«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.»(A. Herculano--Eurico.)
«O homem debatia-se ahi nas vascas da morte, e o sol passava involto na sua gloria sem corar das angustias d'aquelles, que em seu ridiculo orgulho se chamavam monarchas e conquistadores do mundo; sem lhe importar se os vermes vestidos de ferro, chamados guerreiros, se despedaçavam uns aos outros com o delirio insensato das viboras no momento dos seus amorosos ardores.»
(A. Herculano--Eurico.)
Em Porto Manso, logar situado pouco abaixo das Caldas de Arego, no dia 19 de Novembro de 1846--o seguinte áquelle das scenas descriptas no capitulo precedente--estavam postados á margem do rio Douro, em fortes posições, uns quinhentos homens commandados pelo aventureiro general Mac-Donnell, espreitando a passagem rio abaixo de um bravo, mutilado e honradissimo militar do tempo do cêrco, que servia ás ordens da junta, e que recolhia, com a força de seu commando, á invicta cidade do Porto.
Desprevenido da cilada, soffreu o liberal guerreiro de muitas e bem feridas batalhas, um vivissimofogo de fuzilaria, despejado sobre as suas tropas embarcadas, pela emboscada guerrilha.
Travou-se combate.
No mais vivo da peleja, dirige-o um cavalleiro o seu corcel a toda a brida em direcção onde se achava o general da guerrilha, e segredou-lhe:
--General! Não é d'este modo que se batem os defensores de uma causa justa e sancta. Esta espera traiçoeira a uma força que nos não aggride nem mesmo podemos ter como inimiga declarada--é procedimento condemnado pelos bons estimulos, por todas as regras, e pelo decoro da briosa carreira militar. Se não manda já cessar o fogo, e tocar a retirar, retiro-me eu immediatamente.
--Faça o que lhe aprouver fazer, snr. Sebastião da Mesquita, que eu não desisto do meu empenho em aprisionar omanêta.
--Não o conseguirá. A Providencia, que muitas vezes parece dormir, é sempre protectora dos opprimidos. Recolho a minha casa, general, e não creio que nos tornemos a encontrar.
Verificou-se o vaticinio do nobre fidalgo.
Poucas horas depois d'aquelle curto dialogo, retirava a guerrilha de Mac-Donnell em completa debandada, deixando no campo do combate 17 mortos e 9 prisioneiros, escapando com difficuldade de ser tambem aprisionado o seu aventureiro commandante.
Quando Sebastião da Mesquita, acompanhado do seu fiel escudeiro João Vidal, seguia caminho de sua casa, viu ao largo, caminhando em direcção a elle, uma cavalgada que, sem atinar com o motivo, lhe fez profunda sensação. Ao aproximarem-se os dous grupos de cavalleiros, não pôde suster o velho fidalgouma exclamação de espanto, reconhecendo sua mulher, o reitor, Arthur Soares e todos os seus criados. Apeiaram-se silenciosos. Era um descampado o sitio do encontro. D. Isabel abraçára seu marido, debulhada em lagrimas. Todos os rostos exprimiam a mais profunda tristeza. Houve um longo e doloroso silencio. Sebastião da Mesquita interrogou sua mulher com um olhar, que D. Isabel comprehendeu e revelou ao inquieto esposo o attentado do seu palacio, e as suas consequencias, sem esquecer a mais pequena circumstancia do occorrido. O velho ficára por instantes como fulminado. Quando pôde fallar, disse á esposa:
--Isabel! Acabas de dar-me, com a má nova, mais uma prova do quanto és digna do meu affecto. Procedeste como honrada mulher que és. O que resta a fazer, compete-me a mim, e crê que Deus me ha-de conservar a vida para a desfórra. As nossas filhas--chamo assim a todas--se não morrerem, hão-de voltar com honra ao nosso poder. A educação e o sangue, são, n'estes casos, melhores guardas do que o mais poderoso exercito. Socega.--Padre Alvaro, póde voltar a pastorear o seu rebanho. Não lhe agradeço o que fez, porque a verdadeira amisade vexa-se com agradecimentos.--Arthur Soares, sei lêr nos seus olhos a sua vontade e por isso lhe digo que militará desde hoje ao lado de seu padrinho. Faço-me coronel ou general, e dou-lhe o posto de meu ajudante...
--E para mim, snr. Sebastião da Mesquita,--interrompeu o velho reitor--reclamo o de padre capellão do seu regimento e, se fôr indeferida a minha pretenção, como estamos em tempos anormaes, despacho-mea mim mesmo, e sigo-o, ainda contra vontade de v. exc.a. As minhas ovelhas ficaram entregues a um bom pastor, que eu previra a demora da snr.aD. Isabel, e comprehendi que o meu dever era não me apartar um só instante da nobre senhora, que me honrara procurando o abrigo do meu tecto. Não tente demover-me d'este proposito, snr. Sebastião da Mesquita, que deve conhecer a mágua que a reluctancia de v. exc.ame causava.
--Obrigado, padre Alvaro. Seja como quer, que deve ser como Deus manda.
Durante o tempo que durou este encontro, explicações e pactos, foram-se agglomerando em volta do grupo os guerrilhas que vinham fugidos do combate, e que haviam reconhecido em Sebastião da Mesquita o ajudante do generalinglez, como elles chamavam a Mac-Donnell.
O velho fidalgo perguntou-lhes se queriam continuar a militar sob o commando d'elle, proposta que todos receberam com exclamações da mais expansiva alegria. Dentro em pouco reuniu o ex-ajudante, ou antes conselheiro, do aventureiro general, debaixo do seu commando, quasi toda a força de que Mac-Donnell dispunha antes do combate.
Dispoz Sebastião da Mesquita em acção de guerra toda a sua tropa, e proclamou-lhe a conveniencia de uma rigorosa disciplina, declarando-se-lhe intransigivel e inimiamente severo para qualquer infracção.
Estavam já em disposições de marcha, para pernoitarem na mais proxima povoação, quando o novo commandante viu aproximar-se-lhe um official a cavallo, que chegára alli á desfilada.
Déra a tropa caminho ao recem-vindo, por não haver que temer de um só homem, e pelo instincto de que havia utilidade n'aquella apparição. A um signal do esbaforido official, mandou Sebastião da Mesquita fazer campo, em que ficaram um tanto isolados da força o recem-chegado, elle e a familia.
Não cabe nas forças de um escriptor do nosso pulso, pintar satisfactoriamente as gratas impressões e o delirante contentamento de todos, ao reconhecerem, n'aquelle supposto mensageiro, a intrépida Rosa!
Fôra o caso, que chegando Leopoldo com as tres roubadas donzellas ao Bom Jesus do Monte, dos arrabaldes de Braga, e recolhendo-as á hospedaria, teve Rosa artes para communicar, por uma varanda, com o quarto immediato ao que em prisão lhe fôra dado, onde a sorte quiz que houvesse um completo fardamento de official ajustado ao corpo da nossa heroina. Conceber o seu plano, despojar-se dos feminis vestidos, substituil-os pela farda, descer á cavallariça, ordenar em tom positivo ao curador que apparelhasse o seu cavallo, montal-o e fugir--foram tudo actos tão seguidos e repentinos, quanto vigorosa e ardida era a vontade da donzella!
Contou Rosa a historia da sua fuga com as variantes e variadas peripecias a que forçosamente havia de sujeital-a a sua inexperiencia, narrou os succedimentos que da liteira poude presencear após os raptos, e foi no fim abraçada por todos com frenetico enthusiasmo.
No rosto de Arthur Soares, ao reconhecer Rosa, havia transparecido um raio de alegria, que foi de novo sumido nas trevas da sua profunda tristeza, mal que terminára a narrativa.
--Esta, já está salva! e hade ser o primeiro mobil da salvação das outras nossas filhas, Isabel!--Disse Sebastião da Mesquita, cheio do jubilo que em taes circumstancias podia abrigar no peito.
«Amoré a palavra, o brado eternoSolto por Deus ao vêr já feito o mundo,Que fez tremer as abobodas do infernoE o sol ficou da côr d'um moribundo:A primavera, estio, outomno, inverno,Terra, céu, alma pura, bicho immundo,Tudo ahi cabe á larga de tal modoQue n'essa concha Deus se fecha todo.»(João de Deus--Flores do campo.)
(João de Deus--Flores do campo.)
Á margem de uma estrada que serve de transito entre Vianna e a praça de Valença no alto Minho, em aprasivel e pittoresca posição, olhando as viçosas e celebradas cercanias do nosso poetico Lima,--está situado um sumptuoso palacio com suas suberbas fachadas das ordens Toscana e Dorica, esta decorando a frente principal, e aquella a do primeiro jardim, como tambem as suas respectivas torres ou pavilhões.
A escada principal d'este edificio, rivalisa com a do palacio episcopal da cidade do Porto.
A capella ostenta um elegante zimborio e grande profuzão de maravilhosos ornatos. Os seus aprasiveisparques e bellissimos jardins, com magnificas e espaçosas ruas, tornam aquella vivenda verdadeiramente encantadora. O interior corresponde ao exterior, se não o excede, na vastidão, luxo, e boa ordem com que está decorado.4
Fôra para aquelle paraiso, que o sr. Leopoldo de Lencastre fizera conduzir D. Maria e a sua discipula Anna, conservando-as separadas, ignorando a existencia ali uma da outra, e na maior vigilancia, para evitar outra fuga como a de Rosa.
Viviam as duas donzellas n'aquelle privado carcere rodeadas do mais asiatico luxo, e como feudaes princezas a que, no exilio, fosse concedido o eden por homenagem.
Anna facilmente se coadunára com a nova e extraordinaria existencia a que fôra levada pelo crime, por que--já o sabe o leitor--no seio de sua virginal pureza despontára um sentimento a ella desconhecido, de que o seu roubador fôra alvo, e que devia leval-a a debater-se na labareda que elle fórma, ou a consumir-se nas cinzas que essa mythologica chamma,denominada amor, conserva eternamente nos corações martyrisados pela voz do dever e da consciencia.
Outro era o estado de D. Maria da Gloria. A convivencia desde o berço com Arthur Soares, o cotejo que muitas vezes, e insensivelmente, fizera das qualidades moraes do sobrinho do reitor com os de mais frequentadores do seu solar--o que sempre dava em resultado innumeras vantagens para aquelle--e, sobre tudo, esse mysterioso aquecer do sangue ao girar perto de nós em natural fluido o de alguem que o bafeja, e essa constante e seductora visão da alma semelhante á nossa em corpo da nossa sympathia,--haviam sido outros tantos estimulos a conduzirem a fidalga moça á posse de um reservado e verdadeiro affecto por Arthur Soares, que ella julgava poder sempre ter sepultado no fundo do coração, em respeito ao culto da nobreza que herdára e que lhe fôra inoculado ao entrar na vida pelos seus educadores, reserva esta já trahida n'outra crise, e que d'esta vez corria gravissimo risco de acabar completamente. N'este estado, fôra-lhe tyrannico, sobre ser infamissimo, o cobarde e violento procedimento do fidalgo primo.
Leopoldo, estava apanhado na sua propria rêde. Levado por maus instinctos, e por sêde de vingança, premeditou e levou á execução, sem ao menos preceder o circumspecto exame da maldade precavida, o arrojado e perigoso projecto de roubar as donzellas. A primeira contrariedade soffreu-a elle immediatamente com a fuga de Rosa, á qual votava entranhado rancor, e anciava humilhar cruelmente, e abortára-lhe esse prazer. A segunda quebra dos seus devaneios veiu-lhe com a nimia facilidade que encontrou em sujeitar a timida e docil Anna a todos os seus caprichos, desfazendo-se-lhed'este modo, como fatua bolha de sabão, um mal definido e peior agasalhado sentimento que, por aquella rapariga, lhe parecia a elle ter no peito.
Muitas d'estas velleidades, cunha a sociedade com o pomposo nome de amor, confundindo o appetecido contacto das epidermes com esse sentimento moral que subjuga o homem, que é o principio creador de todos os seus heroismos, que é a razão, o genio, a harmonia, o acto supremo da alma, a inspiração de Deus!...
O terceiro e o mais fatal de todos os castigos de Leopoldo cahira sobre o coração do desgraçado em frecha envenenada, que já começava a tolher-lhe as funcções moraes e o vital respiro da sua vida physica: amava o infeliz, sem bem o saber ainda, e amava D. Maria da Gloria!
Que terrivel lucta!
Fascinado a seu pesar pela belleza da fidalga prima e pelo seu nobre orgulho, abatido pelo desprezo que sentia merecer á sua victima, dominado pelas rijas impressões a que vivem subordinadas as paixões humanas, louco de furor pela certeza de existir um rival, um miseravel peão, preferido no coração do seu idolo, e sem poder, pelo seu caracter, elevar-se, no infortunio e no martyrio, á sublime condição dos espiritos privilegiados que o idealismo purifica--tormentos eram estes que a Providencia destinou a Leopoldo com o seu amor por Maria!
Achava-se o voluntario capitão das tropas da rainha fazendo parte de uma força militar que então occupava Vianna do Castello. Dispozéra tudo de modo a ter segurança na forçada posse das donzellas, que visitava sempre que podia, ignorando as encarceradasas repetidas ausencias a que era obrigado o seu fidalgo carcereiro.
Entremos com Leopoldo, chegado de Vianna, no palacio encantado, que elle escolhera deslumbrante no intento de maravilhar D. Maria da Gloria.
Acabava de anoitecer: penetrou o elegante fidalgo na parte da casa destinada aos seus cómmodos, e, sem descançar um só instante da fadiga da jornada, attendeu desde logo ao esmero e atavios da sua pessoa e vestuario, como se tivera de comparecer n'um baile de côrte. Assim disposto, tomou direcção dos aposentos de D. Maria da Gloria. Na ante-sala proxima d'aquella em que estava recolhida a fidalga moça, sentiu-se Leopoldo repentinamente assaltado de um mau-estar, d'uma fraqueza, d'uma indecisão e de uns receios taes, que o levaram a tomar assento n'uma poltrona que, do acaso, ficava fronteira de um riquissimo espelho. Ao vêr copiado no preparado vidro o seu transtornado aspecto, mudou Leopoldo de tenção, e dirigiu-se com paços ainda mal seguros para a parte do palacio, occupada pela docil Anna.
Deixemos sem testimunhas os faceis protestos do mentido amor, proferidos sobre-posse, áquella que já não podia nem sabia regeital-os, pelo homem que a seduzira e arrebatara, e entremos no salão em que D. Maria da Gloria gemia saudades e nutria, a par de sublimes affectos, esperança de proxima salvação:--as paredes estavam forradas de setim verde; as janellas todas adornadas de custosas cortinas de côres branca e amarella; os reposteiros eram de damasco encarnado com os cordões e as borlas de fio de prata, e os moveis todos de pau preto almofadadosde setim branco. Se uma dama de caprichosa imperatriz tivera sido a encarregada de dispôr, alli como em todas as salas do aposento de D. Maria, e collocar em ordem essas infindas e minuciosas commodidades de uma senhora de régia estirpe,--não deslumbraria mais aquelle recinto. Lá dentro, era D. Maria senhora absoluta, obedecida por aias e criados ao mais leve aceno, sem que aquellas e estes deixassem de ser outros tantos vigias e guardas de seus movimentos e acções. Os grilhões, eram com effeito de ouro do mais subido quilate.
Estava a joven captiva a uma das janellas, olhando pela milesima vez os arrebatadores jardins d'aquelle palacio, quando sentiu cahir a seus pés um objecto arremessado de fóra, que se apressou a apanhar. Desfez o embrulho, e encontrou um punhal acompanhado de um papel escripto d'este modo:
«Ha mais de sessenta dias que apenas vivo para a vingança, cogitada de instante a instante no meio de torturas espirituaes que dementam!
«Descobri finalmente este infernal paraiso que a retem. Queria ser eu sósinho o salvador de v. exc.a, mas as cautelas tomadas pelo infame obrigam-me a metter na melindrosa empresa o snr. Sebastião da Mesquita.
«Esse estylete é inutil nas minhas mãos e póde convir nas de v. exc.a. Para a desaffronta dum homem, não deve servir a arma que se esconde em bolço falso como o sicario nas trevas da noite. A senhora D. Maria da Gloria comprehenderá melhor do que eu como póde fazer entrega do vil instrumento no malvado que o sabe usar.
«Está a soar a ultima hora do captiveiro. Creio em v. exc.acomo creio em Deus.
«Arthur».
Ao terminar a leitura do bilhete de Arthur Soares, que enchera de felicidade a D. Maria, correu-se um reposteiro e entrou na sala o fidalgo Leopoldo. Ao sentil-o, tomou a donzella, junto do fogão que ardia na sala, uma attitude de rainha quando concede audiencia aos seus subditos. Vira Leopoldo o papel nas mãos de sua prima, e a suspeita dera-lhe animo para fallar:
--Vejo que a minha nobre prima tem por estes sitios correio amoroso!... Poderei ter a honra de saber o conteudo n'esse papel?
Por unica resposta lançou D. Maria o bilhete á chamma do fogão.
--Continua a ser cruel, senhora, e eu submisso sempre! Vê como o amor torna os homens bons e generosos? Qual de nós é o captivo?...
--Infame!...
--Sempre esse burguez adjectivo! E porque sou eu infame?! Pois se o amor governa o mundo, podem-se por ventura impor deveres aos impulsos da alma?!... Solte a minha nobre prima uma palavra de esperança, e verá transtornado em manso cordeiro aquelle que imaginou ser um feroz tigre... O sentimento verdadeiramente moral que me domina, é sincero e augusto... Nasceu subitamente e nem por isso é possivel a sua cura... Conheço, desde que a avalio, toda a grandeza, todo o poder, toda a irresistivel força dos seus naturaes encantos, toda a magnitude da sua nobilissima alma... Amo-a e soffro muito, minha prima, tendo para mim este sofrimento naconta do maior prazer!... Adoro-a até no seu despreso por mim!...
--Infame!...
--É muito, senhora!... Não será prudencia abusar d'esse modo de uma paixão que deve conhecer verdadeira, e que é capaz das maiores virtudes como dos mais negros crimes... A par d'esta loucura que faz escorregar para o mais medonho precipicio, ou que nos salva d'elle, todas as differentes paixões da vida são uns simples brinquedos... Fechado na sua formosa mão, tem a minha nobre prima o meu destino e o de todos os seus... Até lá está tambem o esquecimento para dous homens que me fizeram ultrages, que só o amor tem o poder de perdoar... Abra essa mão, senhora, que em abril-a desponta-lhe a felicidade... Serei um escravo humilde da sua mais caprichosa opinião... Domarei todos os instinctos, todos os appetites, todas as tendencias que possam ir de encontro aos seus desejos... Somos ambos poderosos, somos fidalgos, somos parentes... A nossa união não póde ter obstaculos legaes e, que os tivéra, todos eu saberia dissipar pela força d'este amor que é a minha vida, ou que hade ser a minha morte... Quer sahir d'esta casa? Quer levar em sua companhia as suas discipulas? Quer um cortejo de princeza para acompanhal-a, em que eu serei o ultimo de seus servos?... Pois basta, para tudo isto se fazer immediatamente, que a minha nobre prima me dê uma simples palavra, uma singela esperança...
--Infame!...
--Oh! que é de mais!...
N'esta altura da entrevista, e quando talvez Leopoldo estivesse para ceder á violencia da sua paixãoatrozmente insultada pelo sangue frio da nossa heroina, sentiram-se palmas cadenciadas, e tres vezes repetidas, na proxima ante-sala. Ao ouvir aquelle signal, de certo convencionado por elle, retirou-se precipitadamente o infeliz capitão, o senhor d'aquella casa, e por sem duvida o mais infeliz dos seus habitadores.
O chamamento fôra a communicar-lhe a urgencia de acudir a Vianna, para recolher com toda a força militar ao Castello, d'onde o commandante resolvera resistir a numerosas forças do exercito da junta do Porto, que se aproximavam, e do povo, que se reunia para as coadjuvar. Recebida a ordem, quasi com indifferença, voltou Leopoldo á presença de D. Maria, para lhe dizer com voz pausada e debil:
--Senhora!... Retiro-me por algum tempo d'esta casa, na qual V. Exc.afica substituindo o meu poder. Conservo as ordens dadas aos meus criados, e servos de V. Exc.apara a guardarem com profundo respeito, mas altero-as ordenando-lhes, que não resistam a qualquer força que tente libertar a minha nobre prima... É possivel que seja esta a ultima vez em que a minha presença lhe provoque esse invencivel tédio... Estemalvado, que podia ter colhido com novas violencias os fructos a que pareceu mirar pela primeira imprudencia, pede-lhe o seu perdão comlagrimasde sincero arrependimento...
--Lave com ellas os pés de meu honrado e nobre pae, que deve ser o primeiro, senão o unico, a perdoar-lhe os desvarios... Agora que o considero inutil como defeza da minha honra, porque acredito nos seus remorsos, tome conta d'esse punhal, que lhe pertence, e que nunca deveria ter servido nas emprezas a que está vesado.
E com magestoso porte, atirou D. Maria ao meio da sala a arma villã.
Leopoldo, depois de alguns momentos de recolhimento, que lhe valeram seculos de indiscriptivel soffrimento, agitou o cordão de uma campainha e esperou o resultado d'esta sua acção. Appareceu um escudeiro, vestido na mais rigorosa etiqueta, que aguardou silencioso as ordens de seu amo.
--Pegue n'aquelle punhal, vista-lhe o cabo com um panno preto, e pendure-o á cabeceira do meu leito... Quem de hora ávante dá ordens n'esta casa é minha prima e senhora D. Maria da Gloria. Faça-o saber a todos os seus companheiros. Póde retirar-se.
Sahiu o escudeiro e Leopoldo ficou immovel e calado por alguns minutos. Depois, como se após intima lucta se fizesse luz no seu espirito, levantou repentinamente a fronte, encarou a donzella, d'esta vez sem acanhamento, e disse-lhe:
--Sou... serei um infame! mas um infame que a ama como V. Exc.anunca por outrem será amada, juro-lh'o!... Adeus, senhora D. Maria da Gloria!...
Ao retirar-se o attribulado mancebo, proferiu D. Maria, como para só d'ella serem ouvidas, estas significativas palavas:--«Ao menos foi uma hora verdadeiro fidalgo...» D'aqui a levar a sua clemencia ao ponto de perdoar ao primo os insultos que d'elle recebera, havia só a transpôr a barreira de Arthur Soares, que ella não queria nem podia vencer!
4Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços, fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, como n'outras descripções e nomes proprios d'este nossoconto, na parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas determinadas.
4Existe com effeito, dous kilometros e meio ao sul da villa de Monção no alto Minho, o edificio de que tiramos alguns traços, fundado em 1806 pelo commendador Luiz Pereira Velho de Moscoso. Diz o snr. A. A. Teixeira de Vasconcellos, nas notas do seu bello romance--«A Ermida de Castromino»--que aquella casa, chamada da Berjoeira, é de risco semelhante ao do palacio da Ajuda. N'esta, como n'outras descripções e nomes proprios d'este nossoconto, na parte romantica, não ha allusões a logares certos ou pessoas determinadas.
«O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»(Fr. A. das Chagas--C. espirituaes.)
«O mundo que nos tira até o que Deus nos deu, que nos não póde dar o que Deus nos tirou, que não tem bem que dure nem cousa que permaneça,--que cultos merece? que estimações se lhe devem?»
(Fr. A. das Chagas--C. espirituaes.)
Entreteve Sebastião da Mesquita a gente do seu commando, em marchas vagarosas, e por logares desoccupados de outras forças, porque era seu unico fito perseguir o insultador da sua familia, para libertar as donzellas raptadas; e não podéra seguir-lhe a pista com a ligeireza que requeria a sua anciedade paternal, por estar todo o Minho revolucionado, e pejado de tropas dos tres partidos em guerra. Em um dos seus forçados estacionamentos, teve Sebastião da Mesquita occasião de prestar um relevante serviço ao respeitavel ancião que por aquella epocha era arcebispo de Braga.
Depois da terrivel mortandade que um general das tropas da rainha, em ataque ás forças realistas,mandara fazer na manhã do memoravel dia vinte de dezembro de 1846 nas ruas da cidade de Braga, que ficaram juncadas com cerca de quatrocentos cadaveres!--fizera o mesmo general, ingloria e tristemente vencedor, intimar o venerando prelado da diocese bracarense para o acompanhar na sua marcha.5Aterrado o bondoso padre por aquella inqualificavel violencia, após o luctuoso espectaculo que a precedera, fugira em direcção a uma das suas quintas das cercanias de Coimbra, fuga em que fôra auxiliado pela pessoa de Sebastião da Mesquita, e pela sua gente, tendo antes os dois velhos passado algumas horas em secreta e intima conferencia.
Havia-se operado em Arthur Soares uma completa transformação: o seu physico, como reflexo do soffrimento moral, alterou-se ao ponto de não parecer o mesmo homem; para o que tambem muito concorrera a repentina mudança de habitos. Os raptos das donzellas, por elle moralisados sob as indeleveisimpressões d'aquella noite de luar, em que D. Maria da Gloria levantara uma nêsga do véu que lhe cobria o coração, eram por elle vistos como offensas directas de um rival abjecto. A sua alma sempre aberta a todos os sentimentos generosos, estava quasi entregue ao odio e á vingança. Sabia elle, porque desde infante o escutara diariamente ao padre Alvaro, que a religião manda perdoar, e que a doutrina da egreja quer que se recebam as humilhações em justa expiação das faltas commettidas; mas tambem não ignorava que, algumas vezes, sob as proprias vestes sacerdotaes, se encobrem violentas e desapiedadas cóleras. A sua razão, um pouco obscurecida pelas dôres, fluctuava, pois, á mercê das paixões mundanas; e de pouco proveito lhe eram os prudentes conselhos que a todo o momento lhe estava dando o padre Alvaro, inquieto com os estragos do corpo, e da alma, que elle via estampados nas faces de Arthur Soares.
Eram constantes da parte do apaixonado manceboas deserções do seu arraial, das quaes nenhum caso parecia fazer Sebastião da Mesquita, porque possuia a quasi certeza da razão que as promovia.
A intrepida Rosa, com permissão do velho fidalgo, continuava usando do seu uniforme salvador, e a ser tida pelos estranhos á familia por um elegante e joven official. Calculadamente se affastava o mais que podia de Arthur Soares, sem deixar de notar as suas desapparições, e de as commentar mentalmente.
Chegara Sebastião da Mesquita com a força de seu commando ás alturas de Vianna, e fôra alli obrigado, conjunctamente com o povo, e a tropa da junta, a sitiar o castello, onde estavam refugiados muitos empregados publicos do partido do paço, e os militares de que fazia parte Leopoldo de Lencastre. Não se viu grandemente contrariado Sebastião da Mesquita, em ser levado ao extremo de batalhar, porque já lhe era um tanto sympathica a causa popular, principalmente pelos factos de Leopoldo pertencer ao partido da rainha, e da maior parte dos chefes dos bandos realistas, depois da morte de Mac-Donnell,6se terem reunido ao exercito da junta do Porto.
N'um dos intervallos do assédio, recebeu Sebastião da Mesquita da bocca de Arthur Soares a boanova de ter descoberto o carcere das donzellas, que elle julgava ainda guardado pelo raptor em pessoa. Reuniu o velho fidalgo a toda a pressa o maior numero da sua gente em disponibilidade e, acompanhado tambem por toda a sua familia, voou a libertar as filhas.
Chegados que foram ás portas do palacio, e tudo disposto para n'elle entrarem á viva força, viu Sebastião da Mesquita, com espanto seu, ser-lhes a entrada franqueada. Tremeu o valente do receio de já não encontrar alli a quem buscava, e só recuperou o perdido animo quando susteve em seus braços a D. Maria da Gloria, e viu a seus pés banhada em pranto a seduzida Anna.
Foram expansivas, como natural era que o fossem, as demonstrações de regosijo intimo, em todos os membros d'aquella nobre familia, alfim de novo reunida.
Depois de ter dado o necessario tempo ás largas do contentamento de todos, dirigiu Sebastião da Mesquita a palavra a D. Maria da Gloria, n'estes termos:
--Maria!... Podes continuar a viver na companhia de teus paes?...
--Essa pergunta, meu presadissimo pae e senhor, devia V. Exc.afazel-a ao meu cadaver...--respondeu com firmeza a nossa heroina.
--Muito obrigado, Maria! Paguem-te estas lagrimas do mais puro amor, a nobreza e honradez da tua resposta!...
Ao passo que o pae assim fallava, cobria a moça fidalga de beijos e caricias maternaes, a respeitavel matrona D. Isabel de Abendanho.
--E tu, Anna, foste da mesma sorte feliz?
A timida interrogada, ficou silenciosa e interdicta...
O velho fidalgo, tomado instantaneamente de uma pallidez assustadora, alçou assim a voz:
--Padre Alvaro! Disponha immediatamente a capella d'esta casa, para uma solemne ceremonia religiosa.--Snr. Arthur Soares, dê busca a todo o edificio e traga-me já aqui o infame possuidor d'este lupanar!--Anna!.. Prepare-se para o mais serio acto da sua vida, com a coragem que lhe faltou para resistir á seducção!...
Apressaram-se todos a cumprirem as ordens dadas, que bem de conhecer era o não admittirem réplicas.
N'esta situação, fôra ouvido ao longe da estrada, que passava em frente do palacio, um extraordinario bulicio.
O pae de D. Maria da Gloria, mandou ao unico official de ordens que alli tinha--a metamorphoseada Rosa--que fosse reconhecer o barulho, e aguardou impaciente a chegada de Arthur Soares.
Caminhavam pela estrada de Vianna, cujo castello acabava de cahir em poder das forças populares, em direcção á praça de Valença, os prisioneiros de guerra, guardados por duzentas praças de linha e cercados de immenso povo, que pedia em altos gritos a morte dos empregados publicos, e de toda a guarnição prisioneira. Arduo trabalho havia tido a força conductora, para salvar até alli da sanha popular os que foram entregues ao seu brio e que, maneatados, só deviam pertencer ao poder das leis.
A custo se introduzira Rosa entre as fileiras da tropa, e conseguira, com a interferencia de um tenenteque folgara de ter occasião de subtrair ao povo uma victima, soltar um dos officiaes prisioneiros, e trazel-o pelo braço fóra do alcance da furia popular:--era Leopoldo de Lencastre.
--Temos contas a saldar, snr. capitão, e será o seu formoso palacio o logar do ajuste.
--Conheci-a logo no seu disfarce, snr.aRosa, e a minha cobardia, se m'o concede, não é de tal quilate que me leve a bater-me com... o snr. tenente...
--Em sua casa será obrigado a entrar no repto.
E caminhando sempre, sem troca de mais palavras, deram entrada no salão, onde Sebastião da Mesquita acabava de ouvir, enfurecido, o ephemero resultado da busca a que procedera Arthur Soares.
--A proposito chega e condignamente conduzido é o villão ao seu prostibulo... Ajoelhe immediatamente aos pés d'aquella mulher, e peça-lhe a honra de ser sua esposa...
--Mas... snr. Sebastião da Mesquita... um fidalgo...
--Que serodios e infames brios!... É fidalga, é bem mais nobre do que o canalha que lhe cuspiu a vergonha, aquella que eu o obrigo a receber por sua mulher legitima.
--N'esse caso... se V. Exc.ame affiança...
--Sebastião da Mesquita, snr. Lencastre degenerado, poderia ser levado a transpor as fornalhas do inferno, mas nunca a manchar a sua honra com a mentira... Para a capella, senhores!...
O nosso velho heroe, não querendo consentir, em nenhum caso, no casamento do perverso Leopoldo com D. Maria, e prevendo com acertado raciocinioque a docil Anna teria a fraqueza de se deixar vencer pela seducção, alcançára, na conferencia com o arcebispo de Braga, licença, em fórma, de qualquer padre, e em qualquer sanctuario, poder realisar o sagrado enlace que ia ter logar na capella d'aquelle palacio.
Finda a religiosa ceremonia, durante a qual esteve a capella repleta de muitos curiosos e de alguns devotos, cresceu de ponto o tumulto da estrada. Sebastião da Mesquita, que já alli se julgava desnecessario, sahiu á rua, e tentou pôr um dique ao excesso do povo. Foi impotente, d'esta vez, a sua respeitavel palavra.
O leão popular, mostrava-se indomito, e cruel. A facilidade que via no triumpho, aguçava-lhe o appetite de sangue. Os infelizes prisioneiros estavam prestes a cahir-lhes nas garras, das quaes só em pedaços sahiriam!
De repente, principia a turba a desbarretar-se, atirando com os joelhos para o solo!... Ficaram só de pé os prisioneiros e a força que os guardava. Estava domado o leão!..
Por quem?...
Por um velho, de negras mas sagradas roupagens, do mais humilde aspecto, da mais inoffensiva attitude!... Pelo padre Alvaro, que se arrastara até ao cume de um penêdo--d'onde era visto por todos--e que trémulo e silencioso, por lhe embargar a voz a commoção, alçara ao alto da veneranda cabeça um crucifixo com a imagem do Redemptor do mundo...7
Os presos foram recolhidos e agasalhados sem a menor resistencia popular, no palacio de Leopoldo.
O povo dispersou, a estas enthusiasticas vozes de Sebastião da Mesquita:
«Salvè! religioso e bom povo portuguez, salvè!...»
5O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia daintimaçãoe da retirada do exc.moarcebispo primaz.Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem, pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes, foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do Evangelho--Fili, peccasti; non adjicias iterum.«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría as victimas para as immolar?«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da Europa.«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no funccionario como achamos no individuo.«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)6Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo» de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»7Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo povo o castello de Vianna.
5O periodico «Estrella do Norte» publicou a noticia daintimaçãoe da retirada do exc.moarcebispo primaz.
Temos á vista vários jornaes d'aquella epocha calamitosa, que fazem, pela desenvoltura da linguagem e calúmnias que semearam, corar de pejo todos aquelles que saibam presar a dignidade da imprensa, e comprehender a sua nobre missão. Um dos mais repugnantes por certo, foi aquelle que se denominou--«Popular».--O melhor correctivo que, em seguida, podiam ter as suas atrevidas e mentirosas apostrophes, foi-lhe dado pelo primeiro jornalista portuguez n'estas honrosas verdades: «O jornalista é o sacerdote d'uma religião, d'uma crença social--expõe a sua doutrina, discute, convence ou é convencido. A sua alma deve respirar sempre amor, o seu apostolado é um apostolado de paz. Se o seu irmão pecca, deve dizer-lhe como o sacerdote do Evangelho--Fili, peccasti; non adjicias iterum.
«Para que é incitar o povo a que entre no palacio dos nossos reis e pratique ahi acções de canibaes? Que civilisaçâo é esta que injuría as victimas para as immolar?
«Não ha rainha mais virtuosa do que a nossa como esposa, nem como mãe de familias. A sua casa póde servir de exemplo a todas da Europa.
«Apraz-nos fazer esta justiça. Assim podessemos achar que louvar no funccionario como achamos no individuo.
«Por isso é que a nossa voz se levanta contra uma imputação injuriosa e falsa.--A moral respeita-se no adversario como no amigo.» («O Espectro» de 26 de Fevereiro de 1847.)
6Aquelle infeliz aventureiro, abandonado pelo partido que levara á rebellião, e apenas seguido de uns cem homens, foi morto por um sargento de cavallaria das forças da rainha. O «Diario do Governo» de 5 de Fevereiro de 1847, noticiando a morte de Mac-Donnell, diz assim: «A identidade da pessoa de Mac-Donnell foi reconhecida por diversas pessoas, e d'esta circumstancia se lavrou auto judicial.»
7Este facto, teve effectivamente logar quando foi tomado pelo povo o castello de Vianna.
«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»(Chron. de Cister.)
«Eu pintarei o caso com côres bem crimes.»
(Chron. de Cister.)
«Ai do viandante que não vê caminho!ai do mesquinho sem a luz da fé!ai! que, na falta d'um amor sublime,triumfa o crime, do ludibrio ao pé!(T. Ribeiro--Sons que passam.)
«Ai do viandante que não vê caminho!ai do mesquinho sem a luz da fé!ai! que, na falta d'um amor sublime,triumfa o crime, do ludibrio ao pé!
(T. Ribeiro--Sons que passam.)
Foi talvez pouco sensivel ao leitor a desapparição de João Vidal nos ultimos capitulos da primeira parte d'este livro, por que lhe traçou papel secundario no «Conto Portuguez.» A ser assim, foi-lhe infiel o trabalho de imaginação e, temos para nós que por mais vezes, no deslizar pela fiel narração do conto, hade o leitor errar seus calculos.--«Em romance ou folhetim, o verdadeiro é o menos verosímil:»--escreveu com muita propriedade, em maré de chiste, um nosso festejado folhetinista.
João Vidal, o escudeiro, fôra mandado pelo amo reconstruir o solar, em parte presa das chammas, e tractar da administração da casa. Foi elle o escolhido por Sebastião da Mesquita, pela illimitada confiançaque lhe devia, e tambem para o desviar dos logares da acção empregada no livramento das donzellas, onde a podia prejudicar o entranhado rancor do escudeiro a Leopoldo.
A resolução do velho fidalgo fazer sumir os vestigios do incendio mandado lançar pela esposa ao seu palacio, foi tomada d'accordo com D. Isabel. Louvára Sebastião da Mesquita aquella inopinada e fidalga acção, a que o desespêro da immerecida e violenta affronta condusira os brios de uma nobre senhora, que era mãe, mas facil lhe foi convencer sua mulher da sem razão de ficarem permanentes os signaes de um crime já reparado, que de mais os privava de viverem commodamente.
Não teve D. Isabel igual facilidade em destruir no seu esposo, o preconceito de que devia bater-se em duello de morte com Leopoldo: foi preciso o auxilio de D. Maria da Gloria, que teve a força de convencer seu illustre pae do respeito e das attenções com ella havidas durante o captiveiro, para conseguirem de Sebastião da Mesquita o esquecimento de tão absurda idêa, a que era levado pelo excesso da honra. E de presumir é que, mais ainda do que as boas razões dadas, imperasse no quietismo de seu animo, a certeza da partilha que tinha a esposa no que houvesse de soffrer seu marido: limitou-se, pois, o honrado velho, a varrer de si, e cortar com a sua familia, todas as relações com a mulher de Leopoldo, pelo desprêso a este votado.
Ao recolher-se com a familia á sua habitação, entregara Sebastião da Mesquita o commando da força popular a Arthur Soares, pedindo-lhe que se conservasse no alto Minho, e exercesse vigilancia sobre as acçõesintimas de Leopoldo, porque receiava haver feito uma victima da pobredonzella, que tivera em vista honrar pelo casamento com o seductor.
Algum tempo volvido, era Arthur Soares forçado pelo seu dever, a narrar, em longa carta a seu padrinho, o que podera saber pelos seus exforços habilmente empregados. Daremos ao leitor conhecimento d'um periodo daquella carta:
«Colhi a fatal certeza de que a snr.aD. Anna soffre a seu marido constantes doéstos, em alguns dos quaes é menos respeitada a boa intenção do meu nobre padrinho, e senhor, porque se atreve a dizer, queoccultas razõesdeterminaram a violencia do seu casamento com umarapariga pobre! Não se queixa a paciente; mas traz escripto na face os signaes do seu pesar, e gradual definhamento.»
Esperou Arthur, com a ancia de um verdadeiro interesse, apenas producto de sua bem formada alma, que Sebastião da Mesquita, dando o pêso devido ao que lhe havia communicado, procedesse de modo a sanar aquellas rudes e vilãs provocações de um depravado senhor á sua escrava. Os dias, porém, succediam-se na sua marcha natural--que é morosa para os que esperam e pensam, e rapida para os que gosam descuidados--sem que o velho fidalgo désse accordo de si. Admirado Arthur de um tal silencio, que lhe deu margem a mil oppostas conjecturas, não podendo duvidar da entrega em mão da sua carta, porque o portador fôra seguro, resolveu empregar os seus proprios recursos para adoçar quanto possivel a situação amarga da infeliz Anna, que lhe fôra companheira e socia nos annos e nos brinquedos infantis.Tomada a resolução, seguiu-se o emprego de meios para chegar á falla com a mulher de Leopoldo.
Entremos pela segunda vez nas casas que serviram de forçado aposento a D. Maria da Gloria. Estamos na mesma sala onde tiveram logar as scenas descriptas no capitulo--Amor. Recostada em magnifico sofá, e vestida com singela elegancia, está uma sombra d'aquella Anna, que fôra discipula muito amada de D. Maria da Gloria: a seu lado, tomou assento Arthur Soares, em uma d'essas cadeiras cujo feitio se presta a todas as commodidades e posturas de phantastico confôrto. Escutêmol-os:
--Consinta-me, snr.aD. Anna...
--Snr.aD. Anna!...
--Sim, minha senhora, é esse o tractamento que hoje se lhe deve, e não serei eu que o esqueça. V. exc.asoffre. Deixe-me aproveitar estes momentos, para bem claramente lhe dizer o que me obrigou a pedir-lhe esta audiencia. Fui encarregado pelo snr. Sebastião da Mesquita de saber se v. exc.aera feliz: Não é. Sei que o seu viver intimo não está em harmonia com as seductoras apparencias do fausto que a rodeia. Quererá v. exc.aconfiar de um leal amigo, de um companheiro de infancia, do mensageiro de seu nobre pae adoptivo, todos os pesares que a consomem?
--Infeliz, eu?!... Pois não vê o senhor Arthur Soares, como estes aposentos estão repletos de esplendor e de magnificencia?!... Não vê esta mobilia, estes adereços, esta riqueza, este luxo, esta sumptuosidade régia de que partilho?!... Eu, a misera filha de um lavrador, apenas habituada ás palhas e ao fumo da cabana paterna!... Eu, que só por favor conheciao palacio da minha querida mestra e senhora D. Maria da Gloria!... Podem por ventura ter entrada os dissabores, onde moram as preciosidades?!... Não, mil vezes não!... As estatuetas, os modelos em bronze e jaspe dos principaes monumentos da Europa, os bustos serios e caricatos de notaveis personagens do mundo civilisado, o ébano, a madre-perola, esses milhares de caprichos e de prodigios, as antiguidades, osrecocós, as reliquias de toda a arte misturadas com os feitios e labores de toda a imaginação, tudo isto que mecérca, de que me chamam dona, que me obrigam a fitar, comprehender e decorar, e que me veiu conjunctamente com a posse de um esposo letrado e nobre,--não será o gôso, a felicidade, a completa ventura?!...
--E as lagrimas, que são o epilogo da formosa descripção que fez, o que significam, senhora D. Anna?...
--Oh!... Estas lagrimas são... de alegria!...
--E porque não diz de saudade?!... Saudade que ninguem tem o poder de condemnar na alma, que foge dos logares dourados, onde lhe fazem soffrer o peso de grandezas que não ambicionou, para se aninhar nas pacificas palhas da sua infancia e adolescencia, onde lhe fôra suave e salutar bafejo o contacto de outras almas lavadas, caridosas, verdadeiramente nobres em todas as suas acções... Por que não revela toda a verdade, que eu de sobra conheço na excitação que V. Exc.amanifesta?...
--Toda a verdade!... Sabel-a-ei eu, senhor Arthur Soares?... Amo Leopoldo, que é meu senhor, e... e devo ser feliz n'este paraiso, para onde fui atirada em completa nudez, e no qual achei, como noscontos de fadas, tudo que uma princeza póde ambicionar...
--Disse o bastante, minha senhora. Agradeço a confiança que em mim depositou, e que lhe mereço, creia. Peço o favor de confiar-me tambem a cobrança de haveres que lhe pertencem. Ha um mysterio na vida de V. Exc.a, de que eu estou senhor, que só mais tarde lhe póde ser revelado. Mysterio honroso, que a hade tornar respeitavel aos olhos de... de toda a gente. Os haveres de V. Exc.a, se não podem equiparar-se aos de seu illustre esposo, são, com tudo, sufficientes para darem, em todo o tempo, a independencia necessaria a uma senhora. Concede-me, por escripto, a auctorisação que lhe peço?
--Vou escrever o que quizer dictar-me, meu bom amigo.
Aproximaram-se de um riquissimo e formoso movel, que serviu de escrivaninha, onde Arthur, em pé, dictou, o que Anna escreveu com punho firme. Concluido e entregue o documento, tiveram logar os agradecimentos, as despedidas e as recommendações, em que por muito entraram os sentimentos de gratidão que a pobre senhora nutria por toda a familia de D. Maria da Gloria, e o affecto filial aos singelos caseiros, que ella julgava seus progenitores. Durante estas naturalissimas expansões, agitou-se um reposteiro e entrou Leopoldo na sala. Vinha pallido, mas os passos eram seguros, o aspecto risonho e o porte ceremonioso. Dirigiu-se a sua mulher com requintada delicadeza, dizendo-lhe que a esperavam as suas modistas, e dando-lhe o braço para a conduzir. Cumprimentou attenciosamente Arthur Soares, e pediu-lhe ofavor de o aguardar alguns minutos, dirigindo-se em seguida com a esposa para o interior do palacio.
Arthur esperou de animo resoluto, como quem descança na paz da consciencia, a volta do seu pronunciado inimigo.
--Creio que o não fiz esperar muito, senhor Arthur Soares?... Queira collocar-se á vontade, e dignar-se responder-me, caso me julgue com direito a fazer-lhe algumas breves e concisas perguntas.
--Ouvirei, senhor Leopoldo.
--Peço desculpa de não principiar pelos offerecimentos do estylo: julgo que minha mulher saberia fazer-lhe o que chamam as honras da casa?...
--A senhora D. Anna recebeu-me como uma senhora distincta costuma agasalhar um companheiro de infancia, um como irmão respeitoso e lealmente affeiçoado.
--Muito bem... Poderei saber o motivo porque se aproveitou a minha ausencia, para a visita com que V. S.aquiz honrar esta casa?...
--Porque não me sendo agradavel a presença de V. Exc.a, devo suppor que a minha egualmente o não seja ao senhor Leopoldo.
--Colhe alguma cousa essa franqueza... E o motivo da conferencia, é segredo para mim?...
--Não guardo segredos de uma senhora casada. Vim visitar a senhora D. Anna, em nome de pessoas que a presam, e pedir-lhe esta auctorisação:--«Dou a Arthur Soares os poderes necessarios, para receber toda a quantia ou valores a que eu tenho direito.»
--Vejo que se faz procurador de minha mulher, sem outhorga minha!... É para intentar divorcio, e pedir-me alimentos?...
--Pondo agora de parte as suas impertinentes ironias, assevero-lhe que S. Ex.maesposanão é pobre, e que, para cobrar o que lhe pertence, é que eu vim pedir-lhe este escripto.
--E que validade descobre V. S.an'esse papel, que não é authenticado por mim?... Pois não serei eu o competente para essa cobrança?...
--A esposa de V. Exc.aignorou até hoje, que era senhora de fortuna, como ainda não sabe do seu illustre nascimento: este mysterio, não póde ser já aclarado. Não se fatigue com perguntas, que não colhe mais esclarecimentos. V. Exc.atem o direito de receber, querendo, o dote da snr.aD. Anna, garantindo-lh'o em bens seus. Para a recepção actual, sou eu o unico competente. Não peço mais documentos, nem dou a pessoa alguma o direito de duvidar da pontual entrega, que hei de fazer, do liquidado e recebido por mim.
--Por hoje, não quero demoral-o mais... Conto que V. S.anão ha de recusar-se a dar-me, de futuro, quaesquer esclarecimentos...
--Sempre ás ordens de V. Exc.a, para o que fôr do meu brio.
Retirou-se Arthur Soares, e o mesmo foi que abrir-se um dique á torrente do odio represado no coração de Leopoldo. Ficou o leão rugindo no seu antro, prestes a cahir no abysmo cavado a seus pés pelo amor e pelo ciume.