NOTAS.

NOTAS.

Esta vasta provincia, uma das mais florescentes do Brazil, antes da chegada dos missionarios francezes não teve estabelecimento algum importante. Eram arbitrarios os seos limites, convindo não esquecer que a immensa capitania do Piauhy fez parte d’ella até 1811. Presentemente tem 186 legoas, de 20 ao gráo, de comprimento, 140 de largura, e nunca menos de 20,000 legoas quadradas de superficie. Fica entre 1° 16′ e 7° 35′ de lat. merid. Confina ao N O com o Pará, servindo de linha divisoria o Gurupy, á N E é banhada pelo Occeano Atlantico, a S E com o Piauhy, separando-a d’elle o rio Parnahyba, e finalmente a S com a provincia de Goyaz pelo rio Tocantins.[BG]

Ainda que seja quente e humido o clima do Maranhão é sadio. As chuvas que fertilisam este rico territorio principiam regularmente em outubro.

O aspecto geral do paiz offerece por toda a parte ondulações do terreno, mas em nenhuma offerece elevações consideraveis, exceptuando-se d’estas asserções geraes e por força mui summarias a comarca de Pastos-bons, onde se encontram montanhas como sejam Alpercatas, Valentim, Negro etc. É regada por 14 correntes d’agoa.

De todos estes rios é oParnahybao mais considerável: infelizmente suas margens não são totalmente sadias, pois em varios pontos, como em quasi toda a provincia, reinam as febres intermitentes. Avalia-se seo curso em 240 legoas. OItapecurú, seo immediato, e de que falla constantemente o Padre Ivo d’Evreux, banha apenas 150 legoas de terreno, o Mearim 78 legoas, sendo ainda menos consideraveis oPindaré, oTury-assú, oGurupy, e oManoel Alves Grande. Julga-se que é de 462,000 pessoas a população de toda a provincia, embora diga o relatorio official da presidencia, com data de 3 de julho de 1862, que esta cifra é apenas de 312,628 almas, sendo 227,873 livres e 84,755 escravos. Convem observar, que o recenseamento geral da população do Imperio, feito em 1825, dava apenas 165,020 almas, sendo esta cifra muito inferior á realidade, porque recusaram muitos Srs. dizer com certesa o numero dos seos escravos.

Nada se sabe, e nem será possivel saber-se exactamente, a respeito da povoação nomade dos indios, isto é, d’aquella cujo conhecimento seria muito curioso afim de apreciar-se as mudanças, que houveram nas aldeias depois do que escreveo o Padre Ivo, podendo apenas dizer-se que é maior no Maranhão, no Pará, e na nova provincia do Rio Negro, do que n’outra qualquer parte.

Em summa o governo só tem dados mui imperfeitos e raros sobre estas infelizes hordas, das quaes se occupa actualmente.

Os cuidados tardios, embora caridosos, da administração provincial, tem que acabar muitos males afim de que seja completa a reparação.

Tudo ainda está por fazer relativamente aos Indios.

Não souberam estas tribus conservar nem a dignidade que dá completa liberdade aos habitantes das florestas, e nem os principios de civilisação, que se intentou incutir-lhes no seculo XVII.

Reconcentradas no interior por Mathias de Albuquerque, dizimadas pela variola, hoje são apenas a sombra do que foram sob o dominio dos seos chefes independentes.

Esta população indigena é comtudo maior nos desertos do Maranhão, e embora d’ella não tratem certas estatisticas, é avaliada em 5,000 o numero dos indigenas reunidos em aldeias.

Si dermos credito á um intelligente militar, que viveo em constantes relações com elles por espaço de 20 annos, a sua decadencia physica é menor que a moral, pois perderam até a reminiscencia de suas tradicções théogonicas, ainda mal, visto ser muito curioso o comparal-as com a narração dos antigos viajantes francezes.

Sob este ponto são elles menos favorecidos que os Guarayos, visitados por Orbigny, os quaes ainda hoje repetem em seos canticos as legendas cosmogonicas do seculo XVI.

Os indios do Maranhão, entre os quaes se contam os Timbyras, os Gés, os Krans, e os Cherentes não podem fornecer ao historiador senão informações mui incompletas, pois que ha perto de 40 annos já o major Francisco de Paula Ribeiro se queixava do immenso esquecimento d’elles, (videRevista Trimensal, tomo 3.º, pag. 311) esquecimento fatal de grandes tradicções, pelo que se tornam hoje preciosos certos livros, como sejam os dos nossos velhos missionarios, onde pelo menos se encontram os mythos antigos, ahi escriptos para serem combatidos.

De vez em quando entre estes indios degenerados apresentam-se alguns homens energicos, que comprehendem o abatimento de sua raça, e que desejariam vel-a progredir, porem são mui raros, pouco comprehendidos, e demais só olham para o futuro, e não experimentam amor algum por sua antiga nacionalidade.

Seos compatriotas longe de ajudal-os nos trabalhos emprehendidos para melhorar seo futuro, ainda os amesquinham com o seo odio tão irreflectido quam brutal.

Foi o que aconteceo aTempee aKocril, chefes conhecidos pelo major Ribeiro. Trabalharam inutilmente para chamar ao caminho da civilisação as tribus, cujo governo lhe foi confiado, e a final foram victimas do seo zelo.

Vide «Memoria sobre as nações gentias, que presentemente habitam o continente do Maranhão escripta no anno de 1819 pelo major graduado Francisco de Paula Ribeiro,Revista Trimensal, T. 3º pag. 184.»

De passagem disemos, que não deixaram descendentes, pelo menos conhecidos, os Tupinambás cathequisados pelos missionarios francezes, suppondo-se apenas, que um ramo d’esta grande nação ainda hoje povôaVinhaeseVilla do Paço do Lumiar, achando-se no mesmo casoS. MigueleTresidélla, a margem do rio Itapecurú, eVianna, no Pindaré.

Com mais probabilidade ainda confundiram-se os Tupinambás com as tribus do inferior, tomando os nomes de Timbyras e Gamellas. São tambem subdivisões dos Timbyras osSakamecrans, osKapiekransouCanellas-finas, e os Gés, que vagam pelas grandes florestas á Oeste do Itapecurú. Nega o major Ribeiro, que ainda sejam antropóphagos estas diversas tribus. N’este escriptor imparcial, e que reconhece a ferocidade dos Timbyras, é que se deve estudar as horriveis represalias, de que tem sido elles os indios, sendo a escravidão a menos sanguinolenta. Elle avaliou em 80:000 o numero d’indios selvagens, embrenhados nos mattos em 1819, hoje sem duvida consideravelmente diminuido.

Francisco Huby era tambem livreiro e tinha sua loja n’uma praça entre os mais afreguezados armazens na galeria dos prisioneiros em Palacio, e soffrera-a como os outros no grande incendio de 1618.

Quatro annos antes d’elle encarregar-se da publicação do livro de Claudio d’Abbeville, de que este é continuação,morava na rua de Sam Thiago noFolle de oiro, e não naBiblia de oiro, que depois tomou por divisa.

Si foi ferido na prosperidade, foi justamente por haver permittido, que mão impia privasse a França por mais de dois seculos do livro precioso, de que tinha sido edictor, e que hoje entregamos a publicidade, graças a uma d’essas empresas litterarias tão raras em nossos dias, onde a honra das letras é o pensamento dominante e superior a todas as considerações.

O volume, que servio para a nossa reimpressão é encadernado em marroquim encarnado, semeiado do flores de lys de oiro, e com as armas de Luiz XIII. Faz parte da reserva sob n.º 01766 da Bibliotheca Imperial de Pariz.

A capital do Maranhão occupa ainda hoje o mesmo lugar escolhido por seos antigos fundadores. Está situada a 2° 30′ e 44″ lat. austral e 1° 6′ e 24″ de long. oriental do meridiano do Forte de Villegagnon, na bahia do Rio de Janeiro.

La Ravardiere e Rasilly escolheram para edifical-a a ponta de terra O d’uma pequena peninsula, ligada á ilha do Maranhão pela calçada doCaminho grande.

Os riosAnileBacanga, vindos de diversos pontos da ilha confundem suas agoas na mesma embocadura e formam vasta bahia. A elevação, que se apresenta ao S doAnil, á E e ao N. doBacanga(lugar onde se confundem as agoas d’estes dois pequenos rios) é o lugar primitivo onde se levantou a cidade nascente collocada sob o patrocinio de Sam Luiz.

A cidade de Sam Luiz, elevada em 1676 á dignidade episcopal por uma Bulla de Innocencio XI, conta nunca menos de 30 mil habitantes, e está situada em terreno docemente ondulado, sempre, em todas as estações, carregado de rica vegetação, e assim offerecendo aos viajantes panorama encantador. (VideCorographia Brasilica,Will. Hadfield,Milliet de St. Adolphe, e principalmente osApontamentos estatisticosda provincia do Maranhão, annexos aoAlmanackde 1860 publicado por B. de Mattos.)

Esta linda cidade é naturalmente dividida pela espinha dorsal da peninsula, que separa as duas bacias dos rios na direcção de E. O.

Seo ponto mais elevado é oCampo d’Ourique, onde apresenta 32m 692c de elevação acima do nivel medio do mar.

É dividida em tres parochias:N. S. da Victoria,S. João, eN. S. da Conceição, tem 72 ruas, 19 becos, 10 praças, 55 edificios publicos, e 2,764 casas, das quaes 450 tem um só pavimento.

Para utilidade dos habitantes podem ser maiores e mais regulares as praças, e embora sejam as ruas cortadas em angulo recto, podiam ser mais largas e melhor dispostas sendo observadas as regras da hygiene.

Não são más suas calçadas, e tem declive bastante em relação aos dois rios que banham a cidade. Em resumo é a Capital do Maranhão saudavel e limpa.

«O navio que demandar o porto, toma por marca o Palacio do governo, assentado n’uma eminencia que domina o porto.

Este edificio tem a seos pés o Forte de Sam Luiz, e de suas janellas percorrendo-se com os olhos uma extensa bahia avista-se ao longe as costas e a cidade de Alcantara: mais perto da barra está o pequenoForte da Ponta d’areia, e dentro do porto na margem opposta do Bacanga a pequenaermida do Bomfim, muito arruinada, e na frente do Anil aPonta de Sam Francisco, onde segundo a noticia que nos dirige, entregou la Ravardiere ao commandante portuguez a cidade nascente e a fortalesa de Sam Luiz, nunca se podendo assas louvar n’essa occasião o procedimento inteiramente nobre do commandante francez e de Alexandre de Moura por parte da Hespanha.

O joven cirurgião de Pariz que foi com tanto zelo pensar os feridos dos dois partidos, e que recebeo tão penhorador acolhimento no campo inimigo poude d’elle dar somente umaideia, por sua narração sincera e franca, da cordialidade, que appareceu entre os francezes e os portuguezes depois do combate. (VideArchivos das viagens publicadaspor M. Ternaux Compans.)

Em distancia de alguns metros pelo Anil acima está o convento e Igreja de Santo Antonio, construidos no proprio lugar onde em 1612 Ivo d’Evreux, ajudado pelos padres Arsenio e Claudio d’Abbeville, edificou seo conventosinho sob a invocação de Sam Francisco. Soffreo depois d’isto varios concertos e augmentos este mosteiro dos Capuchinhos francezes, achando-se hoje uma parte do edificio moderno occupado pelo Seminario Episcopal, e a Igreja, hoje em construcção, levanta-se com architectura gothica simples.» Pelo que nos dizem será a igreja mais bonita do Maranhão.

Não é esta a unica construcção digna de mencionar-se na cidade, porem é a unica que nos interessa directamente.

Mencionamos apenas oCaes da Sagração, assim chamado em memoria da coroação e sagração do Sr. D. Pedro 2.º, e da vasta bahia, onde agora se escava para poder n’ella fundear uma fragata a vapor da primeira ordem, e apenas citamos a dóca que se projecta fazer nasenseiadas das Pedras.[BH]

Contam-se muitas construcções monumentaes, como sejam a igreja do Carmo, a Cathedral, o quartel do Campo de Ourique, o Theatro, e mais outras que força é omittir, pois apenas n’uma ligeira nota desejamos mostrar englobadamente o que em 250 annos se tornou isto fundação francesa.

William Hadfield, um dos mais modernos viajantes, que tratou d’este paiz, observou que é na cidade de Sam Luiz, onde no Brasil se falla o portuguez com mais pureza. É a patria de dois escriptores mui estimados no Imperio, Odorico Mendes e João Francisco Lisboa, fallecido ha pouco.

Depois de haver traduzido com superioridade de estylo, que causaria inveja aos contemporaneos de Camões, occupa-se actualmente Odorico Mendes na traducção em verso das obras de Homero, onde a sciencia do rythmo disputa com a inspiração.

Quanto ao poeta das legendas nacionaes, cujos cantos são geralmente repetidos no Brasil (queremos fallar de Gonçalves Dias) pertence tambem á provincia do Maranhão, por elle explorada como sabio e como viajante intrepido, porem nasceu em Caxias.

As obras d’esses tres escriptores honram ao paiz, são tambem a honra da bibliotheca publica; porem este estabelecimento, creado n’uma cidade eminentemente litteraria, não está em relação com as necessidades crescentes de outras instituições suas, relativas á instrucção publica. Ha tres annos contava apenas 1031 volumes.

Prasa aos Ceos, que o livro, que agora réproduzimos, o primeiro que, com o de Claudio d’Abbeville, foi escripto na Cidade nascente, marque o principio de uma era nova para estabelecimento tão indispensavel n’uma Capital, já florescente. Muitas outras instituições supprem esta deficiencia, publica-se na Capital diversos jornaes, taes como oPublicador Maranhense, aImprensa, oJornal do Commercioetc. etc., e tambem ha umaAssociação typographica, umGabinete de leitura, e a sociedade litterariaAtheneo Maranhense.

Tudo isto na verdade é mui differente do tempo, em que o Padre Arsenio de Pariz com muita difficuldade achava apenas uma folha de papel para escrevêr á seos Superiores.

A Cathedral deSão Luizou doMaranhão, (assim com estes dois nomes se designa a Cidade) deixou a invocação de São Luiz de França. É a antiga Igreja do Convento dos Jesuitas a actual cathedral sob a invocação de N. S. daVictoria. (Vide Ayres do Cazal—Corographia Brazilica. Rio de Janeiro 1817. T. 1.º pag. 166).

Parece-nos, que nas grandes construcções, que actualmente se estão trabalhando para o augmento do Convento de S. Antonio, respeitou-se a pequena Capella feita pelos francezes. São tres os frades d’esta Ordem, Frei Vicente de Jesus, guardião; Frei Ricardo do Sepulchro e Frei Joaquim de S. Francisco, todos sacerdotes.

Ao norte do Brazil e no interior da Goyanna havia então prodigiosa abundancia d’esta especie de fóca, cuja carne era muito saborosa: chamam-na os portuguezespeixe-boi, e os indiosmanati. Ainda hoje os habitantes ribeirinhos do Amazonas e do Tocantins nutrem-se com a excellente carne d’este peixe. (Vide Osculati,America equatoriale). Claudio d’Abbeville lhe deo o nome deUraraura.

Esta localidade, ja citada, ainda o será muitas vezes.

O vasto territorio, ainda hoje conhecido em Maranhão pelo nome deTapuitapéra, está hoje dividido pelas comarcas de Alcantara e de Guimarães. Antigamente foi occupado por onze aldeias de indios, das quaes a maior era Cumã.Tapuitapéradista 40 legoas de Maranhão.[BI]PensaMartiusque esta palavra quer dizer—habitação de indios inimigos. VideGlossaria linguarum brasilensium. Erlanguem. 1863, em 8.º

N’esta obra acham-se tambem os nomes dos lugares, dos vegetaes e dos animaes.

OAparaturier, que deo tão felizes comparações ao padre Ivo, é simplesmente o mangue (Rhyzophora.Lin.) Esta arvore das praias americanas tão util á industria, forma vastas florestas maritimas, e em roda da costa do Brasil e de Venezuela. Com muita frequencia se tem destruido estas arvores, em varios lugares, e temos ouvido até attribuir-se a invasão recente da febre amarella á destruição systematica d’este bonito vegetal, que aformosêa com sua verdura todas as praias brasileiras. Cahindo sob o ferro do cultivador deixa á descoberto praias cheias de lôdo, habitadas por myriades de carangueijos, formando assim pantanos d’onde se desprendem miasmas de especie muito perigosa.

No Brasil conhece-se duas qualidades de mangue, obrancoe overmelho, e para a descripção scientifica d’elles enviamos nossos leitores para Aug. de St. Hilaire. Julgamos que a palavra antiga, ahi empregada pelo padre Ivo, vem do verboparere, parir, porque esta arvore se reproduz pelas raizes, que, como arcadas, espalham ao redor de si. (VideNossas scenas da naturesa sob os tropicos,) e ahi achareis o effeito do mangue nas paisagens.

É lamentavel esta lacuna, porem deixa comtudo perceber, que se trata das tartarugas do Maranhão.

Com os ovos d’este chelidoniano prepara-se no Pará o que se chama—manteiga de tartaruga, de que se exporta prodigiosa quantidade.

N’esta enumeração mui completa de quadrupedes que se podem caçar, um nome desperta naturalmente a attenção do leitor, e évacca brava. É bem possivel, rigorosamente fallando, que os campos do Mearim ja tivessem algum individuo da raça bovina, ja ha muito tempo introduzida emPernambuco: Claudio d’Abbeville é muito explicito n’este ponto.

Mas não é d’isto que quiz tratar o nosso bom missionario: a vacca brava, oubragua, como chama em outro lugar, é oTapirouTapié, conforme Montoya, animal muito commum em todo o Brasil.

Para denominal-o serviram-se os hespanhoes e portuguezes d’um nome pedido por emprestimo aos Mouros. Chamavam-no tambemAntaouDanta, que significa, dizem, bufalo. Quando chegou aos americanos a sua vez de dar nome ao boi, chamaram-noTapir-açù.

Martius observa com razão, que esta palavra na lingua geral se applica a todo o mamifero corpulento. Sendo este pachyderma o animal mais corpulento conhecido na America do Sul, foi sua caça procurada de preferencia pelos Europeos, e assim desappareceo, ou pelo menos tornou-se mais rara nos lugares onde outr’ora era abundante. Em certos paizes da America era um animal sagrado, e assim figura em diversos monumentos.

No Brasil procuravam os indigenas este animal, tanto por ser boa caça como pela espessura de seo couro, de que faziam escudos impenetraveis ás flexas, pela maior parte armadas de uma ponta aguda de madeira ou de cana.

João de Lery trouxe do Brasil para França alguns d’esses broqueis, porem não chegaram á Europa, porque uma terrivel fome devida á longa viagem de 5 mezes obrigou o pobre viajante a comel-as, depois de amolecidas por meio d’agoa.

Os nossos leitores que desejarem conhecer minuciosamente o Tapir americano, consultem uma excellente dissertação, dedicada especialmente á este animal, escripta pelo Dr. Roulin, Bibliothecario do Instituto.

NoGlossariode Martius lê-se uma extensa synonimia relativa ao Tapir. (Vide pag. 479.)

É certo que os indios d’esta tribu foram contrarios aos francezes.

Ha na historia d’esta expedição um ponto, que não foi ainda bem esclarecido: o mais afamado capitão de indios de que se recorda o Brasil fez suas primeiras campanhas durante o dominio dos francezes.

O celebre Camarão, o grande chefe ouMorubixabados Tabajares, commandava 30 frecheiros na lucta entre la Ravardiere e Jeronymo de Albuquerque.

Convidado pelo governo portuguez para tomar parte n’esta guerra, partio de sua aldeia, noRio Grande do Norte, e foi para oPresidio de N. S. do Amparo, no Maranhão, em 6 de setembro de 1614: seguio-o seo irmãoJacaunacom um filho de igual nome, e de 18 annos de idade.

Depois de muitos annos Camarão, que teve tão boa escola, adquirio fama immortal nos fastos do Brasil por occasião da expulsão dos hollandezes. (VideMemorias para a historia da Capitania do Maranhão, impressa nas Noticias para a historia e geographia das Nações ultramarinas.)

No Brasil não ha verdadeiros javalys, e nem este nome se pode dar aosPecorisouTajassus, ouPorcos do Mattona linguagem dos naturaes. Não é extraordinaria a proesa do fidalgo, porque andando ospecarissempre em bando basta chumbo grosso para matal-os. Martius deo a synomimia completa d’este animal noGlossaria linguarum brasiliensium. (Vide a divisãoAnimalia cum Synonimis, pag. 477.)

Umajoupaé uma pequena cabana coberta de folhas e abertas por todos os lados.

Esta palavra é muito usada nos nossos estabelecimentos de Guyana. Vê-se estampas deajoupasem Barrére.

Em 1542 a fóz do grande rio foi explorada por Aphonso de Xaintongeois. (Vide oManuscripto original de sua viagemna Bibliotheca Imperial de Pariz.)

João Mocquet, cirurgião francez, guarda das curiosidades de Henrique IV, visitou suas praias. (Vide oManuscriptodo seoRelatorionaBibliotheca de Santa Genoveva.)

Finalmente la Ravardiere fez até lá um reconhecimento.

João Mocquet foi muito explicito quando tratou do mytho das Amasonas, que tanto occupou Condamine e o illustre Humboldt. Tudo quanto elle referio d’estas guerreiras soube do chefeAnacaiury, cujo personagem, ou seo homonymo, encontra-se nas obras de Ivo d’Evreux.

Governava uma nação no Oyapok ou do Yapoco.

Mocquet disse a seos leitores, que não poude visitar, como desejava, o Amasonas «por serem violentas as correntes para os navios, e mesmo para o seo patacho que ja fazia muita agoa.»

Todas estas narrações a respeito do grande rio deixou em França impressões tão duradouras, que o Conde de Pagan, quarenta annos depois, convidou a Mararin a reerguer projectos esquecidos. Para a conquista da Amasonia elle queria união com os indios, e por sua vontade devia o Cardeal ligar-se «aos illustresHomagues(Omaguas) aos generososYorimanese aos valentesTupinambás.» Nunca certamente os selvagens receberam tão pomposos nomes!

Seria mui curiosa, si se achasse, a narração da expedição pelas margens do Amasonas em 1613, feita por ordem de la Ravardiere e ainda no tempo de Luiz XIII existia uma copia.

Entra Gabriel Soares em minuciosas descripções do fabrico d’esta farinha, de que os indios fazem grandes provisões.

A especie de mandioca, conhecida pelo nome deCarimã, serve de base.

Esta raiz a principio dissecada a fogo brando, depois ralada, é pisada n’um almofariz, peneirada e misturada com certa quantidade de outra qualidade de mandióca na occasião de ser torrada, o que se faz até ficar muito secca, e n’esse estado é conservada por muito tempo.

Encontram-se sobre esta industria agricola do Brasil todos os esclarecimentos necessarios noTratado descriptivo do Brasil, pag. 167.

Augusto Saint-Hilaire disse com rasão, que a cultura da mandióca tirou a maior parte dos seos processos da economia domestica dos Tupis, e resumio concisa e habilmente tudo que ha a dizer-se relativamente ao cultivo da planta. (Voyage dans le district des Diamants et sur le littoral du Brésil. T. 2—pag. 263 e seguintes.)

Gabriel Soares está aqui inteiramente de accordo com o nosso Missionario.

Estas grandes canoas chamavam-seMaracatim, por causa doMaracá, que, como protector, trasiam na prôa.Igachamava-se uma canôa pequena, eIgaripéuma canoa de cortiça ou casca de arvores, etc. etc. (VideRuiz de Montoya,Tesoro, na pag. 173.)

André Thevet, e depois d’elle João de Lery descreveram com exactidão este genero de ornato, chamadoAraroyepelo ultimo d’estes viajantes.

Coube ao padre Ivo fazer-nos conhecer seo valor symbolico.

A curiosa narração do indio confirma a opinião de Humboldt, e bem pode ser que antigamente se encontrassem algumas mulheres cansadas do jugo dos homens, e por isso entregues á vida guerreira.

Combina igualmente com as tradicções colhidas por Condamine e sessenta annos antes do Padre Ivo o franciscano. André Thevet não esteve longe de vêr n’estes selvagens americanos descendentes directos do exercito feminino commandado por Pentisilée.

Humbold disse com rasão, que o mytho das Amasonas era de todos os seculos e de todos os periodos da civilisação.

Esta nação não é indicada noDiccionario topographico, historico, descriptivo da Comarca do Alto Amasonas. Recife. 1852—1 vol. em 12.

Tambem não a encontramos na longa nomenclatura daCorographia Paraensede Ignacio Accioli de Cerqueira e Silva. Deve estar extincta, e Martius tambem não a cita no seoGlossaria, publicado ultimamente.

Por este nome, aqui tão frequente, designa-se uma grande aldeia alem de Tapuitapéra.

Era tambem o nome de um vasto territorio e de um rio.

Segundo o padre Claudio—Cumãsignificaproprio para pesca, porem duvidamos que seja exacta a explicação.

Debalde procura-se esta palavra noGlossariade Martius publicado em 1863.

Cazal, oDiccionario do Alto Amasonas, eAcciolinada dizem a respeito d’estes rios, onde comtudo esteve um exercito de 2,000 homens! Martius trata de uma nação dePacajazouPacayá, no Pará. (VideGlossaria linguarum. pag. 519.)

Esta ligeira descripção das casas aereas construidas sobre mangues e troncos das palmeirasmuritislembra um facto bem curioso, classificado outr’ora como fabula, e descripto na Relação de Walther Ralegh.

É bem possivel que haja alguma exageração, porem o facto é authentico, e deo-se na foz do Orenoco.

OsWaraonsvisitados ha perto de um seculo pelo Dr. Leblond, osGuaraunosdescriptos pelo sabio Codazzi, são um e o mesmo povo, salvos de inteira destruição por sua maneira de viver.

OsCamarapins, cujo desaparecimento acabamos de provar, foram menos felises.

Á respeito dos indios dasIourasconsulte-se o resumo, que outr’ora fizemos, dos manuscriptos, por onde o Medico francez provou sua moradia entre os Waraons. (VideGuyana, 1828, em 18.)

Codazzi, cujos bellos trabalhos geographicos são conhecidos, citava em 1841, os Guaraunos, como não tendo ainda abandonado suas casas aereas.

Ha trinta annos, quando muito, vinham elles negociar com os habitantes da Trindade. (Vide oResumen de la Geographia de Venezuela. Pariz. 1841—em 8.)

Agostinho Codazzi morreo ultimamente.

Quanto aos manuscriptos de Leblond, que ja tivemos á nossa disposição, pertenciam á collecção das viagens, possuida em 1824 pelo edictor Nepveu.

Este personagem tinha um nome todo portuguez, e era muito dedicado á nação, a cujos interesses servia.

O titulo deCapitãoafinal estendeo-se a todos os chefes da raça indigena.

Este selvagem fanfarrão gabava-se de ter feito morrer o padre Ambrosio, residente emIuiret, cuja pronuncia segundo Claudio d’Abbeville, éJeuiree, e ella indica a estranha significação d’este nome.

OPay açu, o grande padre é Ivo d’Evreux. A palavraPayquer dizer em portuguezPadre. Pay-guaçu, diz Ruiz de Montoya significar Bispo ou Prelado em Guarany.

O nome dePayfoi mais facilmente adoptado pelos indigenas pela sua analogia em designar pessoas graves. Os feiticeiros eram chamados—hechizeros—para servir-nos da propria expressão do lexicographo hespanhol.

Dalingua geral, modificação do Guarany,Paysignifica padre, monge e senhor.Pay Abaré Guaçuera a designação dos prelados e dos jesuitas. Os indios ainda chamavam o papaPay aboré oçu eté.

Não sabemos porque o missionario modifica a orthographia do nome de um povo, que elle ja escreveo muitas vezes de forma diversa.

Claudio d’Abbeville escreveTopinambás, o author da sumptuosa entradaTupinabaulx, Hans StadenTopinembas,e emfim João de LeryTuupinambaults. Malherbe suavisando a expressão escreveTopinambus. Foi esta ultima orthographia a que prevaleceo no tempo de Luiz XIV, porem preferimos a que é adoptada pelos brasileiros.

Por esta palavra tão vaga, aqui empregada pelo padre Ivo, suppomos que elle pretende designar os povos mais selvagens ainda que os Tupinambás, ou então que se entregavam mais especialmente a anthropophagia.

Nas obras de Humboldt encontra-se uma curiosa definição da palavraCanibal. Notaremos apenas, que 50 annos antes do tempo, em que escreveo o padre Ivo, designavam-se assim, quasi que exclusivamente, os indios mais proximos do Equador.

Na historia da França antarctica por André Thevet, á proposito da madeira de tincturaria, lê-se o seguinte: «o da costa do rio de Ianaire é melhor que o da costa de Canibaes e de toda a costa do Maranhão,» (pag. 116 verso), e mais adiante: «visto que chegamos a estes Canibaes, d’elles diremos apenas, que este povo, depois do cabo de Santo Agostinho, e alem até o Maranhão, é o mais cruel e deshumano que em qualquer outra parte da America. Esta canalha come ordinariamente carne humana, como nós comemos carneiro.» (pag. 119.)

Foi com effeito nas margens do Itapecurú, que se apresentaram os portuguezes.

Claudio d’Abbeville disse algumas palavras sobre este bello rio, porem exagerou o seo curso.

Nós estamos tão pouco ao facto da geographia d’esse paiz, que Adriano Balbi se contentou em mencionar seo nome apenas no quadro, que traçou, dos rios do Maranhão.

Que prodigiosas mudanças não se terão operado sobre suas margens desde o tempo, em que o nosso bom frade assim o chamava alterando-lhe o nome!

Em lugar d’estas florestas, onde andavam errantes os Timbyras, cultiva-se milho, mandióca, canna de assucar, fumo e algodão, e a producção ultima d’este genero foi tão abundante, que subio a 35,000 saccas.

Em França não se conhece o nome das cidades mais importantes, assentadas á margem d’este rio, e apenas se encontram em nossos livros de geographia.

Quem já ouvio fallar da pequena cidade de Caxias, a risonha patria de Gonçalves Dias? Comtudo é uma cidade rica, commercial, banhada pelo Itapecurú, e distante da capital sessenta legoas.

Em 1821 era apenas um povoado de 2,400 almas, e hoje este numero elevou-se a 6,000 habitantes.

Caxias é o centro do commercio entretido com o Piauhy, e com immensas solidões de campos de criação de gado, conhecidas pelo nome desertão.

Edificada para assim dizer no deserto, tem escolas florescentes, um theatro, estabelecimentos de utilidade publica, que nem sempre se encontra em cidades mais consideraveis.

O nome deCaxiastem no Brazil significação politica, porque, em 1832, travou-se noMorro do Alecrimuma batalha, cujo resultado consolidou a Independencia da Provincia. Mais tarde, na propria colina, chamada dasTabócasdeo-se o sanguinolento combate, onde foi vencido[BJ]Fidié, e que inspirou a Gonçalves Dias tão energicos versos.

Seriam necessarios volumes para narrar, ainda que summariamente, as perturbações, que se seguiram a este acontecimento,e as luctas tempestuosas, que houveram neste canto ignorado do mundo até 1848, quando o Dr. Furtado conseguio reprimir a horda, que assolava esta cidade nascente.[BK]

A propria naturesa, por si só, é grande n’estas regiões: 20 mil habitantes formam a população d’este vasto municipio, empregado superficialmente na agricultura.

Na distancia, em que nos achamos, estas revoluções tão cumpridas para serem contadas, assimilham-se ás da idade media, que a historia local as vezes registra, mas que facilmente esquece visto não ligar-se á algum dos grandes interesses, que prende a attenção do mundo.

Com mais justa rasão pode applicar-se isto a villa do Codó, a mais florescente após Caxias, como ella banhada pelo Itapicurú, e como ella separada da Capital por um espaço de 60 legoas.

Este nome do principio do mal, acceito em toda a obra pelo Padre Ivo d’Evreux e por Claudio d’Abbeville parece ser mais particular ao Norte do Brazil.

Martius escreveJurupari, ouJerupari.Anhagáparece ser mais uzado ao Sul. Não se acha a significação desta palavra noTesoro de la lingua Guarani.Angaineste precioso Diccionario significa espirito mau.Anhangasignifica hoje apenas umphantasma. (Vide Gonçalves Dias,Diccionario da lingua Tupy.)

Estes povos, antes de reunidos, eram chamados Tabaiares pelos Tupinambás. Pag. 36.

Tabajares não significa de maneira algumainimigo, e sim senhores da Aldeia. (Vide Adolpho de Varnhagem,Historia geral do Brazil. T. 1.º Accioli.Revista do Instituto.)

A denominação, adoptada no Seculo XVII por nossos compatriotas, veio sem duvida alguma do costume que tinham estes indios de furar o labio inferior, e mesmo as faces para n’ellas introduzir discos de uma especie de esmeralda, feitos com muita paciencia, e apreciados como joias estimaveis. (VideSur l’usage de se percer la lévre inferieure chez les Américains du sud, a serie de nossos artigos, inserida com muitas gravuras noMagasin pittoresque. T. 18 pag. 138, 183, 239. 338, 350 e 390.)

Mearinenseé evidentemente um nome creado pelo nosso bom Missionario, e melhor não o inventaria Rabelais.

Os Mearinenses eram os proprios Tupinambás que residiam nas ferteis margens do Meary, d’onde proveio o nome á provincia, no pensar de Cazal. O Mearim, que offerece um curso de 166 legoas, só é navegavel no inverno, e as canoas grandes sobem unicamente até 60 legoas. Nasce naSerra do Negro e Canellaaos 8° 2′ e 23″ de lat. e 2° 21′ de long. contados da Ilha de Villegagnon na bahia do Rio de Janeiro.

A palavraTapuyaouTapuytem levantado grandes discussões: será o nome de um povo? (Vide oDiccionario de Gonçalves Dias).

Significará inimigo? Ruiz de Montoya nada diz a tal respeito. Será preciso crear uma nação distincta da dos Tupys, a qual estes deram tal nome. Um escriptor, authoridade na materia, Ignacio Accioli não hesita a tal respeito.

Quando enumera as principaes divisões da raça Tupica, elle diz: «outra nação geral, a dos Tapuias, divide-se, como pensam muitos, em pequenas tribus fallando perto de cem dialectos, e são osAymorés, osPotentus, osGuaitacás, osGuaramonis, osGuaregores, osJaçarussus, osAmanipaqués, osPayeiase grande numero de outras.» (Vide T. XII daRevista Trimensal—Dissertação historica, ethnographica e politica sobre quaes eram as tribus aborigenes, etc., etc., pag. 143.)

Este pensamento passou como proverbio na ilha e em Goyana.

Hans Staden prisioneiro, pelos Tupinambás em 1550, ao sahir do Forte da Bertioga suscitou grande discussão para saber-se com certeza, quem foi o primeiro que o tocou. (Videla Collection. Ternaux Compans.)

Nada tem de extraordinario o nome d’este chefe, porem é necessario escrevel-o assim com mais exactidão,Ibira Pitanga. (VideRuiz de Montoya.) Lery escreveoAraboutan, ThevetOraboutan. Desapparece esta celebre madeira cada vez mais das grandes florestas, onde íam buscal-os os nossos antepassados.

É um Tabajara quem falla, porem observamos, que a palavraCarbetnão pertence álingua geral.

O padre Ruiz de Montoya não a inserio no seo preciosoTesoro de la lingua Guarany.

É usado mais particularmente entre os Galibis e os outros povos de Guyana.

Resente-se esta expressão da visinhança da nossa colonia.

Convem fazer certa differenca entre osCarbets, oucasa grande, e asOcasouTabas, que formavam a architectura rudimentar dos outros povos do Brasil.

Ouçamos a este respeito o Padredu Tertre. «No meio de todas estas casas, fazem uma grande, commum, a que chamamCarbet, a qual tem ordinariamente 60 ou 80 pés de comprimento, e é formada de grandes forquilhas de 12 a 20 pés de altura, infincadas na terra: sobre ellas collocam uma palmeira, ou outro tronco de arvore muito direito, que serve de cumieira, e n’ella ajustam caibros, que descem até tocarem terra, e cobrem-nos com ramos ou folhas de palmeiras, ficando muito escuro o interior da casa, pois a claridade só entra pela porta, e esta é tão baixa, que para entrar-se é necessario curvar-se.»

Estas particularidades pedimos emprestadas a uma obra do anno de 1643, e se referem especialmente a architectura rustica dos Caraibas insulares.

Escolhemos este exemplo quasi contemporaneo do livro publicado pelo nosso autor, porque na realidade não ha grande differença entre osCarbetsdas ilhas e os dos continentes.

Si se escrevesse uma historia d’essas casas de folhas tão rapidamente construidas, apresentar-se-iam certas variedades conforme os usos e fins para que se destinam. (Vide a este respeitoLe voyage pittoresque au Bresil de Debet, depois as gravuras do livro deAndré Thevet, publicado em 1558.)

Haviam pequenos e grandesCarbets, aquelles onde os Piagas faziam suas charlatanerias, e estes onde se formavam os grandes conselhos.

Tinham estes ultimos a configuração de um dos nossos vastos alpendres, tendo lugar para 150 ou 200 guerreiros.

No XVII seculo, na linguagem de nossas colonias, nas ilhas ou no continente, formar um conselho qualquer eraCarbeter; o termo era proprio e acha-se usado por todos os viajantes. (Vide entre outros Biet,Voyage de la France équinoxiale. Paris. 1654, em 4.º)

David Migan era natural de Dieppe, e como fizeram tantos outros naturaes da Normandia no fim do seculo XVI, veio tentar fortuna entre os selvagens do Brasil.

Encontraram-no os chefes da opposição estabelecido havia muitos annos em Jupinaram, na ilha do Maranhão.

Era em toda a extensão da palavra um interprete da Normandia, e sabe Deos de que reputação gozavam estes interpretes no que dizia respeito ao que então se chamava mundo civilisado.

Comparavam-nos até aos selvagens, cujos odiosos festins, dizia-se, que elles partilhavam.

David Migan teve as honras do Mercurio francez. (Vide T. 3, pag. 164)

Regressou á França com Rasilly a quem era muito affeiçoado, e assim foi bom por ser o unico capaz de traduzir para a Rainha, a longa exposição de Itapucu.

De passagem lembramos ter elle tambem assignado o termo de cessão, que la Ravardiere fez de seos direitos a Francisco de Rasilly, o que indica, sem duvida alguma, o gozar de consideração excepcional.

O nome de Migan nos parece sernome de guerra, pois esta palavra na linguatupy, significa o caldo grosso, que se fazia com a farinha de mandioca.

Malherbe, que estava nas Tulherias, quando se apresentaram os indios, notou a habilidade d’este homem.

Havia outro interprete chamado Sebastião, muito affeiçoado a Ivo d’Evreux.

É mui curioso o achar-se em Maranhão, no anno de 1612, um selvagem fazendo ao padre Ivo o mesmo raciocinio, a que foi obrigado á responder João de Lery em 1556: «o que quer dizer vósMairePeros, (francezes e portuguezes) virdes de tão longe buscar madeira para vos aquecer? Lá não a tendes?» (VideHistoire d’un voyage en la terre du Bresil, Rouen 1578 em 8.º)

Largamente descreveo Mr. Humboldt a região dos Otomanos, e as porções immensas de terra, que reunem estes indios para comer quando lhes falta a caça e a pesca.

Pensa o grande viajante, que esta terra secca ao sol, formando tulhas de bolasinhas, dispostas symetricamente, é procurada pelos selvagens por conterem particulas animalisadas e que a fazem nutritiva.

Prova o padre du Tertre, que tanto os indios das ilhas como os do continente comem terra, embora pense que seja por aberração de gosto.

«Todos comem terra, mães e filhos, diz elle, e a causa de tão grande aberração de gosto não pode proceder, penso eu, senão de um excesso de melancolia.» (Hist. nat. das Antilhas, habitadas pelos francezes. T. 2º, pag. 375.)

Não longe das regiões descriptas pelo padre Ivo, á margem do rio Ucayale, encontram-se ainda os indiosPinacos, cujo nome verdadeiro éPuynagas. Estes indios despresados por seos compatriotas, são afamados comedores de terra. A este respeito, entre outros, foi publicado um curioso opusculo de Mr. Moreau de Jonnès com o titulo deObservations sur les Geophages des Antilles. Paris. An. VI. Tem somente 11 paginas.

Na enumeração das diversas classes da infancia achamos ainda exactidão no padre Ivo, embora confundisse a letra N com a R: a palavrameninoescreve-seCurumimnos Glossarios brasileiros. (Vide Gonçalves Dias,Diccionario da lingua Tupy. Leipzig, 1858 em 12.)

Gonçalves Dias chama a virgemCunhã mucu. (VideDiccionario.)

Este singular uso, fallado por todos os viajantes do XVI seculo, como acaba de ver-se ainda não estava modificado.

Não se encontra somente entre os Caraibas das ilhas, e sim tambem em pleno vigor na Europa, e especialmente entre os Bascos, e era então chamado a «encubação.»

As «Miscellanias historicas,» publicadas em Orange em 1675, contem interessantes observações á tal respeito. «Nota-se, diz elle, um admiravel costume em Bearn. Quando pare uma mulher, anda á pé e o marido deita-se para guardar o resguardo. Creio que os Bearnenses tomaram este costume dos hespanhoes, de quem Strabon disse a mesma coisa no livro 3º da suaGeographia.»

O mesmo faziam os Tibarénienses, como refere Nimphodore, na excellente obra de Apollonio de Rhodes, livro 2, e os Tartaros segundo o testemunho de Marco Paulo, cap. 41. livro 2.º

Esto uso, tão exquisito, e só explicavel si se podesse descer até o recondito mais intimo do caracter indiano, era religiosamente observado pelos mais valentes e afamados guerreiros Tupinambás, e provocaria o riso do homem civilisado, si indagasse a sua origem natural. Torna-se porem admiravel, para assim dizer, quando se sabe ser tal costume acompanhado de mui crueis privações, porque o indio, que acaba de ser pae, e que se condemna a tão ridiculo repouso, não só priva-se de alimentos, como ainda se entrega a outros supplicios com intenção de evitar que soffra o filhinho certos males, que elle receia.

Pela sua ignorancia e superstição julga-se com grande influencia phisiologica sobre o menino, e muito soffre e com stoicismo afim de poupar algumas dores ao recem-nascido.

O homem civilisado das cidades, embora mediocremente intelligente, abstem-se de esquadrinhar estas ideias cheias de dedicação, embora inconstantes dos selvagens, e ri-se antes de proferir seo juiso.

A companheira do indio tambem supersticiosa, approva o que faz seo marido: soffre, sem queixar-se, verdadeiras dores e entrega-se a um novo trabalho ainda mais pesado, porque todo o serviço da casa cahe sobre ella.

No modo de pensar desta pobre mulher a salvação do recem-nascido depende do procedimento stoico de seo marido. Nunca podemos saber qual era o motivo, que obrigava os antigos a entregarem-se a este repouso tão exquisito, não differente provavelmente do concedido aos americanos. Carli, cuja engenhosa erudicção explica tantas coisas antigas da America, não procurou mesmo uma hypothese para descobrir motivo tão ridiculo. Enganou-se por certo, quando disse serem elles alimentados abundantemente. (VideLettres Américaines. Boston et Pariz, 1788, T. 1 pag. 114.)

É bom ler-se com cuidado a versão francesa d’esta curiosa passagem.

Não soube o traductor francez, Febvre de Villebrune, dar real valor ás palavrasitalianisadaspelo autor.

Antonio Biet, é mais justo para com os indios, e menos inclinado á zombaria do que os seos predecessores, quando descreve a «incubação» entre os Galibis.

«O pobre indio, diz elle, soffre muito durante seis semanas, come pouco, e quando acaba o resguardo, está tão magro como um esqueleto.»

O mesmo viajante nos mostra o Galibi, sempre paciente, não deixando acasa grande, e nem se animando a levantar os olhos para os que o rodeiam. (Voyage de la France equinoccial, Livro 3.º pag. 390.)

Descrevendo os costumes de certos Caraibas, não podia o autor da historia moral das Antilhas esquecer a incubação.

Rochefort conta as particularidades e especifica sua analogia com uma ceremonia identica, que vio n’uma provincia de França.

Este repouso forçado do indio pareceo-lhe muito absurdo, porem não nega ao pobre paciente o merito do jejum, antes confessa, que durante sua reclusão apenas lhe dão um pouco de farinha e agoa. (VideHistoria moralpag. 494.)

Não proseguiremos n’estas citações, bastando dizer que entre os povos do Brasil os Tupiniquins, os Tupinacs, os Tabajares,os Petiguaras, e muitas outras tribus imitam os Tupis, e estes nomes nada mais adiantam.

Convem comtudo fazer bem saliente o amor paterno entre os indios, dando-se assim ao mais extravagante dos costumes a sua origem verdadeira.

Tamoiquer dizer avô na lingua dos Tupinambás: aqui ha alteração de palavra, proveniente por differença de pronuncia.

Lê-se noTesoro de la lingua Guarany, base da lexicographia brasileiraTamôi,abuelo,Cheramòi,mi abuelo,Cherúramôîruba,mi bisabuelo,Cherúramôî,el abuelo de mi padre, etc.

Por sua origem tinham os Tamoyos real proeminencia sobre as outras tribus da mesma raça.

No meiado do Seculo XVI habitavam as circumvisinhanças deNicteroy, ou antes do Rio de Janeiro: como alliados fieis dos franceses foram expellidos d’esse bello territorio por Salema, e os restos de suas tribus desceram para as regiões do Norte, onde encontraram seos antigos amigos, que se haviam refugiado especialmente nos campos de Maranhão.

Não é de mediocre importancia a especie de vocabulario, aqui offerecida pelo nosso missionario.

Os leitores francezes, pouco familiarisados com a philologia americana, despresaram sem duvida esta collecção de frases, provenientes d’uma lingua, que comtudo servio de recreiação á Boileau: o mesmo não acontecerá n’um vasto Imperio, onde as letras são hoje tão honradas.

Ha muitos annos já, que o Autor daHistoria Geral do Brazilprovou a importancia do estudo das linguas indigenas n’umaMemoriaimpressa entre as actas doInstituto Historico do Rio de Janeiro. (Agosto 1840.)

O padre Anchieta, a quem se deve a composição da primeira grammatica, conhecida, da lingua geral, não fallava o Tupy sem uma especie de enthusiasmo; o padre Figueira o imitou em sua sincera admiração; Laet, com quanto não manifestasse admiração gabou sua abundancia e doçura, e nisto foi seguido por Bettendorf.

Pode dizer-se, que entre todos estes foi o padre Araujo quem melhor fez sobresahir sua importancia debaixo do ponto de vista philosophico.

«Como foi, disse algures esse Religioso, que os povos, que a fallaram, tendo suas ideias limitadas em estreito circulo de objectos, todos necessarios embora á seo modo de vida, podessem conceber signaes representando idéas, capazes de indicar o objecto, que não conheciam antes, e isto não de qualquer forma, e sim com propriedade, energia e elegancia», accrescentando «sem ter ideia alguma da religião, a não ser da natural, encontraram em sua propria lingua expressão para patenteiar toda a sublimidade dos mysterios da religião, e da Graça, sem pedir emprestado coisa alguma aos outros idiomas.»

Enganar-se-ia completamente quem julgasse estar hoje esquecida a lingua usada entre tribus numerosas quando em 1500 Pedro Alvares Cabral descobrio o Brasil.

Deixou não só vestigios na Geographia do Brazil, mais tambem ainda hoje se falla n’algumas aldeias, tendo estreita affinidade com oGuarany, lingua usada na mór parte do Paraguay. Comtudo não é a mesma do seculo XVI.

Modificam-se os idiomas dos povos selvagens á similhança dos idiomas dos povos civilisados, e ainda mais talvez quando uma corrente de ideias novas vem desvial-os da liberdade do seo andar.

OMaya, oQuiché, oAztéco, oQuichua, oAymaranão são o que foram no tempo de Cortez, de Alvarado, e de Pizarro.

Si o sabio Veytia podesse, ha perto de um seculo, confrontar a differença enorme, que apresenta o Nahuatl antigo com o que fallavam muitas pessoas do seo tempo, imagine-se o que não succederia quando se fizesse a mesma confrontação entre a lingua Tupy, e o moderno Guarany.

Esta ultima lingua, tão em uso no Paraguay, não é mais fallada com a pureza da sua origem, segundo diz o Sr. Beaurepaire de Rohan, si não pelosCayuas, das nascentes de Iguatiny.

São pois mui preciosos todos os livros, que tratam da lingua antiga debaixo do ponto de vista grammatical.

Debaixo d’este ponto de vista, as viagens d’Hans Staden, de Thevet, e de Lery tem mais valor do que as Relações de Claudio d’Abbeville e Ivo d’Evreux.

Acham-se todos os promenores apreciaveis á este respeito no nosso opusculo publicado sob este titulo—Une fête bresilienne célébrée á Rouen en 1550. Suivie d’un fragment du XVI siécle roulant sur la Théogonie des anciens peuples du Brésil e des poésies en langue Tupique de Christovam Valente. Pariz, Techener, 1850, gr. em 8.º

O sabio Hermann E. Ludewig não conheceo o vocabulario apresentado pelo padre Ivo, ou pelo menos não tratou d’elle. (VideThe literature of American aboriginal languages. London, 1857, in 8.)

Finalmente tem se feito n’estes ultimos tempos trabalhos de tanto folego, merecendo o primeiro lugar os do illustreMartius.

Um distincto litterato brazileiro, o Dr. Gonçalves Dias, que já publicou emLeipzigoDiccionario da lingua Tupy(1858) foi de novo estudal-o nas profundas florestas do Amazonas.

A philologia brasileira ainda fará grandes progressos.

Aqui ha falta sensivel em nosso texto, por ter indubitavel o nosso viajante occupar-se largamente d’uma raça, que com osMorobixabasrepresentam o papel principal na vida civil e politica dos Brasileiros.

Simão de Vasconcellos nas suas—Noticias do Brasil—nada deixa a desejar a tal respeito, e para elle enviamos nossos leitores, observando apenas que osPiayes, osPagéouPagysomente alcançavam a prodigiosa influencia, que gozavam, submettendo-se á experiencias e a jejuns tão rigorosos a ponto de arriscarem sua vida, obtendo finalmente o titulo, que tanto ambicionavam.

São as mesmas essas provas ou experiencias desde a embocadura do Orenoco até as do Rio da Prata.

Quando o candidato estava ja muito enfraquecido pelo jejum, entregavam-no ás mordiduras das formigas, abarrotavam-no de bebidas asquerosas, cuja base era o succo do tabaco, e algumas vezes defumavam-no a ponto de perder os sentidos.

Si resistia a taes supplicios, era igual senão superior aos guerreiros.

Deixou-nos Vasconcellos a respeito do que se pode chamarCollegio dos Piagas, á similhança doCollegio dos Druidas, certas particularidades muito minuciosas, applicaveis principalmente ás Provincias do Sul.

No Norte osPages Aybaseram os feiticeiros afamados astrologos, ou melhortempestuosos, a que nada podia resistir. Sob sua dependencia estavam os astros, e sob sua obediencia o sol e a lua para cumprir suas ordens: desencadeiavam os ventos e levantavam tempestades. Os mais ferozes animaes, como as onças e jacarés, obedeciam-no.

Para alcançar aos olhos do publico tal poder recorria o Pagé Aybas a um meio, que nunca falhou, isto, é aherva dos feiticeirosainda mais poderosa do que a da Europa, oParicá, cujos effeitos terriveis foram descriptos pelo Dr. RodriguesFerreira. (VideMemorias das Academias das Sciencias de Lisboa.)

Mastigava-se oParicá, e com isto fazia-se um unguento, uzado para uncturas.

Ha aqui um pequeno erro typographico, que convem corrigir: leia-se poisrocou.

Em toda a America Meridional costumavam os selvagens tingir a pelle de vermelho alaranjado, ou de negro azulado por meio dorocou,Bixia Orellana, ouGenipapeiro(Genipa Americana.)

O Padre Ivo descrevendo com exactidão o fructo d’esta arvore, em abundancia no Maranhão, diz—o summo claro, e limpido que se extrahe della, fica muito negro logo depois da sua applicação, e assim conserva-se por 9 dias (Vide a este respeitoHumboldt,Voyage aux régions équinoxiales.)


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