdinand Denis se equivocou dizendo que Camões altera o nome do conde de Avranches quando descreve{135}o episodio dosdoze de Inglaterra; e que Camões se enganou tambem dizendo que Antão Vasques de Almada foi depois conde de Avranches.

Vamos agora á lenda dosdoze.

Será acaso nosLusiadasque pela primeira vez apparece noticia d'esta lenda?

Não é. A primeira edição do poema de Camões foi estampada em Lisboa no anno de 1572. Em 1567 imprimia-se em Evora oPalmeirim de Inglaterra, por Francisco de Moraes, e no capituloCLXIIIda segunda parte d'esta obra, faz-se menção de um combate cavalheiresco, que envolve o fundo da lenda dosDoze.

Mas oPalmeirim de Inglaterraserá uma obra original, uma traducção fiel ou apenas uma imitação? Moraes, que acompanhou em 1540 a França o embaixador portuguez, o segundo conde de Linhares, diz na dedicatoria á infanta D. Maria que trasladára a sua chronica de outra de Albert{136}de Rennes, em Paris. Innocencio Francisco da Silva julga, porém, que Francisco de Moraes não traduziu servilmente, antes introduziu cousas de sua lavra.

No mesmo anno de 1567 imprimia-se em Coimbra oMemorial das proezas da segunda tavola redonda, de Jorge Ferreira de Vasconcellos, e ahi, no capituloXLVIIse lê: «Porque não se nega aos lusitanos, dês o tempo dos romanos que fizeram memoria dos feitos heroicos, um abalisado e raro grau de cavallaria. E em tempo d'elrei D. João deBoa Memoriasabemos que seus vassallos no cêrco de Guimarães se nomeavam por cavalleiros da tavola redonda; e elle por rei Arthur. E de sua côrte mandou treze cavalleiros portuguezes a Londres, que se desafiaram em campo cerrado com outros tantos inglezes, nobres e esforçados, por respeito das damas do duque de Alencastro».{137}

Aqui nos apparece a lenda já apropriada a Portugal, com a só differença de serem treze os cavalleiros em vez de doze.

O que se vê claramente do que fica exposto é que em 1567 a lenda a que nos vimos referindo andava em moda em Portugal. E talvez por estar muito viva a fama gloriosa do reinado cavalheiresco de D. JoãoI, seria Jorge Ferreira de Vasconcellos o primeiro que a localisou n'aquella época.

Alguns escriptores nossos, e entre elles o auctor dosRetratos dos varões e donas, precisam a data da ida dos cavalleiros portuguezes a Inglaterra, collocando-a no anno 1390. Com effeito, esta era a época mais propria, por amor da verosimilhança, porque foi depois do casamento de D. JoãoIcom D. Filippa de Lancaster na Sé do Porto (1387) que se estreitaram as relações de Portugal com a Inglaterra[74],{138}e foi depois da batalha de Aljubarrota (1385) que o espirito cavalheiresco se accendeu entre nós. Mas Fernam Lopes, a melhor auctoridade que podia fazer fé, não se refere ao caso.

Prosigamos. Mariz, nosDialogos da varia historia, publicados em 1594, referindo-se a uma relação antiga,{139}Chronica antigua hujus temporis, publíca uma narrativa do feito dosDoze, occorrido, segundo elle, no reinado de D. JoãoI. Cita, entre osDoze, apenas quatro, mencionando o nome deum que se chamava Alvaro de Almada.

Faria e Sousa, commentando osLusiadas, em 1639, tambem se refere a umpapel antiguo, em quetoscamentese historiava o episodio dosDoze.

Ora, o velho chronista francez João Froissart, que falleceu em 1410, falla de uma ordem de cavallaria, a ordem daDama Branca, que foi organisada para defeza das damas ultrajadas,plusieurs dames et damoiselles, veufves et autres, estoyent oppressées d'aucuns puissants hommes[75], e publíca o texto das cartas de armas{140}pelas quaestrezecavalleiros francezes, messire Charles d'Albret, messire Bouciquaut, marechal de França, Bouciquaut, seu irmão, Francisco de Aubrecicourt, João de Lignères, Chambrillac, Castelbayac, Gaucourt, Chasteaumorant, Betas, Bonnebaut, Colleville e Torsay, se comprometteram a defender as damas no anno da graça de 1399.

Em face do texto de Froissart, a prioridade seria dos portuguezes, porque a sua ida a Inglaterra é collocada por uns no anno de 1390, e por outros no de 1396. O duque de Lancaster, que para este feito cavalleiresco teria pedido o auxilio de D. JoãoI, falleceu em 1399.

Mas nós abstemo-nos de reivindicar a prioridade dos portuguezes e, portanto, a filiação portugueza da lenda. Contentamo-nos com dizer apenas que esta lenda se tinha generalisado na Europa, querendo cada paiz aproprial-a a cavalleiros seus.{141}

O catalogo completo dosDozeportuguezes appareceu pela primeira vez no opusculo de Ignacio Rodrigues Védouro,Desafio dos Doze de Inglaterra, publicado em 1732[76].

Ora, segundo a tradição recolhida por Védouro, esses cavalleiros seriam: Alvaro de Almada, oJustador; Alvaro Gonçalves Coutinho, oMagriço; Alvaro Mendes Cerveira; Alvaro Vaz de Almada, primeiro conde de Avranches; João Pereira Agostinho, Lopo Fernandes Pacheco, Luiz Gonçalves Malafaia, Martim Lopes de Azevedo, Pedro Homem, Ruy Gomes da Silva, Ruy Mendes Cerveira e Soeiro da Costa. Como supranumerarios, João Fernandes Pacheco e Vasco Annes Côrte Real.

Este catalogo tem para nós muito pouco{142}valor. Os nossos antigos chronistas não se preoccupavam com a chronologia. Assim é, por exemplo, que Luiz Goçalves Malafaia e Soeiro da Costa são incompativeis, chronologicamente, com a época dosDoze de Inglaterra[77]. Além d'isto, a vaidade das familias mais illustres de Portugal não deixaria de collaborar no catalogo, fazendo supprimir uns nomes para os substituir pelos de representantes seus.

Quanto ao primeiro cavalleiro do catalogo de Védouro, Alvaro de Almada, oJustador, não deixa de inspirar certa desconfiança a coincidencia de existirem na mesma época dois homens do mesmo nome e do mesmo vulto cavalheiresco.

Não será acaso Alvaro de Almada, oJustador, um desdobramento da individualidade de Alvaro de Almada, o conde de{143}Avranches, por errada repetição de algum códice, nobiliario principalmente?

Talvez por descobrir este equivoco seria que José da Fonseca, na edição dosLusiadas, feita em Paris em 1846, substituiu Alvaro de Almada, o designadoJustador, por João Fernandes Pacheco, que no catalogo de Védouro figura como primeiro supranumerario.

A ter-se como certa a ida dosDozecavalleiros portuguezes a Inglaterra, o que não póde ter-se como certo, parece-me, é que Alvaro Vaz de Almada fosse um d'esses cavalleiros.

Elle, que foi armado cavalleiro em Ceuta em 1415, e que pela primeira vez estivera na Inglaterra em Janeiro d'esse anno, quando alli fôra levantar as trezentas e cincoenta lanças, não poderia tomar parte n'um torneio, que se teria realisado no fim do seculo anterior.

A sua inclusão na lenda dosDozeexplica-se,{144}decerto, por ter sido um dos mais famosos cavalleiros portuguezes do seu tempo.

Sobretudo, as suas viagens e a sua morte em Alfarrobeira, que tanta impressão causou pelas circumstancias cavalheirescas que a revestiram, despertariam, na imaginação popular, o sentimento do maravilhoso. D'aqui talvez o associarem-n'o á lenda.

Mas Alvaro Vaz de Almada não precisa d'essa gloria, aliás duvidosa, porque sobeja gloria lhe adveio dos seus brilhantes feitos e singulares aventuras.

NaChronicade Monstrelet falla-se de um combate que, no anno de 1414, houve em França entre tres cavalleiros portuguezes e tres gascões: sendo o pretexto o amor das damas, comquanto o verdadeiro mobil fosse o odio que existia entre os francezes e os inglezes, de que os portuguezes eram então alliados.{145}

Os portuguezes foram D. Alvares, D. João e D. Pedro Gonçalves[78]; e os gascões François de Grignols, Archambaud de la Roque e Maurignon.

O combate ter-se-ia realisado em Saint-Ouen, na presença do rei: Os portuguezes portaram-se com bravura, mas foram vencidos. Pudera! ou a versão não fosse franceza...

Desculpe, meu caro snr. Lugan. O orgulho das nações chega a ser uma cousa respeitavel.

Para fazer justiça ao valor dos seis campeões, foram passeiados, todos, pelas ruas de Paris, em triumpho, ao som de trombetas e acclamações enthusiasticas.

Ora estes tres nomes, mudado Alvares para Alvaro, correspondem justamente aos{146}dos tres cavalleiros da familia Almada: o pai e os dous filhos.

E o appellido de Gonçalves poderá talvez explicar-se por confusão com o doMagriço, que, como sabemos, se chamava Alvaro Gonçalves (Coutinho).

Vimos como Alvaro Vaz de Almada fôra com seu pai a Inglaterra levantar armas para a guerra de Ceuta. Naturalmente tambem iria Pedro de Almada. O pai estava na côrte de HenriqueVem setembro de 1414, como consta doQuadro diplomatico, e Alvaro ainda alli estava em Janeiro de 1415.

A commissão requeria brevidade, porque D. JoãoIqueria partir para Ceuta, e não me parece provavel que a familia Almada se demorasse então em França a combater gascões.

Mas é possivel.

O que é provavel é que Alvaro Vaz de Almada, e seu pai, e seu irmão, na Inglaterra,{147}na França ou mesmo na Allemanha, onde Alvaro Vaz se encontraria mais tarde com o infante D. Pedro, praticassem, collectiva ou individualmente, algum feito galante em honra das damas, tomassem parte em qualquer dos torneios cavalheirescos, que eram n'aquella época frequentes.

Após o combate entre os tres portuguezes e os tres gascões, houve um duello entre outro portuguez e um cavalleiro bretão, de appellido La Haye, na presença de CarlosVI.

«Foram, diz Vulson de la Colombière, por ordem do rei igualmente honrados, comquanto se diga que La Haye obteve vantagem».

Reiffenberg dá noticia de que D. JoãoIconvidára muitos cavalleiros francezes para um torneio em Lisboa[79].{148}

Era este o requinte da galanteria militar da época. Portanto Alvaro Vaz ou qualquer dos outros cavalleiros da sua familia bem poderiam ter praticado semelhantes proezas no estrangeiro, de 1414 a 1415, ou depois da tomada de Ceuta, quando se viram obrigados a emigrar.

Infelizmente, não posso precisar quaes fossem esses feitos cavalheirescos praticados por elle ou pelos seus.

Camões, na sequencia do episodio dosDoze, refere-se ao duello que oMagriçoteve com um francez, e ao desafio que um outro dos cavalleiros portuguezes tivera na Allemanha.

O cavalleiro francez morto, no campo, peloMagriçofoi, segundo a tradição, mr. De Lansay.

O duello do outro portuguez com o allemão:{149}

Outro tambem dos doze em AllemanhaSe lança, e teve um fero desafioC'um germano enganoso, que com manhaNão devida, o quiz pôr no extremo fio;

bem podia ser vaga recordação de alguma façanha de Alvaro Vaz quando combateu pelo imperador Sigismundo, embora essa façanha nenhuma relação tivesse com a lenda dosDoze. Mas, no poema, quando Velloso está n'este lance da narrativa, o mestre de bordo toca o apito, a manobra começa, as conversações na tolda interrompem-se.

Camões conta que Magriço não recolhera logo depois do torneio:

Mas dizem que comtudo o grão MagriçoDesejoso de vêr as cousas grandes,Lá se deixou ficar, onde um serviçoNotavel á Condessa fez de Frandes.

E Mariz, nosDialogos, diz que tambem ficaram no estrangeiro, além de Magriço,{150}mais dous, «fazendo taes obras em armas, que um d'elles alcançou de el-rei de França o condado de Abranches em França, pelas obras que em seu serviço fizera», e que este veio depois a morrer em Alfarrobeira.

Ora não foi o rei de França, mas o de Inglaterra, como já está dito, que deu o condado de Avranches a Alvaro Vaz de Almada. E, dizendo a lenda que o torneio dosDozese realisou em vida do duque de Lancaster, não podia Alvaro Vaz tomar parte n'elle, por não ser ainda nascido ou por estar ainda na primeira infancia.

Em conclusão, meu caro snr. Lugan:

Na formação das lendas, a imaginação popular não olha a anachronismos. Alvaro Vaz foi um cavalleiro famoso por seus feitos d'armas, pelo seu grande valor; combateu ao serviço de Inglaterra e em Inglaterra foi mais tarde agraciado: a{151}lenda cavalheiresca dosDozeenvolveu-o portanto nos seus magicos véos, para nos servirmos de uma expressão de Pinheiro Chagas, sem attender á chronologia. Tambem em torno do infante D. Pedro se fórma a lenda dassete partidas, originada nas suas viagens. A imaginação popular não podia deixar de envolver no maravilhoso das tradições nacionaes estes Castor e Pollux do seculoXV, tão unidos moralmente, tão consubstanciados, na vida e na morte, por um estreito laço de relação historica.

**      *

Seria longo trabalho enumerar as menções e referencias que de Alvaro Vaz de Almada fazem tanto os escriptores portuguezes,{152}como os estrangeiros que se têm occupado em estudar a historia do nosso paiz.

D'estes, alguns, Ferdinand Denis á frente, lamentam que tão pouco se saiba da vida do conde de Avranches. Um d'elles, que é dos que melhor conhecem a litteratura portugueza, mr. Francisque Michel, chega a escrever: «Nous ne savons rien de sa vie».

Quanto aos escriptores nacionaes, não quero, comtudo, deixar de citar Gomes Eanes de Azurara, porque escrevia em circumstancias verdadeiramente embaraçosas para elle. Azurara fôra encarregado por D. AffonsoVde escrever aChronica do descobrimento e conquista de Guiné. Por D. AffonsoV, note-se, por D. AffonsoV, que moveu o seu exercito contra o infante D. Pedro, e que tão severo se mostrou com todos os que combateram em Alfarrobeira ao lado do infante.{153}

Azurara acabou de escrever a suaChronicaem fevereiro de 1453, isto é, menos de quatro annos depois do deploravel acontecimento, quando ainda não estavam de todo apagadas as paixões politicas que lhe deram origem.

Pois, não obstante estas difficeis circumstancias em que se via collocado, Azurara, com louvavel hombridade, faz esta referencia a D. Alvaro Vaz de Almada:

«... batalha da Alfarrobeira, naqual o dicto iffante foe morto e o conde Dabranxes que era com elle, e toda sua hoste desbaratada, onde, se o meu entender pera esto abasta, justamente posso dizer, que lealdades dos homees de todollos segres (seculos) forom nada em comparaçom da sua. E postoque o serviço nom seja tamanho, quanto ao trabalho, segundo os que já disse, certamente as circonstancias lhe dam splandor e grandeza sobre todollos{154}outros, cuja perfeita declaraçom remeto aa estorea geeral dos feitos do regno»[80].

D. AffonsoVleu isto, que foi escripto na sua propria casa—acabousse esta obra na livrarya que este Rey dom Affonso fez em Lixboa—e sentiu, porventura, passar ainda por diante dos olhos o vulto d'esse cavalleiro fascinante, que elle quiz por força vêr quando D. Alvaro ia caminho da Ameeira, e que tamanha influencia exercia no seu juvenil espirito, que os inimigos do infante D. Pedro, quando o conde de Avranches regressou de Ceuta pela segunda vez, julgaram conveniente a seus fins levar o rei para Cintra, de modo a evitar nova entrevista.

AffonsoVleu isto, e certamente lhe pesou na alma o remorso de ter cedido ás perfidas suggestões dos inimigos do infante.{155}

As palavras que Azurara havia escripto, ficaram. O rei não as cancellou. O espirito de AffonsoVfez justiça ao chronista e ao conde, conservando-as.

**      *

Tal era o homem, o heroe.

Elle bastaria por si só a caracterisar uma época, o occaso da idade-média em Portugal, se, a dous passos de distancia, os descobrimentos maritimos, promovidos pelo infante D. Henrique, não tivessem vindo relegar para o segundo plano do vasto quadro da civilisação universal todos os outros factos, e todos os vultos humanos que não collaboraram directamente n'essa colossal epopêa das aventuras maritimas.

Alvaro Vaz de Almada é até certo ponto prejudicado pelo esplendor de uma{156}época gloriosissima, que marca o inicio dos tempos modernos. Eramos então tão felizes que sobejavam heroes, heroes de uma raça unica, inexcedivel, para todos os generos de celebridade. Mas a grandeza do vulto do conde de Avranches, podendo medir-se pela bitola dos maiores e melhores cavalleiros do cyclo medieval, tanto se abalisou nas tradições da Europa cavalheiresca, que não ficou de todo offuscada pelo esplendor da sua propria época.

Quando quizermos recordar o periodo aureo em que o espirito aventuroso dos portuguezes investia com as lendas tenebrosas do oceano, para rasgal-as com a prôa das caravellas descobridoras, e affrontava os perigos das explorações terrestres por sertões inhospitos, teremos que figurar na nossa imaginação o vulto do infante D. Henrique, de pé sobre o promontorio de Sagres, dominando o mar, que se lhe quebrava aos pés humilde como um{157}leão vencido, e que, no seu eterno refluxo, ia levar a longinquas plagas o prestigio do nome portuguez.

Mas quando quizermos figurar a agonia extrema da cavallaria portugueza, quando quizermos procurar a chave de ouro que fechou, n'esta região do occidente, o periodo do valor militar, das aventuras galantes, da coragem no soffrimento, da dedicação na amizade, da abnegação na existencia e da heroicidade na morte, teremos que figurar o conde de Avranches, brandindo primeiro a lança, floreando depois a espada, no campo de Alfarrobeira, onde o infante D. Pedro era já cadaver, até que, extenuado, sentindo exhalar-se o derradeiro alento, cae sobre a terra da patria, offerecendo aos golpes dos adversarios o corpo que já podia menos do que a alma, e exclamando ao despedil-a:Ora vingar, villanagem!

Se o infante D. Henrique é o traço de{158}união que para todo o sempre, emquanto se não perder a memoria das grandezas passadas com a existencia do ultimo homem, nos liga ao Oriente, cujas portas abrimos, cujos mares devassamos, cujos emporios vencemos, D. Alvaro Vaz de Almada é o vinculo eterno que nos prende ao Occidente cavalheiresco, ás tradições aventurosas do brio militar e do militarismo galante que foram, na Europa da idade-média, a suprema expressão da nobreza da alma humana.

Um, o infante, é a aurora do novo dia que começa a raiar para a humanidade do seculoXV, aurora resplendente de fulgurações prismaticas, de arreboes dourados, de rosicler cambiante.

O outro, o conde, é o occaso da idade-média, o sol-pôr de um seculo de feitos heroicos, de primores e gentilezas de cavalleiros intemeratos,—occaso opulento de tintas e de sombras grandiosas, em que a{159}luz briga ainda com as trevas, affirmando na lucta o valor que certamente havia aprendido com os cavalleiros d'esse tempo.

Estes dous homens, o infante e o conde, são como uma dupla personificação da sua época, do momento de transição solemne em que a poesia das espadas, a epopêa das cavallarias errantes, que preparavam a alma humana para todas as concepções arrojadas e para todos os feitos destemidos, vai ceder o passo á quilha das caravellas e das naus, que iam em demanda do Oriente para trazel-o ás portas de Lisboa, estreitando as relações dos povos, desenvolvendo a navegação e o commercio, fomentando a industria pela abundancia de capitaes e pela exploração de novos mercados, pela nobilitação do trabalho, que não tardaria a deixar de ser um mister de escravos para converter-se n'uma applicação honrosa da actividade humana.

O infante e o programma, ainda então{160}mal desenrolado, da transformação economica da Europa culta.

O conde é o livro, prestes a fechar-se, do espirito militar da idade-média, o ultimo clarão da cavallaria moribunda.

São uma época, estes dous homens. Completam-se um pelo outro.

Ora, no momento em que a cidade do Porto vai prestar uma grande homenagem collectiva ao infante Descobridor, que n'essa boa terra nasceu, e fazer resuscitar por alguns dias o periodo mais brilhante da nossa historia nacional, pareceu-me justo, agora o repito, recordar o vulto do homem que, ao lado de D. Henrique, synthetisa o seculoXV, a transição da idade-média para os tempos modernos, na historia de Portugal.

Tendo, meu caro snr. Lugan, de lhe enviar esta carta a tempo de poder ser publicada por occasião da festa centenaria do infante, fui obrigado a circumscrever-me{161}a estreitissimos limites, e a passar rapidamente por acontecimentos que mereciam longa attenção.

Não é um trabalho litterario perfeito o que lhe mando, porque o fazel-o excederia os meus recursos e não caberia nos poucos dias de que pude dispôr. É, pois, uma simples carta, escripta ao correr da penna, sem preoccupações academicas, mas inspirada unicamente no desejo de corresponder á louvavel resolução do meu bom amigo e de, por minha parte, render homenagem ás glorias da minha patria.

Lisboa, 2 de fevereiro de 1894.


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