45(pag. 101).

Serve-se aqui Ivo d’Evreux de uma expressão impropria designando pela palavraThono que se chamabicho de pé,niga,pulex penetrans, dos entomologistas. Bem pode ser que a palavra seja dalingua geral. Encontra-se com a mesma accepção em Thevet, que a escreveo em 1558 (VideFrance antarctique. pag. 90). È muito conhecido este insecto, e por isso desnecessario é demorarmo-nos descrevendo os males, que produz. (Vide entre outros Naturalistas, o veridico Auguste de Saint-Hilaire,Voyage dans l’interieur du Brésil. T. 1.º pag. 35 e 36).

Realisou-se completamente a prophecia do bom Padre.

Poucas são as regiões do mundo, que, como esta, tenham sido exploradas em beneficio da sciencia.

Alem dasPlantas uteis do Brazil, devidas ao nunca assás chorado Augusto de St. Hilaire, ha hoje aFlora brasiliensisdo illustre Martius, tambem autor daMateria-medicadeste paiz.

Não desejamos cançar o espirito do leitor com uma arida nomenclatura de livros especiaes.

Contentamos-nos apenas dizendo, que muito tem os brazileiros concorrido para estes trabalhos scientificos, citando somente asMemoriasdo Dr. Freire Allemão, recentemente publicadas, e a grande collecção, infelizmente não acabada, daFlora Fluminensis.

Esta molestia, tão cruel e tão similhante á syphilis, se não é a propria syphilis, tambem acha-se descripta naFrance antarctiquede André Thevet, livro publicado em 1558 (vide pag. 86). João de Lery tambem descreveo seos symptomas. Está claro, que não se pode attribuir aos negros de Guiné molestia tão geral entre os Americanos.

O Padre Ivo é rigorosamente exacto no que diz á respeito dos funeraes dos Indios, e com elle concordam em tudo Lery e Thevet, dando este ultimo uma excellente estampa representando um Indio prestes a ser sepultado. (Vide pag. 82 v.)

Não se esqueciam os Tupinambás de collocar, entre as suas singulares previsões para o morto, um pouco de tabaco, carne, peixe, raizes de cará e de farinha de mandióca. É rigorosamente verdadeiro tudo o que o padre Ivo conta n’este capitulo, como se pode vêr nas estampas que apresentam Thevèt naFrance antarctique, e Lery na suavoyage.

Os Tapuytapéras, cujo nome deviam á uma localidade do Maranhão, tinham cabellos cumpridos. Pertenciam á raça Tupy, pois queMigan, o interprete natural de Dieppe, entendia sua linguagem, e o mesmo succedia aos de Commã, cuja aldeia tinha indios com este nome.

Os Cahetés, no seculo XVI, constituiam uma nação essencialmente bellicosa occupando a maior parte do territorio de Pernambuco. Fallavam a lingua Tupica, oulingua geral. Encontram-se as mais curiosas particularidades á respeito de sua organisação interna noRoteiro do Brasil, manuscripto existente na Bibliotheca Imperial de Pariz.

Hoje está sabido, que este livro, tão notavel, composto em 1587 por Gabriel Soares, é o trabalho mais completo, que existe sobre as diversas tribus do Brasil existentes no tempo do padre Ivo.

Passados muitos annos a Academia Real das Sciencias de Lisboa, reconhecendo a sua importancia, imprimio-a nas suasNoticias das nações ultramarinas, e depois o Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem, colleccionando todas as copias d’esta mesma obra, embora sob diversos titulos, publicou uma nova edicção superior á todas, sob o titulo deTratado descriptivo do Brasil em 1587, obra de Gabriel Soares de Sousa, senhor de engenho na Bahia, nella residente dezesete annos, seo vereador da Camara.Rio de Janeiro.—1851 em 8.º

O padre Ivo quando quer designar o tubarão, escreve impropriamenterequin, quando na primitiva erarequiem. Pode bem ser, que o nome imposto a este peixe tão voraz provenha da rapidez com que mata.

OMaracáera um instrumento symbolico, usado tanto nas festas religiosas como nas profanas. Thevet, o guarda das curiosidades do Rei, o descreveo muito bem em seos manuscriptos, inedictos, e como sei que não será desagradavel para aqui transcrevo as suas palavras:

Tendo nas mãos um ou doismaracás, que é um fructo grande, de forma oval, similhante ao ovo de abestruz, e da grossura de uma abobora, mais agradavel á vista do que ao paladar, pelo que ninguem o come, fazem com elles muitos mysterios e superstições tão extravagantes como incriveis. Cavam o fructo, enchem-no de milho graudo, amarram-no a ponta de uma haste, enfeitam-no com pennas e enterrando a outra ponta, fica ella em pé. Cada casa tem um ou dois Maracás, que respeitam como si fosseTupan, trazendo-o sempre na mão, quando dançam e fazendo chocalhar.

Pensam que éTupanque lhes falla (Manuscripto de André Thevet, conservado na Bibliotheca Imperial de Pariz.)

Hans Staden e Lery, Roulox Baro escreveram largas paginas a respeito do Maracá, e o proprio Malherbe falla dos que ouvio em Paris por occasião do baptismo de tres indios sendo padrinho Luiz XIII.

Chegando a Pariz, e residindo no Convento dos seos protectores, os indios revestidos dos seos bellos adornos, e com omaracáem punho, excitaram muito enthusiasmo, a ponto de haver muita paixão pela sua dança e pela sua propria musica.

Seria muito curioso si hoje se achasse a Sarabanda composta em honra d’elles pelo famoso Gauthier. Malherbe escreveo ao celebre Peirese dizendo tel-a mandado á Marco Antonio «como excellente peça digna de ouvir-se» (VideCorrespondance, pag. 285, antiga edicção.)

Ainda, passadas 12 paginas Malherbe tratou da musica então em voga, e do seo auctor, dizendo «ser Gauthier considerado o primeiro no officio, ignorando porem si sahira bem, e si o gosto da Provincia se conformará com o da Côrte.»

Não se contentaram somente de proporcionar aos pobres selvagens distracções ligeiras, pois procuraram obrigal-os a residir em França.

Diz o poeta pag. 275 «os Capuchinhos, para obsequiarem completamente estes pobres selvagens, resolveram algumas beatas a casarem-se com elles, e ja deram começo a excursão d’este plano.»

Emquanto porem eram bem acolhidos os guerreiros do Maranhão, suas mulheres não gozavam iguaes favores.

Uma certa Princesa cujo nome calla o poeta, manifestando opinião singular, dizia «que para elles tinha muita satisfação de dar-lhes casa e comida, mas que ás senhoras, suas mulheres, não podiam ser senão...» bem me entendeis, e por isso não podia recebel-as em sua casa.

É mui curioso o saber-se, que esta expedição exploradora ás margens do Mearim, reconheceo logo serem essas terras essencialmente proprias para a plantação da canna de assucar, a que se empregam todos os braços de 15 annos para cá, sendo esta revolução agricola devida á influencia do Dr. Joaquim Franco de Sá. A charrua despresada por tão longos annos hoje sulca este solo admiravel.

Deve lêr-seMutumsendo a especie mais pequena designada pelo nome deMutum Pinima. (VideDiccionario Tupyde Gonçalves Dias.)

Trata-se aqui de HoccoCrax Alector, caça mui procurada.

A imperial sociedade de acclimatação emprega actualmente louvaveis exforços para naturalisar em França este passaro do Brasil e da Goyana.

É uma linda especie de periquito, conhecida no Brasil pelo nome deTui.

Forma ás vezes bandos tão grandes a ponto de ser um dos flagellos da agricultura.

É a palmeira chamada—Tucum—pelos brasileiros.

Consulte-se a magnificaMonographia das palmeiraspor Martius. OTucumtem fibras verdes e macias, das quaes se faz excellente fio, proprio para cordas.

Ivo d’Evreux não hesita com sua sinceridade habitual a formar um verbo derivado da lingua indigena.

Desde as margens do Orenoco até as do Rio da Prata era oCauimpreparado em grande quantidade.

Tinha o mesmo nome em toda a parte esta especie de cerveja, ou talvez melhor de cidra, quer fosse preparada com milho mastigado pelas mulheres, quer com mandióca cajú ou jabuticaba.

Encontramos este fabrico e nome até entre os Araucans. (Vide a importante obra, do Chili, do Sr. Claudio Gay.)

A palavracauinatravessou espaços immensos, são os mesmos em toda a parte os processos para o seu fabrico, o que prova estreito parentesco entre os povos mais distantes, uns dos outros.

Hans Staden, Lery, Thevet tem apontado seos abusos, e chamamos a attenção dos nossos leitores para as suas curiosas narrativas.

O que os nossos antigos viajantes chamavamCauinageera afinal uma solemnidade, cujo sentido religioso não conhecemos.

Precediam ou succediam estas orgias ás grandes expedicções.

O «vinho da Europa» se chama hojeCauin Pyranga, e a aguardente tão fatal aos indios,Cauin Tata, «bebida de fogo.»

Descreve com minuciosa curiosidade João de Lery esta festa solemne, na qual se infiltrava oespirito de coragem, aos guerreiros prestes a partirem para uma expedição.

Uma das estampas do seo livro representa até esta ceremonia.

Entre todas as tribus da raça tupy o tabaco é considerado como planta sagrada.

Reunimos tudo que se sabia ha alguns annos á respeito da origem doPetumna carta, que dirigimos a Mr. Alfredo Demersay, sobre a introducção do tabaco em França, (VideEtudes economiques sur l’Amerique meridionale. Du Tabac du Paraguay. Pariz. Guillamin. 1851 em 8.º)

O nome d’esta nação tão pouco conhecida, e que se apresenta á penna do padre Ivo, é uma garantia da exactidão das suas narrações.

Ainda em 1817 existiam algunsTramembezentre os trabalhadores brancos do Ceará: cultivavam mandióca e residiam na villa deNossa Senhora da Conceição d’Almofalla, onde haviam muitas salinas. (Vide Ayres Casal,Corographia Brasilica, T. 2º, pag. 235.)

Gaba o padre Ivo o valor e a industria d’estes indios, inimigos encarniçados dos Tupinambás.

Tratamos d’este famoso indio quando elle se revestio do commando.

É a figura indigena mais predominante nas duas obras do padre Claudio d’Abbeville e padre Ivo.

Nalingua gerala palavrajapimé o nome de um lindo passaro, de pennas amarellas e negras, que anda em numerosos bandos e que em toda a parte faz tão lindos ninhos.

Pode tambem dar-se-lhe outra significação.Japysignifica na lingua indigena do Maranhão, «o choque, o golpe.» (Vide Gonçalves Dias,Diccionario.) A primeira explicação é a unica adoptada. Japy-uaçú era o que se chamava umMitagaya, um grande guerreiro.

Deixa-se o padre Ivo levar muito pelas recordações da Europa.

Jeropary-açú, de que tratam escriptores portuguezes, nada tem de commum com um principe ou um rei, taes como eram representados no novo-mundo por convenção hierarchica.

Este erro ja havia sido anteriormente commettido por André Thevèt na suaFrança antarticae na suaCosmographia. O historiador de Portugal, La Clede, que vivia no seculo XVIII foi mais longe ainda na enumeração dos pomposos titulos, que dá a alguns pobres chefes de tribus.

Com o nome decabaçasconhece-se geralmente no Brasil vasilhas ordinarias, feitas com o fructo da cabeceira.

Em Venezuella chama-seTutumas.

Algumas destas vasilhas naturaes mostram delicados ornatos, cores inalteraveis pela agua e grande brilho. (Vide a este respeito Claudio d’Abbeville,Histoire de la mission des péres Capucins.)

É isto confirmado por Magalhães de Gandavo, o primeiro escriptor portuguez, que escreveo uma historia regular do Brasil em 1576.

Este amigo de Camões recorda a expressão indigena de que se serve o padre Ivo, porem não partilha sua opinião, antes crê ser o ambar um producto vegetal formado no fundo do mar. O que é certo é, que nos seculos XVI e XVII o encontro, quasi sempre casual, de enormes pedaços de ambar, arremeçados pelas ondas em praias não exploradas, enriqueceo muita gente.

Debalde procuramos este nome no livro de Ayres do Casal, e no Diccionario de Milliet de Saint Adolphe.

A região habitada pelos Cahetés de que trata, sabemos com certesa ser na provincia de Pernambuco.

A palavraCahetéssignificafloresta grande, e se applica a diversas localidades.

Foram osCahetés, que em 1556 mataram e devoraram o primeiro Bispo do Brasil, D. Pedro Fernandes Sardinha.

Este sabio prelado, natural de Setubal, e educado na universidade de Pariz, regressava á Lisboa, onde ia queixar-se do governador da Bahia.

Mostra-se ainda hoje a colina, onde elle morreu, e não cresce ahi planta alguma, segundo a crença do povo. (Vide Adolpho de Varnhagem—Historia Geral do Brazil.)

O livro de Gabriel Soares contem tudo quanto se deseja á respeito dos Cahetés, indios considerados geralmente como invensiveis guerreiros, e que se gabavam de habeis musicos.

A exploração doUarpy, de que aqui se trata, e emprehendida pelo Sr. de Pezieux é uma prova evidente do cuidado, que havia de explorar-se esta região, percorrendo-se de N. a S.

Estas minas de oiro, que se esperava encontrar no Maranhão em 1613, existem hoje na serra deMaracassumé.

Encontra-se o metal precioso sobre tudo emPiranhas, (districto deSanta Helena) nas cabeceiras dos rios Pindaré, Gurupy, Cabello de Velha (Cururupu) Prata (Santa Helena) na Revirada, nas margens do Tomatahy, etc., etc., porem em pequena porção.

Existe cobre na Chapada no lugarFazendinhae no Alto Pindaré.

Ferro existe em mais lugares, nos montes de Tirocambo e em Pastos-Bons.

Suppõe-se haverem minas de estanho, porem ainda não se sabe com certesa.

Encontra-se tambem o carvão de pedra, precioso mineral no estado actual da industria: depararam-se ja com alguns indicios no canal do Arapapahy, e affirma-se haver uma mina na distancia de meia legoa do Codó, na fazenda de Santo Antonio, cujas amostras provam ser de superior qualidade. Dizem haver tambem em Vinhaes.

Em Sam José dos Mattões encontram-se cristaes de rocha e pedras semi-preciosas, e saphiras em Sam Bernardo da Parnahyba.

De passagem lembramos que as primeiras minas de ouro, ou para melhor dizer, os primeiros veios de ouro, destinados a enriquecerem o Brasil, somente foram descobertos em Minas-Geraes, no anno de 1595.

Pelas Provincias do norte não conheceo a Metropole as riquezas metalicas d’este vasto territorio, onde desemboccam oRio doce, e oJequitinhonha.

Sabe-se que este ultimo rio que toma o nome de Belmonte na occasião em que se lança no mar, pouco distante do primeiro, com o andar dos tempos deo á corôa enorme quantidade de diamantes.

Estas pedras, encontradas em 1729, principalmente no valle cercado de alcantiladas rochas, chamado pelos indios—Ivitur, e pelos portuguezes—Serro do Frio, não eram completamente despresadas pelos indios, pois seos filhos as ajuntavam, e com ellas brincavam.

No Maranhão não ha diamantes.

Mostra-se o padre Ivo aqui mui parco em suas descripções, porem deve-se desculpal-o por não ser naturalista como um theologo do seo tempo. Foi ainda mais parco o seo predecessor.

O que disse de algumas plantas do generomimosaindica a sua preoccupação á respeito de certos phenomenos naturaes.

As qualidades maleficas, que reconhece no succo do Cajú, de que se fabrica uma especie de cidra, são mui exageradas.

Diremos de passagem, que a palavraCauinderiva-se do nome indigena d’esta arvore.Caju-y, licor deCaju.

Á flor da paixão (Grenadilla cœrulea) na qual a imaginação prevenida encontra santos attributos, gozava então deprodigioso favor. Foi descripta em varias obras, e gravada exagerando-se os pontos de similhança, que podia ter com os instrumentos do supplicio de Jesus Christo.

Ivo d’Evreux encontrou nos campos do Brasil magnificas flores d’estas, e mostrou-as aos amadores. Alguns annos depois elle se teria aproveitado da descripção poetica, que d’ella fez o poeta popular Santa Rita Durão no poema intituladoCaramuru.

Lembramos aos amadores de flores phantasticas uma gravura do seculo XVII, mui curiosa, mostrando a planta com o seo tamanho natural na obraAntonii Possevini Mantuani Societatis, Jesu cultura ingeniorum, examen ingeniorum Joannis Huartis. Expenditur Coloniæ Agrippinæ. 1610 em 12.

O guará (Ibis rubra, ouTantalus ruber) desappareceo em parte de varias localidades do littoral, onde costumava expandir sua brilhante plumagem, sujeita, conforme a idade, a diversas modificações.

Na obra curiosa de Hans Staden, publicada na Allemanha em 1557, vê-se qual é o papel, que representa esta ave na industria indigena.

Formavam os Tupinambás em tempo certo verdadeiras expedições para procurar as pennas d’ellas, sempre raras, afim de servirem nas festas com que as tribus se obsequiavam reciprocamente.

Em caso de necessidade eram substituidas por pennas de gallinhas, tinctas com uma preparação vermelha deIbirapitanga, ou pau-brasil.

Actualmente refugiou-se o guará nas margens, pouco frequentadas, do rio de Sam Francisco, e principalmente nas desertas regiões do Rio Negro. Ainda tambem encontram-se algumas nalagoa dos patos, e emGuaratuba. (Videle second voyage d’Aug. St. Hilaire. T. 2º, pag. 222.)

É impossivel aos que não leram as obras da idade media interpretar bem o sentido d’esta frase.

O livro conhecido sob o nome dePhisiologusgozava ainda de certo credito no tempo do padre Ivo de Evreux. Quem quizer informar-se d’isto minuciosamente leia o precioso resumo d’esta curiosa obra, publicada pelos Rvds. padres Cahier e Martin, sob o tituloMelanges d’Archéologie, d’histoire et de litterature. 4 vol. in-fol.

As mulheres Tupinambás, que assim cantavam para attrahir as formigas, e activar a caça d’estes insectos, não o faziam somente para destruil-as, ou para resguardar suas plantações de milho de uma invasão invencivel.

As formigas grandes torradas eram consideradas como uma das golodices mais preciosas, cuja receita foi por ellas ensinada a alguns colonos do Sul, e sem duvida não será desputada pelos nossos modernos Brillat Savarin.

Assim como os Arabes comem ainda hoje gafanhotos, conservados em sal ou pela dissecação, e os Guaraons das margens do Orénoco apreciam muito as larvas da palmeira Muriti (não fallando de outra comida da terra do mesmo genero), assim tambem os nossos selvagens guardam grandes provisões d’estes insectos para sua nutrição.

Augusto de Saint-Hilaire, o mais verdadeiro viajante, que percorreo o Brasil, achou ainda em vigor o costume de se comer formigas assadas.

Depois de ter affirmado ser muito apreciado esse manjar no Espirito Santo, pelo que os habitantes de Campos, sempre rivaes dos da Cidade da Victoria, os chamavamTata Tanajuras, «comedores de formigas», accrescentou «eu mesmo comi um prato d’estes animaes, preparados por umamulher Paulista, e não lhes achei mau gosto.» (VideLe second voyage au Brésil. T. 2.º pag. 181).

Martim Soares de Souza, com rasão chamado o Gregorio de Tours dos Brasileiros, é mais claro a respeito do proveito que os indios tiravam das formigas como alimento.

Copiamos aqui o que elle tão curiosamente disse. Depois de haver fallado da especie grande, a que chamam Içans, escreveo—«E estas formigas comem os indios, torradas sobre o fogo, e fazem-lhe muita festa; e alguns homens brancos andam entre elles, e os mistiços as tem por bom jantar, e o gabam de saboroso, dizendo que sabem a passas de Alicante: e torradas são brancas dentro.»

O pretendido cão, de que aqui falla o nosso Missionario, está muito longe da raça canina: é apenas opapa-formigas, chamado pelos indigenastamanduá, e pela scienciaMyrmecophaga jubata.

O naturalista Waterton, que com tanta curiosidade estudou os quadrupedes do novo mundo nos proprios lugares, onde com plena liberdade se entregam aos seos instinctos, fez excellente descripção d’este animal.

Ha no Brasil muitas especies de papa-formigas, sendo rarissima a chamada pelos portuguezesTamanduà-cavallo: parece ter sido este sobrenome o causador de haver o padre Claudio d’Abbeville errado, quando disse ser opapa-formigasdo tamanho de um cavallo.

A palavra india, que designa este curioso animal, é composta de duas Tupis—taixi, «formiga,» emondêoumondâ, «tomar.»

Deve escrever-seTaranyra, cujo nome pertence a um pequeno lagarto. Falla-se aqui doTiú(Tupinambis monitor).

É excellente a carne d’este reptil, e muito havia de concorrer para tornal-a saborosa a preparação culinaria tão gabada pelo Padre Ivo d’Evreux.

A repugnancia d’esse bom Padre para taes comidas, não é de fórma alguma partilhada pelos descendentes dos Europeos, acostumados ás melhores mezas.

A carne de Tui pela sua côr e maciesa muito assimilha-se á da gallinha mais preciosa, e por isso apparece nas melhores mezas do Brasil.

O nosso autor quer fallar daAranha caranguejeira, (Aranea avicularia) porem aqui enganou-se. Exagera muito as dimensões d’este insecto, na verdade nojento, como se pode vêr em todas as collecções de entomologia. Não é verdade dizer-se que não fabricam fios para suas teias: a sua picada não mata, porem envenena. Na lingua Tupy chama-seNhandu-Guaçuou deJandu.

O que nos diz o bom Religioso do barulho da cigarra denota gosto de observação na historia natural, muito raro n’aquella epoca, mas convem não confundir a cigarra brasileira com o insecto assim chamado na Europa.

Na linguaTupiescreve-seOkiju. (VideMartius,Glossaria ling. bras.pag. 465).

Ivo d’Evreux confesse-se, está aqui muito inferior á seo contemporaneo o Padre du Tertre.

É verdade porem tudo quanto elle diz da luz dospyrilampos.

A entomologia estava então muito pouco adiantada para que houvesse uma classificação entre os insectos, e não temos habilitações para preencher esta falta. Actualmente conhece-se no Brazil oito especies de pyrilampos a saber:

Pode tambem juntar-se a estes lindos insectos alucidota thoraxica.

É muito exacto, e as abelhas do Brazil não tem aguilhão: eis o que diz um observador sabio e veridico.

Depois de haver affirmado, como o Padre Ivo, que as abelhas não picavam, disse Augusto de Saint Hilaire «uma especie chamadatatairadeixa, segundo dizem, escapar pelo anus um liquido ardente; e por isso é só á noite que se colhe o seo mel.»

As especies chamadasuruçú-boi,sanharó,burá,bravo,chupé,arapuaetupise defendem, quando são atacadas, mas parece não terem aguilhão, limitando-se a morderem como fazem as outras.

É muito liquido o mel das diversas especies, e a cera tem a côr parda muito carregada, não se podendo até hoje conseguir tornal-a branca, como a da Europa.

Spix e Martius dão curiosas informações a respeito d’estes uteis insectos, que completam as do nosso grande botanico.(VideVoyage dans les provinces do Rio de Janeiro e de Minas Geraes. T. 2.º, pag. 371 e seguintes.)

Não ha talvez no mundo região alguma, que tenha maior variedade de macacos do que o Brazil.

Creio que aqui se trata primeiro daguariba, oumycetes ursinus, e depois do macaquinhostentor, que intentou descrevêr o nosso bom Missionario.

É provavelmente d’esta especie a descripção tão agradavel e tão animada, feita pelo nosso velho escriptor.

Convem observar porem que o Padre Ivo fez-se echo de uma crença popular muito vulgar no seculo XVI.

Esta especie de legenda das florestas, muito mais applicavel aos macacos da Africa e da Asia do que aos do novo-mundo, não se extinguio ainda de todo nos campos da America Meridional, e mostraram a M. Castelnau uma india, que julgava ter escolhido seo marido entre os macacos das florestas (VideExpedition dans les parties centrales de l’Amérique du sud, de Rio de Janeiro á Lima et de Lima au Pará, exécutée par ordre du governement français. Paris 1851,partie historique. 5 vol. in 8.º)

Basta ter-se vivido nas florestas habitadas por macacos para conhecer-se a exactidão do que escreveo o Padre Ivo.

Ha aqui com certesa erro, ou então exageração.

O Padre Claudio d’Abbeville, que descreve a mesma ave de rapina (pag. 232) julga ser elle «duas vezes mais corpolento do que a aguia, ter a perna da grossura de um braço, e a pata em fórma de unhada.»

Poderia ser esta descripção do Condor, porem não existe esta ave na America do Sul.

Diz o Coronel Ignacio Accioli ter ogavião realtanta força a ponto de fazer parar em sua carreira um viado por mais forte que seja.

É tão phantastica a descripção do Padre Ivo, que á primeira vista se pode applical-a ao abestruz americano deNandú, que se encontra somente no Ceará e Piauhy.

Um escriptor contemporaneo, Gabriel Soares, tantas vezes citado, restabelece a verdade fallando doUra-açudisse «são passaros, como os milhafres de Portugal, sem differença alguma, negros e de azas grandes, de cujas pennas utilisam-se os indios para emplumarem suas flexas, e vivem de rapina.» (VideTratado descriptivo do Brasil em 1587. Rio de Janeiro.—1851 1.º vol. in 8.º pag. 232.)

Lembramos de passagem, que debaixo do ponto de vista scientifico a parte ornithologica é muito imperfeita, embora a bellesa do estylo do nosso velho viajante.

O que diz, por exemplo, o Padre Ivo do passaro mosca, ou do colibri, é inteiramente inexacto, pois elle não tem o tal canto agudo, que faz lembrar o grito da cotovia.

Confundiram-se as recordações com a distancia.

Ivo de Evreux quer dizer, que os Indios sefazem galans, preparando-se com pennas de papagaios.

Faziam os Tupinambás com estas pennas não só mantos, diademas e perneiras, mas tambem cortavam bem miudinhas as pennas pequenas e coloridas d’estes passaros, e cobriam com esta pennugem o corpo, e n’elle grudavam-na com certa gomma.

Este enfeite selvagem e singularmente original ainda é muito usado e apreciado em certas tribus.

Segundo conta João de Lery durou mais de tres seculos.

A viagem pittoresca de Debret apresenta uma amostra.

Basta, é bastante. Os hespanhóes e os portuguezes conservaram a palavrabastar.

Já pagamos justo tributo de saudade a este Religioso, tão cheio de bondade como de zelo, cuja sepultura no antigo cemiterio do pequeno Convento não é sabida em Maranhão.

Como indica o seo sobrenome de Religião, nasceo o Padre Ambrosio na Capital da Picardia, «de parentes abastados, diz o manuscripto dos elogios, e que lhe deram educação conforme permittiam seos negocios.»

Depois de haver estudado na Sorbona, quando estava prestes a receber a sua carta de licenciado, foi abalado pelas prédicas do Padre Pacifico de São Gervasio, e entrou no Convento em 1575, quasi no tempo da fundação do Mosteiro de Santo Honorato.

Em 1599 acabou seo noviciado, e com satisfação começou a preencher as obrigações de irmão leigo.

Cedo passou a prégador, e então adquirio essa fama de caridoso, que o fez tão popular.

Aspirava a mais do que isto, «porque queria converter todas as Indias», diz a noticia a elle dedicada.

O Padre Ivo cercava de todos os cuidados os seos confrades quando emprehendiam viagens tão incommodas principalmente n’aquelle tempo.

Estava já muito enfraquecido, e sem forças, quando em 26 de setembro de 1612 cahio doente, em sua pobre cabana de pindoba.

Ardente febre o devorava, e comtudo, ainda depois de receber a extrema uncção, conservou em bom estado e sempre firme o uso de suas faculdades intellectuaes.

Transcrevamos aqui algumas palavras, que mostram qual foi o fim de tão bom velho.

Claudio d’Abbeville assim o conta:

«Cahindo sobre elle um pequeno painel da Imagem de S. Pedro, pendurado por cima de sua cama, e a que dedicava profunda devoção, elle disse—vamos, grande Santo, partamos, ja que vieste buscar-me.—

«Dizendo isto olhou para o Crucifixo e após curta agonia restituio ao Creador sua alma tão bôa em 9 de Outubro de 1612, dia da festividade do Glorioso Apostolo de França, S. Diniz, Bispo de Pariz:

«Foi sepultado no lugar chamado S. Francisco, consagrado ao nosso Patriarcha, como premicias dos Capuchinhos Francezes.» (Vide tambem «Éloges historiques de tous les illustres religieux capucins de la ville de Paris, les uns par la prédication, les autres par les vertus et sainteté de leurs œuvres, les autres par les missions parmy les infidelles etc. etc.sob numeroCapucinSaint Honoré 4 (ter).)»

É para sentir-se e muito que se tenha perdido ha alguns annos o 1.º vol. d’esta importante collecção, contendo os Annaes da Provincia.

Prova esta phrase tão rigorosa do velho missionario a rapidez, com que se espalhou na Europa oavati, dos brasileiros, omilhodos ilheos visto, bem como o tabaco, por Christovão Colombo na primeira viagem em 1493.

Levantaram os botanicos grande questão, ainda não resolvida, sobre a origem primitiva do milho.

Pelo que diz respeito ao Brasil citamos a opinião d’um viajante, que por seu saber pode passar por authoridade.

Augusto de St. Hilaire pensa ter nascido no Paraguay, onde o vio em estado inculto.

A cultura do milho é ao Sul d’America a planta nutritiva por excellencia, e prepara-se sua farinha por processos simples, e que dão optimo gosto.

Enviamos nossos leitores, que desejam instruir-se de tudo quanto se refere á esta graminea para o precioso livro do Dr. Duchesne—Traité complet du maüs ou blé de Turquie. Paris. Renouard, 1833 em 8º, e para a grande obra de M. Bonafous.

Falla aqui verdade o padre Ivo, porem não se segue que ao norte do Brasil se possa fazer vinho.

O maior obstaculo, que encontra este fabrico, está no amadurecimento do fructo sob os tropicos.

No mesmo cacho ao lado de muitas uvas maduras encontra-se grande numero de verdes.

È voz corrente ter-se feito algum vinho na visinhança da Bahia.

Caminhando-se para o sul, na região temperada de Mendoza, a uva amadurece perfeitamente, e dá vinho precioso. (Vide, entre outras viagens a respeito d’este ponto curioso de agricultura americana—Sallusti,Storia delle missione del Chile. 4. vol. em 8.º Padre Barrére.Nouvelle Relation de la France equinoxiale. Paris, 1743. 1º vol. em 12, pags. 53 e 54.)

Trata-se aqui do fio que se extrahe com abundancia de uma especie de Ananaz. (Ananas non aculeatus,Pitta dictus Plum.)

Com elle os portuguezes faziam meias, quasi tão procuradas como as de seda.

Não se encontra esta palavra no Diccionario de Nicot, irmão de Villemain.

Podemos affirmar, que se deve escreverhansares—que significa—uma foice de grande tamanho.

Fazer certo sussurro expellindo com força o ar pelo nariz. É expressão do povo, confundida no Diccionario da Academia com a palavra—renâcler«roncar» usada trivialmente no stylo familiar.

São por Cardim muito bem pintadas essas recepções de indios.

Os brasileiros não podem preferir, na bellesa da narração e no encanto das particularidades, senão um só viajante portuguez á Ivo d’Evreux e á Claudio d’Abbeville, e é aquelle cujo nome acabamos de proferir.

Este escriptor agradavel porem muito conciso, pertence á ordem dos jesuitas.

Foi para o Brasil em 1583, e ahi ficou revestido de todas as dignidades até o fim de 1618: soube portanto do estabelecimento dos francezes ao Norte do Brasil, e certamente na Bahia soube de sua expulsão, e sobre isto infelizmente nada disse.

Fernão Cardim estava em posição bem diversa da do padre Ivo d’Evreux.

Pelas costas do Brasil, onde elle se apresentava, submettiam-se os indios ao christianismo, perdendo sua grandeza primitiva e conservando a maior parte dos seos usos.

O Missionario francez ao contrario cathequisa os indigenas, que combatem pela sua independencia contra seos conquistadores.

Os dois bons missionarios tiveram ambos a mesma sincera indulgencia e admiração para com os povos ainda na infancia, aos quaes pregaram, e cuja prévidencia é o seo maior e mais terrivel defeito.

As cartas de Fernão Cardim foram felizmente descobertas pelo incansavel autor daHistoria geral do Brasil.

O Sr. Francisco Adolpho de Varnhagem não pôz seo nome n’esta preciosa publicação, honra que aqui lhe restituimos, e a que tem direito como homem de saber e gosto.

O opusculo de Fernão Cardim tem o titulo deNarrativa epistolar de uma viagem e missão jesuitica pela Bahia, Ilheos etc etc.—Lisboa, 1847, em 8.º de 123 paginas.

Parece-me que o sabio edictor não se lembrou de haverem preciosas informações á respeito de Cardim e dos missionarios contemporaneos do Brasil n’um escriptor de Toulon por nome Jarric. (VideLa 2me partie des choses plus memorables advenues tant aux Indes orientales que autres pays de la découverte des Portugais en l’establissement de la foi chrestienne et catholique etc. Bordeaux 1610em 4.º É dedicado a Luiz XIII. O que n’este livro se refere ao Brasil, e particularmente ás regiões visinhas do Maranhão, acha-se na pag. 248 até 359.)

Morreo o padre du Jarric em 1609.

Foi sua obra traduzida em latim, e impressa na Colonia em 1615.

Esta traducção, augmentada em alguns lugares, foi publicada em 4 vol. em 8.º

Ha quasi certesa de não ter o nosso bom missionario lido a narração de André Thevet, publicada em 1558, e nem aviagem mais recente de João de Lery, cujas opiniões religiosas deviam afastal-o d’essas obras.

Comparando-se estes velhos viajantes entre si, facilmente nota-se a similhança das narrativas.

Eis o que disse João de Lery á respeito da recepção, que lhe fizeram os Tupinambás.

Descrevendo as ceremonias, que fazem osTuupinambaultspara receberem seos amigos, que os vem visitar, merece dizer-se em primeiro lugar, que apenas chega o viajante a casa doMussacat, isto é, do bom pae de familia, dá de comer aos que por ahi passam, e que elle escolher para seo hospede, facto que se hade praticar em toda e qualquer aldeia, por onde se transitar, sob pena de cauzar enfado se não é procurado immediatamente. Assenta-se depois n’uma rede onde fica por algum tempo em silencio. Vêm depois as mulheres, sentam-se no chão, tapam os olhos com as mãos deplorando a bôa vinda d’aquelle, cujos louvores farão em occasião apropriada.

Por exemplo:—tiveste tanto trabalho para nos vêr; tu és bom, e valente: si é um francez, ou outro qualquer estrangeiro, accrescentam—trouxestes para nós tão bellas obras, como aqui não temos, e immediatamente derramam muitas lagrymas, e assim aplaudem e lisongeam.

Si o recem-chegado assentado em seo leito quer pagar-lhes as finezas, dizendo de sua parte coisas agradaveis, não querendo porem chorar, (como eu sei alguns dos nossos, que vendo as maneiras d’essas mulheres perante elles, foram tão nescios, que as imitaram) devem ao menos por fingimento exhalar alguns suspiros.

Feitos assim estes primeiros cumprimentos pelas mulheres, entra depois omussacat, isto é, o velho dono da casa, que fingirá durante um quarto d’hora não vos vêr (caricia mui opposta ás nossas embaixadas, cumprimentos e apertos de mão á chegada dos nossos amigos). Chega-se depois onde estaes, e dizereiubé, isto é, chegaste? etc. etc. (videJean de Lery,istoire d’un voyage en la terre du Brésil. Rouen, 1578, em 8º, 1ª edicção.)

Ha no Brasil um sapo de grande tamanho, a que se deo o nome de «sapo boi.»

Claudio d’Abbeville diz—«n’aquelle paiz encontram-se uns sapos muito grandes a que chamamcururu. Alguns ha que tem mais de um pé ou pé e meio de diametro: quando são esfolados, é impossivel dizer-se quam branca é a sua carne, e como são bons para comer-se. Vi alguns fidalgos francezes comel-a com apetite.

Mui visivelmente falla-se aqui da lenda brasileira relativa aSumé, o legislador dos Tupys.

No curioso opusculo, que a respeito d’este personagem publicou o Sr. Adolpho de Varnhagem, conta a sua chegada á Ilha do Maranhão, e como desappareceo na occasião, em que se preparavam todos para sacrifical-o.

A palavra—Maratá—nos põe em embaraços, pois debalde a procuramos em Ruiz de Montoya: é alteração da palavraMairouMaïr, tantas vezes empregada por Lery e Thevèt, para mostrar ou indicar um estrangeiro, ou uma pessoa extraordinaria. Não podemos dar uma resposta satisfatoria. O Sumé, que propaga a cultura da mandióca, é barbado.

Diz-se com razão ser personagem analoga a Manco Capac dos peruanos, e ao Quetzalcoalt dos Azetecas, e ao Zamma da America Central. (Vide Adolpho de Varnhagem,Historia geral do Brasil. T. 1º pag. 136, eSumé. Lenda mytho-religiosa americana etc. agora traduzida por um Paulista de Sorocaba. Madrid, 1855, broch. in 8 de 39 pag.)

O verbocantarna linguagem tupy éNheengar. UmNheengaçaraé um cantor propriamente dito.

Parecerá estranho ao leitor serem os francezes comparados n’este lugar aos Caraibas.

Os que lerem com attenção as obras de Humboldt acharão a chave d’este enigma. Os Caraibas do continente americano, nação immensa, eram notaveis em toda a America pelo seo valor e penetração. Seos piayas, ou antes seos feiticeiros os elevavam acima de todas as outras nações: eram no Novo Mundo o mesmo que os Chaldeos no velho. Simão de Vasconcellos nos dá a prova d’esta supremacia intellectual: no sul do Brasil osCaraibe-bébé, eram feiticeiros ou advinhadores notaveis: assim se chamavam os homens intelligentes, os espiritos, e os anjos, e depois tambem os estrangeiros. O Sr. Adolpho de Varnhagem fez notar, que o nome deCaraybafoi em seo principio dado aos Europeos, sendo todos os Christãos assim chamados. (Historia geral, pag. 312.)

UmCaramémoé que se chama em Guyana umPagará, isto é, um paneiro leve, feito com folhas de certa palmeira e ás vezes com bonita forma.

Claudio d’Abbeville assim tambem o chama, quando descreveo os utensilios de uma casa indigena. Barrère fez desenhar este lindoSpecimen.

Ivo d’Evreux, familiarisado com todos os symbolos em voga no seo tempo, não se esqueceo de uma graciosa alegoriana qual figura o Unicornio. VideLe Monde enchantée, e especialmente a dissertação intituladaRevue de l’histoire de la Licorne par un naturaliste de Montpellier. (P. J. Amoreu.) Montpellier Durville, 1818, em 8.º 47 pags.

É sabido ser esse o nome, que aos portuguezes davam os Tupinambás.

Peroquer dizercãona lingua de Camões, mas suppõe-se que o nome—Pedro—muito usado no Brazil, provinha de tão estranha designação.

Ayres Casal conta até á este respeito uma historiasinha, recorrendo á tradicção, de como um serralheiro, chamado Pedro, fôra arremeçado pelas ondas, após um naufragio, ás praias do Maranhão. Graças a sua habilidade no trabalho do ferro fez-se este homem agradavel aos indios, e seo nome com pequena modificação servio d’ahi em diante para fazer conhecidos os individuos, que se julgavam ser da sua raça.

Em suaCorographiao Dr. Mello Moraes escreveo estalegendamuito mais completa.

Não se tem procurado esclarecer por meio de uma discussão grammatical—esta parte do livro.

Differenças mui sensiveis, produzidas pelo tempo e sobre tudo pela pronuncia, fizeram este lugar para assim dizer indicifravel. Nada é mais dificil do que traduzir pelos caracteres da nossa escripta os sons das linguas indigenas. Essas inflexões tão delicadas, e as vezes tão fugitivas, em sua apparente rudeza são dificultosamente ffixadas no papel. Notou Humboldt pertencerem ellas algumas vezes á certos caracteres physicos das raças.

As nações européas, as mais habituadas á estes estudos, não percebiam da mesma fórma os sons, e nem os escreviamda mesma maneira: quando os portuguezes ouvemOca, por exemplo, ou entãoToba, o francez percebeOceTob, e quando aquelle ouveMurubixabaeste percebeMuruvichave. Deixa a differença de ser grande quando são as palavras pronunciadas conforme o genio de cada lingua.

A palavraTupinambás, como se acha escripta no principio d’esta nota, (Tobinambos) equivale absolutamente pelo som na lingua portuguesa á palavraTupinambus, como a pronunciavam os contemporaneos de Malherbe.

Para a historia da linguistica não é sem interesse esta curta doutrina christã, podendo ser comparada com certas obras do mesmo genero, escriptas por penna portuguesa, estando n’este caso, entre outras, os canticos religiosos em lingua tupy por Christovão Valente, os quaes incluí no opusculo—Une fête brésilienne. Pariz. Techener, 1850.

Não se póde achar o livro que os contem, e talvez só exista na Bibliotheca Imperial.

Reproduzimos aqui seo nome—Cathecismo brasilico da doutrina christã, com o ceremonial dos sacramentos e mais actos parochiaes. Composto por padres doutos da Companhia de Jesus, aperfeiçoado e dado á luz pelo padre Antonio de Araujo da mesma Companhia, emendado nesta segunda impressão pelo padre Bertholomeu de Lean da mesma Companhia, Lisboa, na officina de Miguel Deslandes 1861, em 8.º pequeno. A primeira edicção foi em 1618.

Si se quizesse, poder-se-ía completar este estudo comparativo procurando os seguintes manuscriptos, citados por Barbosa Machado, e que seria coisa curiosa si fossem publicados.

Ludewig os ommittio em seo importante trabalho, completado por Mr. Trubener. O Padre João de Jesusexplicação dos mysterios da fé. O Padre Manoel da VeigaCathecismo. F. Pedro de Santa RosaConfessionario. André Thevèt nos seos manuscriptos conservados na Bibliotheca Imperial de Pariz, dá oPatere oCredoem linguatupy, depois reproduzidos em sua grandeCosmographia. São preciososestes dois documentos especialmente por sua antiguidade, pois datam de 1556.

Entre os livros d’este genero um dos mais modernos e dos mais curiosos é o do Padre Marcos Antonio, intitulado:Doutrina e perguntas dos mysterios principaes de nossa santa fé na lingua Brasila. Foi composto em 1750 e Ludewig menciona-o como fazendo parte das collecções doBritish Museum.

Lery ja tinha asseverado o effeito, que faz nos indios o canto melancolico do Macauhan. A crença nos mensageiros das almas, nos passaros propheticos ainda não se extinguio de todo, pois ainda existe na poderosa nação dos Guayacurus, depois de haver exercido antigamente sua poderosa influencia em todas as tribus dos Tupys, porem o padre Ivo deo-lhe extensão que nunca teve, visivel alteração nas antigas ideias mythologicas.

O nome d’este passaro respeitado é escripto em portuguezAcaúan, e tambemMacauan: nutre-se de reptis, e não tem esse aspecto sinistro, que lhe dá o nosso bom Missionario.

Tem a cabeça muito grossa em relação ao corpo, é côr de cinza, o peito e o ventre vermelhos, azas e cauda negras com pintas brancas. Pensa hoje em dia a maior parte dos indios, que a missão deste passaro é annunciar-lhe a chegada de algum hospede. Consulte-se sobre o Acaúan, Accioli,Corographia Paraense, e Gonçalves Dias,Diccionario da lingua Tupy. Martius na palavraOacaoamdiz ser o Macagua de Felix de Azara. Falco (herpethocheres).

No tempo de Ivo d’Evreux, eram chamadosBarbeiros, os cirurgiões mais habeis, e alguns annos antes até o illustre Ambrosio Paré era assim conhecido.

Como osPiayes,Pagé,Pagy,BoyésouPiaches(por todos estes nomes são conhecidos) cuidam de curar feridas e molestias.

O padre Ivo, como se verá adiante, os compára por despreso aos barbeiros, mas entenda-se, aos barbeiros das aldeias.

Este capitulo é por certo um dos mais curiosos do livro, e deve ser com todo o cuidado comparado com o que escreveo Simão de Vasconcellos, (Chronica da Companhia de Jesus, in fol.) e com todas asMemoriaspublicadas pelo Instituto Historico do Rio de Janeiro sobre a religião primitiva dos indigenas, achando-se ahi bem claramente definidos os attributos de Jeropary.

É na verdade para sentir-se a falta de uma folha, porque nos trouxe a perda de preciosos documentos de homens praticos e habeis, que entre si conservavam as tradicções.

No tempo d’esta narração eram ainda os morcegos classificados como passaros.

O que aqui diz o nosso viajante sobre os vampyros não é exageração.

Consulte-se a este respeito Ch. Watterten (Excursions dans l’Amerique meridionale, p. 15 e 389.)

Este sabio naturalista descreveo com minucioso cuidado o genero da ferida, que produz o morcego americano nas pessoas, que dormem. Matou um vampyro, que tinha 32 pollegadas de extensão de azas abertas. Em geral são muito menores.

Entre os antigos viajantes do seculo XVII é Ivo d’Evreux o unico, como notamos, que menciona entre os Tupinambásos rudimentos de estatuaria (imperfeita sem duvida) com applicação á mythologia d’estes povos.

D’estas coisas nada escreveram Thevèt, Hans Stadens, e Lery, Vasconcellos, Cardin e Jaboatão.

Eram os Tupys unicamente caçadores, e só per accidens se entregavam á vida agricola. Os unicos vestigios de cultura, que d’elles conhecemos, se referem aos seosMacanas, ou a suaLyvera-péme, especie de armas pesadas, que elles enfeitavam á capricho.

Tinham por costume pôr um Maracá, enfeitado de bonitas pennas na prôa de suas canôas de guerra, tão esguias como elegantes, e será bem possivel, que a base d’esse instrumento seja ornado de sculpturas similhantes ás que se observam entre os insulares da Polynesia. É provavel que multiplicando-se suas relações com os Europeos, tenham os Tupinambás bebido entre elles ideias de sculptura rudimentar que applicam á suas divindades grosseiras.

O veridico Barrére, que escreveo mais de um seculo depois de Ivo d’Evreux, falla de um piaya fazendo uma estatueta deAnaanh, genio do mal, que não é senão oAnhangado padre Nobrega e de Anchieta, cuja terrivel missão sobre a terra foi tão bem descripta por João de Lery, que sempre o chamouAignan.

Dêem-lhe nas ilhas ou nos continentes os nomes deUracan, deHyorocan, deJeropary, deMaboya, deAmignao, reconheçam-se os genios secundarios, como seos mensageiros (apenas citarei um, o maliciosoChinay, que faz emmagrecer os pobres indios sugando-lhes seo sangue.) Anhanga teve sempre fama terrivel nos seculos XVII e XVIII.

Este typo primitivo da sculptura religiosa dos Tupys foi infelizmente aberto em madeira muito molle, e por isso não poude resistir á acção do tempo, ou á invasão das formigas: duvidamos que se encontre um sóspecimende dois seculos atraz.

Eis finalmente a passagem tão curiosa de Barrére que confirma as palavras do padre Ivo. «Tem os indios outra sortede feitiçaria, que os singularisa. Fazem uma figura do diabo n’um pedaço de madeira molle e sonora: esta estatua do tamanho de tres a quatro pés é muito feia pela sua immensa cauda, e grandes lanhos.

«Chamam-naAnaantanhaque parece dizer—imagem do diabo, porqueTanhasignifica figura, eAnaan-diabo. Depois de haverem soprado sobre os enfermos, trazem osPiayasesta figura para fóra dacasa-grande:

«Ahi elles o interrogam, esbordoam-na á cacete, como para obrigar o diabo, bem a seu pesar, a deixar o enfermo.» (VideNouvelle Relation de la France équinoxiale, contenant la description des côtes de la Guiane, de l’isle de Cayenne, le commerce de cette colonie, les divers changements arrivés dans ce paysetc. etc. Paris. 1743, em 12 gr.)

N’um capitulo precedente Ivo d’Evreux ja fallou de uma boneca que tinha uma especie de mecanismo, que servia para as nigromancias do Piaya.

É para sentir-se, que não se encontrasse um só d’estes idolos nas collecções etnographicas, que então começou-se a fazer.

Poucos annos antes de haver la Ravardiere explorado o rio do Amasonas, João Mocquet, o guarda das curiosidades do Rei, percorreo essas praias, e seria de rara felicidade para a archeologia americana si elle encontrasse alguns dos idolos de que falla o padre Ivo.

É mui provavel, que estas lustrações sejam feitas á imitação das ceremonias, que entre os christãos viram osTupinambás.

Pode bem ser, que o mesmo aconteça á respeito da pretendida confissão auricular de que falla o autor um pouco mais adiante.

Os antigos viajantes, Hans Staden, Lery e Thevèt nada dizem, que tenha relação com tal costume.

Parece á primeira vista ter recebido estepiaga, tão influente, um nome francez: assim porem não aconteceu.

Havia n’esse tempo um poderoso Chefe, chamadoPacquara-behu«barriga d’uma paca cheia d’agoa».Pacamontpode significar a «paca agarrada na armadilha», (Pacamondé).

O nome da terra, onde tinha influencia, significa a «região das plantas leitosas», e escreve-seCumá.


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