Ha dôze annos tornou o Cartaxo a figurar conspicuamente na historia de Portugal. Aqui, nas longas e terriveis luctas da última guerra desuccessão, esteve muito tempo o quartel-general do marquez de Saldanha.Alguns dythirambos se fizeram; alguns echos das antigas canções bacchicas do tempo da guerra peninsular ainda acordaram ao som dos hymnos constitucionaes.Mas o systema liberal, tirada a epocha das eleições, não é grande coisa para a indústria vinhateira, dizem. Eu não o creio porém; e tenho minhas boas razões, que ficam para outra vez.CAPITULO VIII.Sahida do Cartaxo—A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.—Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal.—Batalha de Almoster.—Waterloo.—Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte da Asseca.Eram dadas cinco da tarde, a calma declinava; montámos a cavallo, e cortámos por entre os viçosos pampanos que são a glória e a belleza do Cartaxo; as mulinhas tinham refrescadocado e tomado ânimo; breve, nos achámos em plena charneca.Bella e vasta planicie! Desafogada dos raios do sol, como ella se desenha ahi no horisonte tam suavemente! que delicioso aroma selvagem que exhalam éstas plantas, acres e tenazes de vida, que a cobrem, e que resistem verdes e viçosas a um sol portugez de julho!A doçura que mette n'alma a vista refrigerante de uma joven seara do Ribatejo nos primeiros dias de abril, ondulando lascivamente com a brisa temperada da primavera,—a amenidade bucolica de um campo minhoto de milho, á hora da rega, por meados de agosto, a ver-se-lhe pullar os caules com a agua que lhe anda por pé, e á roda as carvalheiras classicamente desposadas com a vide cuberta de racimos pretos—são ambos esses quadros de uma poesia tam graciosa e cheia de mimo, que nunca a dei por bem traduzida nos melhores versos de Theocrito ou de Virgilio, nas melhores prosas de Gesner ou de Rodrigues-Lobo.A majestade sombria o solemne de um bosqueantigo e copado, o silencio e escuridão de suas moitas mais fechadas, o abrigo solitario de suas clareiras, tudo é grandioso, sublime, inspirador de elevados pensamentos. Medita-se alli por fôrça; isola-se a alma dos sentidos pelo suave adormecimento em que elles cahem... e Deus, a eternidade—as primitivas e innatas ideas do homem—ficam unicas no seu pensamento...É assim. Mas um rochedo em que me eu sente ao pôr do sol na gandra erma e selvagem, vestida apenas de pastio bravo, baixo, e tosqueado rente da bôcca do gado—diz-me coisas da terra e do ceo que nenhum outro espectaculo me diz na natureza. Ha um vago, um indeciso, um vaporoso n'aquelle quadro que não tem nenhum outro.Não é o sublime da montanha, nem o augusto do bosque, nem o ameno do valle. Não ha ahi nada que se determine bem, que se possa definir positivamente. Ha a solidão que é uma idea negativa...Eu amo a charneca.E não sou romanesco. Romantico, Deus me livre de o ser—ao menos, o que na algaravia de hoje se intende por essa palavra.Ora a charneca d'entre Cartaxo e Santarem, áquella hora que a passámos, começava a ter esse tom, e a achar-lhe eu esse incanto indefinivel.Sentia-me disposto a fazer versos... a quê? Não sei.Felizmente que não estava so; e escapei de mais essa caturrice.Mas foi como se os fizesse, os versos, como se os estivesse fazendo, porque me deixei cahir n'um verdadeiro estado poetico de distracção, de mudez—cessou-me a vida toda derelação, e não me sentia existir senão por dentro.Derepente acordou-me do lethargo uma voz que bradou:—'Foi aqui!... aqui é que foi, não ha dúvida'.—'Foi aqui o quê?'—'A última revista do imperador'.—'A última revista! Como assim a última revista! Quando? Pois?...'Então cahi completamente em mim, e recordei-me, com amargura e desconsolação, dos tremendos sacrificios a que foi condemnada ésta geração, Deus sabe para quê—Deus sabe se para expiar as faltas de nossos passados, se para comprar a felicidade de nossos vindouros...O certo é que alli comeffeito passára o imperador D. Pedro a sua última revista ao exércitoToda a guerra civil é triste.E é difficil dizer para quem mais triste, se para o vencedor ou para o vencido.Ponham de parte questões individuaes, e examinem de boa fé: verão que, na totalidade de cada facção em que a nação se dividiu, os ganhos,se os houve para quem venceu, não balançam os padecimentos, os sacrificios do passado, e menos que tudo, a responsabilidade pelo futuro...Eu não sou philosopho. Aos olhos do philosopho, a guerra civil e a guerra extrangeira, tudo são guerras que elle condemna—e não mais uma do que a outra... a não ser Hobbes o ditto philosopho, o que é coisa muito differente.Mas não sou philosopho, eu: estive no campo de Waterloo, sentei-me aopé do Leão de bronze sôbre aquelle monte de terra amassado com o sangue de tantos mil, vi—e eram passados vinte annos—vi luzir ainda pela campina os ossos brancos das victimas que alli se immolaram a não sei quê... Os povos disseram que á liberdade, os reis que á realeza... Nenhuma d'ellas ganhou muito, nem para muito tempo com a tal victoria...Mas deixemos isso. Estive alli, e senti bater-me o coração com essas recordações, com essas memorias dos grandes feitos e gentilezas que alli se obraram.Porque será que aqui não sinto senão tristeza?Porque luctas fratricidas não podem inspirar outro sentimento e porque...Eu moía comigo so éstas amargas reflexões, e toda a belleza da charneca desappareceu deante de mim.N'esta desagradavel disposição de ânimo chegámos á ponte d'Asseca.CAPITULO IX.Prolegomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.—Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.—Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.—Chega-se ao fim d'estas reflexões e á ponte da Asseca.—Traducção portugueza de um grande poeta.—Origem de um dictado.—Junot na ponte da Asseca.—De como o A. d'este livro foi jacobino desde pequeno.—Inguiço que lhe deram.—A duqueza de Abrantes.—Chega-se emfim ao val de Santarem.Vivia aqui ha coisa de cinquenta para sessenta annos, n'esta boa terra de Portugal, um figurão exquisitissimo que tinha inquestionavelmente o instincto de descobrir assumptos dramaticosnacionaes—ainda, ás vezes, a arte de desenhar bem o seu quadro, de lhe grupar, não sem mérito, as figuras: mas ao pô-las em acção, ao collori-las, ao fazê-las fallar... boas noites! era semsaboria irremediavel.Deixou uma collecção immensa de peças de theatro que ninguem conhece, ou quasi ninguem, e que nenhuma soffreria, talvez, representação; mas rara é a que não poderia ser arranjada e appropriada á scena.Que mina tam ricca e fertil para qualquer mediano talento dramatico! Que bellas e portuguezas coisas se não podem extrahir dos treze volumes—são treze volumes e grandes!—do theatro de Ennio-Manuel de Figueiredo! Algumas d'essas peças, com bem pouco trabalho, com um dialogo mais vivo, um stylo mais animado, fariam comedias excelentes.Estão-me a lembrar éstas:'O Casamento da Cadea'—ou talvez se chame outra coisa, mas o assumpto é este; comedia cujos characteres são habilmente esboçados,funda-se n'aquella nossa antiga lei que fazia casar da prisão os que assim se suppunha podêrem reparar certos damnos de reputação feminina.'O fidalgo de sua casa', satyra mui graciosa de um tam commum ridiculo nosso.'As duas educações', bello quadro de costumes: são dois rapazes, ambos extrangeiramente educados, um francez, outro inglez, nenhum portuguez. É eminentemente comico, frisante, ou, segundo agora se diz á moda, 'palpitante de actualidade.''O cioso', comedia ja remoçada da antiga comedia de Ferreira e que em si tem os germens todos da mais ricca e original composição.'O avaro dissipador', cujo so titulo mostra o ingenho e invenção de quem tal assumpto concebeu: assumpto ainda não tractado por nenhum de tantos escriptores dramaticos de nação alguma, e que é todavia um vulgar ridiculo, todos os dias incontrado no mundo.São muitas mais, não fica n'estas, as composiçõe São muitas mais, não fica n'estas, as composiçõesdo fertilissimo escriptor que, passadas pelo crivo de melhor gôsto, e animadas sôbretudo no stylo, fariam um razoavel repertorio para acudir á mingua dos nossos theatros.Uma das mais semsabores porêm, a que vulgarmente se haverá talvez pela mais semsabor, mas que a mim mais me diverte pela ingenuidade familiar e sympathica de seu tom magoado e melancholicamento chocho, é a que tem por titulo 'Poeta em annos de prosa'.E foi por ésta, foi por amor d'esta que me eu deixei descahir na digressão dramatico-litteraria do princípio d'este capitulo; pegou-se-me á penna porque se me tinha pregado na cabeça; e ou o capitulo não sabia, ou ella havia de sahir primeiro.Poeta em annos de prosa! Oh Figueiredo, Figueiredo, que grande homem não foste tu, pois imaginaste este titulo que so elle em si é um volume! Ha livros, e conheço muitos, que não deviam ter titulo, nem o titulo é nada n'elles.Faz favor de me dizer o de que serve, o quesignifica o 'Judeu errante' pôsto no frontispicio d'esse interminavel e mercatorio romance que ahi anda pelo mundo, mais errante, mais sem fim, mais immorredoiro que o seu prototypo?E ha titulos tambem que não deviam ter livro, porque nenhum livro é possivel escrever que os desimpenhe como elles merecem.'Poeta em annos de prosa' é um d'esses.Eu não leio nenhuma das raras coisas que hoje se escrevem verdadeiramente bellas, isto é, simples, verdadeiras, e por consequencia sublimes, que não exclame com sincero pesadume ca de dentro: 'Poeta em annos de prosa!'Pois este é seculo para poetas? ou temos nós poetas para este seculo?..Temos sim, eu conheço tres: Bonaparte, Silvio-Péllico e o barão de Rotchild.O primeiro fez a sua Iliada com a espada, o segundo com a paciencia, o último com o dinheiro.São os tres agentes, as tres entidades, as tres divindades da epocha.Ou cortar com Bonaparte, ou comprar com Rotchild, ou soffrer e ter paciencia com Silvio-Péllico.Todo o que fizer d'outra poesia—e d'outra prosa tambem—é tolo...Vieram-me éstas mui judiciosas reflexões a proposito do capitulo antecedente d'esta minha obra prima; e lancei-as aqui para instrucção e edificação do leitor benevolo.Acabei com ellas quando chegámos á ponte da Asseca.Esquecia-me dizer que d'aquelles tres grandes poetas so um está traduzido em portuguez—o Rotchild: não é litteral a traducção, agallegou-se e ficou muito suja de erros de imprensa mas como não ha outra...Ora d'onde veio este nome da Asseca? Algures aqui perto deve de haver sitio, logar ou coisaque o valha, com o nome de Meca; e d'ahi talvez o admiravel rifão portuguez que ainda não foi bem examinado como devia ser, e que decerto incerra algum grande dictame de moral primitiva: 'andou por Secca (Asseca?) e Meca e olivaes de Santarem.'—Os taes olivaes ficam logo adiante. É uma ethymologia como qualquer outra.A ponte da Asseca corta uma varzea immensa que hade ser um vasto pahul de hynverno: ainda agora está a desangrar-se em agua por toda a parte.É notavel na historia moderna este sítio. Aqui n'um recontro com os nossos, foi Junot gravemente ferido, ferido na cara.'Il ne sera plus beau garçon'disse o parlamentario francez que veio, depois da acção, tractar, creio eu, de troca de prisioneiros ou de coisa similhante. Mas inganou-se o parlamentario; Junot ainda ficou muito guapo e gentil homem depois d'isso.Tenho pena de nunca ter visto o Junot nem o Maneta,[1]as duas primeiras notabilidades que ouviaclamar como taes e cujos nomes conhecí... Ingano-me: conheci primeiro o nome de Bonaparte. E lembra-me muito bem que nunca me persuadi que elle fossa o monstro disforme e horroroso que nos pintavam frades e velhas n'aquelle tempo. Imaginei sempre que, para excitar tantos odios e malquerenças, era necessario que fosse um bem grande homem.Desde pequeno que fui jacobino; ja se ve: e de pequeno me custou caro. Levei bons puchões de orelhas de meu pae por comprar na feira de San'Lazaro, no Porto, em vez das gaitinhas ou dos registos de sanctos, ou das outras bogigangas que os mais rapazes compravam... não imaginam o quê... um retrato de Bonaparte.Foi 'inguiço'—diria uma senhora do meu conhecimento que accredita n'elles: foi inguiço que aínda se não desfez e que toda a vida me tem perseguido.Quem me diria quando, por esse primeiro peccado politico da minha infancia, por esse primeiro tractamento duro, e—perdoe-me a respeitada memoria de meu sancto pae!—injustissimo, que me trouxe o mero instincto das ideasliberaes, quem me diria que eu havia de ser perseguido por ellas toda a vida! que apenas sahido da puberdade havia de ir a essa mesma França, á patria d'esses homens e d'essas ideas com quem a minha natureza sympathysava sem saber porquê, buscar asylo e guarida?Não vi ja quasi nenhum d'aquelles que tanto desejára conhecer; as ruinas do grande imperio estavam dispersas; os seus generaes mortos, desterrados, ou trajavam interesseiros e covardes as librés do vencedor...De todas as grandes figuras d'essa epocha, a que melhor conheci e tractei foi uma senhora, typo de graça, de amabilidade e de talento. Pouco foi o nosso tracto, mas quanto bastou para me incantar, para me formar no espirito um modêllo de valor e merecimento feminino que me veio a fazer muito mal.Custa depois a encher aquella altura que se marcou...Eis aqui como eu fiz esse conhecimento.Inda o estou vendo, coitado! o pobre C. do S., nobre, espirituoso, cavalheiro, fazendo-se perdoar todos os seus prejuizos de casta, que tinha como ninguem, por aquella polidez superior e affabilidade elegante que distingue o verdadeiro fidalgo (stylo antigo); inda o estou vendo, ja sexagenario, ja mais que 'ci-devant jeun'homme', o pescoço intallado na inflexivel gravata, os pés pegando-se-lhe, como os de Ovidio, ao limiar da porta—não que lh'os prendessem saudades, senão que lh'os paralysava a cakexia incipiente—mas o espirito joven a reagir e a teimar.—'Vamos!' disse elle 'hoje estou bom, sinto-me outro: quero apresentá-lo a madame de Abrantes. Está tam velha! Isto de mulheres não são como nós, passam muito depressa.'E o desgraçado tremiam-lhe as pernas, e suffocava-o a tosse.Tomámos uma 'citadine', e fomos comeffeito á nova e elegante rua chamada não impropriamente a rua de Londres, onde achámos rodeada de todo o esplendor do seu occaso aquella formosa estrella do imperio.Não quero dizer que era uma belleza; longe d'isso. Nem bella nem môça, nem airosa de faser impressão era a duqueza d'Abrantes. Mas em meia hora de conversação, de tracto, descubriam-se-lhe tantas graças, tanto natural, tanta amabilidade, um complexo tam verdadeiro e perfeito da mulher franceza, a mulher mais seductora do mundo, que involuntariamente se dizia a gente no seu coração: 'Como se está bem aqui!'Fallámos de Portugal, de Lisboa, do imperio—da restauração, da revolução de julho (isto era em 1831), de M. de Lafayette, de Luiz-Philippe, de Chateaubriand—o seu grande amigo d'ella—doSacré-Coeure das suas elegantes devotas—fallámos artes, poesia, politica... e eu nãotinha ânimopara acabar de conversar...Benevolo e paciente leitor, o que eu tenho decerto ainda é consciencia, um resto de consciencia: acabemos com éstas digressões e perennaes divagações minhas. Bem vejo que te deixei parado á minha espera no meio da ponte d'Asseca. Perdoa-me por quem es, dêmos d'espora ás mulinhas, e vamos que são horas.Ca estâmos n'um dos mais lindos e deliciosos sitios da terra: o valle de Santarem, patria dos rouxinoes e das madresilvas, cincta de faias bellas e de loureiros viçosos. D'isto é que não tem París, nem França nem terra alguma do occidente senão a nossa terra, e vale bem por tantas, tantas coisas que nos faltam.CAPITULO X.Valle de Santarem—Namora-se o A. de uma janella que ve por entre umas árvores.—Conjecturas várias a respeito da ditta janella.—Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.—Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.—De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos pretos.—Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo seu.—Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.—A menina dos rouxinoes.—Censura das damas muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.—Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea.O valle de Santarem é um d'estes logares privilegiados pela natureza, sitios amenos e deleitosos em que as plantas, o ar, a situação, tudo está n'uma harmonia suavissima e perfeita:não ha alli nada grandioso nem sublime, mas ha uma como symetria de côres, de sons, de disposição em tudo quanto se ve e se sente, que não parece senão que a paz, a saude, o socêgo do espirito e o repouso do coração devem viver alli, reinar alli um reinado de amor e benevolencia. As paixões más, os pensamentos mesquinhos, os pezares e as villezas da vida não podem senão fugir para longe. Imagina-se por aqui o Eden que o primeiro homem habitou com a sua innocencia e com a virgindade do seu coração.Á esquerda do valle, e abrigado do norte pela montanha que alli se corta quasi a pique, está um masisso de verdura do mais bello viço e variedade. A faia, o freixo, o alamo enterlaçam os ramos amigos; a madresilva, a musqueta penduram de um a outro suas grinaldas e festões; a congossa, os fettos, a malva-rosa do vallado vestem e alcatifam o chão.Para mais realçar a belleza do quadro, ve-se por entre um claro das árvores a janella meia aberta de uma habitação antiga mas não dilapidada—com certo ar de confôrto grosseiro, ecarregada na côr pelo tempo e pelos vendavais do sul a que está exposta. A janella é larga e baixa; parece mais ornada e tambem mais antiga que o resto do edificio que todavia mal se ve...Interessou-me aquella janella.Quem terá o bom gôsto e a fortuna de morar alli?Parei e puz-me a namorar a janella.Incantava-me, tinha-me alli como n'um feitiço.Pareceu-me entrever uma cortina branca... e um vulto por de traz... Imaginarão decerto! Se o vulto fosse feminino!.. era completo o romance.Como hade ser bello ver pôr o sol d'aquella janella!..E ouvir cantar os rouxinoes!..E ver raiar uma alvorada de maio!..Se haverá alli quem a aproveite, a deliciosa janella?.. quem apprecie e saiba gosar todo o prazertranquillo, todos os sanctos gosos de alma que parece que lhe andam esvoaçando em tôrno?Se fôr homem é poeta; se é mulher está namorada.São os dois entes mais parecidos da natureza, o poeta e a mulher namorada: vêem, sentem, pensam, fallam como a outra gente não ve, não sente, não pensa nem falla.Na maior paixão, no mais acrysolado affecto do homem que não é poeta, entra sempre o seu tanto da vil prosa humana: é liga sem que se não lavra o mais fino de seu oiro. A mulher não; a mulher apaixonada devéras sublima-se, idealiza-se logo, toda ella é poesia; e não ha dor physica, interêsse material, nem deleites sensuaes que a façam descer ao positivo da existencia prosaica.Estava eu n'estas meditações, começou um rouxinol a mais linda e desgarrada cantiga que ha muito tempo me lembra de ouvir.Era aope da ditta janella!E respondeu-lhe logo outro do lado opposto; e travou-se entre ambos um desafio tam regular, em strophes alternadas tam bem medidas, tam accentuadas e perfeitas, que eu fiquei todo dentro do meu romance, esqueci-me de tudo o mais.Lembrou-me o rouxinol de Bernardim-Ribeiro, o que se deixou cahir n'agua de cançado.O arvoredo, a janella, os rouxinoes... áquella hora, o fim da tarde... que faltava para completar o romance?Um vulto feminino que viesse sentar-se áquele balcão—vestido de branco—oh! branco por fôrça... a frente descahida sôbre a mãoesquerda, o braço direito pendente, os olhos alçados ao ceo... De que côr os olhos? Não sei, que importa! é amiudar muito demais a pintura, que deve ser a grandes e largos traços para ser romantica, vaporosa, desenhar-se no vago da idealidade poetica...—'Os olhos, os olhos...' disse eu pensando ja alto, e todo no meu extasi, 'os olhos... pretos.'—'Pois eram verdes!'—'Verdes os olhos... d'ella, do vulto da janella?'—'Verdes como duas esmeraldas orientaes, transparentes, brilhantes, sem preço.'—'Quê! pois realmente?.. É gracejo isso, ou realmente ha alli uma mulher, bonita, e?..'—'Alli não ha ninguem—ninguem que se nomeie hoje, mas houve... oh! houve um anjo, um anjo, que deve de estar no ceo.'—'Bem dizia eu que aquella janella...'—'É a janella dos rouxinoes.'—'Que lá estão a cantar.'—'Estão, esses lá estão ainda como ha dez annos—os mesmos ou outros, mas amenina dos rouxinoesfoi-se e não voltou.'—'A menina dos rouxinoes! que historia é essa? Pois devéras temuma historiaaquella janella?'—'É um romance todo inteiro,todo feitocomo dizem os francezes e conta-se em duas palavras.'—'Vamos a elle. A menina dos rouxinoes, menina com olhos verdes! Deve ser interessantissimo. Vamos á historia ja.'—'Pois vamos. Apeemo'-nos e descancemos um bocado.'Ja se ve que este dialogo passava entre mim e outro dos nossos companheiros de viagem.Apeámo'-nos comeffeito; sentamo'-nos; e eisaqui a historia damenina dos rouxinoescomo ella se contou.É o primeiro episodio da minha Odyssea: estou com medo de entrar n'elle porque dizem as damas e os elegantes da nossa terra que o portuguez não é bom para isto, que em francez que ha outro não-sei-quê...Eu creio que as damas que estão mal informadas, e sei que os elegantes que são uns tolos; mas sempre tenho meu receio, porque emfim, enfim, d'elles me rio eu, mas poesia ou romance, musica ou drama de que as mulheres não gostem, é porque não presta.Ainda assim, bellas e amaveis leitoras, intendamo'nos: o que eu vou contar não é um romance, não tem aventuras inredadas, peripecias, situações e incidentes raros; é uma historia simples e singella, sinceramente contada e sem pretenção.Acabemos aqui o capitulo em fórma de prologo, e a materia do meu conto para o seguinte.CAPITULO XI.Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas sim.—Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.—O A., tendo declarado no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, como tal, em seu direito.—De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que Yorick, seu bobo.—Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre namorados.—Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no capitulo antecedente.—Modestia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.—Dido e a mana Annica.—Entra-se emfim na prometida historia.—De como a velha estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.Este é o unico privilegio dos poetas: que até morrer podem estar namorados. Tambem não lhes conheço outro. A mais gente tem as suas epochas na vida, fóra das quaes lhes não épermittido apaixonarem-se. Pretenderam accolher-se ao mesmo beneficio os philosophos, mas não lhes foi consentido pela rainha Opinião, que é soberana absoluta e juiz supremo de que se não appella nem aggrava ninguem.Anacreonte cantou, de cabellos brancos, os seus amores, e não se extranhou. Aristoteles mal teria a barba russa quando foi d'aquelle seu último namôro porque ainda hoje lhe apouquentam a fama.Ora eu philosopho, seguramente não sou, ja o disse; de poeta tenho o meu pouco, padeci, a fallar a verdade, meus ataques assás agudos d'essa molestia, e bem podéra desculpar-me com elles de certas fragilidades de coração... Mas não senhor, não quero desculpar-me como quem tem culpa senão defender-me como quem tem razão e justiça por si.Estou, com o meu amigo Yorick, o ajuizadissimo bobo d'elrei de Dinamarca, o que alguns annos depois ressuscitou em Sterne com tam elegante penna, estou sim. 'Toda a minha vida' diz elle 'tenho andado apaixonado ja por esta ja por aquella princeza, e assim heide ir, espero,até morrer, firmemente persuadido que se algum dia fizer uma acção baixa, mesquinha, nunca hade ser senão no intervallo de uma paixão á outra: n'esses interregnos sinto fechar-se-me o coração, esfria-me o sentimento, não acho dez reis que dar a um pobre... por isso fujo ás carreiras de similhante estado; e mal me sinto acceso de novo, sou todo generosidade e benevolencia outra vez.'Yorick tem rasão, tinha muito mais razão e juizo que seu augusto amo, elrei de Dinamarca. Por pouco mais que se generalize o principio, fica indisputavel, inexcepcionavel para sempre e para tudo. O coração humano é como o estomago humano, não pode estar vazio, preciza de alimento sempre: são e generoso so as affeições lh'o podem dar; o odio, a inveja e toda a outra paixão má é estímulo que so irrita mas não sustenta. Se a razão e a moral nos mandam abster d'estas paixões, se as chymeras philosophicas, ou outras, nos vedarem aquellas, que alimento dareis ao coração, que hade elle fazer? Gastar-se sôbre si mesmo, consummir-se... Altera-se a vida, appressa-se a dissolução moral da existencia, a saude d'alma é impossivel.O que póde viver assim, vive para fazer mal ou para não fazer nada.Ora o que não ama, que não ama apaixonadamente, seu filho se o tem, sua mãe se a conserva, ou a mulher que prefere a todas, esse homem é o tal, e Deus me livre d'elle.Sôbretudo que não escreva: hade ser um massador terrivel. Talvez seja este o motivo da indefinida permissão que é dada aos poetas de andarem namorados sempre.O romancista gosa do mesmo fôro e tem as mesmas obrigações. É como o privilegio de desimbargador que tiravam d'antes os fidalgos, quando ser desimbargador valia alguma coisa... e tanta coisa!Como heide eu então, eu que n'esta grave Odyssea das minhas viagens tenho de inserir o mais interessante e mysterioso episodio d'amor que ainda foi contado ou cantado, como heide eu fazê-lo, eu que ja não tenho que amar n'este mundo senão uma saudade e uma esperança—um filho no berço e uma mulher na cova?..Será isto bastante? Dizei-o vós, ó benevolas leitoras, póde com isto so alimentar-se a vida do coração?—Póde sim.—Não póde, não.—Estão divididos os suffragios: peço votação.—Nominal?—Não, não.—Porquê?—Porque ha muita coisa que a gente pensa, e crê e diz assim a conversar, mas que não ousa confessar publicamente, professar aberta e nomeadamente no mundo...Ah! sim... elle é isso? Bem as intendo, minhas senhoras: reservemos sempre uma sahida para os casos difficeis, para as circumstancias extraordinarias. Não é assim?Pois o mesmo farei eu.E pôsto que hoje, faz hoje um mez, em tal dia como hoje, dia para sempre assignalado na minha vida, me apparecesse uma visão, uma visão celeste que me surpreendeu a alma por um modo novo e extranho, e do qual não podia dizer decerto como a rainha Dido á mana Annica:Reconheço o queimar da chamma antiga,Agnosco veteris vestigia flammae;pôsto que a visão passou e desappareceu... mas deixou gravada n'alma a certeza de que... Pôsto que seja assim tudo isto, a confidencia não passará d'aqui, minhas senhoras: tanto basta para se saber que estou sufficientemente habilitado para chronista da minha historia, e a minha historia é ésta.Era no anno de 1832, uma tarde de verão como hoje calmosa, sêcca, mas o ceo puro e desabafado. Á porta d'essa casa entre o arvoredo, estaca sentada uma velhinha bem passante dos settenta, mas que o não mostrava. Vestia uma especie de tunica rosa que apertava na cintura com um largo cinto de coiro preto, e que fazia resahir a alvura da cara e das mãos longas, descarnadas, mas não ossudas como usam de ser mãos de velhas; toucava-se com um lenço da mais escrupulosabrancura, e pôsto de um geito particular a modo de toalha de freira; um mandil da mesma brancura, que tinha no peito e que affectava, não menos, a fórma de um escapulario de monja, completava o extranho vestuario da velha. Estava sentada n'uma cadeira baixa do mais classico feitio: textualmente parecia a que serviu de modêllo a Raphael para o seu bello quadro daMadonna della Sedia.Como nota historica e illustração artistica, seja-me permittido juntar aqui em parenthesis que, não ha muito, vi em casa de um sapateiro remendão, em Lisboa, no Bairro-alto, um cadeira tal e qual; torneados pyramidaes, simples, sem nobreza, mas elegantes.Tornemos á velhinha.Estava ella alli sentada na ditta cadeira, e deante de si tinha uma dobadoira, que se movia regularmente com o tirar do fio que lhe vinha ter ás mãos a inrollar-se no ja crescido novello.Era o unico signal de vida que havia em todo esse quadro. Sem isso, velha, cadeira, dobadoira,tudo pareceria umagraciosa sculptura de Antonio Ferreira ou um d'aquelles quadros tam verdadeiros do morgado de Setubal.O movimento bem visivel da dobadoira era regular, e respondía ao movimento quasi imperceptivel das mãos da velha. Era regular o movimento, mas durava um minuto e parava, depois ia seguido outros dous, tres minutos, tornava a parar: e n'esta regularidade de intermitencias se ia alternando como o pulso de um que treme sesões.Mas o velha não tremia, antes se tinha muito direita e aprumada: o parar do seu lavor era porque o trabalho interior do espirito dobrava, de vez em quando, de intensidade, e lhe suspendiatodo o movimentoexterno. Mas a suspensão era curta e mesurada; reagia a vontade, e a dobadoira tornava a andar.Os olhos da velha é que tinham uma expressão singular: voltada para o poente, não os tirou d'essa direcção nem os inclinava de modo algum para a dobadoira que lhe ficava um pouco mais á esquerda. Não pestanejavam, e o azulde suas pupillas, que devia de ter sido brilhante como o das saphyras, parecia desbotado e sem lume.O movimento da dobadoira estacou agora de repente, a velha poisou tranquillamente as mãos e o novello no regaço, e chamou para dentro da casa:—'Joanninha?'Uma voz doce, pura, mas vibrante, d'estas vozes que se ouvem rara vez, que retinem dentro d'alma e que não esquecem nunca mais, respondeu de dentro:—'Senhora? Eu vou, minha avó, eu vou.'—'Querida filha!.. Como ella me ouviu logo! Deixa, deixa: vem quando podéres. É a meada que se me imbaraçou.'A velha era cega, cega de gotta-serena, e paciente, resignada como a providencia misericordiosa de Deus permitte quasi sempre que sejam os que n'este mundo destinou á dura provança de tam desconsolado martyrio.CAPITULO XII.
Sahida do Cartaxo—A charneca. Perigo imminente em que o A. se acha de dar em poeta e fazer versos.—Ultima revista do imperador D. Pedro ao exército liberal.—Batalha de Almoster.—Waterloo.—Declara o A. solemnemente que não é philosopho e chega á ponte da Asseca.
Prolegomenos dramatico-litterarios, que muito naturalmente levam, apezar de alguns rodeios, ao retrospecto e reconsideração do capitulo antecedente.—Livros que não deviam ter titulo, e titulos que não deviam ter livro.—Dos poetas d'este seculo. Bonaparte, Rotchild e Silvio-Péllico.—Chega-se ao fim d'estas reflexões e á ponte da Asseca.—Traducção portugueza de um grande poeta.—Origem de um dictado.—Junot na ponte da Asseca.—De como o A. d'este livro foi jacobino desde pequeno.—Inguiço que lhe deram.—A duqueza de Abrantes.—Chega-se emfim ao val de Santarem.
Valle de Santarem—Namora-se o A. de uma janella que ve por entre umas árvores.—Conjecturas várias a respeito da ditta janella.—Similhança do poeta com a mulher namorada, e inquestionavel inferioridade do homem que não é poeta.—Os rouxinoes. Reminiscencia de Bernardim Ribeiro e das suas saudades.—De como o A. tinha quasi completo o seu romance, menos um vestido branco e uns olhos pretos.—Sahem verdes os olhos com grande admiração e pasmo seu.—Verificam-se as conjecturas sôbre a mysteriosa janella.—A menina dos rouxinoes.—Censura das damas muito para temer, crítica dos elegantes muito para rir.—Começa o primeiro episodio d'esta Odyssea.
Tracta-se do unico privilegio dos poetas que tambem os philosophos quizeram tirar, mas não lhes foi concedido; aos romancistas sim.—Exemplo de Aristoteles e Anacreonte.—O A., tendo declarado no capitulo nono d'esta obra que não era philosopho, agora confessa, quasi solemnemente, que é poeta, e pretende manter-se, como tal, em seu direito.—De como S. M. elrei de Dinamarca tinha menos juizo do que Yorick, seu bobo.—Doutrina d'este. Funda n'ella o A. o seu admiravel systema de physiologia e pathologia transcendente do coração. Por uma deducção appertada e cerrada da mais constrangente logica vem a dar-se no motivo porque foi concedido aos poetas o direito indefinido de andarem sempre namorados.—Applicam-se todas éstas grandes theorias á posição actual do A. no momento de entrar no episodio promettido no capitulo antecedente.—Modestia e reserva delicada o obrigam a duvidar da sua qualificação para o desimpenho: pede votos ás amaveis leitoras. Decide-se que a votação não seja nominal, e porquê.—Dido e a mana Annica.—Entra-se emfim na prometida historia.—De como a velha estava á porta a dobar, e imbaraçando-se-lhe a meada, chamou por Joaninha, sua neta.
Reconheço o queimar da chamma antiga,Agnosco veteris vestigia flammae;