IIICIUME

«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus antepassados.»(V. d'Almeida-Garrett--Helena.)

«É que ha uma fidalguia de alma que nem sempre falta ao que chegou por si á grandeza, assim como nem sempre vem aos que a herdaram de seus antepassados.»

(V. d'Almeida-Garrett--Helena.)

A chamada nobreza de sangue tem origem respeitavel.

Os homens que defenderam e ajudaram a republica, consagrando-lhe todas as suas forças e haveres, quando o perigo era commum de todos,--foram nobres. Os homens que souberam fazer valer os direitos da nação, sendo leaes guardadores das immunidades patrias, e em longinquas e perigosas paragens, exposeram as suas vidas, em quanto muitos outros gosavam as delicias caseiras,--foram nobres. Os homens que, dados a serios estudos desde a mais tenra infancia, conseguiram nome e gloria para as naçõesa que pertenciam,--foram nobres. Foram, e deviam sêl-o. Não lhes ficou barato o rôlo de papel--titulo de nobreza, porque o da fidalguia estava nos seus feitos--de que os descendentes, ainda hoje, e sempre, e com soberbas razões, se devem orgulhar.

Por milagre de esforço, de perseverança, de audacia mesmo, se deve aos nobres de Portugal, o termos algum dia sido o povo mais forte e mais respeitado da Europa. Um Affonso de Albuquerque, o fundador do imperio portuguez no Oriente, aquelle que os adversarios chamaramleão dos mares, fôra bastante, por seus heroismos, a justificar entre nós o justissimo orgulho da nobreza de sangue; que, ainda assim, tem mais remotas e egualmente verdadeiras glorias a que soccorrer-se.

Do natural desvanecimento dos que se gloriam de seus nobres antepassados, só a mesquinha inveja póde desdenhar. E muitos, e tantos, e de tamanho valor foram os nobres portuguezes, que não cabe n'este logar enumeral-os. E nem por isso elles ficam ignorados, que, a par dos heroes da espada, viveram os nobres d'outros feitos, os Camões, os Barros, os Coutos, os gigantes eternisadores das memoraveis façanhas de seus coevos, meritorios como elles, e como elles dedicados á grandeza da patria.

Sabemos que á civilisação repugna aconquista, embora tenha de conformar-se com osfactos consummados; mas quem ha que duvide da boa fé com que pelejaram os nossos velhos portuguezes? Religião e patria, eram os seus estimulos; e á prodigiosa força de tão poderosas ideias, se devem attribuir as suas heroicidades.

Mas sernobre, nem sempre quer dizer serfidalgo illustre.A nobreza póde ser herdada, e a fidalguia, as acções briosas, não. Para ser nobre bastam os pergaminhos; para ser fidalgo illustre, não se dispensam as virtudes proprias, os actos insignes, os meritos individuaes, e até, e quasi sempre, os auxilios da caprichosa natureza.

Ha mais nobres do que fidalgos illustres, e ha illustres fidalgos, que não são nobres. É bom ser nobre; melhor é ser illustre fidalgo; e optimo, por sem duvida, é ser illustre e nobre fidalgo.

Arthur Soares, era illustre. Gentil de corpo e sem mácula na alma, reunia em si todas as qualidades physicas e moraes, que fazem o homem distincto. O encargo de vigiar pela vida intima da que lhe fôra companheira na infancia, tomára-o elle de boa vontade, porque entendeu que o fim de Sebastião da Mesquita era proteger a mulher que julgára infelicitar com o forçado casamento. Tardára-lhe porém, a protecção, e levado pelos seus brios a tomar iniciativa propria, teve de inventar para Anna um nascimento e um dote.

Ha mentiras salvadoras, que elevam tanto os que as sabem dizer, como os inventos tórpes malsinam os caracteres dos velhacos, que os engendram. Encobrir verdades que pódem fazer victimas, dar um sabor mysterioso a qualquer facto, determinar mesmo quaesquer circumstancias em sentido diverso do occorrido, para valer a infelizes sem prejuizo de terceiros,--são culpas venturosas de que só podem accusar-se as almas boas, e os espiritos elevados.

Uma vez entrado no caminho de protector, resolveu Arthur Soares sahir d'elle pelo da dignidade, que não conhece obstaculos, porque os sacrificios alargam-lhe todas as verêdas. Estava obrigado voluntariamente,e só pela sua palavra, é certo, mas por isso mesmo com obrigação completa, a entregar um dote á mulher de Leopoldo. A evidencia de um nascimento fidalgo, que tambem asseverára, menos cuidado lhe dava, porque ouvira a Sebastião da Mesquita affirmar o que elle repetira, e tinha toda a confiança no desempenho, mais ou menos tardio, da palavra do honrado velho. Além de que, o esclarecimento d'esta circumstancia, podia demorar-se, visto já ter lançado á imaginação de Leopoldo a existencia do mysterio: o essencial, o urgente, era o dote.

Escreveu Arthur Soares outra carta a Sebastião da Mesquita, perguntando-lhe se recebera a primeira. Respondeu-lhe affirmativamente, e que havia tomado as suas importantes revelações na devida consideração. Esta resposta não aquietou o animo generoso do voluntario protector. Queria obras, e não palavras, que elle achou frias em caso de tanto brio. Resolveu proceder isoladamente, e com segredo.

Obtida uma licença de alguns dias, dirigiu-se Arthur Soares á residencia de seu thio. Recebido pelo padre com a natural expansão de um affecto puro e vivo, n'elle depositou o segredo da promessa que o impressionava, e queria cumprir, pedindo-lhe conselho e favor. No fim da confidencia, ficou o padre mais ébrio de prazer do que se fôra elle o favorecido com o generoso compromisso de Arthur. Conduziu o mancebo ao pé de um velho movel, e disse-lhe:

--Estão aqui as nossas economias: são uns vinte e tantos mil cruzados. É dinheiro de muitos annos guardado por tua mãe sem prejuiso dos pobres. Trabalhava noite e dia, a pobre martyr... Quando eu brandamente lhe observava que podia adoecer comtão aturado labutar, respondia-me que Deus não havia de condemnar a ambição de mãe em converter as suas vigilias e o seu suor em dote para seu filho... Chegou á força de perseverança a poder commerciar em cereaes, principiando pelo mesquinho producto da roca... Como era boa a tua mãe, Arthur!... Já vês que não tenho parte n'essa accumulação de moedas, que te pertencem... Mas essa quantia, bastante notavel para nós, é ainda pequena para dotar a mulher de um rico nobre... Vamos já a Penafiel... Farei perante um tabellião o necessario documento, para que tu possas vender a raiz das propriedades, que foram de meus paes... A raiz só, porque o uso-fructo deve continuar a pertencer a uma infeliz familia, que lá está por disposição tua... De certo te não recordas já d'aquella tuadoação... Eras muito criança ainda, mas com a indole que... que tu tens, meu Arthur!...

Velho e moço, sentiram a commoção de duas almas iguaes, quando são abaladas por acções celestes, e confundiram n'um longo abraço os soluços e as lagrimas. O respeitavel e sagrado nome de--pae--foi proferido por Arthur Soares, saltando-lhe do coração á bôcca. O padre Alvaro, ouvindo chamar-se por aquelle nome, fez-se d'uma pallidez mortal, e balbuciou:

--Obrigado meu filho, por teres pela primeira vez esse nome para mim!... Sou eu só a ouvil-o, e Deus, que sabe os meus remorsos, de certo me consente este innocente prazer... Obrigado!... Vejo, sinto que te não repugna o sacrilego... És bom, Arthur, meu filho adorado!... Crê que tenho soffrido muito!... E o maior, o mais terrivel do meu padecer, era o não poder chamar-te--filho--nem ouvirde tua bôcca o dôce nome de--pae... Diz-me, meu querido Arthur, diz que não desdenhas, que não amaldiçôas o teu nascimento... Perdoa-me o haver-te privado da paternidade legal...

--Perdoar-lhe?!... O quê, meu sempre amado pae?!... O ter-me dado esta alma, que é sua, e que me faz grande aos meus proprios olhos?!... O ter coberto a minha infancia e mocidade dos maiores e dos mais carinhosos extremos?!... O haver-me dado uma educação de fazer inveja aos mais poderosos da terra?!... O tornar amênos e felizes os dias da vida de minha santa mãe?!... O ter vertido lagrimas de sangue pela chamada culpa que me deu vida e felicidade?!... É isto tudo que eu tenho a perdoar-lhe, não é assim?... Oh! mas não sabe que o meu maior orgulho é o de ser seu filho?!... Que pae mais heroe, mais santo, mais martyr me podia dar o céu?!...

--Basta, Arthur, que me pódes matar de alegria!.. Bemdicto sejas, meu Deus e meu Salvador! Bemdicto e louvado pela tua Misericordia com este indigno padre!...

Deixemos o velho Alvaro nos braços de seu filho Arthur, nos momentos mais felizes da sua attribulada existencia, e vamos presenciar o que se passa no palacio de Sebastião da Mesquita.

Estamos no salão onde tiveram logar as primeiras scenas d'este verdadeiro conto. Estão lá outros moveis de mais recente data, mas ainda se alli sente o respeito devido ao que é antigo e bello, porque foram salvas do incendio as reliquias de familia: São ainda os mesmos os quadros, os retratos, e os brasões. Sebastião da Mesquita está fallando com muita solemnidade a João Vidal:

--É tempo de te fazer mui sérias e importantes revelações, João, que devem mudar completamente a tua posição social. Dir-te-hei tudo em poucas palavras: sou avêsso ás phrases de estylo em materias graves. Recebi-te em criança das mãos de uma santa abbadessa, que te salvou a vida criando-te dentro do seu convento. Conservei-te sempre ao meu lado, e dei-te, quando homem, a qualidade de escudeiro d'esta casa, tendo-te o carinho de pae, porque era impossivel, e prejudicial para ti, a revelação do teu nascimento. És filho bastardo de um nobre desnaturado, que sacrificou os seus brios ao dote da mulher, nobre tambem de pergaminhos, e villã de sentimentos. Agora que todo o perigo é passado, aqui tens os papeis, que provam o teu nascimento, e com elles recebe igualmente este dinheiro, e estes titulos, que tudo te foi legado pela religiosa tua salvadora, e tua thia-avó paterna, e depositado em minhas mãos para te ser entregue quando já não corresses o risco de ser perseguido, e talvez assassinado, pelos assalariados da mulher de teu pae. Ficas sabendo que és nobre, e na posse de dinheiro, e valores que orçam por cincoenta mil crusados, com a accumulação da parte rendivel. Fui máu administrador, porque deixei quieto e improductivo o dinheiro, que hoje podia estar treplicado; mas bem sabes que abomino todas as especulações, e que não sei commerciar. Antes que te surprehenda, com a leitura dos documentos que te entrego, a noticia de que és irmão de Leopoldo...

--Eu, irmão de semelhante malvado!... Snr. Sebastião da Mesquita, meu amo e unico pae que me apraz reconhecer.... Peço a v. exc.amuito de mercê, que me continue a graça de o servir... Queroconsiderar-me sem parentes conhecidos... Quero ser o filho adoptivo de v. exc.a, e o seu mais humilde criado...

--É impossivel. Pódes, sim, continuar a viver na minha companhia, se o quizeres; mas na posse do que te pertence, e na qualidade de amigo, e não de criado da casa. Escusado é instares por outra solução, que esta é-me dictada pela honra. A ultima ordem que te dou é a de extinguires em ti o odio que tens a Leopoldo...

--Mas, senhor...

--Esqueceste, João, da inflexibilidade do meu caracter?... Terminou a nossa audiencia, que outros deveres não menos graves me chamam a attenção. Leva o que é teu, e faz-me o favor de dizer a minha mulher e a minha filha, que venham a esta sala... Manda tambem chamar Rosa.

--V. exc.abem sabe que a menina Rosa ha tempo que não vem ao palacio, e que parece soffrer bastante...

--Sei. Digam-lhe que sou eu que a chamo, e quero-a aqui.

Sebastião da Mesquita, logo que João Vidal se retirou, ficou entregue a uma desusada agitação nervosa, que n'elle era infallivel symptoma da gravidade do assumpto que o preoccupava. Durou-lhe a inquietação só até ao momento em que sentiu aproximar-se a familia que chamara. Logo que deram entrada na sala D. Isabel, D. Maria da Gloria, e Rosa, serenou o velho fidalgo, que as convidou a escutarem-n'o.

--Dirijo-me a si em primeiro logar, Rosa, porque desejava saber os motivos da sua frieza com esta familia, que a estima devéras, e os que são causa deum soffrimento que a sua indiscreta face revela... Tem a queixar-se de alguem d'esta casa?

--Que pergunta, senhor!... Pois a planta parasita e inutil póde por ventura queixar-se dos cultivadores, que a querem tornar mimosa á força de cuidados e attenções?!...

--Se a sua elegante resposta não encobre nenhum resentimento, porque é então que não frequenta esta casa como costumava?

--A minha doença...

--E como se chama a sua doença?...

--Ainda não consultei a sciencia, e...

--Receia que a consulta seja inutil... Guarde, pois, os seus segredos, Rosa, que não quer depositar no coração de um velho, talvez por considerar a velhice incapaz de os comprehender, e preste toda a sua attenção ao que vou dizer a minha mulher e a minha filha... Minha prima e estimada esposa, e minha presada Maria: desde muito que sabeis o interesse e affeição que voto a esta donzella, e áquella infeliz que obriguei a casar com um homem que detesto... Consenti-me que ainda vos occulte os motivos de honra, que a tanto me obrigam, e que um dia vos serão patentes... É urgente, e indispensavel, que a mulher dorico fidalgoe snr. Leopoldo tenha um dote capaz de suffocar na alma villã do marido o desprêso pela que foi obrigado a receber por sua legitima esposa... Para lhe dar esse dote necessito empenhar muito o teu patrimonio Maria, e a casa de v. exc.a, minha prima...

--Para que me dá o primo parte das suas nobres acções?! Mereço-lhe que me suspeite capaz de ir de encontro a uma sua resolução, ainda que por ella fosselevada á extrema miséria?... É injusto, senhor...

--Deixe-me beijar-lhe a mão, minha santa prima!... Nunca duvidei dos nobilissimos sentimentos de V. Exc.a; mas cumpria-me consultal-a, e pedir-lhe auctorisação para o que tenho a fazer, e bem sabe que não sei faltar ao que devo a mim mesmo...

--E eu, meu presado e respeitavel pae e senhor, tenho só a dizer a V. Exc.a, que me é inutil um dote, porque estou resolvida a morrer solteira, e...

--Criança!... Não é preciso tamanho sacrificio... Vejo que entregas nas minhas mãos o teu futuro, e pódes estar certa de que ninguem o velaria melhor do que eu o farei... Temos de fazer uma séria reducção nas despezas, porque nos vae diminuir muito o rendimento. Possuia dinheiro e valores que entregaram á minha honra, e que acabo de restituir. Tenho, portanto, de vender bastantes propriedades... É custoso vêr passar a mãos alheias o que era de nossos avós; mas o dever primeiro que tudo... O que me diria, Rosa, se estivesse no logar de minha filha Maria?

--Desejaria saber dizer a V. Exc.aas mesmas palavras que o coração dictou á minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria, porque são perfeitamente iguaes os meus sentimentos...

--Agradeço a todas...

Entrou precipitadamente na sala João Vidal, e Sebastião da Mesquita, um pouco enfadado, perguntou-lhe:

--O que quer, João?... Parece que vem como portador de novas importantes, a dar valor ao modo porque se aproxima de nós, ao que traz nas mãos, e ao demudado da sua côr?...

--É que, senhor, por mais indifferente que o dinheiro nos pareça ser, sempre sentimos algum estremecimento ao achar inesperadamente uma quantia importante... Os trabalhadores que andavam no pomar a compôr o muro, encontraram esta panella de ferro com o dinheiro que ella contém... Apressei-me a vir participar o acontecimento a V. Exc.a, e peço que me desculpe o interrompel-o?...

--Deixe-me vêr a qualidade da moeda... Tenho visto, snr. João de Lencastre... Conheço este dinheiro, que passou do cofre em que lh'o dei, para a primeira panella que o João encontrou na cosinha... Foi pouco engenhoso na sua cavalheira mentira... Não sou facil de illudir; mas, em compensação, sou facilimo em perdoar acções como aquella que desejou praticar... Lembro-lhe, porém, João, quesó eutenho direito a regular as minhas generosidades, e que não posso acceitar favores d'essa ordem... nem mesmo do João... Minha esposa e minhas filhas: dou-lhes parte que João Vidal, o escudeiro, passou hoje á posse do seu verdadeiro nome, e da fortuna que lhe veiu por elle. É bastardo da casa dos Lencastres, irmão de Leopoldo, e o unico que ha de sustentar em todo o brilho a gloria de seus antepassados. É, pois, na qualidade de nosso parente, e intimo amigo, que occupa desde hoje o logar que n'esta casa está sempre vago para os homens de bem.

--Agradeço de toda a alma a V. Exc.aa immensa honra que me concede, e que só condicionalmente acceitarei... Perdôe-me a arrogancia da phrase... foi dictada por V. Exc.aque me ensinou os deveres de cavalheiro...

--Venham as condições!

--É só uma: a de me consentir em ter parte na generosidade que vae praticar... Ouvi tudo... Quiz encobrir-lhe o meu desejo, e não pude, por que V. Exc.adescobriu a mentira, que eu inventei para bom fim... Acabou o constrangimento, senhor, e não tenho já receio de affirmar ao snr. Sebastião da Mesquita, que se me não permittir o que rogo, fugirei para muito longe, para onde me não possa chegar...

--E que direito--disse Sebastião da Mesquita, interrompendo-o--é o seu para fazer um beneficio á senhora D. Anna?...

--É a mulher de meu irmão, senhor!...

João Vidal, pronunciou estas palavras com dignidade e consciencia tal, que as tres senhoras immediatamente estenderam as mãos ao ex-escudeiro.

Sebastião da Mesquita levantou-se com toda a soberania, e disse:

--Está terminada a conferencia... Ácerca do que pede, eu darei parte aoprimoJoão do que resolver.

«................................Invejo-te, Camões, o nome honroso,Da Mente creadora o sacro lume,Que exprime as furias de Liêo raivoso,Os ais de Ignez, de Venus o queixume:As pragas do Gigante procelloso,O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»(Manoel Maria de Barbosa du Bocage.)

«................................Invejo-te, Camões, o nome honroso,Da Mente creadora o sacro lume,Que exprime as furias de Liêo raivoso,

Os ais de Ignez, de Venus o queixume:As pragas do Gigante procelloso,O Céu de Amor, o Inferno do Ciume.»

(Manoel Maria de Barbosa du Bocage.)

O ciume é, por sem duvida, a mais feroz e violenta das paixões, porque participa do amor e do odio, os mais agudos e incuraveis padecimentos do coração humano.

Os modos de manifestar tão perigosa como prejudicial paixão, variam tanto quantos são os temperamentos, as indoles, e as educações das pessoas sujeitas ao ciume.

O homem rude, que é brutal em suas expansões, não magôa mais, com seus castigos materiaes, a mulher que lhe faz sentir ciume, do que o burguez indinheirado, que ensina a consorte a decorar uma infinita taboada de favores, que lhe minguaram a burra.

O homem educado, da boa sociedade e com escola das conveniencias sociaes, tambem não é o que menos faz sentir á pobre filha de Eva o castigo de sua egoista paixão. Com a mascara da mais requintada polidez, fere com gestos, com sorrisos gelados, com subtilesas, com allusões, com toda a sorte de estudadas torturas, que nem consentem á victima a desfórra de uma resposta.

Fazemos distincção do ciume, dividindo-o em espiritual e material. O primeiro, o que procede da alma, não é selvagem nas suas consequencias, não escandalisa, e, sendo injusto, quasi sempre é debelado pela resignação e carinho da mulher, succedendo, algumas vezes, quando verdadeiro, conseguir a emenda e o arrependimento da culpada. O segundo, o que só tem origem nos sentidos corporaes, é arrebatado, não raciocina nem perdôa, sendo, por isso, sempre ruinoso e fatal.

Leopoldo luctava com o ciume espiritual pelo verdadeiro amor a D. Maria da Gloria, e com o ciume material pela esposa, que não podia amar.

Arthur Soares, por ser estimado pela fidalga donzella e conservar com D. Anna relações suspeitosas ao parecer do marido, tinha em Leopoldo um terrivel inimigo.

Depois d'aquelle dia, em que foi encontrar a esposa conversando a sós com Arthur, o fidalgo militar soffria um verdadeiro tormento intimo, de que D. Anna era participante, por esses infinitos actos de calculada severidade, e de frieza, que fazem do homem polido um carrasco civilisado, e da mulher innocente, e que os atura, uma completa martyr.

D. Anna, como não tivesse a mais pequena máculade que accusar-se, attribuia todos os maus tractos de seu marido, unicamente a ter elle sido forçado a recebel-a por esposa, sendo ella plebêa e pobre. A triste senhora procurava na leitura, quando as lagrimas a deixavam, lenitivo aos seus pesares, e dava preferencia á Biblia, esse formoso rei dos livros, e n'ella ás divinas parabulas, essas inimitaveis phrases do Christo, que alliviam a alma, e derramam o mais suave dos perfumes sobre os sentidos de quem lê, e sabe comprehender e crêr.

Lia a contristada esposa o seu livro favorito na pagina que diz:

«E chegavam-se a Jesus os fariseus tentando-o, e dizendo: É por ventura licito a um homem repudiar a sua mulher, por qualquer causa? Elle, respondendo-lhes disse: O que vos ordenou Moysés? Elles lhe responderam: Moysés mandou dar o homem a sua mulher carta de desquite, e repudial-a. Respondeu-lhes Jesus: Porque Moysés, pela dureza de vossos corações, vos permittiu repudiar a vossas mulheres; mas ao principio não foi assim. Não tendes lido, que quem creou o homem desde o principio, creou macho e femea, e que deixarão pae e mãe, e ajuntar-se-hão, e serão dois n'uma só carne, não sendo já dois, mas uma só carne? Não separe, logo o homem, o que Deus ajuntou.»

Esta lei do Evangelho sobre a indissolubilidade do casamento, tornou pensativa a chorosa esposa, que pousou sobre os joelhos o sagrado livro, aberto na pagina que lêra, pendendo-lhe a cabeça para o seio. Era tal a preoccupação em que se achava, meditando, que não deu pela entrada do marido no seu quarto,Leopoldo, que espiava todas as acções de sua mulher, vendo-a tão enleiada, aproximou-se-lhe mansamente, e leu, por cima do hombro da esposa, as palavras que deixamos transcriptas, e que finalisavam a pagina em que se liam: ensaiou um dos seus mais ironicos sorrisos, deu á voz um tom de tão meliflua quanto refalsada ternura, e, juntando a acção ás palavras, disse:

--Virando esta pagina, minha cara esposa, talvez que encontre passagens de mais interesse... Não me enganei. Olhe, veja a continuação e conclusão das maximas, que tiveram o condão de a fazer ainda mais bella, levando-a a esse estado e posição elegante de heroina scismadora... «Eu, pois, vos declaro, que todo aquelle que repudiar a sua mulher,se não é por causa de adultério, e casar com outra, commette adulterio: e o que se casar com a que outro repudiou, commette adulterio:E se a mulher deixa o seu marido e casa com outro, ella é «adultera.»

De certo comprehende bem o sentido d'estas palavras, principalmente d'aquellas que eu, ao lêr-lhe, sublinhei?

--O primo, quasi me assustava, pelo não esperar agora aqui!... Se comprehendo o sentido do que me leu?!... Não sei o que quer que eu comprehenda?!...

--Em primeiro logar, minha senhora e cara esposa, tomo a liberdade de lhe dizer que não me consta que haja entre nós parentesco algum...

--Foi o meu esposo, e snr. Leopoldo, que determinou este tratamento entre nós...

--Aconselhei-o, minha senhora, para as salas sómente, onde osnobresteem obrigação de saber guardar todas asconveniencias: mas, aqui, escusa a minhaestimavel esposa de usar de taesconstrangimentos... Pelo que toca á comprehensão do que eu li, parece-me facilima, mórmente para o seu talento. Julgo que Jesus-Christo, com aquellas palavras, nos quiz dizer, que se não pécca repudiando a mulheradultera. Não lhe parece?...

--Quem melhor do que o meu esposo, que é letrado, póde entender o que lê?... Mas quer-me parecer que n'outro logar d'este sagrado livro, o bom Jesus perdoou á adultera, que ia ser apedrejada, tendo antes provocado dos queixosos o que se considerasse sem culpas que fosse o primeiro a lançar a pedra... Não nos dirá tambem esta humanitaria e sublime parabula, que se Jesus-Christo não tinha como peccado o desprezo da adultera, via, comtudo, que os homens, mais fortes, e absolutos legisladores para os crimes do meu sexo, nem sempre procedem com justiça?

--Imaginemos que é assim: apraz-me concordar com os seusengenhososcorollarios, minha senhora... Mas, como estamos emamigavelcontroversia, desejava ouvir a suaesclarecidaopinião sobre aigualdadedos deveres... Parece-lhe que oadulterioé omesmo crimeda parte da mulher como da parte do homem?...

--Não sei como responder-lhe, meu esposo e senhor... Nunca pensei detidamente na gravidade do crime de que fallamos; e, pesando agora a fealdade d'um tal delicto, julgo quasi impossivel que haja mulher voluntariamente adultera. Talvez que essas infelizes peccadoras sejam levadas a uma tal degradação pelo contínuo desprezo e ardua severidade dos maridos, pelos maus exemplos, e pelas aleivosas seducçõesdos homens, que as conduzem á quéda, para as enlamearem em seguida...

--Para quem não tempensadono assumpto, desenvolve-o admiravelmente!... Dou á minha cara esposasincerosemboras pelo bem que falla da materia... Devo comtudo observar-lhe, como em descardo daletradicecom que ha pouco quiz honrar-me, que osmaus exemplosdo homem nunca podem lançar no leito nupcial umpequenino ladrão... A minhaintelligenteesposa comprehende-me bem, não é assim?

--Se o comprehendo, senhor, devo tambemobservar-lheque osmaus exemplospodem igualmente introduzir o mesmorouboem alheios lares... Feliz a esposa que sabe resistir a todas as tentações, embora tenha de ganhar a palma do martyrio; mas bem mais feliz aquella que encontra no marido um guia, e natural protector, em vez d'um tyranno egoista.

--Dou lhe palmas, minhacaraesposa! Isso é que se chama saber defender o terreno pollegada a pollegada... Proclamo-a rainha das defensoras da reciprocidade do crime de adulterio entre os conjuges...

N'esta altura do dialogo, que promettia mais serio azedume, foram interrompidos pela voz de uma criada, que annunciou a chegada, e a introducção, de Arthur Soares, na sala das visitas. A esta noticia foram differentes as sensações manifestadas pelos esposos. Leopoldo franziu a testa, e D. Anna mostrou na face o natural contentamento com que recebia a visita do seu companheiro de infancia, do seu protector e irmão adoptivo...

--O seu rôsto, minhaboaesposa, formosissimo, mesmo quandov. exc.ase acha em perfeita tranquilidade de espirito, está agora explendido de brilhantismo,pelo contentamento que manifesta com a noticia que nos deu a criada... Muitofelizé esse snr. Arthur Soares!...

--Se a profunda estima de uma irmã, que não sabe ser ingrata, póde dar a felicidade, de certo que é feliz o meu companheiro de infancia, porque o sei presar como elle merece.

--Hei-de vêr se consigo haver d'elle, porum sério estudo, o segredo de tanto se fazerapreciardas bellas... Vamos prestes ao seu encontro, que estou já ancioso por começar as minhasexperiencias...

D. Anna continuava a não comprehender os remoques do marido. A boa fé, e a innocencia, são quasi sempre ingenuas.

Chegados á sala os dois esposos, foram cumprimentados por Arthur Soares, Leopoldo com polida frieza, e D. Anna com a expansão doamor sem desejo, que assim é definida a verdadeira amisade, ao que ella soube gentilmente corresponder, mau grado de seu marido, que principiava a manifestar, por contorsões nervosas, o inferno que lhe ralava o peito.

--Venho dar contas a v. exc.a, e a seu illustre marido, do uso que fiz da auctorisação que me concedeu. Apenas consegui apurar trinta mil crusados, que entrego em papeis de bom credito, equivalentes a dinheiro de contado, e mais commodos no transporte. Com letigios, sempre impertinentes, incommodos e despendiosos, podia augmentar a cobrança; mas usando, e talvez que abusando um pouco, da auctorisação e da reconhecida bondade de v. exc.a, passei quitação geral do seu dote pela quantia que recebi e apresento... Digne-se o snr. Leopoldo examinar e contar...

--Desculpe-me interrompel-o, snr. Arthur Soares. Eu não posso, nem quero, entrar no mysterio d'essedoteda minhaprimaecaraesposa. Creio possuir o necessario para vivermos com algum allivio, e nuncaespereireceber quantia alguma de tal proveniencia... Se minha mulherjulgar dignoo receber esse dinheiro, receba-o muito embora, que eu nunca procurarei saber qual seja a sua applicação.

--Não só a considero digna, mas até me parece obrigatoria a recepção. Diz-me o snr. Arthur Soares, que tenho umdote, que é meu, entrega-m'o, porque não hei-de recebel-o? Posso por ventura suspeitar que o meu companheiro de infancia, e bom irmão adoptivo, trouxesse a esta casa dinheiro meu de origem menos pura? Tambem não é de crer que haja quem se desaposse detrinta mil crusados, para fazer um beneficio gratuito. Além do que, se o meu esposo e senhor póde dispensar este dote; se eu mesma, por estar no gôso da munificencia de meu marido, não tenho immediata precisão d'elle, pódem de futuro existir outros interessados, os filhos, que não temos o direito de prejudicar. Acceito, e agradeço ao snr. Arthur Soares, o trabalho que teve para haver o meu dote.

--Estou mais que pago do que fiz, pela certeza de ter prestado a v. exc.aum pequeno serviço.

--«A snr.aD. Maria da Gloria da Mesquita Bandeira e Abendanho!...»

A este annuncio, que um escudeiro fez em devida fórma, ficaram como interdictos todos os actores da scena que descrevemos. São faceis de comprehender os motivos da interdicção, se o leitor tem attendido o «Conto portuguez».

Sebastião da Mesquita resolveu enviar a D. Anna o seu dote por D. Maria da Gloria, e que esta fosse acompanhada por João de Lencastre: explicada a inopinada apparição, e deixando á capacidade do leitor o avaliar como seriam recebidos os recem-vindos, continuaremos a interrompida scena, em que figuram agora mais dous actores:

--Antes de participar ao primo Leopoldo qual é a commissão de que venho encarregada por meu ex.mopae e senhor, peço-lhe licença para apresentar-lhe o snr. João de...

--Conheçobastante, minha querida prima e senhora, o seu escudeiro e fiel pagem,que só poderia entrar n'esta casa, como entrou, acompanhando a sua dona...

--Engana-se v. exc.a, meu caro primo, quanto ao mister e aos direitos do meu apresentado. Este cavalheiro, que precisou de viver alguns annos sob o incognito, mais de amigo que de escudeiro da nossa casa, é bastardo da illustre progenie dos snrs. de Lencastre, reconhecido e dotado por uma sua thia avó paterna; é nosso primo e muito intimo amigo; é, finalmente, irmão de v. exc.a...

--Não posso crêr que a minha apreciavel prima e snr.aD. Maria da Gloria, queira honrar-me com um gracejo d'essa ordem, e...

--Quer provas? Aqui as tem... Depois de lêr ficam desterradas as suas duvidas, e atrevo-me a esperar do cavalheirismo de v. exc.a, que dará todas as mostras de fraternal estima ao meu nobre apresentado...

--Não desejo só dever a esses pergaminhos a amizade de meu irmão... Embora por motivos justificados,commetti um acto rude, e offereço-lhe a face, para applicar n'ella a pena de Talião...

--Mais do que a essa humildade, que sei apreciar n'este momento, e tanto como aos laços de sangue que nos prendem, deve-se á vontade e nobreza de sentimentos da nossa querida prima e snr.aD. Maria da Gloria, a espontaneidade com que o abraço, mano João!...

--Agradeço ao primo Leopoldo a delicadeza e fidalguia do seu proceder. Agora, passo a remir-me da obrigação que recebi de meu exc.mopae: faço-o mesmo em presença do snr. Arthur Soares, que pela muita amisade e consideração que todos lhe devemos, é estimado como pessoa de familia. O primo João, entregará ao primo Leopoldo, e á minha boa amiga e antiga discipula, um movel que contém setenta mil crusados, que tanto importa o dote d'esta excellente esposa, de que meu respeitavel pae estava de posse. Não foi entregue ha mais tempo, porque só agora se acabou de liquidar e receber...

Um raio, que n'aquella occasião tivesse cahido na sala, não deixaria ficar mais assombrados Leopoldo, Arthur e D. Anna, do que ficaram ao ouvirem aquellas palavras de D. Maria da Gloria! Póde comprehender-se, mas não é descriptivel, a scena muda que entre elles teve logar. Arthur Soares, pelo auxilio de seu natural talento, e por um d'aquelles raros expedientes, que Deus concede repentinamente ás almas que o merecem, abrangeu a difficuldade da situação, e desembaraçou-a maravilhosamente:

--É á snr.aD. Maria da Gloria, que devo explicar o assombro em que ficaram estes felizes esposos, pela remessa que lhes faz meu illustre padrinho,e senhor Sebastião da Mesquita, logo em seguida a outra de igual genero de que eu fui portador... Tudo se aclara com a narração da verdade, ficando eu apenas com a macula de imprudente, por me precipitar na entrega... O snr. Sebastião da Mesquita, havia-me encarregado da cobrança de varios creditos e dividas, exigindo-me a maior actividade, porque pertenciam, me disse elle, ao dote da snr.aD. Anna, que meu padrinho desejava entregar o mais breve possivel... O emprego do tempo n'essa cobrança, o desejo de prestar um serviço á minha companheira de infancia, e a necessidade de marchar immediatamente para a cidade do Porto, onde me chamam os deveres de voluntario da causa popular, tudo isto junto á irreflexão, que eu mesmo classifico de imprudencia, arrastou-me aqui, a fazer a entrega do por mim recebido, sem ter, como devia, uma prévia conferencia com o meu illustre mandatario, que, pelo que observo agora, desconfiou da minha actividade, e foi enviando o que já era em seu poder...

--Deve ter sido assim, snr. Arthur Soares. E como meu excellente pae sabe guardar bem os seus segredos, não me confiou essa missão de que o encarregára... É grande a quantia pelo snr. Arthur recebida?

--São, apenas, trinta mil cruzados.

--Então, já a minha Annitas tem um dotesinho rasoavel... cem mil cruzados... É um pequeno regato, que pouco volume augmenta ao oceano que possue o marido, bem sei; mas que já chega para alfinetes, e para ter meia duzia de dias, cada anno, hospedada a sua mestra... Consente, primo Leopoldo, que eu seja, por algum tempo, hospeda de sua esposa?

--A esse consentimento, é nossa prima D. Annaque hade responder. Da parte que eu tenho n'esta casa, dispõe V. Exc.acomo de cousa sua, que é... O que me parece descobrir na pergunta da minha querida prima D. Maria, é vontade de estar aqui só com a sua discipula; e eu sou obrigado, pelos meus deveres de militar da rainha, a senhora D. Maria II, a fazer-lhe a vontade, porque hoje mesmo devo retirar-me, para reunir-me ao exercito.

--N'esse caso, mano Leopoldo, vamos todos até Guimarães, onde fiquei de encontrar-me com o snr. Sebastião da Mesquita... Acompanha-nos, snr. Arthur Soares?

--Com todo o prazer, snr. João de Lencastre: não é grande a volta na jornada que tenho a fazer para a cidade do Porto, onde sou esperado na qualidade de soldado do governo supremo do reino...

Para melhor intelligencia da scena que se deu após as narradas, e com que vamos fechar este capitulo, é necessario descrever as posições que occupavam na sala os differentes actores.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, conversavam a meia voz no vão de uma das janellas de varanda, quasi no fim da sala, semi-occultos pelas cortinas, a bastante distancia das de mais pessoas. D. Anna, occupava, no meio da sala, um logar junto do precioso movel, onde movia maquinalmente alguns dos objectos que o adornavam. João Vidal, ou de Lencastre, estava sentado a um dos lados, folheando um album de pinturas; e Leopoldo, na extremidade da sala, opposta ao lado occupado por D. Maria e Arthur, conservava-se de pé, encostado ao pedestal de um magnifico relogio, com a cabeça levemente pousada sobre os dedos da mão esquerda.

D. Maria da Gloria e Arthur Soares, estavam muito interessados no seu confidencial dialogo. A joven senhora, não acreditára na explicação, dada por Arthur, ácerca dos seus trinta mil cruzados, e apertava-o com raciocinios, que deviam leval-o, inevitavelmente, á confissão da verdade.

D. Anna, reunia em sua mente as menores circumstancias de sua vida, avaliava os ultimos acontecimentos d'ella, e via, ainda que com pouca clareza, que estava sendo o alvo de generosidades extraordinarias.

Leopoldo, só era dominado pelo ciume: reconhecia, mau grado seu, as vantagens moraes do seu rival, e tremia de intima raiva.

João, o antigo escudeiro, e moderno fidalgo por bastardia, senhor de quasi todas as intrigas que agitavam os seus parentes e amigos, fingia prestar muita attenção ás paizagens que examinava, e não perdia um só dos movimentos dos que o cercavam.

D. Maria triumphara, em fim, do seu docil adversario: obrigara-o a confessar o que fizera, e a pedir-lhe segredo para o seu brioso procedimento. A gentil e fidalga donzella, vendo realisadas as suas suspeitas, e abysmada na grandeza d'alma do seu idolo, apertou-lhe as mãos meigamente, e saltaram-lhe dos olhos lagrimas alegres. D. Anna, vira aquelles movimentos, preadivinhára o que se havia passado, chegou-se a elles, e exclamou, entre lagrimas de reconhecimento: «Meus bons amigos!» deixando em seguida cahir a cabeça no seio de D. Maria da Gloria.--Era bello aquelle grupo!

Leopoldo, acompanhára aquellas expansões de gratidão com olhos ferinos. De repente, perdeu a côr,sacudiu fortemente a cabeça, e dirigia-se, com passos mal seguros, ao grupo encantador. Não podemos calcular o que teria succedido, se aquella prêsa do ciume não fosse logo interrompida nos seus passos pelo irmão que, com o album aberto, lhe disse:

--Tem bellissimas pinturas este album, mano Leopoldo... Esta, que parece ser o emblema do ciume, é realmente curiosa... Figura uma bella mulher com apparencia de inquietação, e ar de quem escuta... As suas roupas são da côr das ondas do mar: tem na mão direita um ramo de espinhos, e na esquerda um gallo... Mantém-se na attitude do desassocêgo e curiosidade, e a côr dos vestidos indica a perturbação da alma... O ramo de espinhos denota que os tormentos do ciume são acerbos e agudos, e o gallo é o symbolo da suspeita e vigilancia... É curioso, muito curioso!... O seu braço, mano Leopoldo, e vamos até á proxima saleta, onde quero fazer-lhe entrega do movel em que lhe fallou a snr.aD. Maria da Gloria, e conversar em cousas de commum interesse...

E sem dar occasião a evasivas, foi arrastando Leopoldo, que se deixou conduzir sem resistencia, já mais ou menos conscio do ridiculo de que o irmão o salvava.

«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo certissima a sua veneranda antiguidade.»(O Panorama de 1867.)«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos antes da éra christã.»(Padre Carvalho)«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no anno de 1835, seis contos de reis.»(Geographia de Urcullu.)

«Querem alguns que seja esta villa o assento da cidade de Araduca, de que Ptolomeu faz menção; é porem incerta a conjectura, sendo certissima a sua veneranda antiguidade.»

(O Panorama de 1867.)

«A antiga Guimarães foi fundada pelos gallo-celtas, quinhentos annos antes da éra christã.»

(Padre Carvalho)

«As fabricas de cortumes produzem annualmente um valor superior a cento e cincoenta contos de reis. O commercio das linhas pannos de linho e ferragens, é importante, apesar de ter decahido depois do tratado de 1810 e da independencia do Brazil: todavia ninguem ainda hoje negará o incontestavel merecimento dos tecidos de linho adamascados, fabricados em Guimarães, que em duração e primor d'obra por certo que não tem rival. Calcula-se que os tres ultimos productos industriaes que apontamos, não rendem menos de oitenta contos de reis por anno. Os doces de fructas confeitados n'esta villa, renderam, no anno de 1835, seis contos de reis.»

(Geographia de Urcullu.)

Parece fóra de duvida, que esta bella povoação do Minho, elevada modernamente á cathegoria de cidade, teve, no seu começo, duas existencias distinctas, e muito separadas na ordem do tempo, ambas com o nome de--Guimarães--; se é que não serviu tambem de local á antiquissima cidade de Araduca,como querem muitos e mui abalisados auctores.

É Guimarães uma das terras heroicas de Portugal, por titulos honrosissimos. Mais do que ao facto de ter sido o berço do primeiro rei portuguez, o snr. D. Affonso Henriques, que após a gloria de ter fundado e consolidado o reino e a monarchia portugueza, morreu em geral opinião de santo, como é affirmado na chronica dos conegos regrantes de Santo Agostinho, e na terceira parte da Monarchia Lusitana; mais do que á contestada, ainda que muito auctorisada, versão de ter sido a patria do famoso Papa S. Damaso,8que mereceu, ao sexto concilio de Constantinopla, o dar-lhe os nomes de--Diamante da Fé--; mais do que á justa fama de ser um povo notavelmente commercial e industrial; mais finalmente, do que á sua immensa riqueza,--deve Guimarães, o seu bom nome, aos feitos emprehendedores e gloriosos de um grande numero de seus filhos, na guerra, nas artes,nas sciencias, em todos os ramos dos conhecimentos humanos, e á magnifica e incomparavel indole de todos elles, que sempre souberam reunir á bravura do leão a mansidão do cordeiro, á intrepidez a resignação, e ao uso da caridade a facilidade no perdão das injurias.

Nomearemos alguns dos mais antigos e gloriosos nomes dos heroicos filhos de Guimarães:

Gil Vicente, filho de Martim Vicente, o fundador do theatro portuguez, e distincto artista, que fez a Custodia de Belem.9

Pedro Alves, artista de notavel merecimento, que, com mais outros contemporaneos seus, tornou florescente a ourivesaria de Guimarães, pelos annos de mil quatro centos e cincoenta a mil quatro centos e oitenta.

João Gonçalves, mais conhecido pelo nome deEngenhoso, o introductor do serrilhado na moeda.

Payo Galvão, filho unico de Pedro Galvão e de sua mulher D. Maria Paes; entrou em tenra idade no convento de Santa Marinha da Costa, no anno de 1178; enviado á Universidade de Paris, recebeu lá o grao de mestre de theologia. Regressando ao seu convento e mosteiro da Costa, foi elevado á dignidade de mestre-escóla da real collegiada. El Rei D. Sancho I, o nomeou, em 1198, seu embaixador em Roma, onde foi muito estimado pelo Papa Innocencio III, que o fez seu vice-cancellario, poucos mezes depois da sua chegada: cardeal diacono, no anno de 1206; presbytero cardeal de Santa Cecilia, no anno de 1211; e bispo Albanense, no anno de 1215. Completou, este douto varão vimaranense, a sua gloriosa carreira, acompanhando, na qualidade de seu--legado apostolico--, o general João Breno, á conquista de Jerusalem, enviado pelo Pontifice Honorio III.

O doutor Gaspar de Carvalho, que foi chancellermór do reino, do conselho de El-Rei D. João III, e tambem seu embaixador e testamenteiro.

O doutor Balthasar de Azevedo, que foi desembargador da supplicação.

O padre fr. Paulo do Valle, da ordem de S. Bento, que foi mestre de theologia na Universidade de Coimbra.

O doutor Diogo Lopes de Carvalho, senhor dos coutos de Abadim e Negrellos, que foi môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu desembargador do Paço.

O doutor Gonçalo Dias de Carvalho, o primeiro legista portuguez, que começou a estudar em Guimarães, no Mosteiro de Santa Marinha da Costa, de frades Jeronymos. Foi o primeiro doutor que na Universidade de Coimbra tomou capêllo, e foi desembargador dos aggravos, e deputado da meza da consciencia.

O doutor Balthasar Vieira, môço fidalgo da casa d'El-Rei, que foi corregedor da côrte.

O licenciado Manoel Barbosa, que escreveu com muito conhecimento sobre a ordenação, que foi distincto antiquario e genealogista dos de mais credito.

O insigne doutor Agostinho Barbosa, filho do precedente, que foi bispo de Cisgento, e publicou obras utilissimas, apreciadas dentro e fóra do paiz.

O doutor Simão Vaz Barbosa, filho tambem do jurisconsulto Manoel Barbosa, que foi mestre em artes, e escreveu o seu livro doAxioma.

O doutor Antonio Pereira Cardote, que teve a gloria de vêr adoptada, pela Universidade de Salamanca, a doutrina que ensinou na Universidade de Coimbra. Dizem os mais auctorisados, quanto imparciaes, chronistas,que se a villa de Guimarães não tivera dado de si outro parto, bastava este sujeito para o seu maior credito.

O padre fr. Antonio da Luz, religioso de S. Bento, insigne theologo, e lente na Universidade de Coimbra.

O padre mestre, fr. José de Oliveira, religioso dos eremitas de Santo Agostinho, lente de theologia em Coimbra, e feito bispo de Angola, por El-Rei D. Pedro II.

O doutor Gaspar de Abreu de Freitas, commendador da Ordem de Christo, desembargador e conselheiro da fazenda, môço fidalgo da casa de El-Rei, e seu enviado a Hollanda, Inglaterra, e Roma.

O desembargador João de Guimarães, embaixador duas vezes á Suecia, Inglaterra, e Hollanda, moço fidalgo, commendador de capa-rosa, na ordem de Christo, e deputado da Mesa da consciencia.

O doutor João de Gouvêa da Rocha, desembargador na relação do Porto, na dos aggravos, em Lisboa, e no Paço, moço fidalgo, e cavalleiro professo de habito de Christo.

O doutor Pedro da Rocha de Gouvêa, irmão do precedente, desembargador do Brazil, e depois da supplicação, e cavalleiro da ordem de Christo.

O doutor José Peixoto de Azevedo, desembargador dos aggravos, em Lisboa.

O doutor Jeronymo Vaz Vieira, juiz das ordens militares, deputado da mesa da consciencia, desembargador dos aggravos, juiz da corôa, e desembargador do Paço.

D. Gabriel da Annunciação, conego de S. João Evangelista, que foi bispo de Annel, do arcebispado de Evora.

D. Manoel Affonso da Guerra, que foi bispo de Cabo-Verde.

O doutor Pedro de Sousa, que foi lente de Vespora.

O doutor Christovão de Azevedo, fisico-mór do reino.

O doutor Francisco Cibrão, medico notavel, e muito conhecido e apreciado em Lisboa.

Manoel Gonçalves, o trovador, morador noburgoda rua de Couros, que foi o primeiro homem que n'este reino fez trovas.

Manoel Thomaz, que compoz a noticia das guerras d'entre Douro e Minho, emoitava rima.

Manoel de Faria e Sousa, homem que se fez conhecido e admirado, dentro e fóra do paiz, pelo acerto, erudição e credito de suas obras, em que se mostrou profundo conhecedor, não só das antiguidades de Portugal, como tambem da Africa, Asia, e America. Foi sepultado no Mosteiro de Pombeiro, ao pé do magestoso tumulo de D. João de Mello e Sampaio, antigo commendatario d'aquelle Mosteiro.

Martim Ferreira, que salvou Guimarães do sitio que tentava pôr-lhe o exercito castelhano, alojado naveiga das favas; e que, por uma cutilada que então recebeu no rôsto, ficou appellidado--o Martim Narizes.

Manoel Machado de Miranda, senhor docasal dos Cavalleiros, e residente no seupalacio do arco, na rua de Santa Maria, poderoso fidalgo, que prestou assignalados serviços ao rei e ao reino, obrigando seus filhos a continual-os.

Manoel Machado, filho do precedente, que morreu em uma batalha naval pelejada com os turcos.

Francisco Machado, irmão d'aquelle, que morreu na India, no posto de capitão de infanteria, batalhando pela patria.

Fr. Gualter Machado, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que perdeu a vida em um assalto contra os turcos.

Fr. Martim Pereira d'Eça, irmão dos precedentes, cavalleiro professo na religião de João de Rodes, que, depois de ter batalhado com notavel valentia ao lado de seus irmãos, regressou ao reino, que encontrou em guerras contra Castella, e logo tomou as armas em defeza da patria, sendo mestre de campo de umterço de volantes, e capitão dumacompanhia de cavallos com o titulo de couraças. Celebradas as pazes entre os dous reinos, entrou o guerreiro em mais brandas, fadigas: foi occupado em visitador das commendas da sua religião, d'onde passou a recebedor d'ellas; e, estando n'esta occupação, foi, por algum tempo, governador do priorado do Crato. Foi tambem commendador de Torres Vedras, e de S. João da Carvoeira.

João Machado d'Eça, irmão dos precedentes, que serviu importantes cargos no Alemtejo.

Gregorio Ferreira d'Eça, irmão dos precedentes, que foi capitão-mór de Guimarães, e governador de sua comarca, militar valente, fidalgo da casa d'El-Rei, e cavalleiro professo do habito de Christo.

Pedro Alvares de Almada, cavalleiro valeroso, possuidor do morgado e cazas doRocio da Tulha, que, depois de ter batalhado n'este reino e no de Hespanha, passou a servir El-Rei Henrique de Inglaterra nas guerras contra os mouros; e taes valentias praticou, que mereceu a este rei um alvará, (datado de2 de março de 1501) «em que lhe entregou, e livremente doou, parte determinada de suas armas reaes, a saber: ametade de uma flôr de Lyrio de ouro, e ametade de uma rosa vermelha, em campo dividido em duas partes, e em duas côres, como é, de uma parte de verde, e da outra de prata; para que elle, e todos os seus descendentes, e parentes, assim conjunctos por sangue, ou affeniedade, possam usar das mesmas armas segura e livremente, aonde cada um quizer, assim como se forem suas proprias armas.»

Fernão da Mesquita, chamado--o velho--, possuidor dacasa da rua da Infesta, com sua capella de Nossa Senhora da Graça, que acompanhou, com grande dispendio de sua fazenda, ao duque de Bragança, D. Jaymes, na tomada de Azamôr, no anno de 1513, partindo depois para a India, onde fez as suas proezas, que se lêem na Chronica d'El-Rei D. Manoel, cap. 46.

Ruy Mendes da Mesquita, filho do precedente, que acompanhou o infante D. Luiz, filho d'El-Rei D. Manoel, á tomada de Tunes, passando depois tambem á India, onde, por seus valorosos feitos, honrou as cinzas de seu pae, honrando a patria.

Fernão da Mesquita e Lima, o Novo, filho do precedente, que, aos 18 annos de idade, ganhou na guerra de Tangere, uma commenda da ordem de Christo, e, dous annos depois, foi capitão mór da Costa.

Diogo Lopes da Mesquita, irmão do precedente, que foi intrepido capitão da fortaleza de Maluco, na India.

Miguel Lopes da Mesquita, filho do precedente, e digno imitador do valor e virtudes da familia dos Mesquitas de Guimarães, que teve a honra de hospedar,na sua casa da rua da Infesta, o infante D. Luiz, filho de El-Rei D. Manoel, em agosto de 1548.

Diogo da Mesquita, outro filho de Fernão da Mesquita, o velho,que, melhor que todos, realçou e eternisouseu nome. Foi mandado pelo viso-rei da India, Nuno da Cunha, por embaixador a um rei mouro; e, sendo captivo do rei de Cambaya, por não querer renegar a sua fé, e a sua patria,foi posto na bocca d'uma peça de artilheria, sem que um tal apparato o amedrontasse; e, porque só o quizessem intimidar, e não matar, o pozeram a resgate, e resgatado foi,por subido preço. Vingou suas affrontas, matando, em combate, o rei de Cambaya,que era senhor de tres reinos; e por este feito se accrescentaram ás suas armastres corôas e um alfange, como diz Diogo do Couto, na decada 4.a, livro 4.º, capitulo 9.º

Manoel da Mesquita, filho do precedente, que foi capitão da fortaleza de Chacel, na India.

Fernão da Mesquita, irmão do precedente, que serviu nas Armadas, no tempo d'El-Rei D. Sebastião.

Antonio Pereira da Silva, fidalgo da casa d'El-Rei,morgado rico, e possuidor de casas nobres na rua de Santa Maria, que acompanhou El-Rei D. Sebastião á batalha de Alcacer Quibir, onde foi captivo. Resgatado, embarcou para a India, e serviu como bom cavalleiro, na guerra contra os turcos.

Salvador Pereira da Silva, filho natural do precedente, que foi mestre de campo em Ceilão, sendo general D. Jeronymo d'Azevedo; e depois foi capitão mór da Armada, que foi ao cerco de Malaga.

Antonio Peixoto de Carvalho, moço fidalgo da casa d'El-Rei, morgado da Pousada,com suas casasna rua do Val de Donas, que serviu na guerra da India,contra os infiéis, onde acabou a vida.

João Vasques Peixoto, irmão do precedente, ao qual fez doação do morgado, que tomou o habito de S. João de Rodes, e mostrou seu valor nas guerras de Malta, sendo feito commendador da sua ordem.

João de Sousa Alcoforado, moço fidalgo da casa d'El-Rei,que deixou mulher, e filhos, e o morgado e casa de Villa Pouca, para servir a patria, nas guerras da India, levando em sua companhia dous de seus filhos, Manoel de Sousa da Silva, e Francisco de Sousa Alcoforado.

Simão Rebello de Valadares, que embarcou para a India sem licença de seu pae, João Valadares, residente na rua de Santa Maria, e foi um dos mais valentes soldados do seu tempo. Morreu juncto da muralha de Ceilão, ficando-lhe, na escalada, os braços dentro da muralha.

João Martins, Annadel mór dos espingardeiros de Guimarães, senhor do morgado do Pinheiro, que deixou mulher e filhos, fretou uma náu á sua custa, e mettendo-se n'ella,com gente e armas tambem suas, acompanhado de seu irmão Fernão Martins, se offereceu a El-Rei D. Affonso V, para o seguir na viagem que fazia a Azamôr. Por seus valerosos serviços, mereceram estes dois irmãos,grandes mercês e honras.

Pedro Coelho, da rua de Santa Maria, que acompanhou El-rei D. Sebastião á Africa. Ficou captivo, e foi escravode dous senhores. Resgatado,com muito trabalho e dispendio de sua fazenda, foi cavalleiro professo do habito de Christo.

Salvador da Costa e Almada, morador narua Nova do Muro, embarcou para a India, onde foicabo detres fustas, que o governador, Mathias de Albuquerque, mandou á costa de Ceilão.

Gregorio da Costa do Valle, tambem da rua Nova do Muro, thio do precedente, que foi capitão da Costa, por El-Rei D. Manoel, e morreu na India, pelejando com grande valor contra os turcos.

Gaspar Leite Pereira, da rua doCano das Gasas, que embarcou para a India no anno de 1559, e, por seu valor, foi provido no cargode Tanaydar e Manorá, nas terras de Baçaim. Foi depois mandado, por El-Rei D. Sebastião, á costa de Guiné, por capitão do navio--S. Nicolau--.

Antonio Leite d'Azevedo, sobrinho do precedente, que tambem, na India, mostrou o seu valor, como dizA vida do irmão Pedro de Basto, liv. 2.º cap. 13.º

Gonçalo Paes de Meira, da rua de Santa Barbara, que acompanhou Martim Ferreira na façanha daVeiga das favas, onde foi desbaratado o exercito de D. Henrique 2.º, de Castella, que tentava pôr cêrco a Guimarães; causando, por outra vez, em 1371, ao mesmo rei, graves desgostos, porque elle, e seus dois filhos, Estevão Gonçalves de Meira, e Fernão Gonçalves de Meira, acompanhados de quarenta cavalleiros, obrigaram o rei de Castella a levantar o cêrco.

Affonso Lourenço de Carvalho, que, estando de posse de Guimarães o rei de Castella D. João 1.º, serviu,por sua traça, de poderoso instrumento á conquista que d'ella fez El-Rei D. João I de Portugal. Foi o caso, que estando El-Rei de Portugal, com o seu exercito,na ponte do Sueiro, juncto á ponte de Servas, Affonso Lourenço de Carvalho lhe deu parte, que conseguira do porteiro e guarda daporta do postigo, que esta lhe abrisse, para elle metter em sua casa umacuba em um carro; e, aproveitando El-Rei o aviso, entrou por alli,com trezentos de cavallo, ficando senhor de Guimarães, depois de combate.

Manoel de Valadares Vieira, que foi dos primeiros soldados filhos de Guimarães, que, na provincia de entre Douro e Minho, assentou praça, deixando o interesse de seu morgado, de que era unico herdeiro, para servir na feliz acclamação de D. João 4.º. Foi capitão e sargento mór de infanteria, e governador da praça de Monte Alegre.

André Pinto Barboza, que militou n'este reino e no Brazil, chegando a mestre de campo e governador da praça de Miranda, e provedor mór de Pernambuco.

Francisco de Meira Peixoto, que serviu em duas armadas, occupando tambem o posto de capitão de infanteria.

João Leite de Oliveira, que deixou a agricultura, que exercitava na sua quintade Pombeiro, para se alistarna milicia de Flandes, onde, por seu valor, mereceu o posto de capitão, morrendo, no de general de artilheria, com grande nome e fama.

Sebastião Salgado de Faria, que,na guerra de Flandesfoium dos capitães de cavallo de couraçascom melhor nome no exercito.

Jeronymo de Figueiredo, que, nas guerras com os castelhanos, chegou ao posto detenente de mestre de campo general.

Dionisio da Cunha, que foi valente capitão de infanteria.

Pedro Coelho de Miranda, que foi capitão dosprivilegiados de Nossa Senhora da Oliveira.

João Botelho Leite, que foi capitão de infanteria,e um dos que promoveram a feliz acclamação de D. João IV.

João Rebello Leite, filho do precedente, que, noprimeiro rebate que em seguida á feliz acclamação, os gallegos deramna fronteira do Minho, foi prisioneiro e levado,com oito feridas, ao castello de Compostella, d'onde, após dezoito mezes de prisão, fezuma fugida valorosa, chegando depois a mestre de campo, e,com lastimosa desgraça, morreu de veneno.

João Machado de Miranda, que, deixando em serviço da patria os bens em que succedia, militou com grande valor, chegando ao posto de mestre de campo de infanteria,e de cavallos; e, indo a Santaremreformar o seu terço, foi captivo da morte por um reparado manjar, que lhe serviu a sua mulata.

Fernão Ferreira da Maia; José Peixoto de Sousa; Francisco de Macedo; João Barroso de Azevedo; Jacintho Leite Pereira; André de Sousa Homem; José Machado Pinto, e Manoel Velho do Couto, que todos occuparam postos decapitães volantes, no exercito da provincia do Minho.

Diogo de Freitas, que foi capitão de infanteria.

Antonio Paes do Amaral, cavalleiro do habito de Christo, eajudante de cavallaria.

Antonio de Andrade e Valle, que foiajudante de Infanteria.

João de Sousa e Lima, que foialferes do mestrede campo de infanteria.

Paschoal da Costa, que foi capitão de infanteria.

Francisco Machado de Miranda, que foi capitão de infanteria; e Antonio de Barros, que foicapitão de volantes.

Esta lista seria infinda, se continuassemos a esgravatarnas gloriosissimas antiguidades d'este nosso Portugal, e aproveitassemos tudo, que respeita a Guimarães.

E não é só ao sexo forte, que o berço da monarchia deve o seu nome famoso: foi distinctissima vimaranense, entre outras de menor fama, Joanna Michaella, filha de Pedro Machado e Dionizia de Macedo, e esposa do tenente coronel de cavallaria Antonio Mendes de Brito. Era perfeita no conhecimento e uso da lingua materna, e sabia latim, italiano, grego e chinez: estudou philosophia, theologia, mathematica, astrologia, e musica; chegando a ser classificada como uma das senhoras portuguezas mais eruditas do seu seculo.

Foram, pois, justificadamente merecidas as immensas honras, privilegios e isempções, que os senhores reis d'este reino concederam aos moradores de Guimarães, como não tiveram por certo, nenhuns outros do paiz; e da mesma fórma, de toda a razão é o nobre orgulho, que ainda hoje sustenta a briosa raça de tão heroico povo.

E não resistimos ao estimulo de notar aqui meia duzia de nomes, que, na actualidade, provam não ter degenerado aquelle sangue portuguez, tão admiravelmente fertil.

Contamos com a benevolencia dos cavalheiros, por nós apontados, para que nos relevem o não lhes respeitarmos a modestia em preito á verdade; como esperamos desculpa das capacidades, que, involuntariamente, esqueçamos de nomear.

É natural de Guimarães, o snr. José Arnaldo Nogueira Molarinho, residente hoje na cidade do Porto, notavel curioso de obras de prata e de marfim, e celebreartista gravador de medalhas, algumas das quaes teem sido admiradas dentro e fóra do paiz.10

Nasceu tambem aqui o apreciavel rabequista, e maestro, Francisco de Sá Noronha, que, nas suas viagens, se tem feito admirar em quasi toda a Europa, recebendo honras, e condecorações de alguns monarchas.11

É distincto, em equitação, e talvez se possa chamar o primeiro cavalleiro peninsular, o snr. José Martins Minotes.

São profundos jurisconsultos, e como taes conhecidos em todo o reino, os senhores doutores Bento Antonio d'Oliveira Cardoso, e Antonio Leite de Castro.

É mimoso poeta e dramaturgo, o senhor doutor Antonio d'Oliveira Cardoso.

Tem logar conhecido entre os amadores das boas Lettras, o snr. doutor Francisco de Moraes Sarmento, apreciado já, nas suas obras, pelo nosso bom e fecundo romancista, o snr. Camillo Castello Branco.

Os que hoje representam os antigos fidalgos do «Berço da Monarchia», são todos pessoas estimaveis,caritativas, e uteis. Não existe aqui, onde a nobreza é verdadeira, esses enfatuamentos condemnaveis, que só prejudicam seus donos. Na casa do mais distincto cidadão vimaranense, tem facil entrada, e bom acolhimento, toda a pessoa que lhe bate á porta por mais humilde que seja. É tambem por isto, que a nobreza vimaranense, hoje como sempre, é por todos respeitada.

Peza a louza do sepulchro sobre as cinzas de tres condes, que, por sua popularidade, e importantes cargos que exerceram, deixaram no seu paiz honrosa memoria.

Tudo que dizemos, e muito mais que, em verdade, poderiamos dizer de Guimarães, tem desafiado a critica mordazdos fortes espiritosdo seculo, que a chamamterra retrógrada.

É certo, que o progresso material não tem entrado aqui, com a velocidade que fôra para desejar; mas nem por isso deixam de ser plenamente satisfeitas todas as necessidades da vida. E a cada passo vemos, para comprovar a bondade da terra, adoptarem Guimarães, por sua patria, muitos estrangeiros, que n'ella encontram estimação.

Conservam-se, é tambem certo, alguns costumes de velhas datas; mas n'estes uzos, que os modernistas condemnam, sem bem os avaliarem, ha um certo sabôr de patriotismo, que satisfaz, e deleita, aos que não trocam o que foi bom, no passado, pelo que é, muitas vezes, futil, e mau no presente.

O auctor d'estas Linhas, para que o não acoimem de suspeito, declara que nasceu na cidade do Porto.

Fugimos um pouco do principal fim do nosso «conto», chamando os leitores para o local da acção, em que elle vae continuar, nos seguintes capitulos; mas d'este desvio se podem esquivar os mais exigentes, passando em claro as noticias vimaranenses, que damos por concluidas.


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