*Nota A.*
Que viage á roda do seu quarto, quem está a beira dos Alpes
pag. 1.
É visivel allusão ao popular e inimitavel opusculo de Xavier de Maistre,Voyage autour de ma chambre, que decerto foi principiado a escrever em Turim, e que muitos suppoem que fôsse concluido em San'Petersburgo.
*Nota B.*
Designio politico determinado a minha visita (a Santarem)
pag. 2.
É puramente historico isto; e tambem é verdade que em grande parte d'aqui se originou a persiguição brutal que soffreu o A. d'ahi a poucos meses.
*Nota C.*
N'umaregatade vapores
pag. 3.
Regatachamavam, e não sei se chamam ainda, em Veneza ás carreiras de barcos appostados ao desafio. A palavra e a coisa introduziu-se em Inglaterra, onde é moda e popularissima.
*Nota D.*
Eu coroarei de trevo a minha espada
pag. 24.
Estes versos são uma especie de parodia dos famosos fragmentos de Alceu de que so existe memoria nos scholios que nos conservou Eustathio. NasFlores sem fructo, pag. 56 a traducção d'aquelle bello fragmento.
*Nota E.*
Depois de tantas commissões de inquerito, deve de andar orçado o número de almas
pag. 25.
Os protocollos das commissões de inquerito de ha oito para dez annos a ésta parte, sôbre o estado das classes trabalhadoras e indigentes em Inglaterra, é a próva real dos grandes calculos da economia politica, sciencia que eu espero em Deus se hade desacreditar muito cedo.
*Nota F.*
There are more things etc.
pag. 26.
A traducção chegada d'estes memoraveis versos de Shakspeare é:
Ha mais coisas no ceo, ha mais na terraDo que sonha a tua van philosophia.
*Nota G.*
UmChourineur… umaFleur-de-Marie
pag. 28.
Personagens, bem conhecidos geralmente, do romance tam popular de Eug.Sue,Os Mysterios de París.
*Nota H.*
Fossem lá á rainha Anna
pag. 34.
Addison, o poeta, foi ministro da rainha Anna de Inglaterra, e membro do célebre gabinete chamado deAll-wits.
*Nota J.*
Quando chegou alli pelos Prazeres
pag. 56.
Um dos dois cemiterios de Lisboa—seja ditto para intelligencia do leitor provinciano—chama-seDos Prazeres, por uma ermida de N. S.^a que alli existia com ésta invocação desde antes do terreno ter o presente destino. É notavel a coincidencia do nome.
*Nota K.*
O verdadeiro alfageme… tinha pelo povo e não queria saber de partidos
pag. 64.
É facil de ver que o interlocutor d'este dialogo conhecia esse curioso personagem da historia do Condestavel, não pelas chronicas mas pelo drama que tem o seu nome.
*Nota L.*
DoSacré-Coeure das suas elegantes devotas
pag. 89.
O convento que tem este nome em París, é casa de educação de meninas nobres, e recolhimento de senhoras tambem.
*Nota M.*
Graciosa sculptura de Antonio Ferreira
pag. 106.
Antonio Ferreira, que viveu no fim do seculo passado, princípio d'este, modelava em barro com a mesma graça e naturalidade flamenga, com que pintava o morgado de Setubal: as suas piquenas figurinhas são tam estimadas pelos intendedores como os melhores biscoitos de Sevres e de Saxonia antiga.
*Nota N.*
Ave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego
pag. 115.
A fábula daquella ave immortal teve origem nas edades obscuras da Europa quando o grego era ignorado. O que os antigos diziam daphenix, palmeira em grego, tomaram nossos barbaros avós por ditto de uma passarolla com que os outros nunca sonharam.
Prologo dos editores. pag. v
Capitulo I.—De como o auctor d'este erudito livro se resolveu a viajar na sua terra, depois de ter viajado no seu quarto; e como resolveu immortalizar-se escrevendo éstas suas viagens. Parte para Santarem. Chega ao Terreiro do Paço; imbarca no vapor de Villa-Nova; e o que ahi lhe succede. A Deducção-Chronologica e a baixa de Lisboa. Lord Byron e um bom charuto. Travam-se de razões os ilhavos e os bordas-d'agua, e os da calça larga levam a melhor. 1
Capitulo II.—Declaram-se typicas, symbolicas e mythicas éstas viagens. Faz o A. modestamente o seu proprio elogio. Da marcha da civilização; e mostra-se como ella é dirigida pelo cavalleiro da Mancha, D. Quixote e por seu escudeiro, Sancho Pança.—Chegada a Villa-Nova-da-Rainha. Supplicio de Tantalo.—A virtude galardão de si mesma; e sophisma de Jeremias-Bentham.—Azambuja. 13
Capitulo III.—Acha-se desappontado o leitor com a prosaica sinceridade do A. d'estas viagens.—O que devia ser uma estalagem n'estas nossas eras de litteratura romantica?—Suspende-se o exame d'esta grave questão para tractar, em prosa e verso, um muito difficil ponto de economia-politica e de moral social.—Quantas almas é preciso dar ao diabo, e quantos corpos se teem de intregar no cemiterio para fazer um ricco n'este mundo.—Como se veio a descobrir que a sciencia d'este seculo era uma grandecissima tola.—Rei de facto, e rei de direito.—Belleza e mentira não cabem n'um sacco.—Põe-se o A. a caminho para o pinhal da Azambuja. 23
Capitulo IV.—De como o A. foi pensando e divagando; e em que pensava e divagava elle, no caminho da villa da Azambuja até o famoso pinhal do mesmo nome.—Do poeta grego e philosopho Démades e do poeta e philosopho ingles Addison: da casaca de penneiros e do palio atheniense, e de outros importantes assumptos em que o A. quiz mostrar sua profunda erudição.—Discute-se a materia gravissima se é necessario que um ministro d'estado seja ignorante e leigarraz.—Admiraveis reflexões de zigzag em que se tracta dere politicae dere amatoria.—Descobre-se porfim que o A. estivera a sonhar em todo este capitulo, e pede-se ao leitor benevolo que volte a folha e passe ao seguinte. 31
Capitulo V.—Chega o A. ao pinhal da Azambuja, e não o acha. Trabalha-se por explicar este phenomeno pasmoso. Bello rasgo de stylo romantico.—Receita para fazer litteratura original com pouco trabalho.—Transição classica;—Orpheu e o bosque do Ménalo. Desce o A. d'estas grandes e sublimes considerações para as realidades materiaes da vida: é desamparado pela hospitaleira traquitana e tem de cavalgar na triste mula de arrieiro.—Admiravel choito do animal. Memorias do marquez do F. que adorava o choito. 39
Capitulo VI.—Próva-se como o velho Camões não teve outro remedio senão misturar o maravilhoso da mylhologia com o do christianismo.—Da-se razão, e tira-se depois ao padre José Agostinho.—No meio d'estas disceptações academico-litterarias vem o A. a descobrir que para tudo é preciso ter fé n'este mundo. Diz-sen'este mundo, porque, quanto ao outro ja era sabido.—Os Lusiadas, Fausto e a Divina-Comedia.—Desgraça de Camões em ter nascido antes do romantismo.—Mostra-se como a Styge e o Cocyto sempre são melhores sitios que o Inferno e o Purgatorio.—Vai o A. em procura do marquez de Pombal, e dá com elle nas ilhas Beatas do poeta Alceu.—Partida de Wist entre os illustres finados.—Compaixão do marquez pelos pobres homens de Ricardo Smith e J. B. Say.—Resposta d'elle e da sua luneta ás perguntas peralvilhas do A.—Chegada a este mundo e ao Cartaxo. 47
Capitulo VII.—Reflexões importantes sôbre o Bois-de-Boulogne, as carruagens de mollas, Tortoni, e o café do Cartaxo.—Dos cafés em geral, e de como são o characteristico da civilização de um paiz.—O Alfageme.—Hecatombe involuntaria immolada pelo A.—Historia do Cartaxo.—Demonstra-se como a Gran' Bretanha deveu sempre toda a sua fôrça e toda a sua glória a Portugal.—Shakspeare e Laffitte, Milton e Chateaumargot.—Nelson e o principe de Joinville.—Próva-se evidentemente que M. Guizot é a ruina de Albion e do Cartaxo. 59
Capitulo VIII.—Sahida do Cartaxo.—A charneca.—Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.—Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal. Batalha de Almoster.—Waterloo.—Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte de Asseca. 71
Capitulo IX.—Prologomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.—Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.—Dos poetas d'este seculo: Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.—Chega-se ao fim d'estas reflexões e á Ponte da Assecca.—Traducção portugueza de um grande poeta.—Origem de um dictado.—Junot na ponte da Assecca.—De como o A. d'este livro foi jacobino desde piqueno.—Inguiço que lhe deram.—A duqueza de Abrantes.—Chega-se emfim ao val de Santarem. 79
Capitulo X.—Valle de Santarem—Namora-se o A. de uma janella que ve por entre umas árvores.—Conjecturas várias a respeito da ditta janella.—Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.—Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.—De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos pretos.—Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo seu.—Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.—A menina dos rouxinoes.—Censura das damas muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.—Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea. 91
Capitulo XI.—Tracta-se do unico privilegio dos poeetas que tambem os philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas sim.—Applicação d'estes principios a Aristoteles e Anacreonte.—O A., tendo declarado no capítulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente. que é poeta, e pretende manter-se como tal, em seu direito.—De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que Yorick, seu bobo.—Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seo admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas esse direito indefinido de andarem sempre namorados.—Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no capítulo antecedente.—Uma modestia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação para o desimpenhar: pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.—Dido e a mana Annica.—Entra-se emfim na promettida historia.—De como a velha estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joanninha, sua neta. 99
Capitulo XII.—De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.—Que casta de rapariga era Joanninha. Dá o A. insigne prôva de ingenuidade e boa fé confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.—Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.—Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.—Os olhos verdes de Joanninha.—Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.—De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.—Quem era Frei Diniz. 109
Capitulo XIII.—Dos frades em geral.—O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente.—Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o barão.—Outra vez D. Quixote e Sancho Pansa.—Do que seja o barão, sua clasificação e descripção linneana.—Historia do castello do Chucherumello.—Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'—De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao frade.—De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.—Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões a gritar contos de réis.—Como se contam e como se pagam os taes contos.—Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção. 121
Capitulo XIV.—Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.—De como Fr. Diniz deu a manga a beijar a avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.—Ralha o frade com a velha, e começa a descubrir-se onde a historia vai ter. 133
Capitulo XV.—Retrato de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-Artes.—Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.—Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.—Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.—Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.—Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz. 147
Capitulo XVI.—Saibamos da vida do frade.—Era franciscano porquê?—Dos antigos e dos novos martyres.—Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.—Emigração.—Explicação incompleta.—De como a velha tinha perdido a vista, e Joanninha o riso.—Sexta feira dia aziago. 155
Capitulo XVII.—De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda de Lisboa.—Por que razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente pára e quebra de repente.—Nova demonstração de dois grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as comadres se descobrem as verdades.—No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do véo que cobre os mysterios da nossa historia. 171
Capitulo XVIII.—Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha—Piedosa fraude de Joanninha.—-Lucta entre o hábito e o monge. 181
Capitulo XIX.—Guerra de postos avançados, Joanninha no bivac.—De como os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta.—Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este nome.—A sentinella perdida e achada. 191
Capitulo XX.—Joanninha adormecida—O demi-jour da coquette.—Poesia do Flos-sanctorum.—De como os rouxinoes accompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.—Retratto esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.—Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.—Em que se parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.—De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar por fim. 203
Capitulo XXI.—Quem vem lá?—Como entre dous litigantes nem sempre gosa o terceiro.—Carlos e Joanninha n'uma especie de situaçãoordeira, a mais perigosa e falsa das situações. 215
Capitulo XXII.—Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.—Noite mal dormida.—Da conversa que teve Carlos com os seus botões.—A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.—Obrigações d'amor, triste palavra.—A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.—Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.—Quem hade levantar a primeira pedra?—Dous modos differentes de acudir uma coisa ao pensamento. 225.
Capitulo XXIII.—Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.—Dança de fadas e duendes.—Fr. Diniz o fado-mau da familia.—Veremos, é a grande resolução nas grandes difficuldades.—Carlos poeta romantico.—Olhos verdes—Desafio a todos os poetas moyen-ages do nosso tempo. 235.
Capitulo XXIV.—Novo Génesis.—O Adam social muito differente do Adam natural.—Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por suas más reflexões.—De como Joanninha recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre elles se passou.—Dor meia dor, meia prazer. 247.
Capitulo XXV.—O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.—Pasmosa contradicção da nossa natureza.—De como os olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.—Que o coração da mulher que ama, sempre advinha certo. 261.
Notas. 275.
Notas:
[1] Chamavam assim por escarneo, em Portugal, ao general Loison a quem faltava um braço.
[2] Célebre urso do Jardim das Plantas em París.
[3] Pag. 40, 41, 42.
Lista de erros corrigidos
Aqui encontram-se listados todos os erros encontrados e corrigidos:
+—————+——————————+——————————+ | | Original | Correcção | +—————+——————————+——————————+ |#pág. 3| venceder | vencedor* | |#pág. 15| Cervantos | Cervantes | |#pág. 18| morachão | marachão* | |#pág. 40| esperavava | esperava | |#pág. 41| maldadades | maldades | |#pág. 62| café | harem* | |#pág. 89| tinha-ânimo | tinha ânimo | |#pág. 95| esquerlo | esquerda | |#pág. 97| um historia | uma historia | |#pág. 106| toda o movimento | todo o movimento | |#pág. 118| trababalho | trabalho | |#pág. 126| conte | conter* | |#pág. 129| aeronantas | aeronautas* | |#pág. 134| paasos | passos | |#pág. 163| memoraval | memoravel | |#pág. 203| demij-our | demi-jour* | |#pág. 223| didireitas | direitas | |#pág. 228| as alagadiços | os alagadiços | |#pág. 240| infeitavam | infeitiçavam* | |#pág. 276| viagem | visita | |#pág. 286| em em logar frade | em logar do frade | |#pág. 288| d'ad'mor | d'amor | +—————+——————————+——————————+
* correcções feitas com base na errata do próprio livro.
Shakespeare e Rotschild surgem neste livro como Shakspeare e Rotchild respectivamente. Dada a repetitividade constante, decidi manter de acordo com o original.
Foram adicionados travessões onde a sua falta foi notada.
As indicações dos números de páginas que se mencionaram na secção de "Notas do Primeiro Livro" e "Índice", foram corrigidas para corresponder ao local correcto.
LISBOA NA TYPOGRAPHIA DA GAZETA DOS TRIBUNAIS. 1846.
Modo de ler os auctores antigos, e os modernos tambem.—Horacio na sacra-via.—Duarte Nunes iconoclasta da nossa historia.—A policia e os barcos de vapor.—Os vandalos do feliz systema que nos rege.—Shakspeare lido em Inglaterra a um bom fogo, com um copo deold-sacksôbre a banca.—Sir John Falstaff se foi maior homem que Sancho-Pansa?—Grande e importante descuberta archeologica sôbre San'Thiago, San'Jorge e Sir John Falstaff.—Próva-se a vinda d'este último a Portugal.—O enthusiasta britannico no tumulo de Heloisa e Abeillard no Pere-la-Chaise.—Bentham e Camões.—Chega oauctorá sua janella, e pasmosa miragem poetica produzida por umas oitavas dos Lusiadas.—De como emfim proseguem éstas viagens para Santarem, e que feito será de Joanninha.
Se eu for algum dia a Roma, heide entrar na cidade eterna com o meu Tito-Livio e o meu Tacito nas algibeiras do meu paletó de viagem. Alli, sentado n'aquellas ruinas immortaes, sei que heide intender melhor a sua história, que o texto dos grandes escriptores se me hade illustrar com os monumentos d'arte que os viram escrever, e que uns recordam, outros presenciaram os feitos memoraveis, o progresso e a decadencia d'aquella civilização pasmosa.
E Juvenal e Horacio? o meu Horacio, o meu velho e fiel amigo Horacio!.. Deve ser um prazer regio ir lendo pela sacra-via fóra aquella deliciosa satyra, creio que a nona do L. I.,
Ibam forte sacra via, sicut meus est mos,Nescio quid meditans nugarum…
Deve ser maior prazer ainda, muito maior do que beijar o pé ao papa.Parece-me a mim; mas como eu nunca fui a Roma…
E não é preciso. Pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, a que Duarte Nunes menos estragou…
O Duarte Nunes foi um reformador iconoclasta das nossas chronicas antigas, truncou todas as imagens, raspou toda a poesia d'aquellas venerandas e deliciosassagasportuguezas… Em ponto historico pouco mais eram do quesagas, verdade seja, mas como taes, lindas. E o Duarte Nunes, que era um pobre grammaticão sem gôsto nem graça, foi-se ás filagranas e arrendados de finissimo lavor gothico d'aquelles monumentos, quebrou-lh'os; ficaram so os traços historicos que eram muito pouca e muito incerta coisa; e cuidou que tinha arranjado uma história, tendo apenas destruido um poema. Ficámos sem Nibelungen, podendo-o ter, e não obtivemos história porque se não podia obter assim.
Pois digo: pegue qualquer na bella chronica d'elrei D. Fernando, obedeça á lei concorrendo com o seu cruzado-novo para o augmento e glória da benemerita companhia que tem o exclusivo d'esses caranguejos de vapor que andam e desandam no rio, entre n'um dos referidos caranguejos, em que, além da porcaria e mau-cheiro, não ha perigo nenhum senão o de rebentar toda aquella camara-optica que anda por arames, e que em qualquer paiz civilizado onde a policia fizesse alguma coisa mais do que imaginar conspirações, ha muito estaria condemnada a ir alli caranguejar para as Lamas á sua vontade. Mas emfim ca não ha d'outros nem haverá tam cedo, graças ao muito que agora, diz que, se cuida nos interêsses materiaes do paiz: e portanto tome o seu logar, passe o mesmo que eu passei; chegue-me a Santarem, descanse e ponha-se-me a ler a chronica: verá se não é outra coisa, vera se deante d'aquellas preciosas reliquias, ainda mutiladas, deformadas como ellas estão por tantos e tam successivos barbaros, estragadas emfim pelos peiores e mais vandalos de todos os vandalos, as auctoridades administrativas e municipaes do feliz systema que nos rege, ainda assim mesmo não ve erguer-se deante de seus olhos os homens, as scenas dos tempos que foram; se não ouve fallar as pedras, bradar as inscripções, levantar-se as estátuas dos tumulos; e reviver-lhe a pintura toda, reverdecer-lhe toda a poesia d'aquellas edades maravilhosas!
Tenho-o experimentado muitas vezes: é infallivel. Nunca tinha intendido Shakspeare em quanto o não li em Warwick, aope do Avon, debaixo de um carvalho secular, á luz d'aquelle sol baço e branco do nublado ceo d'Albion… ou á noite com os pés nofender, a chaleira a ferver no fogão, e sôbre a banca o crystal antigo de um bom copo lapidado a luzir-me alambreado com os doces e perfumados resplendores doold sack; em quanto o fogão e os ponderosos castiçaes de cobre brunido projectam no antigo tecto almofadado, nos pardos compartimentos de carvalho que forram o apposento, aquellas fortes sombras vacillantes de que as velhas fazem visões e almas-do-outro-mundo, de que os poetas—poetas como Shakspeare—fazem sombras deBanco, bruxas deMackbeth, e até a rotunda pansa e o arrastante espadagão do meu particular amigo Sir John Falstaff, o inventor das legítimas consequencias, o fundador da grande eschola dos restauradores caturras, dos poltrões pugnazes que salvam a patria de parolla e que ninguem os atura em tendo as costas quentes.
Oh Falstaff, Falstaff! eu não sei se tu es maior homem que Sancho Pança. Creio que não. Mas maior pansa tens, mais capacidade na pansa tens. Quando nossos avós renegaram de San' Thiago por castelhano perro, e invocaram a San' Jorge, tu vieste, ó Falstaff, em sua comitiva de Inglaterra e aqui tomaste assento, aqui ficaste, e foste o patriarcha d'essa immensa progenie de Falstaffs que por ahi anda.
Este importante ponto da nossa história, da demissão de San'Thiago e da vinda de San'Jorge de Inglaterra com Sir John Falstaff por seuhomem-de-ferro—ésta grande descoberta archeologica que tanta coisa moderna explica, como a fiz eu? Indo aos sitios mesmos, estudando alli os antigos exemplares: que é a minha doutrina.
Em tudo, para tudo é assim. Chegou um dia um inglez a Paris: um inglez legítimo ecru, virgem de toda a corrupção continental; calça de ganga, sapato grosso, cabello de cenoira, chapeo fillado na cova-do-ladrão. Era enthusiasta de Heloisa e Abeillard, foi-se ao Pére-la-Chaise, chegou ao tumulo dos dois amantes, tirou um livrinho da algibeira, pôs-se a ler aquellas cartas do Paracleto que tem indoidecido muito menos excentricas cabeças que a do meu inglez puro-sangue. Não é nada; excitou-se a tal ponto que entrou a correr como um perdido, bradando por um conego da sé que lhe acudisse, que se queria identificar com o seu modêlo, purificar a sua paixão, ser emfim um completo—ou um incompleto Abeillard.
Eu não sou susceptivel de tammanho enthusiasmo, sôbretudo desde que dei a minha demissão de poeta e cahi na prosa. Mas aqui tem o que me succedeu o outro dia. Tinha estado ás voltas com o meu Bentham, que é um grande homem por fim de contas o tal quaker, e são grandes livros os que elle escreveu: cançou-me a cabeça, peguei no Camões e fui para a janella. As minhas janellas agora são as primeiras janellas de Lisboa, dão em cheio por todo esse Tejo. Era uma d'estas brilhantes manhans d'hynverno, como as não ha senão em Lisboa. Abri os Lusiadas á ventura, deparei com o canto IV e puz-me a ler aquellas bellissimas estancias
E ja no porto da inclita Ulyssea…
Pouco a pouco amotinou-se-me o sangue, senti baterem-me as arterias da fronte… as lettras fugiam-me do livro, levantei os olhos, dei com elles na pobre nau Vasco-da-Gama que ahi está em monumento-caricatura da nossa glória naval… E eu não vi nada d'isso, vi o Tejo, vi a bandeira portugueza fluctuando com a brisa da manhan, a tôrre de Belem ao longe… e sonhei, sonhei que era portuguez, que Portugal era outra vez Portugal.
Tal fôrça deu o prestigio da scena ás imagens que aquelles versos evocavam!
Senão quando, a nau que salva a uns escaleres que chegam… Era o ministro da marinha que ia a bórdo.
Fechei o livro, accendi o meu charuto, e fui tractar das minhas camelias.
Andei tres dias com odio á lettra-redonda.
Mas de tudo isto o que se tira, a que vem tudo isto para as minhas viagens ou para o episodio do valle de Santarem em que ha tantos capitulos nos temos demorado?
Vem e vem muito: vem para mostrar que a história, lida ou contada nos proprios sitios em que se passou, tem outra graça e outra fôrça; vem para te eu dar o motivo porque n'estas minhas viagens, leitor amigo, me fiquei parado n'aquelle valle a ouvir do meu companheiro de jornada, e a escrever para teu aproveitamento, a interessante história da menina dos rouxinoes, da menina dos olhos verdes, da nossa boa Joanninha.
Sim, aqui tenho estado extendido no chão, as mulinhas pastando na relva, os arrieiros fummando tranquillamente sentados, e as últimas horas de uma longa e calmosa tarde de julho a cahir e a refrescar com a aragem percursora da noite.
Mas basta de valle, que é tarde. Oh lá! venham as mulinhas e montemos. Picar para Santarem, que no inclyto alcaçar d'elrei D. Affonso-Henriques nos espera um bom jantar d'amigo—e não é so avacca e risode Fr. Bartholomeu dos Martyres, mas um verdadeiro jantar d'amigo, muito menos austero e muito mais risonho.
—'Porquê? ja se acabou a historia de Carlos e de Joanninha?' diz talvez a amavel leitora.
—'Não, minha senhora,' responde o auctor mui lisongeado da pergunta: 'não, minha senhora, a historia não acabou, quasi se póde dizer que ainda ella agora começa; mas houve mutação de scena. Vamos a Santarem, que lá se passa o segundo acto.'
Chegada a Santarem.—Olivaes de Santarem.—Fóra-de-Villa.—Symetria que não é para os olhos.—Modo de medir os versos da biblia.—Architectura pedante do seculo XVII.—Entrada na Alcáçova.
Eram as últimas horas do dia quando chegámos ao princípio da calçada que leva ao alto de Santarem. A pouca frequencia de povo, as hortas e pomares mal cultivados, as casas de campo arruinadas, tudo indicava as vizinhanças de uma grande povoação descahida e desamparada. O mais bello comtudo de seus ornatos e glórias suburbanas, ainda o possue a nobre villa, não lh'o destruiram de todo; são os seus olivaes. Os olivaes de Santarem cuja riqueza e formosura proverbial é uma das nossas crenças populares mais geraes e mais queridas!.. os olivaes de Santarem lá estão ainda. Reconheceu-os o meu coração e alegrou-se de os ver; saudei n'elles o symbolo patriarchal de nossa antiga existencia. N'aquelles troncos velhos e coroados de verdura, figurou-se-me ver, como nas selvas incantadas do Tasso, as venerandas imagens de nossos passados; e no murmurio das folhas que o vento agitava a espaços, ouvir o triste suspirar de seus lamentos pela vergonhosa degeneração dos netos…
Estragado como os outros, profanado como todos, o olival de Santarem é ainda um monumento.
Os povos do meio-dia, infelizmente, não professam com o mesmo respeito e austeridade aquella religião dos bosques, tam sagrada para as nações do norte. Os olivaes de Santarem são excepção: ha muito pouco entre nós o culto das árvores.
Subimos, a bom trotar das mulinhas, a impinada ladeira—eu alvoraçado e impaciente por me achar face a face com aquella profusão de monumentos e de ruinas que a imaginação me tinha figurado e que ora temia, ora desejava comparar com a realidade.
Chegámos emfim ao alto; a majestosa entrada da grande villa está deante de mim. Não me inganou a imaginação… grandiosa e magnífica scena!
Fóra-de-villaé um vasto largo, irregular e caprichoso como um poema romantico; ao primeiro aspecto, áquella hora tardía e de pouca luz, é de um effeito admiravel e sublime. Palacios, conventos, egrejas occupam gravemente e tristemente os seus antigos logares, infileirados sem ordem aos lados d'aquella immensa praça, em que a vista dos olhos não acha symetria alguma; mas sente-se n'alma. É como o rhytmo e medição dos grandes versos biblicos que se não cadenceiam por pés nem por sylabas, mas cahem certos no espirito e naaudição interiorcom uma regularidade admiravel.
E tudo deserto, tudo silencioso, mudo, morto! Cuida-se entrar na grande metropole de um povo extincto, de uma nação que foi poderosa e celebrada mas que desappareceu da face da terra e so deixou o monumento de suas construcções gigantescas.
Á esquerda o immenso convento do Sítio ou de Jesus, logo o das Donas, depois o de San'Domingos, célebre pelo jazigo do nosso Fausto portuguez—seja ditto sem irreverencia á memoria de San'Frei Gil que, é verdade, veio a ser grande sancto, mas que primeiro foi grande bruxo.—Defronte o antiquissimo mosteiro das Claras, e aopé as baixas arcadas gothicas de San'Francisco… de cujo último guardião, o austero Frei Diniz, tanta coisa te contei, amigo leitor, e tantas mais tenho ainda para te contar! Á direita o grandioso edificio philippino, perfeito exemplar da massissa e pedante architectura reaccionaria do seculo dezesette, o Collegio, typo largo e bello no seu genero, e quanto o seu genero póde ser, das construcções jesuiticas…
Não ha alma, não ha genio, não ha espirito n'aquellas massas pesadas, sem elegancia nem simplicidade; mas ha uma certa grandeza que impõe, uma solidez travada, uma symetria de calculo, umas proporções frias, mas bem assentadas e esquadriadas com methodo, que revelam o pensamento do seculo e do instituto que tanto o characterizou.
Não são as fortes crenças da meia-edade que se elevam no arco agudo da ogiva; não é a relaxação florída do seculo quinze e desesseis que ja vacilla entre o byzantino e o classico, entre o mystico ideal do christianismo que arrefece e os symbolos materiaes do paganismo que acorda; não, aqui arenascençatriumphou, e depois de triumphar, degenerou. É a inquisição, são os Jesuitas, são os Philippes, é a reacção catholica edificando templospara quese creia e se ore, nãoporquese crê e se ora.
Até aqui o mosteiro e a cathedral, a ermida e o convento eram a expressão da idea popular, agora são a fórmula do pensamento governativo.
Alli estão—olhae para elles—defronte uns dos outros, os monumentos das duas religiões, a qual mais expressivo e loquaz, dizendo mais claro que os livros, que os escriptos, que as tradições, o pensamento das edades que os ergueram, e que alli os deixaram gravados sem saber que o faziam.
Mais embaixo, e no fundo d'esse declive, aquella massa negra é o resto ainda suberbo do ja immenso palacio dos condes de Unhão.
Rodeámos o largo e fomos entrar em Marvilla pelo lado do norte. Estamos dentro dos muros da antiga Santarem. Tam magnífica é a entrada, tam mesquinho é agora tudo ca dentro, a maior parte d'estas casas velhas sem serem antigas, d'estas ruas moirescas sem nada de arabe, sem o menor vestigio de sua origem mais que a estreiteza e pouco aceio.
As egrejas quasi todas porêm, as muralhas e os bastiões, algumas das portas, e poucas habitações particulares, conservam bastante da physionomia antiga e fazem esquecer a vulgaridade do resto.
Seguimos a triste e pobre rua Direita, centro do debil commercio que ainda aqui ha: poucas e mal providas logeas, quasi nenhum movimento. Ca está a curiosa tôrre das Cabaças, a velha egreja de San'João do Alporão. Ámanhan iremos ver tudo isso de nosso vagar. Agora vamos á Alcaçova!
Entrámos a porta da antiga cidadella.—Que espantosa e desgraciosa confusão de intulhos, de pedras, de montes de terra e calissa! Não ha ruas, não ha caminhos, é um labyrinto de ruinas feias e torpes. O nosso destino, a casa do nosso amigo é aopé mesmo da famosa e historica egreja de Sancta Maria da Alcaçova.—Hade custar a achar em tanta confusão.
Depois de muito procurar acha emfim o auctor a egreja de Sancta-Maria d'Alcaçova.—Stylo da architectura nacional perdido.—O terremoto de 1755, o marquez de Pombal e o chafariz do Passeio-publico de Lisboa.—O chefe do partido progressista portuguez no alcassar de D. Affonso Henriques.—Deliciosa vista dos arredores de Santarem observada de uma janella da Alcaçova, de manhan.—É tomado o auctor de ideas vagas, poeticas, phantasticas como um sonho.—Introducção do Fausto.—Difficuldade de traduzir os versos germanicos nos nossos dialectos romanos.
Depois de muito procurar entre pardeiros e intulhos, achámo-la emfim a egreja de Sancta Maria d'Alcaçova. Achámos, não é exacto: ao menos eu, por mim, nunca a achava, nem queria accreditar que fôsse ella quando m'a mostraram. A real collegiada de Affonso Henriques, a quasi-cathedral da primeira villa do reino, um dos principaes, dos mais antigos, dos mais historicos templos de Portugal, isto?.. esse egrejorio insignificante de capuchos? mesquinha e ridicula massa d'alvenaria, sem nenhuma architectura, sem nenhum gôsto! risco, execução e trabalho de um mestre pedreiro d'aldeia e do seu apprendiz! É impossivel.
Mas era, era essa. A antiga capella-real, a veneranda egreja da Alcaçova foi passando por successivos reparos e transformações, até que chegou a ésta miseria.
Perverteu-se por tal arte o gôsto entre nós desde o meio do seculo passado especialmente, os estragos do terremoto grande quebraram por tal modo o fio de todas as tradições da architectura nacional, que na Europa, no mundo todo talvez se não ache um paiz onde, a par de tam bellos monumentos antigos como os nossos, se incontrem tam villans, tam ridiculas e absurdas construcções públicas como essas quasi todas que ha um seculo se fazem em Portugal.
Nos reparos e reconstrucções dos templos antigos é que este pessimo stylo, ésta ausencia de todo stylo, de toda a arte mais offende e escandaliza.
Olhem aquella impena classica posta de remate ao frontispicio todo renascença da Conceição-velha em Lisboa. Vejam a implastagem de geço com que estão mascarados os elegantes feixes de columnas gothicas da nossa sé.
Não se póde cahir mais baixo em architectura do que nós cahimos quando, depois que o marquez de Pombal nostraduziu, em vulgar e arrastada prosa, osrococósde Luiz XV, que no original, pelo menos, eram florídos, recortados, caprichosos e galantes como um madrigal, esse stylo bastardo, hybrido, degenerando progressivamente e tomando presumpções de classico, chegou nos nossos dias até ao chafariz do passeio-público!
Mas deixar tudo isso, e deixar a egreja da Alcaçova tambem; entremos nos palacios de D. Affonso Henriques.
Aqui, pegado com o pardeiro rebocado da capella hãode ser. Por onde se entra?
Por ésta portinha estreita e baixa, rasgada, bem se ve que ha poucos annos, no que parece muro de um quintal ou de um páteo.
É comeffeito aqui; apeemo'-nos.
Recebeu-nos com os braços abertos o nosso bom e sincero amigo, actual possuidor e habitante do regio alcassar, o Sr. M. P.
Notavel combinação do acaso! Que o illustre e venerado chefe do partido progressista em Portugal, que o homem de mais sinceras convicções democraticas, e que mais sinceramente as combina com o respeito e adhesão ás fórmas monarchicas, esse homem, vindo do Minho, do berço da dynastia e da nação, viesse fixar aqui a sua residencia no alcassar do nosso primeiro rei, conquistado pela sua espada n'um dos feitos mais insignes d'aquella era de prodigios!
Entrámos na pequena horta em fórma de claustro que une a antiga casa dos reis com a sua capella. Assim foi sem dùvida n'outro tempo: a parede oriental da egreja é o muro do quintal de um lado, mas as communicações foram vedadas provavelmente quando a coroa alienou o palacio e o separou assim perpetuamente do templo.
Plantado de larangeiras antigas, os muros forrados de limoeiros e parreiras, aquella pequena cêrca, apezar dos muitos canteiros e alegretes de alvenaria com que está moirescamente intulhada, é amena e graciosa á vista.
Appresentou-nos o nosso amigo a sua mulher, senhora de porte gentil e grave; beijámos seus lindos filhos, e fomos fazer as abluções indispensaveis depois de tal jornada para nos podermos sentar á mesa.
O palacio de Affonso Henriques está como a sua capella: nem o mais leve, nem o mais apagado vestigio da antiga origem. Sabe-se que é alli pela bem confrontada e inquestionavel topographia dos logares, por mais nada…
E que me importam a mim agora as antiguidades, as ruinas e as demolições, quando eu sinto demolir-me ca por dentro por uma fome exasperada e destruidora, uma fome vandalica insaciavel!
Vamos a jantar.
Comêmos, conversámos, tomámos chá, tornámos a conversar e tornámos a comer. Vieram visitas, fallou-se politica, fallou-se litteratura, fallou-se de Santarem sôbretudo, das suas ruinas, da sua grandeza antiga, da sua desgraça presente. Emfim, fomo'-nos deitar.
Nunca dormi tam regalado somno em minha vida. Acordei no outro dia ao repicar incessante e appresurado dos sinos da Alcaçova. Saltei da cama, fui á janella, e dei com o mais bello, o mais grandioso, e ao mesmo tempo, mais ameno quadro em que ainda puz os meus olhos.
No fundo de um largo valle aprazivel e sereno, está o socegado leito do Tejo, cuja areia ruiva e resplandecente apenas se cobre d'agua juncto ás margens, d'onde se debruçam verdes e frescos ainda os salgueiros que as ornam e defendem. D'alêm do rio, com os pés no pinque nateiro d'aquellas terras alluviaes, os riccos olivedos d'Alpiarça e Almeirim; depois a villa de D. Manuel e a sua charneca e as suas vinhas. D'aquem a immensa planicie ditta do Rocio, semeada de casas, de aldeias, de hortas, de grupos de árvores sylvestres, de pomares. Mais para a raiz do monte em cujo cimo estou, o picturesco bairro da Ribeira com as suas casas e as suas egrejas, tam graciosas vistas d'aqui, a sua cruz de Sancta Iria e as memorias romanescas do seu alfageme.
Com os olhos vagando por este quadro immenso e formosissimo, a imaginação tomava-me azas e fugia pelo vago infinito das regiões ideaes. Recordações de todos os tempos, pensamentos de todo o genero me affluiam ao espirito, e me tinham como n'um sonho em que as imagens mais discordantes e disparatadas se succedem umas ás outras.
Mas eram todas melancholicas, todas de saudade, nenhuma de esperança!..
Lembraram-me aquelles versos de Goethe, aquelles sublimes e inimitaveis versos da introducção do Fausto:
Resurgis outra vez, vagas figuras,Vacillantes imagens que á turbadaVista accudieis d'antes. E heide agoraRetter-vos firme? Sinto eu aindaO coração propenso a illusões d'essas?E appertais tanto!… Pois embora! seja:Dominae, ja que em nevoa e vapor leveEmtôrno a mim surgis. Sinto o meu seioJuvenilmente trépido agitar-seCo'a maga exhalação que vos circunda.Trazeis-me a imagem de ditosos dias,E d'ahi se ergue muita sombra amada:Como um velho cantar meio-esquecido,Véem os primeiros simplices amoresE a amizade com elles. ReverdeceA mágoa, lamentando o errado cursoDos labyrintos da perdida vida;E me está nomeando os que trahidosEm horas bellas por fallaz venturaAntes de mim na estrada se sumiram.…………………………….…………………………….
Não me atrevo a pôr aqui o resto da minha infeliz traducção: fiel é ella, mas não tem outro merito. Quem póde traduzir taes versos, quem de uma lingua tam vasta e livre hade passá-los para os nossos appertados e severos dialectos romanos?[1]
Doçuras da vida.—Imaginação e sentimento.—Poetas que morreram moços e poetas que morreram velhos.—Como são escriptas éstas viagens.—Livro de pedra. Criança que brinca com elle.—Ruinas e reparações.—Idea fixa do A. em coisas d'arte e litterarias.—Sancta Iria ou Irene, e Santarem.—Romance de Sancta Iria.—Quantas sanctas ha em Portugal d'este nome?
Este sonhar acordado, este scismar poetico deante dos sublimes spectaculos da natureza, é dos prazeres grandes que Deus concedeu ás almas de certa têmpera. Doce é gosar assim… mas em que doçuras da vida não predomina sempre o acido poderoso que stimula! Tirae-lh'o, fica a insipidez; deixae-lh'o, ulcéra porfim os orgams: o gôso é mais vivo porque a acção do stímulo é mais sentida… mas a ulceração cresce, o coração está em carne-viva… agora o prazer é martyrio.
Infeliz do que chegou a esse estado!
Bemaventurado o que póde graduar, como Goethe, a dóze d'amphião que quer tomar, que poupa as sensações e a vida, e economiza as potencias de sua alma! N'esses porêm é a imaginação que domina, não o sentimento. Byron, Schiller, Camões, o Tasso morreram moços; matou-os o coração. Homero e Goethe, Sophocles e Voltaire acabaram de velhos: sustinha-os a imaginação, que não despende vida porque não gasta sensibilidade.
Imaginar é sonhar, dorme e repousa a vida no entretanto; sentir é viver activamente, cansa-a e consomme-a.
Isto é o que eu pensava—porque não pensava em nada, divagava—em quanto aquelles versos do Fausto me estavam na memoria, e aquella saudosa vista do Tejo e das suas margens deante dos olhos.
Isto pensava, isto escrevo, isto tinha n'alma, isto vai no papel: que d'outro modo não sei escrever.
Muito me pêza, leitor amigo, se outra coisa esperavas das minhas Viagens, se te falto, sem o querer, a promessas que julgaste ver n'esse titulo, mas que eu não fiz decerto. Querias talvez que te contasse, marco a marco, as leguas da estrada? palmo a palmo, as alturas e larguras dos edificios? algarismo por algarismo, as datas de sua fundação? que te resummisse a historia de cada pedra, de cada ruina?..
Vai-te ao padre Vasconcellos; e quanto ha de Santarem, peta e verdade, ahi o acharás em amplo folio e gorda lettra: eu não sei compor d'esses livros, e quando soubesse, tenho mais que fazer.
So tenho pena de uma coisa, é de ser tam desestrado com o lapis na mão; porque em dois traços d'elle te dizia muito mais e melhor do que em tanta palavra que porfim tam pouco diz e tam mal pinta.
Santarem é um livro de pedra em que a mais interessante e mais poetica parte das nossas chronicas está escripta. Ricco de illuminuras, de recortados, de florões, de imagens, de arabescos e arrendados primorosos, o livro era o mais bello e o mais precioso de Portugal. Inquadernado em esmalte de verde e prata pelo Tejo e por suas ribeiras, fechado a broches de bronze por suas fortes muralhas gothicas, o magnífico livro devia durar sempre em quanto a mão do Creador se não extendesse para apagar as memorias da creatura.
Mas ésta Ninive não foi destruida, ésta Pompeia não foi submergida por nenhuma catastrophe grandiosa. O povo de cuja história ella é o livro, ainda existe; mas esse povo cahiu em infancia, deram-lhe o livro para brincar, rasgou-o, mutilou-o, arrancou-lhe folha a folha, e fez papagaios e bonecas, fez carapuços com ellas.
Não se descreve por outro modo o que ésta gente chamada govêrno, chamada administração, está fazendo e deixando fazer ha mais de seculo em Santarem.
As ruínas do tempo são tristes mas bellas, as que as revoluções trazem, ficam marcadas com o cunho solemne da historia. Mas as brutas degradações e as mais brutas reparações da ignorancia, os mesquinhos concertos da arte parasyta, esses profanam, tiram todo o prestigio.
Tal é a geral impressão que me faz ésta terra. Almocemos, que ja oiço chamar para isso, e iremos ver depois se me inganei.
Ao almôço a conversação veio naturalmente a cahir no seu objecto mais óbvio, Santarem. D. Affonso Henriques e os seus bravos, San'Frei Gil e o Sancto-milagre, o Alfageme e o Condestavel, el-rei D. Fernando e a rainha D. Leonor, Camões desterrado aqui, Frei Luiz de Sousa aqui nascido, Pedralvares Cabral, os Docems, quasi todas as grandes figuras da nossa historia passaram em revista. Porfim veio Sancta Iria tambem, a madrinha e padroeira d'esta terra, cujo nome aqui fez esquecer o de romanos e celtas.
Quem tem uma idea fixa, em tudo a mette. A minha idea fixa em coisas de arte e litterarias da nossa peninsula são as xacaras e romances populares. Ha um de Sancta Iria.
Porque é a Sancta Iria da trova popular tam differente da Sancta Iria das legendas monasticas?
A trova é ésta, segundo agora a rectifiquei e appurei pela collação de muitas e várias versões provinciaes com a ribatejana ou bordalenga, que em geral é a que mais se deve seguir.[2]
Stando eu á janella co'a minha almofada,Minha agulha d'ouro, meu dedal de prata;
Passa um cavalleiro, pedia pousada;Meu pae lh'a negou: quanto me custava!
—'Ja vem vindo a noite, é tam so a estrada…Senhor pae, não digam tal da nossa casa,
Que a um cavalleiro que pede pousadaSe fecha ésta porta á noite cerrada.'
Roguei e pedi—muito lhe pezava!Mas eu tanto fiz que porfim deixava.
Fui-lhe abrir a porta, mui contente entrava;Ao lar o levei, logo se assentava.
Ás mãos lhe dei agua, elle se lavava;Puz-lhe uma toalha, n'ella me limpava.
Poucas as pallavras, que mal me fallava,Mas eu bem sentia que elle me mirava.
Fui a erguer os olhos, mal os levantava,Os seus lindos olhos na terra os pregava.
Fui-lhe pôr a cea, muito bem ceava;A cama lhe fiz, n'ella se deitava.
Dei-lhe as boas noites, não me replicava:Tam má cortezia nunca a vi usada!
Lá por meia noite que me eu suffocava,Sinto que me levam co'a bôcca tapada…
Levam-me a cavallo, levam-me abraçada,Correndo, correndo sempre á desfilada.
Sem abrir os olhos, vi quem me roubava;Callei-me e chorei—elle não fallava.
D'alli muito longe que me perguntavaEu na minha terra como me chamava.
—'Chamavam-me Iria, Iria a fidalga;Por aqui agora Iria, a cansada.'[3]
Andando, andando, toda a noite andava;Lá por madrugada que me attentava…
Horas esquecidas commigo luctava;Nem fôrça nem rogos, tudo lhe mancava.
Tirou do alfange… alli me matava,Abriu uma cova onde me interrava.
No fim de sette annos passa o cavalleiro,Uma linda ermida viu n'aquelle outeiro.
—'Minha Sancta Iria, meu amor primeiro,Se me perdoares, serei teu romeiro.'
—'Perdoar não te heide, ladrão carniceiro,Que me degollaste que nem um cordeiro.'
Ou houve duas sanctas d'este nome, ambas de aventurosa vida e que ambas deixassem longa e profunda memoria de sua belleza e martyrio—o de que não tenho a menor idea—ou nos escriptos dos frades ha muita fábula de sua unica invenção d'elles que o povo não quiz acreditar: alias é inexplicavel a singeleza d'esta tradição oral.
Tam simples, tam natural é a narração poetica do romance popular, quanto é complicada e cheia de maravilhas a que se auctoriza nas recordações ecclesiasticas.
O caso é grave, fique para novo capitulo.
Historia de Sancta Iria segundo os chronistas e segundo o romance popular.
A milagrosa Sancta Iria—Sancta Irene—que deu o seu nome a Santarem, donzella nobre, natural da antiga Nabancia[4], e freira no convento dupplex[5] benedictino que pastoreava o sancto abbade Celio, floreceu pelos meados do septimo seculo. Namorou-se d'ella extremosamente o joven Britaldo, filho do conde ou consul Castinaldo que governava aquellas terras, e não podendo conseguir nada de sua virtude, cahiu infêrmo de molestia que nenhum physico acertava a conhecer, quanto mais a curar.
É sabido que a mais sancta lhe não pêza de que estejam a morrer por ella; e, mais ou menos, sempre sympathisa com as victimas que faz.
Sancta Iria resolveu consolar o pobre Britaldo; e ja que mais não podia por sua muita virtude, quiz ver se lhe tirava aquella louca paixão e o convertia. Sahiu, uma bonita manhan, do seu convento—que não guardavam ainda as freiras tam absoluta e estreita clausura—e foi-se a casa do namorado Britaldo.
Consolou como mulher e ralhou como sancta, e porfim, impondo-lhe na cabeça as lindas e bemdittas mãos, n'um instante o sarou de todo achaque do corpo; e se lhe não curou o d'alma tambem, pelo menos lh'o adormentou, que parecia acabado.
Mas como o demo, em chegando a entrar n'um corpo humano, parece que não sai d'elle senão para se ir metter n'outro; tam depressa o inimigo deixou ao pobre Britaldo, como logo se foi incaixar em não menor personagem do que o monge Remigio, que era o mestre e director da bella Iria.
Arde o frade em concupiscencia, e não obtendo nada com rogos e lamentos, jurou vingar-se. Disfarçou porêm, fingiu-se emendado, e deu-lhe, quando ella menos cuidava, uma bebida de sua diabolica preparação, que apenas a sancta a havia tomado, lhe appareceram logo e continuaram a crescer todos os signaes da mais apparente maternidade.
Corre a fama do supposto estado da donzella, chovem as injúrias e os insultos dos que mais a tinham respeitado até então. E Britaldo, que se julga escarnecido pela hypocrisia d'aquella mulher artificiosa, em vez de a esquecer com desprêzo—sente reviver-lhe, senão tam pura, muito mais ardente, toda a antiga paixão.
Tam mysterioso é o coração do homem!—tam vil! dirão os asceticos—tam inexplicavel! direi eu com os mais tolerantes.
Novas tentativas, promessas, ameaças do furioso amante… A sancta resiste a tudo, forte na sua virtude.
Costumava a devota donzella ir todas as noites a uma occulta lapa que jazia no fim da cêrca e juncto ao rio Nabão, para alli estar mais so com Deus, e desabafar com Elle á sua vontade. Soube-o Britaldo, espreitou a occasião e alli a fez apunhalar por um seu criado cujo nome a legenda nos conservou para maior testimunho de verdade: chamava-se Banam.
Banam! é um verdadeiro nome de mellodrama.
Morta a innocente, Banam despiu-lhe o hábito e lançou o corpo ao rio, que depressa a levou ás arrebatadas correntes do Zezere em que desagua; e logo este ao Tejo—que defronte da antiga Scalabicastro lhe deu sepultura em suas louras areas, para maior glória da sancta e perpétua honra da nobillissima villa que hoje tem o seu nome.
Mas emquanto ia navegando o corpo da sancta, teve Celio, o abbade do convento, uma revelação que lhe descobriu a verdade e os milagres do caso; e communicando-a logo aos monges e ao povo de Nabancia, sahiu com todos de cruz alçada, e foi por esses campos da Golegan fóra, até chegar á Ribeira de Santarem. Ahi benzendo as aguas do rio, éstas se retiraram cortezes e deixaram ver o sepulchro que era de fino alabastro, obrado á maravilha pelas mãos dos anjos.
Chegaram aopé do tumulo, abriram-n'o, viram e tocaram o corpo da sancta, mas não o poderam tirar, por mais diligencias que fizeram. Conheceu-se que era milagre; e contentando-se de levar reliquias dos cabellos e da tunica, voltaram todos para a sua terra.
As aguas tornaram a junctar-se e a correr como d'antes, e nunca mais se abriram senão d'ahi a seis seculos e meio, quando a boa rainha sancta Isabel, mulher d'el-rei D. Diniz, tam fervorosas orações fez aopé do rio pedindo á sancta que lhe apparecesse, que o rio tornou a abrir-se como o mar Vermelho á voz de Moises, dizem os devotos chronistas, e patenteou o benditto sepulchro.
Entrou a rainha a pé inchuto pelo rio dentro, seguida de seu real espôso e de toda a sua côrte; mas por mais que rezasse ella, e que trabalhassem os outros com todas as fôrças humanas, não poderam abrir o tumulo; quebraram todas as ferramentas, era impossivel. Desinganado el-rei de que um podêr sobrehumano não permittia que elle se abrisse, mandou a toda a pressa levantar um padrão muito alto sôbre o mesmo tumulo, e tam alto que o rio na maior inchente o não podesse cubrir.
O rio esperou com toda a paciencia que os pedreiros acabassem, e quando viu que podia continuar a correr, deu aviso, retiraram-se todos, tornaram a junctar-se as aguas e o padrão ficou sobresahindo por cima d'ellas.
Passaram mais tres seculos e meio; e no anno de 1644 a camara de Santarem mandou refazer de cantaria lavrada o ditto marco ou pedestal que não era senão de alvenaria, e pôr-lhe em cima a imagem da sancta.
Ainda lá está, assás mal cuidado com tudo; lá o vi com estes olhos peccadores no corrente mez de julho de 1843. Mas, sem milagre nem orações, o rio tinha-se retirado, havia muito, para um cantinho do seu leito, e o padrão estava perfeitamente em sêcco, e em sêcco está todo o anno até começarem as cheias.
Tal é, em fidelissimo resummo, a historia da Sancta Iria dos livros.
A das cantigas é, como ja disse, muito outra e muito mais simples, conta-se em duas palavras. A sancta está em casa de seus paes; um cavalleiro desconhecido, a quem dão pousada uma noite, levanta-se por horas mortas, rouba a descuidada e innocente donzella, foge a todo o correr de seu cavallo, e chegado a um descampado d'alli muito longe, pretende fazer-lhe violencia… A sancta resiste, elle mata-a. D'alli a annos passa por ahi o indigno cavalleiro, ve uma linda ermida levantada no proprio sítio onde commetteu o crime, pergunta de que sancta é, dizem-lhe que é de Sancta Iria. Elle cai de joelhos a pedir perdão á sancta, que lhe lança em rosto o seu peccado e o amaldiçoa.
E acabou a historia.
Sería o povo que se esqueceu nas suas tradições, ou os frades que augmentaram nas suas escripturas? Pois a legenda monastica é realmente bella e cheia de poesia e romance, coisas que o povo não costuma desprezar.
É difficil de explicar-se este phenomeno, interessantissimo para qualquer observador não vulgar, que n'estas crenças do commum, n'estas antigualhas, desprezadas pela suberba philosophia dos nescios, quer estudar os homens e as nações e as edades onde elles mais sinceramente se mostram e se deixam conhecer.
A extrema simplicidade do romance ou xacara de Sancta Iria, o ser elle, d'entre todos os que andam na memoria do nosso povo, o mais geralmente sabido e mais uniformente repettido em todos os districtos do reino, e com poucas variantes nas palavras, nenhuma no contexto, me faz crer que ésta seja das mais antigas composições não so da nossa lingua, mas de toda a peninsula. A phrase tem pouco sabor antigo: este é um d'aquelles poemas quasi aborigines que a tradição tem vindo intregando, e ao mesmo tempo traduzindo, de paes a filhos insensivelmente; e tambem não é porcerto dos que desceram do palacio ás choupanas e fugiram da cidade para as aldeas, como em muitos outros se conhece: este visivelmente nasceu nos arraiaes, nos oragos dos campos, e por lá tem vivido até agora.
A fórma metrica da composição é a que a phrase didatica das Hispanhas chamouromance em endechas. Eu, adoptando para elle, mais que para a fórma ordinaria do metro octosyllabo, a theoria do ingenhoso philologo allemão, Deeping, tam benemerito da nossa litteratura peninsular, creio que estes são verdadeiros versos de dôze syllabas, e que as coplas não constam senão de dous versos cada uma, segundo a óbvia significação da palavra. O povo cantando não separa os hemistychios d'estes versos como fazem os que os escrevem: e ao contrário nos romances da medida mais commum, o canto popular reparte distinctamente cada membro de oito syllabas sôbre si.
Não sei se me ingano, mas desconfio que as quatro coplas últimas, em que muda completamente a rhyma, sejam additamento posterior feito á cantiga original. Todavia estes oito versos apparecem, com ligeiras variantes, em toda a parte.