Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.
Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.—De como Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.—Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a historia vai ter.
Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia adeante.
Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:
—'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'
Joanna adeantou-se alguns passos a beijar-lhe a manga. Elle accrescentou:
—'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'
—'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia levantada da cadeira.
—'Em nome do Senhor! amen'.—respondeu o frade aproximando-se, e chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:
—'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá?Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos noSenhor?'
—'Ja os não tenho senão para elle, padre.'
—'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa!Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'
—'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo… ao menos por mim.'
—'Pois por quem?'
—'Oh padre!'
—'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a derisão, o insulto—o peior e o mais cruel de todos os martyrios—são a nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera—a mim e á profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra, para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o cilicio e mortificação.'
A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de sympathia e de aversão.
Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava o typo e o symbolo das vascillações do seculo.
—'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:—'se o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e mulher.'
—'Pois aos fracos não é que Elle disse:Toma a tua cruz e segue-me.Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'
—'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições posso dispor, mas…'
—'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia, na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem. Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange. Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'
—'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em… Onde está elle?'
—'Joanna, retire-se.'
Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para dentro de casa.
—'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira pergunta que com tanta ancia fizera—'e ésta, tambem d'ella me heide separar, tambem heide renunciar a ella?'
—'Esta é uma innocente, e emquanto o for'…
—'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'
—'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O outro…'
—'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto…'
—'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto…'
—'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te…'
—'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'
—'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha misericordia no ceo nem na terra!'
—'A misericordia de Deus cansou-se; a da terra não sei onde está nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua relaxação.'
—'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os nossos inimigos?'
—'Os nossos sim, os d'Elle não.'
—'Tende compaixão de mim, Senhor!'
—'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode vencer.'
—'Quaes homens?'
—'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de muitos seculos, com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a inaudita corrupção da presente… nós havemos de succumbir. Os templos hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'
—'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos… todos?'
—'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua religião? Oh sancto Deus!'
—'Faz-me tremer, padre!'
—'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os corações.Duvidaré o unico princípio,inriquecero unico objecto de toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'
—'E hãode vencer elles?'
—'Decerto.'
—'Ninguem mais diz isso.'
—'Digo-o eu.'
—'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'
—'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio eterno e universal.Fe, esperança e charidade. Sem crer, sem esperar…'
—'E sem amar!'
—'Mulher, mulher! o amor é a última virtude…'
—'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'
—'Não, mulher fraca, não. E de uma vez para sempre, irman Francisca, desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'
—'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da minha fé. Mas… mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus…'
—'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para outro. Esse rapaz… oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou, e tambem o coração se me parte de o dizer… mas esse rapaz é malditto, e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'
—'Misericordia, meu Deus!'
Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.
—'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, coração derrancado e perverso!'
—'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, sem amor!..'
A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriam sahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e… suspendeu-se-lhe a vida.
Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:
—'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'
D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.
Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.—Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.—Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.—Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.—Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.—Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.
Quem era Frei Diniz?
Disse-o elle:—um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo e o desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que por isso mesmo o affrontára.
D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa e digna do alto espirito do homem:—que o homem é uma grande e sublime creatura por mais que digam philosophos.
Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocinio que se lhe punha de deante.
Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se deCondillac… e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.
O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.
Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.
Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em Deus—que o delegava ao pae sôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos primitivos principios christãos.
Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra—sem o quê, não eram reis.
Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado—absurdo insustentavel e impossivel.
E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.
Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.
O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por verdadeiro, embora fossem mentirosos e hypocritas os que o invocavam.
Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham senso-commum, eram abstracções d'eschola.
Agora, do frade é que me eu queria rir… mas não sei como.
O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas cousas,duvidar e destruirpor principio,adquirir e inriquecerpor fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais certa.'
Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberal tambem. Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o Evangelho no coração.'
As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, condicção essencial de existencia para a sociedade civil—para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoista—última phase da civilização exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.
Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a edade de cinquenta annos.
Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do seu convento—cargo que acceitára por obediencia—e quasi que limitava as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia senão aquella velha e aquella criança?
Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?
No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De que vivia pois este homem—homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?
E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema predilecto dos raros sermões que prégava:Non in solo pane vivit homo, Nem so de pão vive o homem.
Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem rezar… todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, do mesmo modo…
Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltavacastrarainda por amor do ceo.
É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a viver.
Saibamos alguma coisa d'essa vida.
Saibâmos da vida do frade.—Era franciscano porquê?—Dos antigos e dos novos martyres.—Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.—Emigração.—Explicação incompleta.—De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.—Sexta feira dia aziago.
Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.
Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa do Porto.
Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.
Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.
Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..
Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo com o aspecto d'aquellas mortalhas negras—aspecto ja não severo, e apenas deixou de o ser… ridículo—e ellas appareciam em taes logares, a taes horas, por tal modo… que todo o respeito, toda a estima, toda a consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada na geral decadencia das ordens.
Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado e apupado do seculo dezenove.
Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntro das nobres perseguições do sangue e do fogo.
Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos morrendo…
Agora é soffrer so.
O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o tyranno tremia diante da sua victima… quando lhe não cahia aos pés vencido, convertido e penitente…
Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja não sabe que tem martyres.
'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'
Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foi metter frade franciscano.
De todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joanna—a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.
A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.
A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan de pae e de mãe.
O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, filha querida e predilecta da velha.
Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe com ellas um criado velho de confiança; trajavam e tractavam-se como gente mean, mas independente.
Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.
Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião do seu convento.
Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.
E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca mais largou.
Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:
—'Deus seja n'esta casa!'
A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e conversaram nunca se soube.
O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e chorou toda a noite.
Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.
Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava a Joanninha.
Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir, por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança.
Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no frade, menos a pessoa.
Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.
Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as inclinações para que pendia—de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha longas conferencias a esse respeito.
Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava tomar.
—'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda… hade ser um homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira satisfacção e interêsse.
Passára porêm de seu meio o memoraval anno de 1830, e Carlos, que se formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra, porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.
O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao valle.
Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e:
—'Não gósto de te ver:' disse o frade.
—'Pois quê? que tenho eu?'
—'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'
—'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado hade durar pouco.'
—'Que queres tu dizer?'
—'Que estou resolvido a emigrar.'
—'A emigrar, tu!… Porquê, paraquê? Que loucura é essa?'
—'Nunca estive tanto em meu juizo.'
—'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'
—'Prohibe-me… a mim… de pensar!… Ora, senhor…'
—'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio… ou passeia, caça, monta a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar por ti.'
—'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta? Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora… e a bella occupação para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'
—'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o espirito e o coração.'
—'Eu não quero ser frade: sabe?'
—'Nem te eu quero para frade.'
—'Graças a Deus! Cuidei que… Mas em fim no seculo em que estamos…'
—'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas tenções a teu respeito, approva-as…'
—'Minha avó… approva muita coisa que eu reprovo.'
—'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'
—'Isto mesmo, senhor;—e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar paraInglaterra.'
—'Carlos!'
—'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra nem com ésta…'
—'Com ésta o quê, Carlos?..'
—'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.'
O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:
—'Dir-me-has porquê?..'
—'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui… porque sempre desconfiei, porque sei emfim…'
—'Sabes o quê?'
—'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'
Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de sepulchro:
—'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'
—'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e serenidade 'as suas intenções serão boas talvez… creio que são boas, filhas de um remorso salutar…'
—'Que dizes tu, Carlos… que disseste?.. Oh, meu Deus!'
As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na inflexão, que lhes dava.
—'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o que eu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é… não é meu; o pão que aqui se come… é comprado por um preço… Padre! ja ve que não podêmos fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.—Minha avó!' acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'
A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o podia salvar…'
A velha chorou, pediu, rogou… inutilmente, em vão.
Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.
E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.
No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado… N'essa noite estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns meses na ilha Terceira.
Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e teve larga conferencia com a avó.
Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar… no fim do terceiro dia estava cega.
Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o frade…
Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos, que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe; o tremor nervoso, que o tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe, os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como que se lh'a torrassem n'uma grelha.
Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam, o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a esperar.
E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los.
De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda de Lisboa.—Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente pára e quebra derepente.—Nova demonstração de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as verdades.—No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia.
Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e desconfôrto, mas em positiva anciedade e aguda afflicção pela certeza que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do pequeno exército do D. Pedro.
Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas pelos que se defendiam.
Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre temido, foram contadas minuto a minuto—a qual mais longo, a qual mais pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.
O sol declinava ja… e Fr. Diniz sem apparecer!
No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na direcção de nascente, esperando a cada momento, temendo a cada instante ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do frade.
E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa, para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.
Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação costumada:
—'Deus seja n'esta casa!'
—'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a voz.
—'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de d'onde vem tam tarde?'
—'Chego de Lisboa.'
—'De Lisboa? Deus lh'o pague!… Foi saber?..'
—'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal…'
—'E então, diga'…
—'Boas novas, boas novas trago!'
—'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'
—'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'
—'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão.Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meuDeus!..
—'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dos outros… caminha nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'
A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.
Fr. Diniz mentia… na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu coração—não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.
O frade estava por fóra, o homem por dentro.
O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade, na tua abnegação; mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu não tens fôrça para o cumprir.'
Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano julgava morto o coração do cenobita.
Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher e de mãe.
Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não soffreu destas angústias!
Mas permitte Deus que as padeça quem não tem grandes culpas, grandes e irreparaveis erros que expiar n'este mundo?
Eu creio firmemente que não.
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Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro exclamou:
—'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!…'
—'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias mal pude domar ainda… que so a morte poderá talvez expellir. Mulher, mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição… este cadaver tem um unico ponto vivo no coração… e o dedo do teu egoismo ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça eterna de Deus quando serás satisfeita?'
Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que Joanninha lhe chegára.
A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu proprio podêr.
Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.
O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha… e, como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longo trago de ar, e disse na sua voz ordinario, so mais debil:
—'Carlos, senhora… minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda pelo consul de França, uma carta d'elle.'
Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.
Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha.—Piedosa fraude de Joanninha.—Lucta entre o hábito e o monge.
O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou:
—'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem… me dirão…'
—'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos escreve?'
—'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei chegar pela mesma via… So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu para Carlos… morri.'
—'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..'
O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O quê, minha irman?'
—'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que… Pois não hade ouvir ler a carta d'elle?'
Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si.
A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido agudissimo—penetrante vista dos cegos—percebeu sem dúvida o que se passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse:
—'Abre, Joanna, lê, minha filha.'
Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que ella incerrava.
—'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.'
—'É para mim so a carta' disse ella friamente.
—'Para ti so, como?' tornou a outra.
—'É para mim so ésta carta… não diz nada que…'
—'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!… Lê, lê alto; seja como for, lê, e oiçamos.'
Joanninha parecia hesitar ainda; lançou os olhos ao frade, achou-o na mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e anxiosa… leu.
A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a desconsolada avó, para ninguem mais… nem uma palavra.
Joanninha ia lendo, lendo… e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal articulada em que se pedia a bençam da avó.
A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois… bemditto sejaDeus!'
Joanninha córou até o branco dos olhos… Inda bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados d'agua lhe fez um mudo e expressivo signal de approvação e agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a morte: era a primeira vez que mentia… e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz apprová-la!
O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.
Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados… Seriam d'elle?
A avó e a neta abraçaram-se e choraram.
Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joanninha…
Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e essas duas crianças! E a maior parte da gente que égente, vive assim… E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh que enigma é o homem!
Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, e levou a resposta da carta—resposta que Joanninha so escreveu e so viu—e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.
Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses passaram de anno… e outra carta não veio.
No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada, Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do exército realista que então cercava Lisboa.
Joanninha não era alli, a velha estava so.
—'Que nos traz, padre?' clamou ella mal que o sentiu: 'Soube d'elle?Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?'
—'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'
—'Deus seja com!..'
—'Com quem, minha irman?'
—'Com quem tiver justiça.'
—'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.'
—'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'
—'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam os inimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os profanadores de seus templos… Oh! que dia bello e grande não hade ser esse, quando Carlos… o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do pobre convento de San'Francisco, o velho guardião—que lhe não hade fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro… que ajoelhado deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir na presença do seu Deus ás mãos do seu…'
—'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz… oh meu Deus!..'
—'Seu neto detesta-me… e tem… tem razão.'
—'Não sabe a verdade elle… Carlos está inganado, cuida… não sabe senão meia verdade: e eu, eu heide—custe o que me custar—eu heide…'
—'Hade o quê?'
—'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdade toda. Heide prostrar-me na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas… morrerei de vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a verdade.'
Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:
—'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus sôbre a sua cabeça para sempre!… Oh mulher, pois não lhe basta que elle me abhorreça—não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor… quer… quer tambem que nos despreze?'
A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia, levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com desconsoladas lagrymas na voz:
—'A vontade de Deus seja feita!'
Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac—De como os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta.—Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este nome.—A sentinella perdida e achada.
A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido, e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.
N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:
—'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo… homens e mulheres… tanta gente!'
Era a retirada de 11 de outubro.
—'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?'
—'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'
Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em guerra civil…
Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr. Diniz e os acompanhou a Santarem.
As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar occupado pelo seu exército.
Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e turbulento valle.
Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo homem—dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as oliveiras seculares…
Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.
E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre velha, da nossa interessante Joanninha?
Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.
—'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega, ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'
—'E Joanninha n'essa edade… no meio d'essa soldadesca!' suggeria o frade.
—'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo, mais energia d'alma, mais saude e mais fôrça do que—mulheres não fallemos—do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre, ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos defenderá…'
Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma… Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em que nascêra… por alli havia de passar, e mais dia menos dia… A velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha: percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se.
O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra como Santarem era agora?
Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da velha impozeram tal respeito aos soldados, que—graças tambem á cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro transmontano—ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.
E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos mortos—a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria…
A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça natural.
Todavia de Carlos nem mais uma linha… Pobre velha!
Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores; logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos… insensivelmente era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.
A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de intentadas transacções gyravam por toda a parte.
No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus gabinetes!
Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e vibrante.
A essas horas Joanninha era certa em sua janella—n'aquella antiga e elegante janellarenascençade que primeiro nos namorámos, leitor amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda…
E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a saudavam os soldados de ambas as bandeiras!
E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns e outros por tacita convenção parecia stipulado que aquella suave e angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas, como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar.
Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto.
Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora, tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.
Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais para o sul e perto do logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras vedetas dos constitucionaes.
Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,—ou fosse que adormeceu ou que suas meditações a distrahiram—o certo é que os rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não voltava.
Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as disposições costumadas para a noite.
O official dos constitucionaes que andava collocando as suas sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores:
—'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.'
—'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto: 'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que adormeceu no seu poiso costumado.'
—'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?'
O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de Joanninha…
O official não o deixou acabar:
—'Para a rettaguarda, e silencio!'
Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores.
Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a somno sôlto.