CAPITULO XIII.

De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.—Que casta de rapariga era Joanninha.—Dá o A. insigne próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.—Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.—Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.—Os olhos verdes de Joanninha.—Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.—De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.—Quem era Frei Diniz.—'Aqui estou, minha avó: é a sua meada?.. eu lh'a indireito:'—disse Joanninha sahindo de dentro, e com os braços abertos para a velha. Apertou-a n'elles com innefavel ternura, beijou-amuitas vezes, e tomando-lhe o novello das mãos n'um instante desimbaraçou o fio e lh'o tornou a intregar.A velha surria com aquelle surriso satisfeito que exprime os tranquillos gosos de alma, e que parecia dizer: 'Como eu sou feliz ainda, apezar de velha e de cega! Bemdito sejais, meu Deus.'Ésta última phrase, ésta bençam de um coração agradecido, que spira suavemente para o ceo como sobe do altar o fummo do incenso consagrado, ésta última phrase trasbordou-lhe e sahiu articulada dos labios:—'Bemditto seja Deus' minha filha, minha Joanninha, minha querida neta! E Elle te abençoe tambem, filha!'—'Sabe que mais, minha avó? Basta de trabalhar hoje, são horas de merendar'.—'Pois merendemos'.Joannninha foi dentro da casa, trouxe uma banquinha redonda, cubriu-a com uma toalha alvissima,pôs em cima fructa, pão, queijo, vinho, chegou-a para aopé da velha, tirou-lhe o novello da mão, e arredou a dobadoira. A velha comeu alguns bagos de um cacho doirado que a neta lhe escolheu e pôs nas mãos, bebeu um trago de vinho, e ficou callada e quieta, mas ja sem a mesma expressão de felicidade e contentamento socegado que ainda agora lhe luzia no rosto.As animadas feições de Joanninha reflectiam sympathicamente a mesma alteração.Joanninha não era bella, talvez nem galante siquer no sentido popular e expressivo que a palavra tem em portuguez, mas era o typo da gentileza, o ideal da spiritualidade. N'aquelle rosto, n'aquelle corpo de dezeseis annos, havia por dom natural e por uma admiravel symetria de proporções toda a elegancia nobre, todo o desimbaraço modesto, toda a flexibilidade graciosa que a arte, o uso e a conversação da côrte e da mais escolhida companhia vêem a dar a algumas raras e privilegiadas creaturas no mundo.Mas n'esta foi a natureza que fez tudo, ou quasi tudo, e a educação nada ou quasi nada.Poucas mulheres são muito mais baixas, e ella parecia alta: tam delicada, tamelancéeera a fórma airosa de seu corpo.E não era o garbo teso e aprumado da perpendicularmissingleza que parece fundida de uma so peça; não, mas flexivel e ondulante como a hástea joven da árvore que é direita mas dobradiça, forte da vida de toda a seiva com que nasceu, e tenra que a estalla qualquer vento forte.Era branca, mas não d'esse branco importuno das loiras, nem do branco terso, duro, marmoreo das ruivas—sim d'aquella modesta alvura da cera que se illumina de um pallido reflexo de rosa de Bengalla.E d'outras rosas, d'estas rosas-rosas que denunciam toda a franqueza de um sangue que passa livre pelo coração e corre á sua vontade por artérias em que os nervos não dominam, d'essas não as havia n'aquelle rosto: rosto sereno como é sereno o mar em dia de calma, porque dorme o vento... Alli dormiam as paixões.Que se levante a mais ligeira brisa, basta o seu macio bafejo para increspar a superficie espelhada do mar.Sussurre o mais ingenuo e suave movimento d'alma no primeiro acordar das paixões, e verão como se sobresaltam os musculos agora tam quietos d'aquella face tranquilla.O nariz ligeiramente aquilino: a bôcca pequena e delgada não cortejava nem desdenhava o surriso, mas a sua expressão natural e habitual era uma gravidade singela que não tinha a menor aspereza nem doutorice.Ha umas certas boquinhas gravesinhas e espremidinhas pela doutorice que são a mais abhorrecidinha coisa e a mais pequinha que Deus permitte fazer ás suas creaturas femeas.Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em preto, cahiam de um lado e outro d Em perfeita harmonia de côr, de fórma e de tom com a fina gentileza d'estas feições, os cabellos de um castanho tam escuro que tocava em preto, cahiam de um lado e outro da face, em tres longos, deseguaes e mal inrolados canudos, cuja ondada spiral se ia relaxando e diminuindopara a extremidade, até lhe tocarem no collo quasi lisos.Em stylo de arte—no stylo da primeira e da mais bella das bellas artes, atoilete—este é um defeito; bem sei.Que votos, que novenas se não fazem a San'Barometro nas vésperas de um baile para lhe pedir uma atmosphera sêcca e benigna que deixe conservar, até á quarta contradança ao menos, a preciosa obra de carrapito e ferro quente, de macassar e mandolina que tanto trabalho e tanto tempo, tantos sustos e cuidados custou!Bem sei pois que é defeito, é, será... mas que adoravel defeito! Que deliciosas imagens que excita de abandôno—passe o gallicismo—de confiança, de absoluta e generosa renúncia a todo o caprixo, de perfeita e completa abdicação de toda a vontade propria!Em geral, as mulheres parecem ter no cabello a mesma fé que tinha Sansão: o que n'elle se ia em lh'os cortando, cuidam ellas que se lhes vai em lh'os desannellando? Talvez; e eu não estoulonge de o crer: canudo inflexivel, mulher inflexivel.Os peralvilhos negam a existencia do tal canudoin rerum natura, dizem que é como aave phenix que nasceu de nossos avós não saberem grego. Eu não digo tal, porque tenho visto descuidar-se a natureza em pasmosas monstruosidades.Emfim suspendâmos, sem o terminar, o exame d'esta profunda e interessante questão. Fica addiada para um capituload hoc, e voltemos á minha Joanninha.Cahiam d'um lado e de outro da sua face gentil aquelles graciosos anneis; e o resto do cabello, que era muito, ia intrançar-se, e inrolar-se com singela elegancia abaixo da coroa de uma cabeça pequena, estreita e do mais perfeito modêlo.As sobrancelhas, quasi pretas tambem, desenhavam-se n'uma curva de extrema pureza; a as pestanas longas e assedadas faziam sombra na alvura da face.Os olhos porêm—singular capricho da naturesa, que no meio de toda esta harmonia quiz lançar uma nota de admiravel discordancia! Como poderoso e ousadomaestroque, no meio das pbrases mais classicas e deduzidas da sua composição, atira derepente com um som agudo e stridulo que ninguem espera e que parece lançar a anarchia no meio do rythmo musical... os dillettantes arripiam-se, os professores benzem-se; mas aquelles cujos ouvidos lhes levam ao coração a musica, e não á cabeça, esses estremecem de admiração e enthusiasmo... Os olhos de Joanninha eram verdes... não d'aquelle verde descorado e traidor da raça felina, não d'aquelle verde mau e destingido que não é senão azul imperfeito, não; eram verdes-verdes, puros e brilhantes como esmeraldas do mais subido quilate.São os mais raros e os mais fascinantes olhos que ha.Eu, que professo a religião dos olhos pretos, que n'ella nasci e n'ella espero morrer... que alguma rara vez que me deixei inclinar para a heretica pravidade do ôlho azul, soffri o que émuito bem feito que soffra todo o renegado... eu firme e inabalavel, hoje mais que nunca, nos meus principios, sinceramente persuadido que fóra d'elles não ha salvação, eu confesso todavia que uma vez, uma unica vez que vi dos taes olhos verdes, fiquei halucinado, senti abalar-se pelos fundamentos o meu catholicismo, fugi escandalizado de mim mesmo, e fui retemperar a minha fé vacillante na contemplação das eternas verdades, que so e unicamente se incontram aonde está toda a fé e toda a crença... n'uns olhos sincera e lealmente pretos.Joanninha porêm tinha os olhos verdes; e o effeito d'esta rara feição n'aquella physionomia á primeira vista tam discordante—era em verdade pasmosa. Primeiro fascinava, halucinava, depois fazia uma sensação inexplicavel e indecisa que doía e dava prazer ao mesmo tempo: porfim pouco o pouco, estabelecia-se a corrente magnetica tam poderosa, tam carregada, tam incapaz de solução-de-continuidade, que toda a lembrança de outra coisa desapparecia, e toda a intelligencia e toda a vontade eram absorvidas.Resta so accrescentar—e fica o retrato completo, um simples vestido azul escuro, cinto e avental preto, e uns sapatinhos com as fitas traçadas em cothurno. O pé breve e estreito; o que se adivinhava da perna admiravel.Tal era a ideal e espiritualissima figura que em pé, incostada á banca onde acabava de comer a boa da velha, contemplava, n'aquelle rosto macerado e apagado, a indicivel expressão de tristeza que elle pouco a pouco ía tomando e que toda se reflectia, como disse, no semblante da contempladora.A velha suspirou profundamente, e fazendo como um esfôrço para se distrahir de pensamentos que a affligiam, buscou incertamente com as mãos o novêllo da sua meada:—'O meu novêllo, filha: não posso estar sem fazer nada, faz-me mal.'—'Conversemos, avó.'—'Pois conversemos; mas dá-me o meu novêllo. Não sei o que é, mas quando nãotrabalhoeu, trabalha não sei o que em mim que me cansa ainda mais. Bem dizem que a ociosidade é o peior lavor.'Joanninha deu-lhe o novêllo e pôs-lhe a dobadoira a geito.A velha sentiu o que quer que fosse na mão, levou-a á bôcca e pareceu beija-la, depois disse:—'Bem vi, Joanninha!'—'O quê, minha avó? que viu?'—'Vi, filha, vi.., sem ser com os olhos que Deus me cerrou para sempre—louvado seja Elle por tudo!—vi, sentindo, ésta lagryma tua que me cahiu na mão, e que ja ca está no peito por que a bebi, Joanna. Oh filha, ja! é muito cedo para começar, deixa isso para mim que estou costumada: mas tu, tu com deseseis annos e nenhum desgôsto!'—'Nenhum, avó! E estamos sosinhas nós duas n'este mundo, minha avó n'esse estado, eu n'esta edade, e...'—'E Deus no ceu para tomar conta em nós... Mas que é? olha, Joanna: eu sinto passos na estrada vê o que é.'—'Não vejo ninguem.'—'Mas oiço eu... Espera... é Fr. Diniz; conheço-lhe os passos.'Mal a velha acabava de pronunciar este nome, surdiu, de traz de umas oliveiras que ficam na volta da estrada, da banda de Santarem, a figura sêcca, alta e um tanto curvada de um religioso franciscano que abordoado em seu pau tosco, arrastando as suas sandalias amarellas e tremendo-lhe na cabeça o seu chapeo alvadio, vinha em direcção para ellas.Era Fr. Diniz comeffeito, o austero guardião de San'Francisco de Santarem.CAPITULO XIII.Dos frades em geral.—O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente.—Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o barão.—Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.—Do que seja o barão, sua classificação e descripção linneana.—Historia do castello do Chucherumello.—Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'—De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao frade.—De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.—Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões a gritar contos de reis.—Como se contam e como se pagam os taes contos.—Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os quero para nada, moral e socialmente fallando. Frades... frades... Eu não gósto de frades. Como nós os vimos ainda os d'este seculo, como nós os intendêmos hoje, não gósto d'elles, não os quero para nada, moral e socialmente fallando.No ponto de vista artistico porêm o frade faz muita falta.Nas cidades, aquellas figuras graves e sérias com os seus habitos tallares, quasi todos picturescos e alguns elegantes, atravessando as multidões de macacos e bonecas de casaquinha esguia e chapelinho de alcatruz que distinguem a peralvilha raça europea—cortavam a monotonia do ridiculo e davam physionomia á população.Nos campos o effeito era ainda muito maior: elles characterizavam a payzagem, poetisavam a situação mais prosaica de monte ou de valle; e tam necessarias tam obrigadas figuras eram em muitos d'esses quadros, que sem ellas o painel não é ja o mesmo.Alêm d'isso o convento no povoado e o mosteiro no êrmo animavam, amenizavam, davam alma e grandeza a tudo: elles protegiam as árvores, sanctificavam as fontes, enchiam a terra de poesia e de solemnidade.O que não sabem nem podem fazer os agiotas barões que os substituiram.É muito mais poetico o frade que o barão.O frade era, até certo ponto, o Dom Quixote da sociedade velha.O barão é, em quasi todos os pontos, o Sancho-Pansa da sociedade nova.Menos na graça...Porque o barão é o mais desgracioso e estupido animal da creação.Sem exceptuar a familia asinina que se illustra com individualidades tam distinctas como o Ruço do nosso amigo Sancho, o asno da Poncella de Orleans e outros.O barão (onagros-baroniusde Linn.,l'ânne-baronde Buf.) é uma variedade monstruosa ingendrada na burra de Balaham, pela parte essencialmente judaica e usuraria de sua natureza, em coito damnado com o urso Martinho do Jardim das Plantas[2], pela parte franchinotica e sordidamente revolucionaria de seu character.O barão é pois usurariamente revolucionario, e revolucionariamente usurario.Por isso ézebradode riscas monarchico-democraticas por todo o pêllo.Este é o barão verdadeiro e puro-sangue: o que não tem estes characteres é especie differente, de que aqui se não tracta.Ora, sem sahir dos barões e tornando aos frades, eu digo: que nem elles comprehenderam o nosso seculo nem nós os comprehendémos a elles..Por isso brigámos muito tempo, a final vencêmos nós, e mandámos os barões a expulsá-los da terra. No que fizemos uma sandice como nunca se fez outra. O barão mordeu no frade, devorou-o... e escouceou-nos a nós depois.Com que havemos nós agora de matar o barão?Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do Chucherumello'. Aqui está o Porque este mundo e a sua historia é a historia do 'castello do Chucherumello'. Aqui está o cão que mordeu no gato, que matou o rato,que roeu a corda etc. etc.: vai sempre assim seguindo.Mas o frade não nos comprehendeu a nós, por isso morreu, e nós não comprehendemos o frade, por isso fizemos os barões de que havemos de morrer.São a molestia d'este seculo; são elles, não os jesuitas, a cholera-morbus da sociedade actual, os barões. O nosso amigo Eugenio Sue errou de meio a meio no 'Judeu errante' que precisa refeito.Ora o frade foi quem errou primeiro em nos não comprehender, a nós, ao nosso seculo, ás nossas inspirações e aspirações: com o que falsificou a sua posição, isolou-se da vida social, fez da sua morte uma necessidade, uma coisa infallivel e sem remedio. Assustou-se com a liberdade que era sua amiga, mas que o havia de reformar, e uniu-se ao despotismo que o não amava senão relaxado e vicioso, porque de outro modo lhe não servia nem o servia.Nós tambem errámos em não intender o desculpavel êrro do frade, em lhe não dar outradirecção social; e evitar assim os barões, que é muito mais damninho bicho e mais roedor.Porque, desinganem-se, o mundo sempre assim foi e hade ser. Por mais bellas theorias que se façam, por mais perfeitas constituições com que se comece, ostatus in statuforma-se logo: ou com frades ou com barões ou com pedreiros livres se vai pouco a pouco organizando uma influencia distincta, quando não contraria, ás influencias manifestas e apparentes do grande corpo social. Esta é a opposição natural do Progresso, o qual tem a sua opposição como todas as coisas sublunares e superlunares; ésta corrige saudavelmente, ás vezes, e modera sua velocidade, outras, a impece com demazia e abuso: mas emfim é uma necessidade.Ora eu, que sou ministerial do Progresso, antes queria a opposição dos frades que a dos barões. O caso estava em a sabercontere approveitar.O Progresso e a liberdade perdeu, não ganhou.Quando me lembra tudo isto, quando vejo os conventos em ruinas, os egressos a pedir esmolae os barões de berlinda, tenho saudades dos frades—não dos frades que foram, mas dos frades que podiam ser.E sei que me não inganam poesias; que eu reajo fortemente com uma logica inflexivel contra as illusões poeticas em se tractando de coisas graves.E sei que me não namóro de paradoxos, nem sou d'estes espiritos de contradicção desinquieta que suspiram sempre pelo que foi, e nunca estão contentes com o que é.Não, senhor: o frade, que é patriota e liberal na Irlanda, na Polonia, no Brazil, podia e devia sê-lo entre nós; e nós ficavamos muito melhor do que estamos com meia duzia de clerigos de requiem para nos dizer missa; e com duas grozas de barões, não para a tal opposição salutar, mas para exercer toda a influencia moral e intellectual da sociedade—porque não ha de outra ca.E se não digam-me: onde estão as universidades, e o que faz essa que ha senão dar o seu grausito de bacharel em leis e em medicina? Oque escreve ella, o que discute, que príncipios tem, que doutrinas professa, quem sabe ou ouve d'ella senão algum echo timido e acanhado do que n'outra parte se faz ou diz?Onde estão as academias?Que palavra poderosa retine nos pulpitos?Onde está a fôrça da tribuna?Que poeta canta tam alto que o oiçam as pedras brutas e os robres duros d'esta selva materialista a que os utilitarios nos reduziram?Se exceptuarmos o debil clamor da imprensa liberal ja meio-esganada da policia, não se ouve no vasto silencio d'este ermo senão a voz dos barões gritando contos de réis.Dez contos de réis por um eleitor!Mais duzentos contos pelo tabaco!Três mil contos para a conversão de um amphigouri!Cinco mil contos para as estradas dosareonautas!Seis mil contos para isto, dez mil contos para aquillo!Não tardam o contar por centenas de milhares.Contar a elles não lhes custa nada.A quem custa é a quem paga para todos esses balões de papel—a terra e a indústria...Este capítulo deve ser considerado como introducção ao capítulo seguinte, em que entra em scena Fr. Diniz, o guardião do San' Francisco de Santarem.Ja me disseram que eu tinha o genio frade, que não podia fazer conto, drama, romance sem lhe metter o meu fradinho.O 'Camões' tem um frade, Frei José Indio;A 'Dona Branca' tres, Frei Soeiro, Frei Lopo e San'-Frei Gil—faz quatro;A 'Adozinda' tem um ermitão, especie de frade—cinco;'Gil-Vicente' tem outro—isto é, verdadeiramente não tem senão meio frade, que é André de Rezende, demais a mais, pessoa muda—cinco e meio;O 'Alfageme' tres quartos do frade, Froilão-Dias, chibato da ordem de Malta—seis frades e um quarto;Em 'Frei Luiz de Sousa' tudo são frades: vale bem n'esta computação, os seus tres, quatro, meia duzia de frades—são já dôze e quarto:Alguns, não eu, querem metter n'esta conta o 'Arco-de-Sanct'Anna', em que ha bem dous frades e um leigo:E aqui tenho eu ás costas nada menos de quinze frades e quarto.Com este Frei Diniz é um convento inteiro.Pois, senhores, não sei que lhes faça: a culpa não é minha. Desde mil cento e tantos que começou Portugal, até mil oitocentos trinta e tantos que uns dizem que elle se restaurou, outros que o levou a breca, não sei que se passasse ou podesse passar n'esta terra coisa alguma pública ou particular, em que frade não entrasse.Para evitar isto não ha senão usar da receita que vem formulada no capitulo V[3]d'esta obra.Faça-o quem gostar; eu não, que não quero nem sei.CAPITULO XIV.Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.—De como Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.—Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a historia vai ter.Este capitulo não tem divagações, nem reflexões, nem considerações de nenhuma especie, vai direito e sem se distrahir, pela sua historia adeante.Fr. Diniz chegava aopé das duas mulheres e disse:—'Louvado seja Nosso Senhor Jesus Christo!'Joanna adeantou-se algunspassosa beijar-lhe a manga. Elle accrescentou:—'A benção de Deus te cubra, filha, e a de nosso padre San'Francisco!'—'Benedicite, padre guardião:' disse a velha inclinando-se meia levantada da cadeira.—'Em nome do Senhor! amen'.—respondeu o frade aproximando-se, e chegando o braço a alcance de lh'o ella beijar:—'Ora aqui estou, minha irman; que me quer? E como vai isto por cá? Vamo-nos confortando, tendo paciencia, e soffrendo com os olhos no Senhor?'—'Ja os não tenho senão para elle, padre.'—'Ah, ah! irman Francisca, sempre esse pensamento, sempre essa queixa! Tenho-a reprehendido tanta vez e não se emenda.'—'Eu não me queixei, meu padre. Deus sabe que me não queixo... ao menos por mim.'—'Pois por quem?'—'Oh padre!'—'Irman Francisca, tenho medo de a intender. Eu não conheço as affeições da carne nem lido com os fracos pensamentos do mundo. Sou frade, minha irman, sou um que ja não é do número dos vivos, que vestiu ésta mortalha para não ser d'elles, que a vestiu n'um tempo em que a mofa e o desprêzo são o unico patrimonio do frade, em que o escarneo, a derisão, o insulto—o peior e o mais cruel de todos os martyrios—são a nossa unica esperança. Eu quiz ser frade, fiz-me frade, sabendo e vendo tudo isto, fiz-me frade no meio de tudo isto, já velho e experimentado no mundo, farto de o conhecer, e certo do que me espera—amim e á profissão que abraçei. Que quer de um homem que assim se resolveu a cortar por quanto prende a humanidade a ésta miseravel vida da terra, para não viver senão das esperanças da outra? Eu vesti este hábito para isso. O seu, irman, o seu para que o vestiu? É um divertimento, é um capricho, é uma comedia com Deus? Rasgue-o depressa, vista-se das galas do mundo, não apperte com a paciencia divina, trajando por fóra o sacco da penitencia e trazendo o coração pordentro desappertado de todo o cilicio e mortificação.'A velha com as mãos postas, a face alevantada e os apagados olhos para o ceo, offerecia a Deus todo o amargor d'aquella austeridade que não cuidava merecer nem lhe parecia intender. Joanninha, que insensivelmente se fôra approximando da avó, e a tinha como amparada portraz com um de seus braços, firmava a outra mão nas costas da cadeira e cravava fita no frade a vista penetrante e cheia de luz. A expressão do seu rosto era indefinivel: irisava-lh'o, distincta mas promiscuamente, um mixto inextricavel de enthusiasmo e desanimação, de fé e de incredulidade, de sympathia e de aversão.Disseras que n'aquelles olhos verdes e n'aquelle rosto mal córado estava o typo e o symbolo das vascillações do seculo.—'Padre!' tornou a velha com sincera humildade na voz e no gesto:—'se o mereci, castigae-me. Deus, que me vê e me ouve, bem sabe que o digo em toda a verdade do meu coração, e hade perdoar-me porque eu sou fraca e mulher.'—'Pois aos fracos não é que Elle disse:Toma a tua cruz e segue-me. Quem a obrigou a fazer os votos que fez?'—'É verdade, padre, é verdade: bem sei o que prometti, que me votei a Deus d'alma e corpo, que me não pertenço, que nem das minhas affeições posso dispor, mas...'—'Mas o quê? Irman Francisca, a Deus não se ingana. Os seus votos não foram feitos n'um mosteiro, nem proferidos n'um altar no meio das solemnidades da egreja. Mas ja lh'o tenho ditto, no fôro da consciencia, na presença de Deus, ligam-n'a tanto ou mais do que se o fossem.Abjure-os se quizer; nenhuma lei, nenhuma fôrça humana a constrange. Diga-m'o por uma vez, desingane-me, e eu não torno aqui.'—'Oh, por compaixão, padre! pelas chagas de Christo! Mas uma pergunta so, uma so, e eu prometto não pensar, não fallar mais em... Onde está elle?'—'Joanna, retire-se.'Joanninha appertou a avó com ambos os braços; e sem dizer uma palavra, sem fazer um so gesto, lentamente e silenciosamente se retirou para dentro de casa.—'E ésta, padre?' disse a velha sem esperar a resposta á primeira pergunta que com tanta ancia fizera—'e ésta, tambem d'ella me heide separar, tambem heide renunciar a ella?'—'Esta é uma innocente, e emquanto o for'...—'Em quanto o for! A minha Joanna é um anjo.'—'Blasphemia, blasphemia! E o Senhor a não castigue por ella. Joanna é boa e temente a Deus: esperemos que Elle a conserve da sua mão. O outro...'—'Que é feito d'elle padre? Oh! diga-m'o, e eu prometto...'—'Não prometta senão o que póde cumprir. Seu neto está com esses desgraçados que vieram das ilhas, é dos que desimbarcaram no Porto...'—'Oh filho da minha alma! que não tórno a abraçar-te...'—'Não decerto; vencedores ou vencidos, toda a communhão, toda a possibilidade de união acabou entre nós e estes homens. Nós temos obrigação de os destruir, elles o seu unico desejo é exterminar-nos.'—'Meu Deus meu Deus! pois a isto somos chegados! Pois ja não ha misericordia no ceo nem na terra!'—'A misericordia de Deus cansou-se; a daterra não sei onde está nem onde esteve nunca. Os fracos dão sacrilegamente esse nome á sua relaxação.'—'Pois é relaxação desejar a paz, querer a união, supplicar a indulgencia? Não nos manda Deus perdoar as nossas dividas, amar os nossos inimigos?'—'Os nossos sim, os d'Elle não.'—'Tende compaixão de mim, Senhor!'—'Se as suas afflicções são as da carne e do sangue, se são pensamentos da terra como desgraçadamente vejo que são, mulher fraca e de pouco ânimo, console-se, que para mim é claro e seguro que estes homens hãode vencer.'—'Quaes homens?'—'Esses inimigos do altar e da verdade, esses homens desvairados pelas speciosas doutrinas do seculo. Esperam muito, promettem muito, estão em todo o vigor das suas illusões. E nós, nós carregâmos com o desingano de muitos seculos,com os peccados de trinta gerações que passaram, e com a inaudita corrupção da presente... nós havemos de succumbir. Os templos hãode ser destruidos, os seus ministros proscriptos, o nome de Deus blasphemado á vontade n'esta terra malditta.'—'Pois tam perdidos, tam abandonados da mão de Deus são elles todos... todos?'—'Todos. E que cuida, irman? que são melhores os nossos, esses que se dizem nossos? que ha mais fé na sua crença, mais verdade em sua religião? Oh sancto Deus!'—'Faz-me tremer, padre!'—'E para tremer é. A impiedade e a cubiça entraram em todos os corações.Duvidaré o unico princípio,inriquecero unico objecto de toda essa gente. Liberaes e realistas, nenhum tem fé: os liberaes ainda teem esperança; não lhe hade durar muito. Deixem-n'os vencer e verão.'—'E hãode vencer elles?'—'Decerto.'—'Ninguem mais diz isso.'—'Digo-o eu.'—'Tantos mil soldados que o govêrno tem por si!'—'E tantos milhões de peccados contra. Não póde ser, não póde ser: a misericordia divina está exhausta, e o dia desejado dos impios vem a chegar. A sua missão é facil e prompta; não sabem, não podem senão destruir. Edificar não é para elles, não teem com quê, não creem em nada. O symbolo christão não é so uma verdade religiosa é um princípio eterno e universal.Fe, esperança e charidade. Sem crer, sem esperar...'—'E sem amar!'—'Mulher, mulher! o amor é a última virtude...'—'Mas por ella, por ella se chega ás outras.'—'Não, mulher fraca, não. E de uma vezpara sempre, irman Francisca, desinganemo'-nos. Entre mim, entre o Deus que eu sirvo, não ha transacção com os seus inimigos. Indulgencia n'esse ponto não sei o que é. Vejo a sorte que me espera n'este mundo, e não tremo deante d'ella. Quem teme, siga outro caminho; eu nunca.'—'Padre eu não temo nem receio por mim. Sou fraca e mulher, e em toda a tribulação e desgraça heide glorificar o meu Deus e dar testimunho da minha fé. Mas... mas o meu neto é o meu sangue, a minha vida, é o filho querido da minha unica e tam amada filha, elle não conheceu outra mãe senão a mim, quero-lhe por elle e por ella. Abandoná-lo não posso, tirar d'elle o pensamento não sei. A vontade de Deus...'—'A vontade de Deus é que o justo se aparte do impio, é que os cordeiros da benção vão para um lado, e os cabritos da maldicção para outro. Esse rapaz... oh! minha irman, eu não sou de pedra, não, não sou, e tambem o coração se me parte de o dizer... mas esse rapaz é malditto, e entre nós e elle está o abysmo todo do inferno.'—'Misericordia, meu Deus!'Pallido, infiado, mais descorado e mais amarello do que era sempre aquelle rosto, Fr. Diniz pronunciou, tremendo mas com fôrça, as suas últimas e terriveis palavras. Os olhos, habitualmente sumidos e cavos, recuaram-lhe ainda mais para dentro das orbitas descarnadas; o bordão tremia-lhe na esquerda; e a direita suspensa no ar parecia intimar ao culpado a terrivel imprecação que lhe sahia dos labios.—'Malditto! malditto sejas tu!' proseguiu o frade, 'filho ingrato, coração derrancado e perverso!'—'Meu Deus, não o escuteis!' bradou a velha cahindo de joelhos no chão e prostrando-se na terra dura 'Meu Deus, não confirmeis aquellas palavras tremendas. Não o ouçais, Senhor, e valha o sangue precioso de vosso filho, as dores bemdittas de sua mãe, oh meu Deus! para arredar da cabeça do meu pobre filho as crueis palavras d'este homem sem piedade, sem amor!..'A velha queria dizer mais; as angústias que se tinham estado juntando n'aquella alma, que porfim não podia mais e transbordava, queriamsahir todas, queriam derramar-se alli em lagrymas e soluços na presença do seu Deus que ella via sempre no throno das misericordias, que não podia acabar comsigo que o visse o inflexivel, o terrivel Deus das vinganças que lhe annunciava o frade. Mas a carne não pôde com o espirito, as fôrças do corpo cederam: tomou-a um mortal deliquio, immudeceu, e... suspendeu-se-lhe a vida.Fr. Diniz contemplou-a alguns momentos n'esse estado e pareceu commover-se; mas aquelles nervos eram fios de ferro temperado que não vibravam a nenhuma suave percussão: deu dous passos para a porta da casa, bateu com o bordão e disse com voz firme e segura:—'Joanna, acuda a sua avó que não está boa.'D'ahi tomou por onde viera, e, sem voltar uma vez a cabeça, caminhou ápressado; breve se escondeu para lá das oliveiras da estrada.CAPITULO XV.

De como Joanninha desimbaraçou a meada da avó, e do mais que aconteceu.—Que casta de rapariga era Joanninha.—Dá o A. insigne próva de ingenuidade e boa fe confessando um grave senão do seu Ideal. Insiste porém que é um adoravel deffeito.—Em que se parece uma mulher desannellada com um Sansão tosquiado.—Pasmosas monstruosidades da natureza que desmentem o credo velho dos peralvilhos.—Os olhos verdes de Joanninha.—Religião dos olhos pretos strenuamente professada pelo A. Perigo em que ella se acha á vista de uns olhos verdes.—De como estando a avó e a neta a conversar muito de mano a mano, chega Frei Diniz e se interrompe a conversação.—Quem era Frei Diniz.

Dos frades em geral.—O frade moralmente considerado, socialmente e artisticamente.—Próva-se que é muito mais poetico o frade do que o barão.—Outra vez D. Quixote e Sancho-Pansa.—Do que seja o barão, sua classificação e descripção linneana.—Historia do castello do Chucherumello.—Erro palmar de Eugenio Sue: mostra-se que os jesuitas não são a cholera-morbus, e que é preciso refazer o 'Judeu errante'—De como o frade não intendeu o nosso seculo nem o nosso seculo ao frade.—De como o barão ficou em logar do frade, e do muito que n'isso perdémos.—Unica voz que se ouve no actual deserto da sociedade: os barões a gritar contos de reis.—Como se contam e como se pagam os taes contos.—Predilecção artistica do A. pelo frade: confessa-se e explica-se ésta predilecção.

Emendado emfim de suas distracções e divagações, prosegue o A. direitamente com a historia promettida.—De como Fr. Diniz deu a manga a beijar á avó e á neta, e do mais que entre elles se passou.—Ralha o frade com a velha, e começa a descobrir-se onde a historia vai ter.


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