CAPITULO XX.

Joanninha adormecida—O demi-jour da coquette.—Poesia do Flos-sanctorum.—De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.—Retratto esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.—Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.—Em que se parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.—De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar porfim.

Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente.

A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores, illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.

Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa recendente dos prados.

Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição—Joanninha não estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem, que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um poeta selvagem das montanhas… Era um rouxinol, um dos queridos rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora, á menina do seu nome.

Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados, tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.

O official…—Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do novo actor que lhes vou appresentar em scena.

Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não póde faltar.

O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.

A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar—especie de great-coat inglez que a imitação das modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de incarnado…

Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações—que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado n'esta terra, proscreveram do exército… por muito portuguez demais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o em uniforme da bicha!

Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por interromper com ella o meu retratto.

Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras, sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e conceitos… talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia a penna de supplemento e illustração ao pincel… Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito…

Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.

Voltemos ao nosso retratto.

Os olhos pardos e não muito grandes, mas de uma luz e viveza ímmensa, denunciavam o talento, a mobilidade do espirito—talvez a irreflexão… mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso, facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.

A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade inquestionavel e não disputada.

O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa alta e desaffogada.

Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character pouco vulgar e difficilmente bem intendido.

D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte antiga, podia o statuario fazer um philosopho, um poeta, um homem d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão que lhe désse.

N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse—quebrado comtudo, sustido, e, para assim dizer,soffreadode um temor occulto, de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de novo—que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que era…

Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo…

Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi mancebo porque o não parecia—o homem singular a quem o nome, a historia e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.

—'Joanninha!' murmurou elle apenas a viu á luz ainda bastante do crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!… quem tal diria! Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois annos?..'

Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão adormecida e a levou aos labios.

Joanninha estremeceu e acordou.

—'Carlos, Carlos!'—balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados, Carlos, meu primo… meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um sonho, não foi, meu Carlos?..'

E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.

—'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu não morreste… Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás vivo, que não es a sombra d'elle… Não es, não, que eu sinto a tua mão quente na minha que queima, sinto-a estremecer como a minha… Carlos, meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es… es o meu Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?…'

—'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'

—'Sonhava como sonho sempre que durmo… e o mais do tempo que estou acordada… sonhava com aquillo em que so penso… em ti.'

—'Joanna!… prima… minha irman!'

E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço—com um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um primeiro beijo d'amantes…

O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que a habitam.

Senão… invejariam os anjos a vida da terra.

Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e sem nexo:

—'É Carlos… Carlos: foi falso. É meu primo… Minha avó tambem sonhou o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem: eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo… vivo! e nosso, nosso todo outra vez!… Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu aqui comtigo?… E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto… Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!—Lá isso não me importa; deixá-los dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a avó!… Que n'isto não ha mal nenhum… Meu primo!.. um primo com quem eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer… Vamos, Carlos.—Oh! minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante preveni-la, prepará-la… heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco… Segue-me tu, Carlos, e vamos.—Mas, oh meu Deus! não é preciso: paraquê? Ella é cega, coitadinha, não sabes?'

—'Cega, que dizes? minha avó está cega?'

—'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando… Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos de fallar—nós dois sos—á vontade: tenho tanto que te dizer… nem tu sabes… Agora vamos, Carlos.'

E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto, froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo azul.

Quem vem lá?—Como entre dous litigantes nem sempre gosa o terceiro.—Carlos e Joanninha n'uma especie de situaçãoordeira, a mais perigosa e falsa das situações.

As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do valle distinctamente se ouvia o doce murmúrio da voz de Joanninha, claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria, obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel.

Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas de ambos os campos… e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?'

Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das circumstancias em que se achavam… D'aquelle sonho incantado que os transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram sobresaltados… viram-se na terra erma e bruta, viram a espada flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido…

Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á luz das estrellas scintillantes, entre duas linhas de vultos negros, aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia brilhar uma baioneta, um fuzil… que imagem não eram dos verdadeiros e mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios em que se estorce continuamente o que os homens chamaramsociedade!

Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão ao punho da espada.

—'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas.

—'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o irmão da irman, o pae do filho!..'

—'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressão faz nos mais bravos animos… era o som dos gatilhos que se armavam nas espingardas.

O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel… alli podiam ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos contendores.

Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são, por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os tiros—assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa posição que têem as revoluções.

Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões, disse para Carlos:

—'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'

—'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'

—'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.

Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:

—'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'

Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de Joanninha… da 'menina dos rouxinoes.'

—'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo.

—'Até amanhan se…'

—'Se!.. Pois tu?..'

—'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é indispensavel, exijo-o de ti…'

—'E ámanhan me dirás?..'

—'Sim.'

—'Prometto: não direi nada… Mas, oh! Carlos…'

—'Adeus!'

Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que desappareceu de todo.

E elle immovel ainda!

Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres… e as detonações que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas… Eram as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.

Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.

—'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras: 'Bem! Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este lenço.'

—'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?'

—'Nada, nada! Socega.'

E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.

Um mais doutor disse para os outros:

—'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá vamos, hem?'

—'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?'

—'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!'

—'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.'

—'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.'

—'É a que elles chamam aqui…'

—'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.'

—'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.'

—'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'

—'Maluca.'

—'E a Lady ingleza que?..'

—'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!'

—'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..'

—'Mas elle é prima ou é irman?'

—'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!.. dizem coisas por ahi, que se eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja se sabe…'

—'Oh! elle ha frade no caso?'

—'Ha, e que frade! Um apostolico ás direitas! Tam feio, tão magro! apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro que era! Quasi que me arrependo de não ter…'

—'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é…'

—'Um frade!'

—'Um frade não é gente?'

—'Não senhor.'

—'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós temos cedo muita pancada rija.'

—'Venha ella, que isto ja abhorrece.'

Accenderam os cigarros e fumaram.

Com o mesmo socêgo d'espirito… sancto Deus! accendem os homens a guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos os sentimentos da natureza.

Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.—Noite mal dormida.—Da conversa que teve Carlos com os seus botões.—A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.—Obrigações d'amor, triste palavra.—A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.—Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.—Quem hade levantar a primeira pedra?—Dous modos differentes de accudir uma coisa ao pensamento.

No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de Joanninha.

Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a verdade… Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda a segurança n'aquella entrevista.

Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se com alguns d'elles… e de todos elles, a innocente e graciosa criança com quem vivêra como irmão desde os seus primeiros annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.

Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle… uma criança que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida…

Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.

É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte… no longo cêrco do Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no verão, aos medronhos maduros no outomno, que elle suspendia nos braços para passar no hynverno os alagadiços do valle,—essa querida imagem não o abandonára nunca.

Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias—mais esquecidiças ainda!—pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o sentimento de seu coração.

A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse.

Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!

Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde sahia… n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo… a quem, sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da innocencia infantil em que a deixára!

Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e sentimentos.

Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo de a analysar.

Sería annúncio d'amor?

Mas elle tinha amado, amado muito e devéras… e cuidava amar ainda, e devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era obrigado a amar ainda.

Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não sois senão obrigações!..

Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as, turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle, para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.

Quem era essa mulher?

Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..

Senão o quê?

A innocente criança que alli deixára?

Mas não é verdade isso: outra era a impressão que Joanninha lhe fizera, fosse ella qual fosse.

O que era então?

E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?

E amava-a elle ainda?

Amava.

E Joanninha?

Joanninha era… nem eu sei o que lhe era Joanninha… o que lhe estava sendo n'aquelle momento.

O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo: o que lhe ella será… Pódes tu, leitor candido e sincero,—aos hypocritas não fallo eu—pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou interessante?

Pódes responder-me da parte que tomará ámanhan na tua existencia a imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza das linhas, a expressão verdadeira e animada?

E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai impallidecendo, descórando… ja lhe não vejo senão os lineamentos vagos… ja é uma sombra do que foi… Ai! o que será ella ámanhan?

Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, nãojulgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que oFilho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente…A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.

Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, occupava uma alta posição no mundo… e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.

E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste, que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina… Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, não podiam ter rival, nem a haviam de ter.

Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha… oh! que lhe tinha elle feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e a alma?..

Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em claro.

A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava… aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava…

Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.

A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro.

Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.

Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.—Dança de fadas e duendes.—Fr. Diniz o fado-mau da familia.—Veremos, é a grande resolução nas grandes difficuldades.—Carlos poeta romantico.—Olhos verdes.—Desafio a todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.

Não ha nada como tomar uma resolução.

Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e complicado, pouco a pouco as dúvidas solvidas começam a inliar-se outra vez, a inredar-se… a surgir outras novas, a appresentarem-se faces ainda não vistas da questão… em fim, se o intervallo é largo, quando a resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto d'honra, teima.

Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chamanervosos; em stylo de romancesensiveis, na phrase popularmalucos.

Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?

Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma agora… talvez a que elle via mais distincta entre todas, a da avó que tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a primeira, a maior parte… da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido! Pobre velhinha, hoje decrepita e cega… Cega, coitada! Como e porque cegaria ella?

Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.

Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau d'aquella velha, de toda a sua familia… o cumplice e o verdugo de um grande crime… um ser de mysterio e de terror.

Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes abhorrecer esse homem.'

Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a elle Carlos, abandonar a casa de seus paes! Accusação horrivel que tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar…

E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?

Esperava em Deus que não.

Desconfiaria alguma coisa?… O quê?

E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?

Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo porque fugira da casa paterna?

Havia de?..

Não.—Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.

Mentiria, juraria falso se fosse preciso.

E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua filha?

Não, nunca… O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado, infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra de o não tornar a cruzar mais.

Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?

Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de desculpa, depois o tempo daria conselho.

Veremos!—é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades da vida, sempre que é possivel espaçá-las.

Carlos disse: 'Veremos!'

Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente, occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.

Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que inventar para fazer: pôz-se a pensar.

Que remedio!

Pensou n'isto, pensou n'aquillo… uma idea lhe vinha, outra se lhe ia. A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria á redea sôlta pelo espaço…

Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas incantadas, olhos pretos, azues, verdes… os de Joanninha em fim… todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza todas, lhe passavam deante da vista, e todas o infeitiçavam. O desgraçado…—Porque não heide eu dizer a verdade?—o desgraçado era poeta.

Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz… Poeta, intendamo'-nos; não é que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino sentimento d'arte, aquelle sexto sentido dobello, doidealque so teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os artistas.

Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis leitoras que não teem metro, nem rhyma—nem razão… Mas emfim versos não são.

'Olhos verdes!..

'Joanninha tem os olhos verdes…

'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.

'Nem o fogo—e o fummo das paixões, como nos pretos.

'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a transparencia do mar…

'Tudo está n'aquelles olhos verdes.

'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?

'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar, quanto tinha que dar.

'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre a mesma e sempre bella:Amo-te, sou tua!

'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas palavras:Ama-me, que es meu!

'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.

'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?

'Que lingua fallam eles?

'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?

'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul…

'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.

'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.

'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.

'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da formosura creada.

'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.

'O ceo é azul…

'A noite é negra…

'A terra e o mar são verdes…

'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e bellos como a noite.

'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas… mas no fim de uma longa noite quem não suspira pelo dia?

'E que se vão… oh! que se vão emfim as estrellas!..

'Vem o dia… o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar para elle.

'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina…

'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na variedade infinita de seus matizes tam suaves.

'O mar é verde e fluctuante… Mas oh! esse é triste como a terra é alegre.

'A vida compõe-se de alegrias e tristezas…

'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.

'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'

Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamoumalucoao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.

Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.

Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a collecção completa!

Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante,britante….

Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente… por exemplo:—Echos surdos do coração—ou—Reflexos d'alma—ou—Hymnos invisiveis—ou—Pesadellos poeticos—ou qualquer outro d'este genero, que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.

E que viesse ca algum menestrel de frak e chapeu redondo, algum trovador renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!

Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,—(com menos grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de outros nomes tam obscuros como estes?

Novo Génesis.—O Adam social muito differente do Adam natural.—Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por suas más reflexões.—De como Joanninha recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre elles se passou.—Dor meia dor, meia prazer.

Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices.

O homem—não o homem que Deus fez, mas o homem que a sociedade tem contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade—o homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.

Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel pela desgraça do presente.

D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden phantastico de sua creação,—verdadeiro inferno de tolices—e disse-lhe, invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador:

'De nenhuma árvore da horta comendo comerás;

'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se quizeres viver.'

Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e vaidade que d'ella se originaram—tal foi o resultado d'aquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.

E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo doloroso de suas fôrmas.

Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão.

………………………………………………………………… …………………………………………………………………

Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da natureza, como era o nosso Carlos.

Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda fraco, falso e acanhado.

Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse grande juiz hypocrita, mentiroso e venal… o mundo.

Carlos estava quasi como os mais homens… ainda era bom e verdadeiro no primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.

Dos melhores era, mas era homem.

Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas relampejava por acaso.

Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella organização d'aquella alma.

Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:

—'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na minha… Está fria a tua mão hoje! E hontem tam quente estava!.. Oh! agora vai aquecendo… tanto tanto… é demais! Terás tu febre?'

—'Não tenho.'

—'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo, não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como hontem; não estás… Que tens tu?'

—'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava…'

—'Em que pensas tu? dize-me.'

—'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava comtigo.'

—'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'

—'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena, desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas, trepando a essas árvores… aquella Joanninha com quem eu andava ao collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre, cantando…'

—'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei desde o dia que tu partiste… E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!.. deixa-me te dizer: Fr. Diniz… Sabes que não gósto d'elle?'

—'Não gostas?'

—'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a minha antipathia.'

—'Porquê?'

—'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'

—'Deus lhe perdoe!'

—'Deus lhe perdoe a quem…e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'

—'Não, mas…'

—'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.'

—'Tenho razão!'

—'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande peccado.'

—'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'

—'Sei, sei tudo.'

—'Tu!'

—'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó… a nossa boa, a nossa sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para sempre… Minha ricca avó!—E porquê, meus Deus, porquê!'

—'Porquê?'

—'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar… tu meu Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'

—'Bem triste!'

—'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem… que é um amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella… e por nós todos… por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam… quasi que estou em dizer que matam.'

—'Matam, matam!'

—'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos, sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para elle tudo é peccado, maldade… Não o posso ver.'

Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita ignorancia dos fataes segredos da familia.

—'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo,Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?'

—'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.'

—'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?'

—'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.'

—'Não te vejo então ámanhan aqui?'

—'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para te fallar n'isso… e para te ver, para fallar comtigo, para estar com o meu Carlos… e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe, Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias que se não levanta da cama.'

—'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar, Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?—A minha vida… isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por todos os modos a perdia, e talvez…'

—'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens… elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que estou comtigo aqui? Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma pessoa excellente, bom, bom devéras.'

—'É môço o teu commandante?'

—'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi isso, Carlos?'

—'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.'

—'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te pareces todo… é que nunca vi tal parecença…'

—'Com quem?'

—'Com Fr. Diniz.'

—'Eu com elle!'

—'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma. Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos dizem que nos parecemos tanto.'

—'Querida innocente!'

E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.

O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.—Pasmosa contradicção da nossa natureza.—De como os olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.—Que o coração da mulher que ama, sempre adivinha certo.

Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.

Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos.

Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram assim longos discursos.

Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo:

—'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz: quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa nada…'

—'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó, nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei eu não tornar a ver. E se minha avó…'

—'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e quando hasde tu ir ve-la?'

—'Porora não: preciso licença de Lisboa, ou do quartel-general quando menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E sem isso—tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam—sem isso não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'

—'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?'

—'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'

—'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades…'

—'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.'

—'E eu… eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?'

—'Ámanhan é sexta-feira…'

—'Ámanhan é o dia negro… nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'

—'Sim, querido anjo, sim.'

—'Promettes?'

—'Juro-t'o.'

—'Succeda o que succeder?'

—'Succeda o que… So ha uma coisa que… Mas essa não… não é possivel.'

—'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça de?..'

Carlos estremeceu… hesitou, corou, fez-se pallido… quiz dizer-lhe a verdade e não ousou…

Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe.

Pois era discrição a d'elle?

Não… em verdade, era outra coisa.

Era um pensamento reservado?

Não.

Era tenção má, ingano premeditado, era?..

Não, tambem não.

O que era pois?

Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e obrigada, a necessaria falsidade do homem social.

Carlos mentiu e disse:

—'Só se m'o prohibirem expressamente… os meus chefes.'

Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as doces relações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e Carlos tinha mentido…

Joanninha olhou para elle fixa… Carlos corou de novo. Ella fez-se pallida… d'ahi corou tambem.

—'Carlos, tu não es capaz de mentir…'

—'Joanninha!'

—'Tu es o meu Carlos… tu queres-me como me querias d'antes…'

—'Sou… oh! sou. E amo-te…'

—'Como d'antes?'

—'Mais.'

—'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem senão a ti.'

—'Joanna!'

—'Carlos!'

Iam a cahir nos braços um do outro… A singela confissão da innocencia ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro, aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos labios—essa palavra celeste que explica o passado, que responde do futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de anciedades, de incertezas e de sustos—essa final e fatal palavraamo-te, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse—e era decerto—como se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e habitual de sua vida.

O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes, Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra… um momento depois—oh pasmosa contradicção de nossa dupplice natureza! um momento depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua felicidade.

—'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço… sabes tu se deves?..'

—'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui foste, comecei a intender o que pensava… disse-o a minha avó, e ella…'

—'E ella?..'

—'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me, beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de alegria que ha muitos annos tinha tido.'

Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que resplandeciam n'aquelle semblante—agora bello de toda a belleza com que um verdadeiro amor illumina as mais desgraciosas feições—os raios d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles; tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de suas estátuas.

—'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.

—'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.

—'Até depois de ámanhan, Joanna.'

—'Pois sim.'

—'Depois de ámanhan te direi…'

—'Não digas.'

—'Porquê?'

—'Porque é excusado: ja sei tudo.'

—'Sabes!'

—'Sei.'

—'O quê?'

—'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração adivinhou. Tu não me amas, Carlos.'

—'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo…'

—'Não. Tu amas outra mulher.'

—'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses…'

—'Sei tudo.'

—'Não sabes.'

—'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes, que tu não deves abandonar, e que eu…'

—'Tu?'

—'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos, porque… porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar por menos.'

—'Joanna, Joanninha!'

—'Não digas nada, não me digas nada hoje… hoje sobretudo, não me digas nada. Ámanhan…'

—'Ámanhan é sexta-feira.'

—'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de tornar a ver-te. Adeus Carlos!'

—'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'

—'Não; estou certa que não.'

—'Até ámanhan… até depois de ámanhan.'

—'Adeus!'

Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido e recatado… os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.

Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio, a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma… so elles eram outros… outros, tam outros e differentes do que foram!

Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem nenhum accidente, ao seu destino.


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