8Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.9Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o titulo deSedatura Lusitanaencontramos estes factos preciosos: «Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente.» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III «Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante, e por tal foi sempre muitoestimado dos Principes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.» O gráo de authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi procurador em côrtes.»10O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa antiga seiva artistica de Guimarães.»11O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. M.
8Portugal deu á cadeira de S. Pedro dois naturaes seus: S. Damaso, de Guimarães, e Pedro Hispano, natural de Lisboa, freguezia de S. Julião, que por pouco tempo gosou as honras do pontificado, por morrer de um desastre no sumptuoso palacio, que mandou construir em Viterbo. S. Damaso foi o 39.º na serie dos pontifices romanos: foi-lhe disputada a eleição por Ursino, que as auctoridades civis desterraram, sendo confirmada a legitima eleição de S. Damaso; tambem o inculparam de adultero, mas foi absolvido por um concilio de 44 bispos, reunido em Roma. Entre outras obras de sua iniciativa, contam-se as basilicas de S. Lourenço, e a da Ardeativa, fóra de Roma, mandando concluir outras. Combateu valorosamente as seitas dissidentes, congregando varios concilios, e o ecumenico, em Constantinopla, no anno de 381, ao qual assistiram 150 bispos.
9Em um moderno artigo das «Artes e letras», que tem por epigraphe: «Gil Vicente e a custodia de Belem»--lê-se: «Contemplada a Custodia de Belem e confrontada com a Custodia de prata dourada que se guarda na collegiada da Oliveira em Guimarães, saltava ao espirito a existencia de uma mesma tradicção artistica, de uma mesma escóla. Seria Guimarães que teria influido sobre o gosto da ourivesaria em Lisboa? É certo que a tradição recolhida por Barbosa Machado, dizia que disputavam o nascimento a Gil Vicente, Lisboa e Guimarães. Este criterio nos dirigiu nas investigações, e no manuscripto de Christovão Alão de Moraes, datado de 1667, que tem o titulo deSedatura Lusitanaencontramos estes factos preciosos: «Martim Vicente, foi um homem natural de Guimarães; dizem que era ourives de prata; não podemos saber com quem casou; só se sabe de certo que teve a Gil Vicente.» Isto já bastava para acreditarmos que o auctor da Custodia de Belem era natural de Guimarães; mas o manuscripto genealogico é mais explicito, e declara-nos que esse Gil Vicente, filho do ourives de Guimarães, é o afamado poeta da côrte de D. João II, D. Manoel e D. João III «Gil Vicente, filho unico d'este Martim Vicente, foi homem mui discreto e galante, e por tal foi sempre muitoestimado dos Principes e senhores de seu tempo. Foi o que fez os autos, que em seu nome se imprimiram, e por sua muita graça foram sempre celebrados pelos melhores que se fizeram n'aquelle genero. Está sepultado em Evora.» O gráo de authenticidade que nos merece este manuscripto é irrefragavel; por que Christovão Alão de Moraes datou a Sedatura de 1667, e elle segue esta genealogia até 1668, em que figurava o seu trisneto Manoel Barreto de Pina, que viveu em Torres Vedras, e n'esse anno foi procurador em côrtes.»
10O mesmo artigo a que nos referimos em a nota que falla de Gil Vicente, diz: «... e mesmo em nossos dias o grande gravador de medalhas, José Arnaldo Nogueira Molarinho, representa para nós essa antiga seiva artistica de Guimarães.»
11O sr. Noronha é auctor da musica da «Beatriz de Portugal», drama lyrico em 4 actos, vertido em italiano pelo sr. Luigi Bianchi, e representado com applauso geral nos reaes theatros de S. Carlos, em Lisboa, e de S. João, no Porto. A letra do drama, é do sr. R. C. M.
«Alli se ajunta bando de casquilhos,A que o vulgo mordaz chama rafados;........................................................Altercam mil questões; promptos contendem,Promptos decidem no que nada entendem.(Nicolao Tolentino de Almeida)
«Alli se ajunta bando de casquilhos,A que o vulgo mordaz chama rafados;........................................................Altercam mil questões; promptos contendem,Promptos decidem no que nada entendem.
(Nicolao Tolentino de Almeida)
--Antes queremos do deBasto, snr.aAnastacia Mendes, do de Basto, que é macio, e tem corpo... Diga-me... todos nós somos de segredo, e bisarros mancebos, bem sabe... ha na sua afamada locanda algumpeixefresco?...
--Que o houvesse, não era para os senhores, que vão comer a melhorcarninhado meu fumeiro... É dia de jejum, e n'esta casa, louvado Deus, ninguemmistura...
--Não quer dizer isso, snr.aMendes... O que o Andrade pergunta é se deu entrada ha pouco, no seu estabelecimento, algum animal da especie dosinfusorios...
--Dosrotarios, snr.aAnastacia, dos rotarios...Este Abreu é da mesma força do Andrade... Não sabem classificar as differentes especies de viventes, que ha no mundo...
--Pois o Ribeiro, nossa robicunda patrôa, é de egual ignorancia aos que censura... A fazenda, que procuravamos é da familia doszoophytos...
--Medusas, snr.aAnastacia,são medusas...
--Não é tal, sãoradiarios...
--Sãoenthelmentes...
--Sãoarachnides...
--Sãocrustaceos...
--Sãoannelides...
--Sãomolluscos...
--Sãomammaes...
--Sãoamphibios...
--Só vos esqueceram tres especies, carissimos commensaes, e eximios falladores: a dosinsectos, a dospeixes, e a dasaves...
--Para saber fallar é preciso saber ouvir... E quem és tu, ó maispeixotede todos os Peixotos do mundo?!...
--Sou, com vossas licenças, talvez um cavallo, que é o unico animal que não sabe lisongear os principes do... talento...Bias, um dos sete sabios da Grecia, dizia que dos animaes ferozes, o mais temivel, é um tyranno; e dos domesticos, o peior, um lisongeiro...
--Que babel, senhora da Boa Hora, que babel!... Osmeninossão engraçadinhos, mas eu não os entendo... Escutem todos, ecaluda... Chegou hontemcousadearregalaro olho... Parece, pelo menos,varoneza... Isso é que ella sabe fallar!... Aquella ha-de entendel-os, de certo... E que palminho decara!... Parece mesmo aMadanelada procissão de passos..
--Bravo!...
--Bravissimo!...
--Excellente!...
--Soberbo!...
--Magnifico!...
--Surprehendente!...
--Bom achado!...
--Optima descoberta!...
--Venha essa phenis!...
--Appareça a bella!...
--Surja a estrella polar!...
--Dê entrada a feiticeira encantadora!...
--Queremos ouvir a cantadeira!...
--Venha a nós, a filha d'Eva!...
--Aqui estou, senhores, para matar-lhes a curiosidade, e matar em mim o nôjo da vida... Deixe-me com os seuseruditoshospedes, snr.aAnastacia, que eu farei por sustentar a fama dos seus elogios... Correspondo ao que de mim lhes disse a nossaingenuapatrôa, senhores curiosos!...
--É arrebatadora!...
--Explendida!...
--Sublime!...
--Não busquem outros synonimos, amaveissabios, que já consumiram palavras de mais em meu favor... Digam-me só, a queespecie de animaesfico pertencendo agora?...
--Á dos Anjos!...
--Classifica, então, os anjos de animaes, senhor... não sei como deva chamar-lhe?...
--Peixoto, o mais furioso dos seus admiradores...E como se chama...V. Exc.a? Hade, ia apostar, ter algum nome de flôr, e patronimicos dos que entraram na peninsula com o exercito romano... Eu conheço a origem de todos os nobres appellidos: uns, procedem dos nomes das terras em que viveram os primeiros fidalgos, e n'ellas tiveram os seus solares; outros, de feitos assignalados na guerra; outros, finalmente, dos nomes de toda a casta de animaes, peixes, aves, e até de instrumentos... Como são os seus, minha formosa?
--Quanto ao meu nome, acertou, que é de flôr, e das maisespinhosas... Appellidos... Diga-me, meu caro snr.encyclopedista, os Bandeiras, e os Mesquitas, serão dignos da minha...formosura?...
--Lê-se, em Severim de Faria, Not. de Port., Disc. III, que o illustre portuguez Gonçalo Pires Bandeira, vendo, nabatalha do Touro, que um cavalleiro castelhano levava preza a bandeira real de Portugal, investiu com elle, e lh'a tomou das mãos, e a libertou; e por este feito insigne, El-Rei D. João II, lhe deu por armas uma bandeira branca, com um leão n'ella, de prata; denotando, na bandeira, a real que libertára; e no leão, o valor e esforço que mostrára: e assim lhe deu tambem o appellido de Bandeira, com que hoje seus descendentes se nomeiam. Diz mais, o mesmo auctor, na mesma obra e disc. que quando El-Rei D. Affonso V passou á Africa, a tomar Arzilla, o acompanharam cinco irmãos da familia dos Pimenteis, naturaes de Villa Real; e como sendo entrada a cidade, os mouros se fizeram fortes na mesquita, d'onde faziam grande resistencia, sem poderem ser entrados; estes irmãos, tirando os cintos, e atados uns nos outros, os lançaram a uma ameia, e subindo por elles,levantaram uma bandeira, e por alli foi entrada a mesquita, e mortos os mouros. Por este feito tão honrado, lhes deu El-Rei D. Affonso V, por armas, em campo d'ouro, cinco cintos vermelhos, com fivelas de prata e tachões, e uma bordadura azul com sete flôres de liz; por timbre um meio mouro com uma azagaya na mão, e uma bandeira de prata; e por appellido o nome de Mesquita. São, pois, nomes bellicosos, que ficam perfeitamente bem a... uma leôa...
--Acho-osencarnadosde mais... A côr dosangue, apesar dasgarrascom queV. Exc.ame honra, affecta-me a sensibilidade nervosa... Ficarei só com o nome do baptismo... Antes da suahistoricadissertação, creio que estavamos na altura dos...animaes anjos?...
--Distingo: existem anjosanimaes racionaes, desde que a cubiça, ou o amor, levou a nossa primeira mãe ao estado de completa nudez, pelo peccado commettido no Eden, onde vivia com o seu Adão; desde que um moço, das maiores esperanças, se precipitou no mais caudaloso rio da sua patria, levando as algibeiras carregadas de chumbo, porque a mulher a quem amava, querendo dar-lhe uma chicara de chá, teimou em laval-a primeiro, por se ter servido já d'ella para o mesmo effeito; e desde que eu, que recebi das Musas a chave de todos os seus segredos, de Minerva o cofre de todas as sciencias, e de Marte avazilhada intrepidez, me declaro em ruinas d'um pavoroso affecto pela pessoa de...V. Exc.a!...
--O snr. faz-me recordar uma anecdota, que vou contar-lhe: O papa Adriano edificou um collegio em Lovaine, no qual mandou pôr a seguinte inscripção:--Utrecht me alevantou, Lovaine me deu agua, Cesarme deu esplendor;--um curioso accrescentou-lhe por baixo: Só Deus não fez aqui nada... Deixo amoralidade, á perspicacia do snr... Peixoto... Pareceu-me ter-lhe ouvido que assim se appellidava?
--Para em tudo lhe dar prazer, snr.a... das anecdotas... Sem embargo do seu espirituoso apologo, minha bella, continuo a deixar sangrar a veia, dando-lhe parte, que os primeiros espelhos foram de metal; que Moysés faz d'elles menção; e que Cicero attribue o invento a Esculapio, deus da medicina. Foi no tempo de Pompeu, que se fabricaram em Roma os primeiros espelhos de prata. Plinio falla d'uma pedra brilhante, provavelmente o talco, susceptivel de dividir-se em laminas que, postas sobre um plano metallico, reflectem perfeitamente os objectos. Os primeiros espelhos de vidro appareceram na Europa no fim das cruzadas: Veneza, que primeiro soube fabrical-os, viu enriquecer os seus negociantes, e exportou estas manufacturas preciosas, para todos os estados do mundo, onde hoje tanto abundam... Só não tenho agora aqui, á mão, um d'esses primores da invenção humana!... Queria mostrar-lhe o quanto lhe fez realçar a peregrina formosura, a satyra com que tentou emmudecer-me, oh imperatriz das bellas!...
--Copiaadmiravelmente dememoria, snr. Peixoto... Sinto dizer-lhe que, parav. exc.a, só poderá servir deespelhoo lago em queNarcizose namorava da sua esbelta figura...
--Ou o rio em que se reflectia o sabujo, que trocou a preza certa, que levava nos dentes, pela sombra que vira na corrente... Póde fallar-me com desassombro, que eu tudo sei affrontar pelo amor da mulher,que reune, á seducção material, a faisca do genio, com que me apraz emparelhar...
--Énimiamente modesto, o snr. Peixoto... Contou-me a origem dos espelhos, contar-lhe-hei a origem dosorgãos... São uns instrumentos devento, compostos defolles,teclado, e grande numero decanudos... Querem oschins, que a invenção de tal instrumento seja devida ao seu imperadorHoang-Ti, que existio, antes de Jesus Christo, 2:601 annos... Se estivessemos no seculo 12.º, atrevia-me a chamar av. exc.aummagnifico órgão...
--E porque não, n'este seculo das luzes, e de todos osinstrumentospossiveis?...
--Porque desde o seculo 13.º usam-se orgãos nas egrejas, e os logares sagrados não pódem agradar aos...materialistas...
--Não me assenta bem o nome, minha arisca formosura, porque o materialista não admitte no universo ente algum espiritual; e eu estou a reconhecel-o em Guimarães, aqui, n'este logar em que discorremos, na pessoa de minha... adversaria...
--Tambem édiccionarista?... A definição que acaba de fazer parece-metextualmentelida n'um dos modernos diccionarios...
--Serei tudo que quizer chamar-me, menosplagiario. São exclusivamente minhas as ideias que expendo. Em mim realisa-se o phenomeno da sciencia innata. Não roubo alheios pensamentos, antes deixo que me roubem descaradamente as minhas famosas theorias sobre...
--Sobreprincipios elementares de mathematica, talvez, em que és fortissimo... Ora, acaba com a sécca,que nós tambem sômos gente, e sabemos que, duas vezes cinco, sommam dez...
--Deixem-me, apenas, concluir por fazer um convite a esta feiticeira... Quer assistir a um baile de costumes, que hoje se dá na casa doArco?
--Como ha-de lograr introduzir-me lá?...
--Acompanhando-a, e dando-lhe uma das senhas, que servem para esse fim; e como só se tiram ascaraçasna occasião da ceia, querendo conservar o incognito, retira-se antes d'ella... Serve-lhe?
--Talvez aceite...
--N'aquella, tão tolerante quanto illustre casa, consegues tu realisar todos os teus intentos... Se fosse emVilla Pouca...
--O Arco é mais popular...
--Será; mas Villa Pouca é mais escrupulosa... O que devéras nos espanta, é que tu não peças,á tua Convidada, qualquer remuneração pelo favor que intentas fazer-lhe...
--Eu não costumo sustentarassediopor muito tempo; costumo, sim, tomar as praçasd'assalto...
E, como para provar a sua fanfarrice quiz o fallador espadachim abraçar a joven mulher, que lhe auguara a fôfa verbosidade; mas teve de moderar os malcriados impetos, ao simples e carregado aspecto da que assim queria ultrajar.
O seu tentamen, foi presenceado por um novo personagem, que, n'aquelle momento, déra alli entrada, e que se lhe dirigiu n'estes termos:
--Se quizer,senhor atrevido, eu substituo esta senhora, para a realisação da sua vontade; e prometto-lhe que, oabraçoentre nós, ha-de ser dos mais apertados... Desculpem os restantes cavalheiros, quenão tomaram parte no desejo do insulto, a minha linguagem com o que d'elle se queria fazer auctor...
A mulher assim inesperadamente defendida, exclamou, no auge da surpreza:--O snr. João?!....
--De Lencastre, accrescentarei, para que estes senhores fiquem sabendo que soufilho d'alguem...
A donzella Rosa, porque era ella, como o leitor terá adivinhado, após uma lucta instantanea, de que ella triumphou para o seu intento, disse, sacudidamente, a João Vidal, ou de Lencastre:
--Prohibo-lhe, snr., que toque n'aquelle cavalheiro!... É... o meu amante...
--Seu amante!!... Foi, esta ultima exclamação, sahida simultanea e admirativamente da bocca de todos os circumstantes; pronunciando-a, com indiscriptivel amargura, aquelle que fôra a causa de ella ter apenas brincado nos labios da donzella.
Depois de um silencio d'alguns instantes, pediu João de Lencastre, aos que alli estavam reunidos, com tão persuasiva eloquencia e vehementedor que o deixassem a sós com a donzella, que foi immediatamente por todos attendido.
O que disseram, e como se encontraram n'uma casa de libertinagem estes dous heroes do nosso «Conto», a seu tempo será explicado.
«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de reconhecimento.»«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, que lhe ensinára Aspasia.»«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, para poder apparecer convenientemente nos bailes.»(O Panorama de 1837)
«David dançou diante da arca da alliança, e nos primeiros tempos da Egreja havia uma dança, que era a demonstração exterior da dependencia das creaturas, e uma expressão primitiva de reconhecimento.»
«O sabio e sisudo Socrates era summamente apaixonado pelas danças, que lhe ensinára Aspasia.»
«O grave e carrancudo Catão, aos 60 annos, tomou mestre de dança, para poder apparecer convenientemente nos bailes.»
(O Panorama de 1837)
Abrira a nobilissima casa doArcoos seus salões ao publico: dizemos--ao publico--, porque, o cavalheiro titular seu dono, era prodigo nos seus convites, como em todas as suas nobres acções. Dentro do seu palacete, nenhum dos seus convidados gosava de superioridade: todos eram iguaes, pelo tracto que recebiam; e se alguem, estranho á terra e ás pessoas alli reunidas, houvesse de notar algum acanhamento, isto é, menos liberdade em todas as suas acções, apontaria o distincto fidalgo que recebia. Tal foi sempreo especial condão de toda aquella sympathica familia, para pôrem á vontade os seus convidados.12
São tres os salões de baile, todos ao correr, havendo de cada lado do ultimo d'elles, e ao mesmo nivel, um lindo terraço ajardinado: para o do meio, dá entrada um soberbo salão de espera, com duas varandas, sobre o arco, que olham para a rua, assim como os terraços. Ao salão de entrada, e em sentido opposto aos do baile, seguem-se outros, parecendo todos, olhando-se do ultimo d'elles para os do baile, um--T.--De sorte que, a pessoa collocada no salão do meio defronte da porta da entrada, vê todos os salões e os terraços. A entrada do palacete é por uma larga e bem construida escadaria de pedra.
N'este baile, onde se vão dar algumas scenas do nosso «Conto», foram permittidas ascaraças, tendo-se distribuido bilhetes, para os que assim quizessem conservar o incognito, por algum tempo, e animar a reunião com freneticas danças, e brinquedos innocentes.
Desde a escada até ao ultimo salão, como nos terraços que, pela profusão de luzes, se não sentia a falta do dia.
O mais exigente dos convidados, deparava, no seu logar, com os objectos que lá devessem apparecer.
Antes de affluirem os encaretados, já se viam, no principal salão, as nobres senhoras intimas da casa; o respeitavel senhor d'ella; Sebastião da Mesquita; Arthur Soares; Leopoldo, e seu irmão João de Lencastre. Estes nossos personagens foram alli hospedes, como parentes.
Completo o ajuntamento, era bello de vêr-se.
Aqui, um grupo de senhoras vestidas de camponezas dos arrabaldes de Guimarães, com as saias de muita roda, os capotilhos de fina baêta encarnada com as pontas crusadas no peito, e atadas nas costas, os seus grossos cordões, e immensas arrecadas de ouro,--offereciam confeitos, e raminhos de violetas.
Alli, os descuidados e jovens lavradores, com as suas fardetas azues de botões amarellos, camizas de linho bordado, e o inseparavel varapau, que lhes servia de encosto para contemplarem as suas namoradas, tendo cada um o braço esquerdo estendido sobre o pau, e a perna direita crusada sobre a esquerda.
Além, a irrequieta vivandeira, acompanhada de seu militar; o sevéro magistrado assestando a luneta; o antigo fidalgo portuguez de rabicho empoado, e de casaca e calções de setim bordado; matrônas respeitaveis, e jovens senhoras vestidas á época, no melhor gôsto, ostentando a antiga e bem merecida fama das formosas vimaranenses, e mostrando, pelas joias de subido preço, que as adornavam, o esplendor e nobreza de suas familias.
Rompeu o baile por uma scena campestre das que no Minho, a mais poetica provincia de Portugal, se notam com frequencia, e se apreciam sempre.
Dos grupos camponezes foi composta umatocata, de rebecas, clarinetes e banzas; havendo um cantador, e uma cantadeira que, depois d'outros improvisos do seudesafio, concluiram assim:
«Foi o velho rei David,o primeiro dançador;vamos nós tambem dançar,cada um com o seu amor.«Fazes mal, linda Maria,convidar em lar alheio;do temôr e d'altiveza virtude jaz no meio.«Não te pedi o conselho,e vem tarde a correcção;quem á festa convidou,agradece a minha acção.«O fidalgo que dá festa,incapaz é de ralhar;mas o sabel-o não deve,ser motivo p'ra abusar.«Digam todos que me ouvem,se eu me quiz entremetter;seja a resposta o signal,para a gente s'entreter...»
«Foi o velho rei David,o primeiro dançador;vamos nós tambem dançar,cada um com o seu amor.
«Fazes mal, linda Maria,convidar em lar alheio;do temôr e d'altiveza virtude jaz no meio.
«Não te pedi o conselho,e vem tarde a correcção;quem á festa convidou,agradece a minha acção.
«O fidalgo que dá festa,incapaz é de ralhar;mas o sabel-o não deve,ser motivo p'ra abusar.
«Digam todos que me ouvem,se eu me quiz entremetter;seja a resposta o signal,para a gente s'entreter...»
E começou o baile, vivo, animado, delirante.
Nos pequenos intervallos do bulicio dançante, e em quanto eram servidos os convidados, tinham logarasintrigasou, sem cheiro de gallicismo, as mystificações.
Avivandeira, sempre pelo braço dosoldado, fôra a que mais valente se tornara em phrases de mystificar. Dirigindo-se a todos os grupos, simultaneamente, e procurando dar á voz esse tom desconhecido que, nos bailes d'esta ordem, faz parecer igual o metal de todas as vozes, conseguiu, em pouco tempo, chamar sobre si todas as attenções. Além da agudeza e propriedade dos seus dizeres, concorreram tambem, para um tal resultado, a notavel elegancia da vivandeira, e o porte pretencioso e audaz do militar seu companheiro.
A Leopoldo, fallou a vivandeira assim:
--Porque não está aqui tua mulher?...
--Porque está n'outra parte... Tu querias conhecêl-a?
--Conheço-a, e conheço-te... Ella é uma creatura angelica, e tu és um marido ao qual assenta bem o adagio portuguez, que diz: «Horta sem agua, casa sem telhado,marido sem cuidado, de graça é caro...»
E finalisando com uma risadinha aquella allusão, foi dizer a Arthur Soares:
--Conheço a origem da sua habitual tristeza, cavalheiro... Pensa...na dôr de Maria...
--E não lhe parece motivo de grave meditação o soffrimento da Virgem?...
--Ha dôres muito semelhantes, que não merecem ao cavalheiro o menor cuidado...
--Porque talvez as desconheça...
--Não: é porque se não póde dividirosentimento forte...
--E, quando seja assim, o culpado sou eu?...
--Não é culpado, mas écausa de culpas... Quando as conhecer, saiba comprehendel-as e desculpal-as... Adeus!
Prepassou rapidamente por junto de João de Lencastre, e disse-lhe:
--A palavra do homem de bem é sagrada: conto com o seu silencio...
Em seguida foi collocar-se, sempre pelo braço do soldado, em frente de uma distincta senhora, á qual dirigiu a palavra n'estes termos:
--Por este meu companheiro, fui rogada, para dizer a v. exc.auma impertinencia: desejavapagar-lhe o beneficiode me trazer a este baile... Dá licença que eu falle, minha senhora?...
--Dizia minha avó, quetriste da casa, onde a gallinha canta, e o gallo calla... Mas como é para serpagoum favor, venha de lá a tua impertinencia...
--Digo, fielmente, as palavras que me ensinaram: «Queimou-se a fôrca, cahiu o tyranno».
--Pena foi que elle cahisse, e ella se queimasse, antes de ter lá subido o atrevido que te ensinou...
--Eu, minha senhora, não tomo a mais pequena parte...
--Acredito, dei-te licença, e não te quero mal. Aconselho-te, porém, que te desquites d'esse companheiro: os da sua laia, substituiram afôrcapelopunhal, que é mais leve,traiçoeiro, e menosapparatoso...
Ocaretavestido de magistrado, que ouvira o dialogo precedente, disse aofidalgo antigo, que estava ao seu lado:
--Conheces aquella senhora, que respondeu á vivandeira com tanta vivacidade?
--Não é a viuva irmã do dono da casa?
--É. Que juizo fórmas da sua alma?
--Parece que não desgostaria de vêr continuar apernearosmalhados...
--Como te enganas!... É a alma mais completa e mais sublime, que sahiu das mãos do Creador. As suas acções, são uma perfeita antithese das suas palavras...
A vivandeira, livre já do peso sob que parecia vergar com a commissão do companheiro, procurava alguem com anciedade. Percorridos todos os salões, sem encontrar quem desejava, foi a um dos terraços, onde Sebastião da Mesquita passeava, parecendo alheio á festa. Avivandeira, mal que o vira, despediu bruscamente o soldado, e dirigiu-se ao velho fidalgo:
--A tristeza de que v. exc.aestá possuido, procede do conhecimento dafuga inesperadade uma donzella, companheira de infancia de sua exc.mafilha, não é verdade?...
--Não conheço quem me interroga, nem sei quaes sejam os direitos que julga ter para me interrogar...
--Queria... desejava dar cumprimento a uma vontade e pedido da pessoa a que me refiro... Se V. Exc.adésse licença...
--Tirando primeiro esse panno que lhe cobre a cara, póde fallar.
--É que... para o que tenho a dizer e a fazer, posso conservar o meu incognito... É só pedir, em nomed'ella, perdão a V. Exc.ase algum desgosto lhe causou com o seu procedimento, e beijar-lhe a respeitavel e bemfeitora mão...
--João, Arthur, meus amigos, venham cá!...É preciso obrigar esta mulher a descobrir a cara...
--Senhor!... Uma tal violencia, sem auctorisação do cavalheiro dono da casa...
--Quero-o eu!...
A estas vozes, demasiado vivas, acudiu gente das salas, que repentinamente conheceu a origem da altercação.
A senhora, que déra licença á vivandeira para lhe dizeruma impertinência, foi a que primeiro a protegeu:
--Estranho que o primo Sebastião, um consummado fidalgo e cavalheiro, tentasse fazer violencia a uma fraca mulher... Esta pequena, senhora ou burgueza, fica, desde este momento, considerada como se fôra minha filha!... Conserva o teu incognito, que ninguem agora se atreverá a descobril-o...
--Se V. Exc.aquer, snr.acondessa, eu levo comigo essa menina para o convento...
--Obrigado, Eulalinha, pelo teu bom desejo. És uma criança tão formosa do corpo como da alma: Deus ha de proteger-te.
--Mas, minha boa irmã, V. Exc.abem sabe que devemos ao primo e snr. Sebastião da Mesquita, toda e qualquer satisfação que elle peça; não só pela qualidade da pessoa que é, como por ser nosso parente, e meu hospede... Talvez que essa creatura o offendesse, e...
--Um homem, como nosso primo, nunca póde dar-se por offendido pelo que lhe faça, ou diga, uma infeliz mulher... É a primeira vez, que ouço fazer distincção ao meu excellente irmão dasqualidadesdos seus convidados... V. Exc.anão se considerou, para assim fallar, o dono d'esta casa...
--De certo que não, nem podia, estando V. Exc.aaqui.
--N'esse caso, eu já dei as minhas ordens.
--V. Exc.aminha respeitavel thia e senhora, concede-me a honra de ser, no resto da noite, o cavalheiro d'essa dama?
--Agradeço-te a boa e fidalga intenção, meu presado sobrinho e snr. de Pindella. Has de vir a ser competentissimo para todas as nobres acções, assim o espero em Deus; mas és ainda muito novo para um protector.
--E para mim, prima condessa, não serão estas cans fiança sufficiente para receber a honra, que lhe pediu seu illustre sobrinho?
--A V. Exc.a, meu presado primo e snr. de Villa Pouca, que reconheço habil para tudo que seja nobremente arrojado e distincto, peço até a especial graça de conduzir, quando ella quizer, esta minha protegida á sua habitação...
--Nobres senhoras, e amaveis cavalheiros!... Penhorada em extremo pelos favores e attenções, que me dispensam, não posso deixar, comtudo, de pedir-lhes, que reformem completamente qualquer juizo menos favoravel, concebido pelo procedimento do snr. Sebastião da Mesquita... Só quem o não conheça, o poderá considerar capaz de uma acção menos nobre... Aquelle respeitavel ancião, que nem talvez ouvisse do que VV. Exc.aso accusaram, está soffrendo intimas dores, como paga da sua generosa bondade para comigo... Adoptou-me, e tratou-me como sua filha, e eu fugi repentinamente da sua vigilancia e carinho!... Procurei vir aqui, a este baile, só para vêr aquelle venerando velho, e beijar-lhe a bemfeitora mão... Queriafazel-o sem me dar a conhecer, e foi a minha teimosia em conservar o incognito, que o fez alvo de injustiças, que não merece!... De joelhos, e com a cara descoberta, lhe pede perdão de tudo esta infeliz, snr. Sebastião da Mesquita!...
--Rosa!!... Como póde conservar os sentimentos que acaba de manifestar, a mulher que... que eu não conheço!...
E Sebastião da Mesquita, assim fallando, virou as costas á donzella, retirando-se vagarosamente.
O baile continuou ainda por muito tempo, um pouco frio após estas scenas, e, para o fim, com a mesma animação do comêço.
As dôres alheias, não tolhem as festas dos felizes.
12Quando a snr.aD. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. doArco. Constou ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse dos seustamancos, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.
12Quando a snr.aD. Maria II visitou o Minho, o sr. duque de Saldanha, que fazia parte do séquito da rainha, foi hospedar-se em casa do fallecido snr. doArco. Constou ao povo, que o palacete estava custosamente adornado, e agglomerou-se á porta, para o vêr: os criados, não deixavam entrar; mas o illustre, e sempre chorado, titular, deu-lhe entrada franca, não consentindo que se despojasse dos seustamancos, embora lhe inutilizasse riquissimos tapetes.
«Correu-me a vida outr'ora delirante,Tive faceis amores, ledas glorias,Julguei-me um dia amado e outro amante,Sonhei promptas victorias,E vi, em limpo céu formoso e puro,Brilhante erguer-se o vulto do futuro.Tumulto, agitação, rumor, bulicioCompoz o meu viver.--Mas eis que um diaParo e vejo o tremendo precipicio--A vida, que vivia,Era vida ficticia e descorada...Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»(Silva Leal Junior.--Primavera.)
«Correu-me a vida outr'ora delirante,Tive faceis amores, ledas glorias,Julguei-me um dia amado e outro amante,Sonhei promptas victorias,E vi, em limpo céu formoso e puro,Brilhante erguer-se o vulto do futuro.Tumulto, agitação, rumor, bulicioCompoz o meu viver.--Mas eis que um diaParo e vejo o tremendo precipicio--A vida, que vivia,Era vida ficticia e descorada...Um pouco de sussurro--e ao cabo... o nada!»
(Silva Leal Junior.--Primavera.)
Logo que João de Lencastre chegou á falla com Sebastião da Mesquita, depois de lhe dar a rasão por que Arthur e Leopoldo o acompanhavam, e de lhe dar conta da entrega do dinheiro e onde ficara D. Maria da Gloria, occultando-lhe a parte que dizia respeito a Arthur Soares, porque este muito lhe rogara que assim procedesse,--noticiou-lhe Sebastião da Mesquita, com intimo pesar e viva inquietação, a fuga precipitada da donzella Rosa, encarregando-o de descubrir a sua paragem, e de saber os motivos que a determinaram a deixar a casa paterna, lançando sobre si indelevel estigma.
Não ficou o antigo escudeiro menos perturbado com a noticia, do que se mostrava o velho fidalgo ao dar-lh'a: preparava-se para ir procurar a donzella por toda a parte, quando um dos constantes visitadores da casa do Arco, muito fallador, e do numero de sujeitos que facilmente se relacionam com toda a gente que os quer ouvir, lhe deu, como novidade importante, a da chegada á terra de umarapariga de truz, que parecia ser defacil accesso, pela pousada que escolhera, descrêvendo-a com toda a minuciosidade.
Agradeceu João a Deus, a veia falladora d'aquelle homem, que lhe poupára muitas fadigas; e não o enganou a sua esperança, porque era effectivamente Rosa a inculcada mulher, que elle foi encontrar na casa, e na occasiâo, descripta no capitulo--«Babel de Sabios.»
Depois que João conseguira fazer retirar ospetisqueirosadoradores de Rosa, e ficara só com a donzella, empregára, para a obrigar a fallar, persuasivos e sentimentaes discursos, orvalhados, por mais d'uma vez, com lagrimas de mal escondida affeição. Foi tão eloquentemente irresistivel, que a donzella confessou-lhe tudo: disse-lhe, que fugira do seu lar, e abandonára a protecção e carinho dos nobres fidalgos seus paes adoptivos, porque não podéra por mais tempo ter occulto no peito o seu affecto por Arthur Soares, affecto que d'ella se apoderára por tal arte, que só pela morte ou pela doudice podia terminar. Que sabia a existencia de um amor, igualmente invencivel, entre Arthur Soares e D. Maria da Gloria, senhora que ella amava como irmã; e que, para não prejudicar com algum irreflectido procedimento seu estes amores, resolvera fugir, e dar-se comoperdida, emboratambem estivesse resoluta na sustentação da sua virtude, mesmo no meio dos mais arriscados perigos.
João Vidal, ou de Lencastre, que a escutára com a maior attenção, depois de um longo silencio, significativo de intimas dores, disse á donzella, que não podendo deixar de ser já um facto conhecido do publico, a sua fuga e paragem n'um local de descredito, inuteis se tornavam todas as reflexões tendentes á demonstração do êrro de um tal passo; mas que elle via um meio seguro, e menos arriscado, de tudo se fazer como a donzella queria. Que pelo casamento d'ella Rosa, ficavam igualmente livres os amores de sua irmã adoptiva, não se expondo a donzella á lucta terrivel que começara; lucta que, mesmo victoriosa que d'ella sahisse, lhe havia de trazer necessariamente a perca da sua boa reputação: que elle possuia um nome, e uma pequena fortuna, e que, se podéssem esquecer os 40 annos da sua idade, no seu coração havia logar para a entrada de um sentimento sério.
Rosa, respondeu-lhe commovida, que não era digna de semelhante honra; que apreciava devidamente o seu brioso e caritativo proceder, e que lhe devia por elle o nome de irmã, com a santa amisade de um tal titulo.
Foram baldados todos os esforços, que João empregára para demover a donzella do seu proposito, e combinaram o guardar-se absoluto segredo ácerca do que entre elles se déra.
No dia seguinte ao do baile, alugou João de Lencastre uma casa, situada defronte d'aquella a que a donzella regressara; e despediu-se de Sebastião da Mesquita, dizendo-lhe que acompanhava Arthur Soaresáslinhasdo Porto, onde eram precisos braços leaes para a sustentação da causa do povo; sendo-lhe facil o convencer Arthur de que partisse sem elle, com promessa de lá ir ter, logo que podésse fazel-o; e recolheu-se secretamente á morada que alugára, para de lá espiar as acções de Rosa.
Arthur Soares, caminho do Porto, levava enluctado o coração. Sabia que era amado por D. Maria da Gloria; já se havia acostumado áquelle affecto, o unico da sua existencia; mas não podia desterrar de si o convencimento de que a fidalga lhe não podia ser dada por esposa. Era certa, e bem manifesta, a estima que lhe dava seu padrinho; mas essa estima, considerava elle mais como uma protecção das que usam conceder os nobres senhores aos que d'ella carecem, do que amisade verdadeira, que iguala e estreita os homens por laços fraternaes: possuia muitas provas do desapparecimento de affeições iguaes á que lhe concedia o fidalgo, logo que, pelo considerado e protegido, fosse ferido o orgulho de raça do protector. Pedia, pois, a Deus, que a sorte da guerra lhe désse occasião de elevar-se até poder chegar a D. Maria da Gloria, ou de fazel-o descer ao esquecimento eterno, com a gloria dos bravos por mortalha.
Leopoldo, cuja presença, na illustre casa da hospedagem commum, fôra tolerada por Sebastião da Mesquita em deferencia ás conveniencias sociaes, regressava tambem ao exercito da rainha, o grosso do qual se achava então em Coimbra, commandado pela primeira espada portugueza do nosso tempo.
Podia chamar-se um cadaver ambulante, o fidalgo militar, tal era o sombrio e estragado aspecto da sua pessoa. O soffrimento d'este desgraçado, que amavasem esperança, e que odiava por ciumes, era um severo castigo da Providencia. Caminhava para onde o chamava o dever, movido mais por um resto de brios, do que por empenho, e vontade, de servir a causa a que se devotára, depois de ter renegado a popular: n'elle só havia bem fixo, o sentimento do seu tormento intimo.
Sebastião da Mesquita, chorava com lagrimas paternaes a má sorte a que se entregára a donzella Rosa. Arrependera-se do seu arrebatamento no baile, desejára poder remedial-o, receber nos braços a donzella, perdoar-lhe a primeira leviandade, acolhel-a de novo, talvez ainda innocente e pura, e estorvar assim a quéda infallivel, e horrenda, da que elle considerára sempre como sua filha. Mas era já tarde; e o seu natural orgulho não lhe consentia desmentir, com um procedimento contradictorio, o severo porte de que usara publicamente.
Este facto, a par da violenta dôr que lhe entorpecera as forças physicas, fizera pensar Sebastião da Mesquita, com muita gravidade, no futuro de sua filha Maria da Gloria.
Por maior que seja a confiança que se deposite no caracter e virtudes de uma filha, quando vemos no caminho da perdição outra mulher, que nos é cara, lembra-nos logo a possibilidade de um desvio, e queremos remedial-o com prevenções, algumas vezes, e não poucas, com bem peiores resultados do que haveria no imaginado mal, que tentáramos evitar.
O velho fidalgo, depois de ter conferenciado com varios cavalheiros do berço da monarchia, onde se deteve pelo prostramento em que estava, escreveu a D. Maria da Gloria uma carta d'este theor:
«Minha muito presada Maria:
«O meu paternal carinho, leva-me a pensar que seja tempo de escolher-te um esposo digno de ti, que possa, na minha falta, proteger-te socialmente contra as ciladas sempre preparadas para as donzellas do teu merecimento, e do teu dote. Aqui, n'esta antiga e gloriosa terra de Guimarães, presumo eu que existe o que nos convém. Convido-te, pois, a que venhas quanto antes ter comigo, para avaliares por ti a competencia da minha escolha.
«Ainda hoje recebi carta da tua santa e respeitavel mãe, que é sempre o bom anjo do nosso lar. De certo tambem sabes, que ella está de boa saude, por que não haverá dia em que te não escreva, como á pessoa que ella mais ama.
«Recebe a benção, e uma saudade, do teu extremoso pae,
Sebastião.»
D. Maria da Gloria, embebida nos fagueiros sonhos de um futuro risonho, a que aspirava pelo seu amor a Arthur Soares, e entretida a desvanecer, com expansivas provas da sua amisade e bom juiso, os dissabores da sua discipula Anna, que todos eram a quasi certeza de não ser já amada por Leopoldo, nem por sombras podia prever a fatalidade de que estava ameaçada, com aquella ordem paterna.
O padre Alvaro, continuava a sua vida de oração e penitencia. Pastor exemplar, possuia o acrisolado amor das suas ovelhas, porque sabia praticar, para com todos, a caridade que aprendêra de Christo. Ainda assim, soffria constantemente, e muito. Havia umacampa na sua parochial egreja, ao pé da qual elle esquecia o filho idolatrado, as suas penitencias, o seu evangelico proceder, para tão sómente se recordar de que fôra peccador.
Feliz, quanto se póde ser n'este patrimonio de Eva, de todos os personagens do nosso «Conto», só era a respeitavel e bondosa matrona, D. Isabel de Abendanho, que tinha fechada a sua existencia em aldeia pacifica, e resumidas as suas ambições na direcção do seu casal, no respeito e amisade ao esposo, e no elevado amor a sua filha.
«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»(A. H.--Fragmento de um livro inedito.)
«A justiça de Deus lhe infundira no coração abundancia de remorsos, e a dos homens lhe entornava sobre a fronte amplo vaso farto de ignominia.»
(A. H.--Fragmento de um livro inedito.)
Por mais que os homens doutamente célebres de todos os seculos tenham querido collocar essa formosa e apreciavel parte do genero humano--a mulher--na altura que lhe é devida, nunca a fonte sublime do amor, a mãe e o apoio da meninice, o esteio da vida, deixou de ser conduzida por nós a todos os sacrificios: raro é o homem que se aproxima da mulher sem que a macule; e feita escrava de seus caprichos, é a deshonra e o villipendio, que lhe dá em premio!
A mulher, na sua juventude, só ambiciona o nosso amor; alinda-se para agradar-nos, e nós damos-lhe, em vez do que nos pede, a paixão material que a enlameia: consome-se, para conservar-nos, em suaidade adulta, porque nos alimenta a seus peitos, arruinando a sua belleza; e nós córamos de um pejo infame, se a maternidade não teve logar dentro de umas certas condições sociaes, que nos imprimem alegitimidade: levanta as mãos ao céu na velhice, porque a mulher é naturalmente religiosa, dedica os ultimos annos de sua vida a orar por seus paes, por seus filhos, por todos os desvalidos; e nós alcunhamol-a de impostôra e de bruxa!
Existiram semprephilosophos, escassos de comprehensão, e mal avindos com a mulher, que attribuem a esta preciosa parte da nossa existencia o vicio do sensualismo, que nos provoca. Covarde mentira!
A perversão da moral, e o desenfreamento das vis paixões, tem sido, em todos os tempos, o resultado forçoso de infinitas circumstancias, em que a mulher não toma parte.
A corrupção da Grecia, como a romana sua filha, teve origem na philosophia de Epicuro, nos mancebos que a seguiam, e não nas vilipendiadas matrônas d'aquellas nações.
Antes das torpezas de Messalina, já Cesar tinha manchado o seu thálamo imperial.
Seriam as mulheres culpadas nos crimes, que abrazaram as duas cidades nefandas, de que nos falla o Génesis?!
Corteja-se a formosura da mulher; empregam-se aleives para seduzir a incauta; fazem-se promessas mentirosas; servem todas as villezas ao nosso proposito: um, é o dilecto de seus carinhos, e consegue o seu amor; aconselha-lhe a fuga da casa paterna; cerca-a de algumas commodidades passageiras; sacia-se; desampara-a; precipita-a na profundeza da desventura;deixa-a na miseria, e no desabrigo de toda a consolação humana!
A nudez e a fome, tomam então logar juncto ao umbral solitario da infeliz!... Que lhe resta?!... Vender-se!... Pedir ao primeiro que passa, que lhe estampe na fronte o ferrete do aviltamento pelo óbulo da infamia!...
Depois, as dissoluções, a velhice prematura, a miseria e a doença!...
Depois, a enxerga da caridade!...
Depois, a valla commum do cemiterio!...
Depois, nem uma só lagrima que lhe aqueça as cinzas; nem uma só flôr no seu jazigo; ninguem que ore por ella a Deus!...
E oelegante seductor?...
Passou a fazer novasconquistas; gastou o melhor do seu vigor e da sua fortuna, em atirar com muitas irmãs na desgraça ao lado da sua primeira victima; pensou mais tarde em casar-se; escolheuconvenientemente a esposa, fez-lhe amercêdo seu nome e, para vingar-se de umaaffronta, quenão podiater o seu perdão, assassinou a mulher adultera!...............................................................
Rosa, luctava com animo viril contra as tentações de todo o genero de que se via rodeada no bordel a que voluntariamente se acolhêra. Eram-lhe, porém, já muito pesadas essas luctas desiguaes. Mais ainda que os atrevimentos e ciladas dos vadios frequentadores d'aquella casa, causavam asco á virtuosa donzella as suggestões das infelizes do seu mesmo sexo, pervertidas até ao extremo de tentarem chamar ao seu grémio as que não tinham mácula.
Principiava a entrar na alma de Rosa o arrependimentodo passo precipitado a que se abalançara. Conhecêra, ainda que tarde, a borda do precipicio em que estava, receiava pelas suas forças, e tremia de não saber como fugir-lhe.
Uma noite, foi a donzella mais atacada pelo terror: pareceu-lhe, a deshoras, ouvir estranhos rumores, fóra do seu pequeno e pessimo quarto. A pouca segurança da porta, e da fragil fechadura, augmentava o receio da donzella: apromptou luz, e vestiu-se.
O rumor aproximou-se, a porta foi violentada, e Rosa agarrada fortemente pelos pulsos:
--Não esperava esta desfórra do seumilitar, amavelvivandeira?!...
--Deixe-me... largue-me... acudam!...
--Não espante as pulgas, menina...Esta boa terra dorme toda ás nove horas, e já passa da meia noite... Só poderia esperar beneficio da minha generosidade, e eu, confesso, não tenho o fraco de generoso...
--Não realisará a malvadez que intenta, em quanto eu tiver um sôpro de vida...
--É o que vamos a vêr...
E o malvado homem empregava todas as suas forças, em dobrar a mulher, que não podéra seduzir.
Rosa, debatia-se com toda a furia e, mais que outra qualquer, resistira por muito tempo.
Quando estava proxima a matar-se ou a ser preza do infame, quebrou-se repentinamente um vidro da janella, e varanda, que dava para a rua, abriu-se a porta d'ella, e penetrou no quarto um homem, possesso da furia do leão, que descarregou sobre a cabeça do aggressor uma fortissima pancada, com o castãode um chicote de força, estendendo-o logo sem accordo de si.
--O snr. João de Lencastre!!... Oh, leve-me d'aqui!... Salve- me!... A mais forte das mulheres, cercada d'estas infamias, é impotente e fraca!... Agora o conheço!... Mas... como appareceu tanto a proposito?!...
--Habito aquella casa, alli defronte, e estava sempre de vigia, e preparado com uma taboa forte e larga, para lançar da minha janella á varanda d'esta casa, quando, como agora succedeu, lhe fosse necessaria a protecção de... seu irmão, senhora...
--Que nobre alma a sua, João!... Vamos... deixemos este inferno, e em sua casa combinaremos o que deva fazer-se...