Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.—Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.—Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.—Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.—Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.—Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.Quem era Frei Diniz?Disse-o elle:—um homem que se fizera frade, ja velho e cançado do mundo, que vestíra o hábito n'um tempo em que a mofa, o escarneo eo desprêzo seguiam aquella profissão; que o sabía, que o conhecia e que por isso mesmo o affrontára.D'estes raros e fortes characteres apparecem sempre na agonia das grandes instituições para que nenhuma pereça sem protesto, paraque de nenhum pensamento duravel e consagrado pelo tempo se possa dizer que lhe faltou quem o honrasse na hora derradeira por uma devoção nobre, gloriosa e digna do alto espirito do homem:—que o homem é uma grande e sublime creatura por mais que digam philosophos.Tal era Fr. Diniz, homem de principios austeros, de crenças rigidas, e de uma logica inflexivel e teimosa: logica porêm que regeitava toda a anályse, e que forte nas grandes verdades intellectuaes e moraes em que fixára o seu espirito, descia d'ellas com o tremendo pêso de uma synthese asperrima e oppressora que esmagava todo o argumento, destruía todo o raciocinio que se lhe punha de deante.Condillac chamou á synthese methodo de trevas: Fr. Diniz ria-se de Condillac... e eu parece-me que tenho vontade de fazer o mesmo.O despotismo, detestava-o como nenhum liberal é capaz de o abhorrecer; mas as theorias philosophicas dos liberaes, escarnecia-as como absurdas, regeitava-as como perversoras de toda a idea san, de todo o sentimento justo, de toda a bondade praticavel. Para o homem em qualquer estado, para a sociedade em qualquer fórma não havia mais leis que as do decalogo, nem se precisavam mais constituições que o Evangelho: dizia elle. Reforçá-las é superfluo, melhorá-las impossivel, desviar d'ellas monstruoso. Desde o mais alto da perfeição evangelica, que é o estado monastico, ha regras para todos alli; e não falta senão observá-las.Não sei se ésta doutrina não tem o quer que seja de um certo sabor independente e livre, se não cheira o seu tanto á confiança heretica dos reformistas evangelicos. O que sei é que Fr. Diniz a professava de boafé, que era catholico sincero, e frade no coração.Segundo os seus principios, podêr de homem sôbre homem, era usurpação sempre e de qualquer modo que fosse constituido. Todo o podêr estava em Deus—que o delegava ao paesôbre o filho, d'ahi ao chefe da familia sôbre a familia, d'ahi a um d'esses sôbre todo o Estado; mas para o reger segundo o Evangelho e em toda a austeridade republicana dos primitivos principios christãos.Assim fôra ungido Saul, e n'elle todos os reis da terra—sem o quê, não eram reis.Tudo o mais, anarchia, usurpação, tyrannia, peccado—absurdo insustentavel e impossivel.E sôbre isto tambem não disputava, que não concebia como: era dogma.Nas applicações sim questionava, ou antes, arguía, com sua logica de ferro. As antigas leis, os antigos usos, os antigos homens, não os poupava mais do que aos novos. A tyrannia dos reis, a cubiça e a suberba dos grandes, a corrupção e a ignorancia dos sacerdotes, nunca houve tribuno popular que as açoitasse mais sem dó nem caridade.O princípio porêm da monarchia antiga, defendia-o, ja se ve, por verdadeiro, embora fossemmentirosos e hypocritas os que o invocavam.Quanto ás doutrinas constitucionaes, não as intendia, e protestava que os seus mais zelosos apostolos as não intendiam tam pouco: não tinham senso-commum, eram abstracções d'eschola.Agora, do frade é que me eu queria rir... mas não sei como.O chamado liberalismo, esse intendia elle. 'Reduz-se' dizia 'a duas cousas,duvidar e destruirpor principio,adquirir e inriquecerpor fim: é uma seita toda material em que a carne domina e o espirito serve; tem muita fôrça para o mal; bem verdadeiro, real e perduravel, não o póde fazer. Curar com uma revolução liberal um paiz estragado, como são todos os da Europa, é sangrar um tysico: a falta de sangue diminue as ancias do pulmão por algum tempo, mas as fôrças vão-se, e a morte é mais certa.'Dos grandes e eternos principios da Egualdade e da Liberdade dizia: 'Em elles os practicando devéras, os liberaes, faço-me eu liberaltambem. Mas não ha perigo: se os não intendem! Para intender a liberdade é preciso crer em Deus, para acreditar na egualdade é preciso ter o Evangelho no coração.'As instituições monasticas eram, no seu intender e no seu systema, condicção essencial de existencia para a sociedade civil—para uma sociedade normal. Não paliava os abusos dos conventos, não cubria os defeitos dos monges, accusava mais severamente que ninguem a sua relaxação; mas sustentava que, removido aquelle typo da perfeição evangelica, toda a vida christan ficava sem norma, toda a harmonia se destruía, e a sociedade ia, mais depressa e mais sem remedio, precipitar-se no golpham do materialismo estupido e brutal em que todos os vinculos sociaes apodreciam e cahiam, e em que mais e mais se isolava e estreitava o individualismo egoista—última phase da civilização exaggerada que vai tocar no outro extrêmo da vida selvagem.Taes eram os principios d'este homem extraordinario que junctava a uma erudição immensa o profundo conhecimento dos homens e do mundo em que tinha vivido até a edade de cinquenta annos.Como e porque deixára elle o mundo? Como e porquê, um espirito tam activo e superior se occupava apenas do obscuro incargo de guardião do seu convento—cargo que acceitára por obediencia—e quasi que limitava as suas relações fóra do claustro áquella casa do valle onde não havia senão aquella velha e aquella criança?Apezar de sua rigidez ascetica, prendia esse espirito por alguma coisa a este mundo? Aquelle coração macerado do cilicio dos pensamentos austeros e terriveis do eterno futuro, consummido na abstinencia de todo o gôso, detodo o desejo no presente, teria acaso viva ainda bastante alguma fibra que vibrasse com recordações, com saudades, com remorsos do passado?No seu convento elle não tinha senão uma cella nua com um cruxifixo por todo adôrno, um breviario por unico livro. N'aquella so familia que conversava, havia, ja o disse, a velha cega e decrepita, Joanninha com quem apenas fallava, e um ausente, um rapaz de quem ha dous annos quasi que se não sabia. Em intrigas politicas, em negocios ecclesiasticos, em coisa mais nenhuma d'este mundo não tinha parte. De quevivia pois este homem—homem que certo não era d'aquelles que vivem so de pão?E este era dos poucos textos latinos que elle repettia, este o thema predilecto dos raros sermões que prégava:Non in solo pane vivit homo, Nem so de pão vive o homem.Vivia então de alguma outra coisa este homem; e a meditação e a oração não lhe bastavam, porque elle sahia do seu convento e não ia prégar nem rezar... todas as sextas feiras era certo na casa do valle á mesma hora, do mesmo modo...Alli estava pois alguma parto da vida do frade que de todo se não desprendêra da terra, e que, por mais que elle diga, lhe faltavacastrarainda por amor do ceo.É que meio seculo de viver no mundo deixa muita raiz que não morre assim. E talvez é uma so a raiz, mas funda, e rija de fevra e de seiva, que as folhas morrem, os ramos seccam, o tronco apodrece, e ella teima a viver.Saibamos alguma coisa d'essa vida.CAPITULO XVI.Saibâmos da vida do frade.—Era franciscano porquê?—Dos antigos e dos novos martyres.—Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.—Emigração.—Explicação incompleta.—De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.—Sexta feira dia aziago.Saibamos alguma coisa da vida do frade, da sua vida no seculo, porque a do claustro era nua e nulla, monotona e singela como a temos visto.Chamava-se elle no seculo Diniz de Atahide, e seguira a carreira das armas primeiro, depois a das lettras. Com distincção, e quasi com paixão, tomára parte na campanha da Peninsula e a fizera quasi toda; mas desgostoso do serviço ou despreoccupado da glória militar, entrou na magistratura para que estava habilitado, e em 1825, do logar de corregedor do Ribatejo, em que ja fôra reconduzido, devia passar á casa do Porto.Foi a Lisboa receber o seu despacho, beijou a mão a elrei, e d'ahi tomou um dia o caminho de Santarem, chegou áquella villa, deixou criados e cavallos na estalagem, e foi tocar á campa da portaria de San'Francisco.Os criados esperaram em vão muitos dias: elle não voltou.Desappareceu do mundo Diniz de Atahide, e d'alli a dous annos appareceu Fr. Diniz da Cruz, o frade mais austero e o prégador mais eloquente d'aquelle tempo. Raro prégava, e so de doutrina; mas era uma torrente de vehemencia, uma uncção, uma fôrça!..Dos institutos monasticos, ja então bem decahidos todos de esplendor e reputação, a ordem de San'Francisco era talvez a que mais descêra no conceito público. Quanto mais austera é a regra, tanto mais se nota qualquer relaxação nos que a professam: a dos franciscanos tinha-se feito proverbial e popular. Elles eram tantos por toda a parte, e tam conversantes com todas as classes; familiarizára-se por tal modo o povo com o aspecto d'aquellas mortalhas negras—aspecto ja não severo, e apenas deixou de o ser... ridículo—e ellas appareciam em taes logares, a taes horas, por tal modo... que todo o respeito, toda a estima, toda a consideração se lhe perdera. Escriptores, ja os não tinham, prégadores poucos e sem reputação, era em todo o sentido a religião mais humilhada na geral decadencia das ordens.Fr. Diniz procurou-a por isso mesmo. Queria ser frade, o frade desprezado e apupado do seculo dezenove.Em certos animos é preciso muito mais valor e enthusiasmo para affrontar este martyrio, do que fôra nos antigos tempos para ir ao incôntrodas nobres perseguições do sangue e do fogo.Luctava-se com honra então, cahia-se com glória, vencia-se muitas vezos morrendo...Agora é soffrer so.O mundo applaudia aquelles grandes sacrificios, e assistia com interêsse, com admiração, com espanto áquelles combates gigantescos. E o tyranno tremia diante da sua victima... quando lhe não cahia aos pés vencido, convertido e penitente...Hoje o povo passa e ri, os reis cuidam de outra coisa, e a mesma Egreja não sabe que tem martyres.'Pois tem-n'os' dizia Fr. Diniz 'e precisa mais d'elles para se regenerar, do que ja precisou para fundar-se.'Eis aqui porque Diniz d'Atahide não quiz ser bento, nem jeronymo, nem cartucho, e se foiDe todos os seus bens, que eram consideraveis, tirou apenas a modica somma de dinheiro que era necessaria para pagar o dote e piso de sua entrada no convento. Do resto fez doação inteira a D. Francisca Joanna—a velha hoje cega e decrepita que no princípio d'esta historia incontrámos dobando á sua porta na casa do valle.A velha não tinha mais familia que um neto e uma neta.A neta era Joanninha, filha unica de seu unico filho varão, e ja orphan de pae e de mãe.O neto, orpham tambem, nascêra posthumo, e custára a vida a sua mãe, filha querida e predilecta da velha.Antes da splendida doação de Fr. Diniz, a familia, que era de boa e honrada descendencia, podia dizer-se pobre; depois viviam remediadamente. Mas a velha não quiz nunca sahir do modesto estado em que atélli vivêra. Tinham fartura de pão, azeite e vinho de suas lavras; corria-lhe com ellas um criado velho de confiança;trajavam e tractavam-se como gente mean, mas independente.Em tempos mais antigos e em vida dos dous filhos de D. Francisca, Fr. Diniz, então Diniz d'Atahide e corregedor da commarca, frequentára bastante aquella casa. Desde a morte do filho e do genro, que ambos pereceram desastradamente n'um dia cruzando o Tejo n'um saveiro em occasião de grande cheia, elle nunca mais lá tornára.Até que se metteu frade, e que passaram annos e que o fizeram guardião do seu convento.Ja a nora e a filha da velha tinham morrido tambem.E foi notavel que na mesma hora em que Fr. Diniz professava em San'Francisco de Santarem, vestia D. Francisca aquella tunica roxa que nunca mais largou.Mas um dia, chegou Fr. Diniz á porta da casa do valle e disse:—'Deus seja n'esta casa!'A velha estremeceu, mas tornou logo a si, fez sahir as crianças que brincavam aopé d'ella, fechou-se com o frade, e fallaram baixo um dia inteiro. Rezaram e choraram, que tudo se ouviu; mas o que disseram e conversaram nunca se soube.O frade foi-se ao anoitecer, a velha ficou rezando e chorando, e rezou e chorou toda a noite.Isto fôra n'uma sexta-feira; d'ahi por deante em todas as sexta-feiras de cada semana, Fr. Diniz vinha passar algumas horas com a velha.Não era seu confessor, mas dirigia-a como se o fosse, em tudo e por tudo, menos no que respeitava a Joanninha.Havia no frade uma affectação visivel, um systema premeditado e inalteravel de se abster completamente de tudo o que podesse intervir, por mais remotamente que fosse, com aquella interessante criança.Joanninha não lhe tinha medo, mas o respeito que lhe elle inspirava era misturado de uma aversão instinctiva, que, por contradicção inaudita e inexplicavel, a deixava sympathizar com tudo quanto elle dizia e professava: doutrinas, opiniões, sentimentos, tudo lhe agradava no frade, menos a pessoa.Não assim Carlos, o primo, o companheiro, o unico amigo da nossa Joanninha, o outro neto da velha por sua filha. Andava elle ja no último anno de Coimbra e ia formar-se em leis, quando Fr. Diniz da Cruz começou de novo a frequentar a casa que Diniz de Atahide tinha abandonado.Sôbre esse a inspecção do frade era minuciosa, vigilante, inquieta. Os livros que elle lia, os amigos com quem vivia, as ideas que abraçava, as inclinações para que pendia—de tudo se occupava Fr. Diniz, tudo lhe dava cuidado. A elle directamente pouco lhe dizia, mas com a avó tinha longas conferencias a esse respeito.Ultimamente parecia satisfazer-se com o geito que o mancebo indicava tomar.—'É temente a Deus, não tem o ânimo cubiçoso nem servil, não é hypocrita, o mania do liberalismo não o mordeu ainda... hade ser um homem de prestimo:' dizia o frade a D. Francisca com verdadeira satisfacção e interêsse.Passára porêm de seu meio omemoravelanno de 1830, e Carlos, que se formára no princípio d'aquelle verão, tinha ficado por Coimbra e por Lisboa, e so por fins d'agosto voltára para a sua familia. E veio triste, melancholico, pensativo, inteiramente outro do que sempre fôra, porque era de genio alegre e naturalmente amigo de folgar, o mancebo.O dia em que elle chegou era uma sexta-feira, dia de Fr. Diniz vir ao valle.Passaram as primeiras saudações e abraços, ficaram sos os dous, e:—'Não gósto de te ver:' disse o frade.—'Pois quê? que tenho eu?'—'Tens que vens outro do que foste, Carlos.'—'Outro venho, é verdade; mas não se infadem de me ver, que o infado hade durar pouco.'—'Que queres tu dizer?'—'Que estou resolvido a emigrar.'—'A emigrar, tu!... Porquê, paraquê? Que loucura é essa?'—'Nunca estive tanto em meu juizo.'—'Carlos, Carlos! nem mais uma palavra a similhante respeito. Em que más companhias andaste tu, que maus livros lêste, tu que eras um rapaz?.. Carlos, prohibo-te de pensar n'esses desvarios.'—'Prohibe-me... a mim... de pensar!... Ora, senhor...'—'Prohibo de pensar, sim. Le no teu Horacio se estás cançado das pandectas. Vai para a eira com o teu Virgilio... ou passeia, caça, monta a cavallo, faze o que quizeres, mas não penses. Ca estou eu para pensar por ti.'—'Porquê? eu heide ser sempre criança? a minha vida hade ser ésta? Horacio! tenho bom ânimo para ler Horacio agora... e a bella occupação para um homem de vinteeum annos, scandar jambos e trocheus.'—'Pois le na tua biblia, que é poesia medida n'alma e que repasce o espirito e o coração.'—'Eu não quero ser frade: sabe?'—'Nem te eu quero para frade.'—'Graças a Deus! Cuidei que... Mas em fim no seculo em que estamos...'—'O seculo em que estamos é o da presumpção e o da immoralidade: e eu quero-te livrar de uma e de outra, Carlos. Tua avó sabe as minhas tenções a teu respeito, approva-as...'—'Minha avó... approva muita coisa que eu reprovo.'—'Como assim, Carlos! que queres tu dizer?'—'Isto mesmo, senhor;—e que ámanhan que vou para Lisboa, imbarcar para Inglaterra.'—'Carlos!'—'É uma resolução meditada e inalteravel. Não quero nada com ésta terra nem com ésta...'—'Com ésta o quê, Carlos?..'—'Pois quer ouvi-lo, digo-lh'o: com ésta casa.'O frade suffocava, e balbuciou entre cholerico e aterrado:—'Dir-me-has porquê?..'—'Porque me abhorrece e me humilha este mando de um extranho aqui... porque sempre desconfiei, porque sei emfim...'—'Sabes o quê?'—'Sei, padre Fr. Diniz, mas não me pergunte o que eu sei.'Amarello, roxo, pallido, negro, o frade tremia; sumiram-se-lhe mais os olhos e faiscavam lá de dentro como duas brazas; fez um esfôrço sôbre si mesmo para fallar, e disse com uma voz cava e cavernosa como de sepulchro:—'Pois pergunto, sim; e permitta Deus!..'—'Padre, não jure nem pragueje' interrompeu Carlos com firmeza e serenidade 'as suas intenções serão boas talvez... creio que são boas, filhas de um remorso salutar...'—'Que dizes tu, Carlos... que disseste?.. Oh, meu Deus!'As scenas tinham mudado: Fr. Diniz parecia o pupillo, a sua voz tinha o som da súpplica, ja não tremia de íra mas de anciedade; Carlos, pelo contrario, fallava no tom austero e grave de um homem que está forte na sua razão e que é generoso com a sua offensa. As palavras do mancebo eram agras, via-se que elle o sentia e que procurava adoçá-las na inflexão, que lhes dava.—'O que eu digo, padre Fr. Diniz, o queeu sou obrigado a dizer-lhe é isto. Minha avó consentiu, por fraqueza de mulher, no que eu não posso nem devo consentir. O que ha n'ésta casa não é... não é meu; o pão que aqui se come... é comprado por um preço... Padre! ja ve que não podêmos fallar mais n'este assumpto. Eu parto ámanhan para Lisboa.—Minha avó!' acrescentou Carlos, mudando de voz e chamando para dentro 'minha avó!'A velha acudiu, elle disse-lhe a sua tenção, motivou-a em opiniões politicas, declamou contra D. Miguel, mostrou-se enthusiasta da causa liberal, e protestou que, n'aquelle anno, de tal modo se tinha pronunciado em Coimbra e ainda em Lisboa, que só uma prompta fuga o podia salvar...'A velha chorou, pediu, rogou... inutilmente, em vão.Fr. Diniz assistiu a tudo isto sem dizer palavra.E aquella tarde voltou mais cedo para o convento.No outro dia de manhan muito cedo, abraçado com a avó e com a priminha que se desfaziam em lagrymas, Carlos dizia o último adeus áquella querida casa, áquelle amado valle em que fôra criado... N'essa noite estava em Lisboa, d'ahi a poucos dias em Inglaterra, e d'ahi a alguns meses na ilha Terceira.Na sexta-feira depois da partida de Carlos, Fr. Diniz veio ao valle e teve larga conferencia com a avó.Os tres dias seguintes a velha levou fechada no seu quarto a chorar... no fim do terceiro dia estava cega.Joanninha era uma criança a esse tempo, parecia não intender nada do que se passava. Mas quem a observasse com attenção, veria que ella dobrou de carinho e de amor para com a avó, e que se não tornou a rir para o frade...Elle, o frade, invelheceu de dez annos n'aquelle dia. Os olhos sumidos, que era a feição dominante n'aquelle rosto ascetico, sumiram-se mais e mais; a estatura alta e erecta curvou-se-lhe;o tremor nervoso, que o tomava por accessos, tornou-se-lhe habitual; os tendões enrijaram-lhe, os musculos da cara descarnaram-se, e a pelle ja sulcada de fundos cuidados, arrugou-se e franziu-se toda em rugas cruzadas e confusas como que se lh'a torrassem n'uma grelha.Nunca mais houve um dia de alegria no valle. A sexta-feira porêm era o dia fatal e aziago. Fr. Diniz ja não vinha senão no fim da tarde e demorava-se pouco; mas tanto bastava. Suspirava-se por aquella hora e tremia-se d'ella. As notícias que consolavam, e os terrores que matavam, o frade é que os trazia. O resto da semana levava-se a chorar e a esperar.E assim se tinham passado dous annos até á sexta-feira em que primeiro vimos junctas á porta da casa aquellas tres criaturas; assim se passou até d'ahi a oito dias que a nossa historia volta a incontrá-los.CAPITULO XVII.De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda de Lisboa.—Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente pára e quebra derepente.—Nova demonstração de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as verdades.—No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia.Passaram-se aquelles oito dias no valle, não ja como se tinham passado tantas outras semanas em vagas tristezas, em desconsolação e desconfôrto, mas em positiva anciedade e agudaafflicção pela certeza que trouxera o frade de se achar Carlos no Porto fazendo parte do pequeno exército do D. Pedro.Incertos rumores, d'aquelles que percorrem um paiz em tempos similhantes e que augmentam e exaggeram, confundem todos os successos tinham chegado até ás pacificas solidões do valle com as notícias de combates sanguinarios, de commoções violentas, de desacatos sacrilegos, de vinganças e reprezalias atrozes tomadas pelos aggressores, retribuídas pelos que se defendiam.Chegou a sexta-feira; e as horas d'esse dia, sempre desejado e sempre temido, foram contadas minuto a minuto—a qual mais longo, a qual mais pezado e lento de volver, quanto mais se approximava o derradeiro.O sol declinava ja... e Fr. Diniz sem apparecer!No seu poiso ordinario aopé da porta da casa, Joanninha com os olhos extendidos, a velha com os ouvidos álerta, devoravam o espaço na direcção de nascente, esperando a cada momento, temendoa cada instante ver apparecer o conhecido vulto, ouvir o som familiar dos passos do frade.E tam intentas, tam absortas estavam ainda n'este cuidado, que não deram fe d'um religioso que pelo lado opposto, isto é, da banda de Lisboa, para alli se incaminhava a passos arrastados mas presurosos.Chegou rente d'ellas sem o sentirem; e uma voz conhecida, porêm mais cava e funda do que nunca a ouviram, pronunciou a fórmula de saudação costumada:—'Deus seja n'esta casa!'—'Amen!' responderam ambas machinalmente, com um estremeção involuntario; e voltando derepente a cara para o lado d'onde vinha a voz.—'Jesus!' disse depois a velha tornando a si, 'Padre Fr. Diniz, de d'onde vem tam tarde?'—'Chego de Lisboa.'—'De Lisboa? Deus lh'o pague!... Foi saber?..'—'Fui, fui saber novas d'esta horrivel guerra, d'esta tremenda visitação do Senhor á condemnada terra de Portugal...'—'E então, diga'...—'Boas novas, boas novas trago!'—'Sente-se, padre, sente-se. Joanninha, chega uma cadeira: descanse.'—'Não é tempo de descansar este, mas de vigiar e de orar.'—'Pois que succedeu, padre? Não me tenha n'esta horrivel suspensão. Diga: onde está elle? Alguma desgraça grande lhe aconteceu, oh meu Deus!..—'E que me importa a mim o que aconteceu ou podia acontecer a mais um de tantos perdidos? Encherá a sua medida, irá após dosoutros... caminha nas trevas com elles, e como elles, so hade parar no abysmo.'A éstas derradeiras palavras do frade asperamente pronunciadas e em tom de indifferença e desprêzo, seguiu-se aquelle silencio comprimido, aquella pausa de toda a conversação grave e íntima em que os pensamentos são tantos que se atropellam e não acham sahida na voz.Fr. Diniz mentia... na dureza d'aquellas expressões mentia ao seu coração—não mentia ao seu espirito. Como o caustico se applica á epiderme para deslocar a inflammação interior, elle roçava o peito com as asperidões de sua doutrina e de seus principios rigidos para amortecer dentro a viva dor d'alma que o consummia.O frade estava por fóra, o homem por dentro.O observador vulgar não via senão o burel e a corda que amortalhavam e cadaver. O que attentasse bem n'aquelles olhos, o que reparasse bem nas inflexões d'aquella voz, diria: 'Frade, tu mentes; mentes sem saberes que mentes: es sincero na tua fe, na tua austeridade,na tua abnegação; mas o teu sacrificio é como o de Abraham na montanha, e Deus sabe que tu não tens fôrça para o cumprir.'Não o percebeu assim a pobre velha aquem os rigores de Fr. Diniz faziam tremer, e que para toda a affeição, para todo o sentimento humano julgava morto o coração do cenobita.Ella que no silencio de suas noites sempre veladas, na perpétua escuridão de seus dias sempre tristes luctava ha tanto tempo, luctava debalde para desprender das affeições do mundo, aquelle seu pobre coração que queria immollar ao Senhor, ella via com sancta inveja e admiração as sobrehumanas fôrças que imaginava no frade; e desanimada de o podêr seguir n'essas alturas da perfeição evangelica, recahia, mais desalentada e mais miseravel que nunca, em toda a sua fraqueza de mulher e de mãe.Oh! não sabe o que é tormento, o que é inferno n'este mundo, o que não soffreu destas angústias!Mas permitte Deus que as padeça quem nãotem grandes culpas, grandes e irreparaveis erros que expiar n'este mundo?Eu creio firmemente que não.Cansada e exhausta ja de tam porfiada lucta, a velha perdeu de todo a razão com as derradeiras palavras do frade, e n'um paroxismo de chôro exclamou:—'Diniz!.. Fr. Diniz, por aquelle pinhor sagrado que eu tenho em meu podêr, por aquella preciosa cruz sôbre a qual se derramaram as últimas lagrymas da minha desgraçada filha, Diniz!...'—'Silencio!' bradou o frade, arrancando um brado de dentro do peito que fez gemer os echos todos do valle: 'Silencio, mulher! não conjure o demonio que eu trago incarcerado n'este seio, que á fôrça de penitencias mal pude domar ainda... que so a morte poderá talvez expellir. Mulher, mulher! este cadaver que ja morreu que ja apodreceu em tudo o mais, que ja o comem, sem o elle sentir, os bichos todos da destruição... estecadaver tem um unico ponto vivo no coração... e o dedo do teu egoismo ahi foi tocar, oh mulher!.. Peccado que estás sempre contra mim! Justiça eterna de Deus quando serás satisfeita?'Rompêra na maior violencia a voz do frade, mas descahiu n'um tom baixo e medonho ao fazer ésta última imprecação mysteriosa. As derradeiras syllabas quasi que lhe morreram nos beiços convulsos, e ao balbuciá-las deixou-se cahir, exhausto e como quem mais não podia, na cadeira que Joanninha lhe chegára.A velha aterrada e confusa tremia do que fizera, como deante do espirito immundo que seus maleficios evocaram, treme a maga assustada de seu proprio podêr.Passaram alguns segundos que nenhumas palavras podem descrever.O frade levantou o rosto, olhou para ella, olhou para Joanninha... e, como quem emerge, por grande esfôrço, de um pêso enorme d'aguas que o submergiam, sacudiu a cabeça, sorveu um longotrago de ar, e disse na sua voz ordinario, so mais debil:—'Carlos, senhora... minha irman, Carlos está vivo; e exaqui, vinda pelo consul de França, uma carta d'elle.'Tirou uma carta da manga e a intregou a Joanninha.CAPITULO XVIII.Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha.—Piedosa fraude de Joanninha.—Lucta entre o hábito e o monge.O frade intregou a carta a Joanninha, que, lançando os olhos ao sobrescripto, ficou indecisa e inquieta como quem receia e deseja e teme de saber alguma coisa. Elle com voz trémula e sobresaltada accrescentou:—'Adeus, que são horas!.. Leiam, e sexta-feira que vem... me dirão...'—'Poisquê' disse timidamente a velha 'não quer ouvir o que elle nos escreve?'—'Sexta-feira que vem' continuou Fr. Diniz, sem ouvir ou sem attender a pergunta 'sexta-feira que vem eu tomarei conta da resposta, e lh'a farei chegar pela mesma via... So uma coisa! nem palavra a meu respeito: eu para Carlos... morri.'—'Diniz!' exclamou a velha fóra de si 'Diniz!..'O frade tornou derepente ao seu tom austero, e respondeu gravemente: 'O quê, minha irman?'—'Era' disse ella timida e submissa outra vez 'era se, era que... Pois não hade ouvir ler a carta d'elle?'Fr. Diniz não respondeu, mas ficou sentado: descahiu-lhe a cabeça sôbre o peito, e abraçando-se com o bordão, não deu mais signal de si.A velha escutou em silencio alguns segundos, e com aquelle ouvido agudissimo—penetrante vista dos cegos—percebeu sem dúvida o que se passava, e com mais confôrto e serenidade na voz disse:—'Abre, Joanna, lê, minha filha.'Joanninha abriu a carta, e percorreu com avidez as poucas linhas que ella incerrava.—'Não les?' acudiu a avó com impaciencia: 'Lê, lê alto, Joanna.'—'É para mim so a carta' disse ella friamente.—'Para ti so, como?' tornou a outra.—'É para mim so ésta carta... não diz nada que...'—'Não diz nada!' replicou a avó 'Pois!... Lê, lê alto; seja como for, lê, e oiçamos.'Joanninha parecia hesitar ainda; lançou osolhos ao frade, achou-o na mesma attitude impassivel; voltou-se para a avó, viu-a anciada e anxiosa... leu.A carta era com effeito para ella so, e carta bem singela, não continha senão as ingenuas expressões de um amor fraterno nunca esquecido, longas saudades do passado, poucas esperanças no futuro, quasi nenhumas de se tornarem a ver tam cedo. Tudo isto porém era com a prima: para a desconsolada avó, para ninguem mais... nem uma palavra.Joanninha ia lendo, lendo... e a voz a descahir-lhe: no fim ajunctou uns abraços, umas saudosas lembranças, e não sei que phrase incompleta e mal articulada em que se pedia a bençam da avó.A velha abanou a cabeça tristemente e disse: 'Ora pois... bemditto seja Deus!'Joanninha córou até o branco dos olhos... Inda bem que a não podia ver a avó! Mas viu-a Fr. Diniz, e com a mão trémula e os olhos arrazados d'agua lhe fez um mudo e expressivosignal de approvação e agradecimento. Joanninha córou outra vez, e logo se fez pallida como a morte: era a primeira vez que mentia... e Fr. Diniz, o austéro Fr. Diniz apprová-la!O frade levantou-se, e sem dizer palavra, tomou o caminho de Santarem.Ouvia-se ao longe o arquejar de uns soluços suffocados... Seriam d'elle?A avó e a neta abraçaram-se e choraram.Nenhuma d'ellas disse palavra sôbre a carta: a velha tinha percebido a piedosa fraude de Joanninha...Oh! que existencias que eram aquellas quatro! Esse frade, essa velha e essas duas crianças! E a maior parte da gente que égente, vive assim... E querem, querem-n'a assim mesmo, a vida, teem-lhe appêgo! Oh que enigma é o homem!Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, e levou a resposta da Tornou a passar outra semana, e o frade tornou a vir no praso costumado, e levou a resposta da carta—resposta que Joanninha so escreveue so viu—e dirigiu-a em Lisboa pela via segura que indicára.Soube-se que fôra intregue; mas semanas e semanas decorreram, os meses passaram de anno... e outra carta não veio.No entretanto a guerra civil progredia; e depois de suas tremendas peripecias, o grande drama da Restauração chegava rapidamente ao fim. Eram meiados do anno de 33, a operação do Algarve succedêra milagrosamente aos constitucionaes, a esquadra de D. Miguel fôra tomada, Lisboa estava em podêr d'elles. Os tardios e inuteis esforços dos realistas para retomar a capital tinham occupado o resto do verão. Ja outubro se descoroava de seus ultimos fructos, e as folhas começavam a impallidecer e a cahir, quando uma sexta-feira, ao pôr do sol, Fr. Diniz apparecia no valle mais curvado e mais trémulo que nunca. Vinha do exército realista que então cercava Lisboa.Joanninha não era alli, a velha estava so.—'Que nos traz, padre?' clamou ella malque o sentiu: 'Soube d'elle? Tem escapado a éstas desgraças, a esses combates mortaes?'—'Não sei nada, minha irman: ha tres dias que de Lisboa se não póde obter a menor informação. As linhas estão fechadas e guarnecidas como nunca: tudo indíca havermos de ter cedo algum combate decisivo.'—'Deus seja com!..'—'Com quem, minha irman?'—'Com quem tiver justiça.'—'Nenhum a tem. De um lado e de outro está a ambição e a cubiça, de um lado e de outro a immoralidade, a perdição e o desprêzo da palavra de Deus. Por isso, vença quem vencer, nenhum hade triumphar.'—'Ai, o meu pobre filho, o meu Carlos!'—'Isso, irman Francisca, isso! Peça a Deus que dê a victoria a seu neto, e á impiedade por que elle combate. Peça a Deus que vençam osinimigos declarados do seu nome, os destruidores de seus altares, os profanadores de seus templos... Oh! que dia bello e grande não hade ser esse, quando Carlos... o seu Carlos, vier expulsar, ás baionetadas, do pobre convento de San'Francisco, o velho guardião—que lhe não hade fugir, minha irman!.. d'elle menos que de nenhum outro... que ajoelhado deante do altar inclinará a cabeça como os antigos martyres para cahir na presença do seu Deus ás mãos do seu...'—'Diniz!.. Padre!.. Padre Frei Diniz, que horrorosas palavras sahem da sua bôcca!.. Meu neto, o meu Carlos não é capaz... oh meu Deus!..'—'Seu neto detesta-me... e tem... tem razão.'—'Não sabe a verdade elle... Carlos está inganado, cuida... não sabe senão meia verdade: e eu, eu heide—custe o que me custar—eu heide...'—'Hade o quê?'—'Heide desinganá-lo, heide-lhe dizer a verdadetoda. Heide prostrar-me na sua presença, heide humilhar-me deante do filho de minha filha, heide arrastar na poeira de seus pés éstas cans e éstas rugas... morrerei de vergonha e de remorsos deante do meu filho, mas elle hade saber a verdade.'Sahiam com tal impeto e com tam desacostumada energia éstas mysteriosas e tremendas palavras da bôcca da velha, que Fr. Diniz não ousou contê-la; ouviu até ao fim, deixou quebrar o impeto da torrente, e erguendo então a sua voz austera mas pousada, disse n'aquelle tom friamente decisivo que tanto impõe aos animos apaixonados:—'Se tal fizesse, mulher, a minha maldicção, a maldicção eterna de Deus sôbre a sua cabeça para sempre!... Oh mulher, pois não lhe basta que elle me abhorreça—não lhe basta que seu neto lhe perdesse o amor... quer... quer tambem que nos despreze?'A velha gemeu profundamente, e, por um geito de antiga reminiscencia, levou as mãos aos olhos como se os tapasse para não ver. Então disse com desconsoladas lagrymas na voz:—'A vontade de Deus seja feita!'CAPITULO XIX.
Retratto de um frade franciscano que não foi para o depósito da Terra-sancta, nem consta que esteja na Academia das Bellas-artes.—Ve-se que a logica de Fr. Diniz se não parecia nada com a de Condillac.—Suas opiniões sôbre o liberalismo e os liberaes.—Que o podêr vem de Deus, mas como e paraquê.—Que os liberaes não intendem o que é liberdade e egualdade; e o para que eram os frades, se fossem.—Próva-se, pelo texto, que o homem não vive so de pão, e pergunta-se o de que vivia então Fr. Diniz.
Saibâmos da vida do frade.—Era franciscano porquê?—Dos antigos e dos novos martyres.—Alguns particulares de Fr. Diniz antes e depois de ser frade.—Emigração.—Explicação incompleta.—De como a velha tinha perdido a vista e Joanninha o riso.—Sexta feira dia aziago.
De como, chegando outra sexta-feira e estando a avó e a neta á espera do frade, este lhe appareceu, contra o seu costume, da banda de Lisboa.—Porque razão muitas vezes a mais animada conversação é a que mais facilmente pára e quebra derepente.—Nova demonstração de dous grandes axiomas dos nossos velhos, a saber: Que o hábito não faz o monge; e que ralhando as commadres, se descobrem as verdades.—No ralhar da velha com o frade, levanta-se uma ponta do veo que cobre os mysterios da nossa historia.
Descobre-se que ha grandes e espantosos segredos entre o frade e a velha.—Piedosa fraude de Joanninha.—Lucta entre o hábito e o monge.