CAPITULO XX.

Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac—De como os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta.—Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este nome.—A sentinella perdida e achada.A velha disse aquellas últimas palavras com uma expressão de dor tam resignada, mas tam desconsolada, que o frade olhou para ella commovido, e sentiu as lagrymas escurecerem-lhe a vista.N'este momento Joanninha, que passeiava a alguma distancia da casa na direcção de Lisboa, acudiu sobresaltada bradando:—'Avó, avó!.. tanta gente que ahi vem! soldados e povo... homens e mulheres... tanta gente!'Era a retirada de 11 de outubro.—'Deus tenha compaixão de nós!' disse a velha: 'O que será padre?'—'O que hade ser!' respondeu Fr. Diniz: 'o meu presentimento que se verifica; o combate foi decisivo, os constitucionaes vencem.'Comeffeito foram apparecendo as tropas que se retiravam, as gentes que fugiam, e todo aquelle confuso e doloroso espectaculo de uma retirada em guerra civil...Alguns feridos, que não podiam mais, ficaram na casa do valle intregues á piedosa guarda e cuidado de Joanninha; dos outros tomou conta Fr. Diniz e os acompanhou a Santarem.As tropas constitucionaes vinham em seguimento dos realistas, e d'alli a poucos dias tinham o seu quartel-general no Cartaxo; D. Miguel fortificava-se em Santarem, e a casa da velha era o último posto militar occupado pelo seu exército.Não tardou muito que a fôrça toda, todo o interêsse da guerra se não concentrasse n'aquelle, ja tam pacífico e ameno, agora tam desolado e turbulento valle.Eram os derradeiros dias do outomno, a natureza parecia tomar dó pelo homem—dar triste e lugubre decoração de scena ao sanguento drama de destruição e de miseria que alli se ía concluir. As últimas folhas das árvores cahiam, o ceo nublado e negro vertia sôbre a terra apaulada torrentes grossas d'agua, a cheia alagava os baixos, e as terras altas cobriam-se de hervas maninhas, os trabalhos da lavoira cessavam, o gado e os pastores fugiam, e os soldados de um e de outro campo cortavam as oliveiras seculares...Tudo estava feio e torpe, tudo era ruina, desolação e morte emtôrno da casa do valle, agora transformada em quartel e redutto militar.E que era feito, no meio d'ésta desordem, que era feito da nossa pobre velha, da nossa interessante Joanninha?Apenas se estabeleceu a posição dos dous exercitos, Fr. Diniz queria levá-las para Santarem; mas não foi possivel. Instancias, rogos, ordem positiva, tudo foi em vão. Pela primeira vez na sua vida, aquella mulher tímida, fraca e irresoluta, soube ter vontade firme e propria.—'Aqui nasci,' dizia ella, 'aqui vivi, aqui heide morrer. Que importa como?.. Aqui as curtas alegrias, aqui as longas dores da minha vida teem passado: onde heide eu ir que possa viver ou morrer senão aqui? Ésta casa sei-a de cór, éstas árvores conhecem-me, estes sitios são os ultimos que vi, os unicos de que me lembra: como heide eu, velha e cega, ir fazer conhecimento com outros para viver n'elles?..'—'E Joanninha n'essa edade... no meio d'essa soldadesca!' suggeria o frade.—'Joanninha' tornava ella 'Joanninha é uma criança, e tem mais juizo, mais energia d'alma,mais saude e mais fôrça do que—mulheres não fallemos—do que a maior parte dos homens. Ficaremos aqui, padre, ficaremos aqui melhor do que em Santarem podêmos estar. Deus nos defenderá...'Fr. Diniz cedeu: a mesma vaga e indeterminada esperança que animava a velha, e que a prendia tam fortemente alli, não era extranha ao coração do frade. Ella não ousava nem alludir de longe a essa esperança, mas sentia-se que lá a tinha anninhada e escondida a um canto d'alma... Aquelle neto, aquelle filho da filha querida havia de vir ter á casa em que nascêra... por alli havia de passar, e mais dia menos dia... A velha, repitto, nem alludia a tal esperança, mas sentia-se que a tinha: percebeu-lh'a Fr. Diniz, e ou a partilhasse tambem ou não se atrevesse a contrariar razões que lhe não davam, cedeu e callou-se.O seu principal temor era a licenciosa soltura dos costumes militares; mas estava Joanninha menos exposta por se accolher a uma praça de guerra como Santarem era agora?Brevemente se viu que a avó tinha accertado. A franca e ingenua dignidade de Joanninha, o ar grave, a melancholia serena e bondosa da velha impozeram tal respeito aos soldados, que—graças tambem á cooperação efficaz do commandante do pôsto, um bom e honrado cavalheiro transmontano—ellas viviam tam seguras e quietas na pequena porção da casa que para si reservaram, quanto em taes circumstancias era possivel viver. Fr. Diniz vinha regularmente ao valle todas as sexta-feiras, e nenhum outro hábito de suas vidas se interrompeu.E pouco a pouco, os combates, as escaramuças, o som e a vista do fogo, o aspecto do sangue, os ais dos feridos, o semblante desfigurado dos mortos—a guerra emfim em todas as suas fórmas, com todo o seu palpitante interêsse, com todos os terrores, com todas as esperanças que a accompanham, se lhes tornou uma coisa familiar, ordinaria...A tudo se habitua o homem, a todo o estado se affaz; e não ha vida, por mais extranha, que o tempo e a repettição dos actos lhe não faça natural.Todavia de Carlos nem mais uma linha... Pobre velha!Assim passaram meses, assim correu o hynverno quasi todo, e ja as amendoeiras se toucavam de suas alvissimas flores de esperança, ja uma depois de outra, íam renascendo as plantas, íam abrolhando as árvores; logo vieram as aves trinando seus amores pelos ramos... insensivelmente era chegado o meio d'Abril, estavamos em plena e bella primavera.A guerra parecia cançada, o furor dos combatentes quebrado; rumores de intentadas transacções gyravam por toda a parte.No nosso valle as sentinellas dos dous campos oppostos, costumadas ja a ver-se todos os dias, começavam a ver-se sem odio: principiaram por se dizer dos pesados gracejos de guerra, acabaram por conversar quasi amigavelmente. Muíta vez foi curioso ouvi-los, os soldados, discorrer sôbre as altas questões d'Estado que dividiam o reino e o traziam revôlto ha tantos annos. Se as tractavam melhor os do conselho em seus gabinetes!Joanninha que, pouco a pouco, se habituára áquelle viver de perigos e incertezas, de dia para dia lhe ia crescendo o ânimo, aguerrindo-se. Tudo se affazia áquelle estado: até os rouxinoes tinham voltado aos loureiros d'aopé da casa, e como que disciplinados obedeciam aos toques d'alvorada e de retreta, accompanhando-os de seu cantar animado e vibrante.A essas horas Joanninha era certa em sua janella—n'aquella antiga e elegante janellarenascençade que primeiro nos namorámos, leitor amigo, ainda antes de a conhecer a ella. Alli a viam as vedetas de ambos os exercitos, alli se acostumaram a vê-la com o nascer e o pôr do sol: alli, muda e quêda horas esquecidas, escutava ella o vago cantar dos seus rouxinoes, talvez absorta em mais vagos pensamentos ainda...E d'alli lhe pozeram o nome da 'menina dos rouxinoes', pelo qual era conhecida em ambos os campos: significante e poetico appellido com que a saudavam os soldados de ambas as bandeiras!E uns e outros respeitavam e adoravam a menina dos rouxinoes. Entre uns e outros por tacitaconvenção parecia stipulado que aquella suave e angelica figura podesse andar livremente no meio das armas inimigas, como a pomba doméstica e valida a que nenhum caçador se lembra de mirar.Os costumes de guerra são menos soltos do que se cuida; no ânimo do soldado ha mais sentimentos delicados, nas suas fórmas ha menos rudeza do que se pensa. A farda é sim vaidosa e presumida, crê muito nos seus podêres de seducção, mas não é brutal senão no primeiro impeto.Joanninha pençava os feridos, velava os infermos, tinha palavras de consolação para todos, e em tudo quanto dizia e fazia era tam senhora, tinha tam grave gentileza, um donaire tam nobre, que a amavam todos muito, mas respeitavam-n'a ainda mais.Fiada ja n'este respeito e estima geral, Joanninha fôra extendendo, de dia a dia, as suas excursões pelo valle. Ultimamente costumava ir, pelo fim da tarde, até um pequeno grupo de alamos e oliveiras que ficava mais para o sul e pertodo logar donde, á noite, se collocavam as derradeiras vedetas dos constitucionaes.Um dia, ja quasi pôsto o sol, a tarde quente e serena,—ou fosse que adormeceu ou que suas meditações a distrahiram—o certo é que os rouxinoes gorjeavam ha muito nos loureiros da janella, e Joanninha não voltava.Estabeleceram-se as vedetas de um lado e outro, deram-se todas as disposições costumadas para a noite.O official dos constitucionaes que andava collocando as suas sentinellas, tinha vindo essa mesma tarde de Lisboa com um refôrço de tropa. Pôs-se elle em marcha com a sua gente, foi-a dispondo nos logares convenientes, e chegava emfim aopé d'aquelle grupo de árvores:—'Silencio!' disse elle 'Alto! alli está um vulto.'—'Não é ninguem,' respondeu um soldado que era dos antigos no pôsto: 'ninguem que importe; é a menina dos rouxinões. Estou vendo que adormeceu no seu poiso costumado.'—'A menina dos rouxinões! Que cantiga é essa que me cantas tu lá?'O soldado deu a explicação popular do seu ditto, mostrou a casa do valle, e continuava incarecendo sôbre os meritos e virtudes de Joanninha...O official não o deixou acabar:—'Para a rettaguarda, e silencio!'Foi rapidamente postar, a alguma distancia d'alli, as duas sentinellas que lhe faltavam; e elle entrou so no pequeno grupo d'árvores.Era Joanninha que estava alli, Joanninha que effectivamente dormia a somno sôlto.CAPITULO XX.Joanninha adormecida—Odemi-jourda coquette.—Poesia do Flos-sanctorum*.—De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.—Retratto esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.—Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.—Em que se parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.—De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar porfim.Sôbre uma especie de banco rustico de verdura, tapeçado de grammas e de macella brava, Joanninha, meio recostada, meio deitada, dormia profundamente.A luz baça do crepusculo, coada ainda pelos ramos das árvores, illuminava tibiamente as expressivas feições da donzella; e as fórmas graciosas de seu corpo se desenhavam molle e voluptuosamente no fundo vaporoso e vago das exhalações da terra, com uma incerteza e indecisão de contornos que redobrava o incanto do quadro, e permittia á imaginação exaltada percorrer toda a escalla d'harmonia das graças femininas.Era um ideal do demi-jour da coquette parisiense: sem arte nem estudo, lh'o preparára a natureza em seu boudoir de folhagem perfumado da brisa recendente dos prados.Como n'essas poeticas e populares legendas de um dos mais poeticos livros que se tem escripto, o Flos-sanctorum, em que a ave querida e fadada accompanha sempre a amavel sancta de sua affeição—Joanninha não estava alli sem o seu mavioso companheiro. Do mais espêsso da ramagem, que fazia sobreceo áquelle leito de verdura, sahia uma torrente de melodias, vagas e ondulantes como a selva com o vento, fortes, bravas, e admiraveis de irregularidade e invenção, como as barbaras endeixas de um poeta selvagemdas montanhas... Era um rouxinol, um dos queridos rouxinoes do valle que alli ficára de vela e companhia á sua protectora, á menina do seu nome.Com o approximar dos soldados, e o cochichar do curto dialogo que no fim do último capitulo se referiu, cessára por alguns momentos o delicioso canto da avezinha; mas quando o official, postadas as sentinellas a distancia, voltou pé ante pé e entrou cautellosamente para debaixo das árvores, ja o rouxinol tinha tornado ao seu canto, e não o suspendeu outra vez agora, antes redobrou de trillos e gorgeios, e do mais alto de sua voz agudissima veio descahindo depois em uns suspiros tam magoados, tam sentidos, que não disseras senão que preludiava á mais terna e maviosa scena d'amor que esse valle tivesse visto.O official...—Mas certo que as amaveis leitoras querem saber com quem trattam, e exigem, pelo menos, uma esquissa rapida e a largos traços do novo actor que lhes vou appresentar em scena.Teem razão as amaveis leitoras, é um dever de romancista a que se não póde faltar.O official era môço, talvez não tinha trinta annos; pôsto que o tratto das armas, o rigor das estações, e o sêllo visivel dos cuidados que trazia estampado no rosto, accentuassem ja mais fortemente, em feições de homem feito, as que ainda devia arredondar a juventude.A sua estatura era mediana, o corpo delgado, mas o peito largo e forte como precisa um coração de homem para pulsar livre; seu porte gentil e decidido de homem de guerra desenhava-se perfeitamente sob o espesso e largo sobretudo militar—especie de great-coat inglez que a imitação das modas britannicas tinha tornado familiar nos nossos bivacs. Trazia-o desabotoado e descahido para traz, porque a noite não era fria; e viu-se por baixo elegantemente cingida ao corpo a fardeta parda dos caçadores, realçada de seus characteristicos alamares pretos e avivada de incarnado...Uniforme tam militar, tam nacional, tam caro a nossas recordações—que essas gentes, prostituidoras de quanto havia nobre, popular e respeitado n'esta terra, proscreveram do exército... pormuito portuguez demais talvez! deram-lhe baixa para os beleguins da alfandega, reformaram-n'o em uniforme da bicha!Não pude resistir a esta reflexão: as amaveis leitoras me perdoem por interromper com ella o meu retratto.Mas quando pinto, quando vou riscando e collorindo as minhas figuras, sou como aquelles pintores da edade-média que interlaçavam, nos seus paineis, distichos de sentenças; fittas lavradas de moralidades e conceitos... talvez porque não sabiam dar aos gestos e attitudes expressão bastante para dizer por elles o que assim escreviam, e servia a penna de supplemento e illustração ao pincel... Talvez: e talvez pelo mesmo motivo caio eu no mesmo defeito...Será; mas em mim é irremediavel, não sei pintar de outro modo.Voltemos ao nosso retratto.Os olhos pardos e não muito grandes, mas deuma luz e viveza ímmensa, denunciavam o talento, a mobilidade do espirito—talvez a irreflexão... mas tambem a nobre singeleza de um character franco, leal e generoso, facil na íra, facil no perdão, incapaz de se offender de leve, mas impossivel de esquecer uma injúria verdadeira.A bôcca, pequena e desdenhosa, não indicava comtudo suberba, e muito menos vaidade, mas surria na consciencia de uma superioridade inquestionavel e não disputada.O rosto, mais pallido que trigueiro, parecia comprido pela barba preta e longa que trazia ao uso do tempo. Tambem o cabello era preto; a testa alta e desaffogada.Quando callado e serio, aquella physionomia podia-se dizer dura; a mais piquena animação, o mais leve sorriso a fazia alegre e prazenteira, porque a mobilidade e a gravidade eram os dous pollos d'esse character pouco vulgar e difficilmente bem intendido.D'aquelle busto classico e verdadeiramente moldado pelos typos da arte antiga, podia o statuariofazer um philosopho, um poeta, um homem d'estado ou um homem do mundo, segundo as leves inflexões d'expressão que lhe désse.N'este momento agora, e ao entrar na pequena espessura d'aquellas árvores, animava-o uma viva e inquieta expressão de interêsse—quebrado comtudo, sustido, e, para assim dizer,soffreadode um temor occulto, de um pensamento reservado e doloroso que lhe ia e vinha resumbrando na face, como a antiga e desbotada côr de um estôfo que se tingiu de novo—que é outro agora mas que não deixou de ser inteiramente o que era...Alegra-se assim um triste dia de novembro com o raio de sol transiente e inesperado que lhe rompeu a cerração n'um canto do ceo...Tal era, e tal estava deante de Joanninha adormecida, o que não direi mancebo porque o não parecia—o homem singular a quem o nome, a historia e as circumstancias da donzella pareciam ter feito tamanha impressão.—'Joanninha!' murmurou elle apenas a viuá luz ainda bastante do crepusculo. 'Joanninha!' disse outra vez, contendo a violencia da exclamação: 'É ella sem dúvida. Mas que differente!... quem tal diria! Que graça, que gentileza! Será possível que a criança que ha dois annos?..'Dizendo isto, por um movimento quasi involuntario lhe tomou a mão adormecida e a levou aos labios.Joanninha estremeceu e acordou.—'Carlos, Carlos!'—balbuciou ella com os olhos ainda meio-fechados, Carlos, meu primo... meu irmão! era falso, dize: era falso? Foi um sonho, não foi, meu Carlos?..'E progressivamente abria os olhos mais e mais até se lhe espantarem e os cravar n'elle arregalados de pasmo e de alegria.—'Foi, foi' continuou ella 'foi sonho, foi um sonho mau que eu tive. Tu não morreste... Falla á tua irman, á tua Joanna; dize-lhe que estás vivo, que não es a sombra d'elle... Não es, não, que eu sinto a tua mão quente na minha que queima,sinto-a estremecer como a minha... Carlos, meu Carlos! dize, falla-me: tu estás vivo e são? E es... es o meu Carlos? Tu proprio, não é ja o sonho, es tu?...'—'Pois tu sonhavas? tu, Joanna, tu sonhavas commigo?'—'Sonhava como sonho sempre que durmo... e o mais do tempo que estou acordada... sonhava com aquillo em que so penso... em ti.'—'Joanna!... prima... minha irman!'E cahiu nos braços d'ella; e abraçaram-se n'um longo, longo abraço—com um longo, interminavel beijo..! longo, longo e interminavel como um primeiro beijo d'amantes...O abraço desfez-se; e o beijo terminou em fim, porque os reflexos do ceo na terra são limitados e imperfeitos como as incompletas existencias que a habitam.Senão... invejariam os anjos a vida da terra.Joanninha, tornada a si d'aquelle quasi paroximo, abria e fechava os olhos para se affirmar se estava bem acordada, tocava com as mãos o rosto, o peito, os braços do primo, palpava-se depois a si mesma como quem duvidava de sua propria existencia, e dizia em palavras cortadas e sem nexo:—'É Carlos... Carlos: foi falso. É meu primo... Minha avó tambem sonhou o mesmo sonho, mas foi falso. Fr. Diniz não é o que disse, nem ninguem: eu e a avó é que o sonhámos. Mas elle aqui está, vivo... vivo! e nosso, nosso todo outra vez!... Mas como vieste tu aqui, Carlos? Como estava eu aqui comtigo?... E sos, sosinhos aqui a ésta hora! Não deve ser isto... Valha-me Deus! E que dirão? E Jesus!—Lá isso não me importa; deixá-los dizer: mas não deve ser. Vamos, Carlos, vamos ter com ella, vamos para a avó!... Que n'isto não ha mal nenhum... Meu primo!.. um primo com quem eu fui criada!.. Mas quem não souber, póde dizer... Vamos, Carlos.—Oh! minha avó morre de alegria, coitada!.. É verdade: vou adeante preveni-la, prepará-la... heide-lhe ir assim dizendo pouco a pouco... Segue-me tu, Carlos, e vamos.—Mas, oh meuDeus! não é preciso: paraquê? Ella é cega, coitadinha, não sabes?'—'Cega, que dizes? minha avó está cega?'—'Pois não sabías? Ai! é verdade, não sabías. Tantas coisas que tu não sabes, meu Carlos! Mas eu te contarei tudo, tudo. Olha: cegou quando... Mas não fallemos agora n'essas tristezas que ja la vão. Em ella te sentindo aopé de si, é o mesmo que tornar-lhe a vista. Tem-m'o ella ditto muitas vezes, e eu bem sei que é assim. Mas ouve: um dia havemos de fallar—nós dois sos—á vontade: tenho tanto que te dizer... nem tu sabes... Agora vamos, Carlos.'E fallando assim, tomou-o pela mão e sahiu para o valle aberto, froixamente acclarado ja de myríadas de estrellas scintillantes no ceo azul.CAPITULO XXI.Quem vem lá?—Como entre dous litigantes nem sempre gosa o terceiro.—Carlos e Joanninha n'uma especie de situaçãoordeira, a mais perigosa e falsa das situações.As estrellas luziam no ceo azul e diaphano, a brisa temperada da primavera suspirava brandamente; na larga solidão e no vasto silencio do valle distinctamente se ouvia o docemurmúrio da voz de Joanninha, claramente se via o vulto da sua figura e da do companheiro que ella levava pelo mão e que machinalmente a seguia como sem vontade propria, obedecendo ao podêr de um magnetismo superior e irresistivel.Passavam, sem as ver e sem reflectir onde estavam, por entre as vedetas de ambos os campos... e ao mesmo tempo de umas e outras lhes bradou o voz breve e stridente das sentinellas: 'Quem vem lá?'Estremeceram involuntariamente ambos com o som repentino de guerra e de allarma que os chamava á esquecida realidade do sítio, da hora, das circumstancias em que se achavam... D'aquelle sonho incantado que os transportára ao Éden querido de sua infancia, accordaram sobresaltados... viram-se na terra erma e bruta, viram a espada flammejante da guerra civil que os perseguia, que os desunia, que os expulsava para sempre do paraizo de delicias em que tinham nascido...Oh! que imagem eram esses dous, no meio d'aquelle valle nu e aberto, á luz das estrellasscintillantes, entre duas linhas de vultos negros, aqui alli dispersos e luzindo acaso do tranziente reflexo que fazia brilhar uma baioneta, um fuzil... que imagem não eram dos verdadeiros e mais sanctos sentimentos da natureza expostos e sacrificados sempre no meio das luctas barbaras e estupidas, no conflicto de falsos principios em que se estorce continuamente o que os homens chamaramsociedade!Joanninha abraçou-se com o primo; elle parou derepente e foi com a mão ao punho da espada.—'Quem vem lá?' tornaram a bradar as sentinellas.—'Ouves, Joanna?' disse Carlos em voz baixa e sentida: 'Ouves estes brados?' É o grito da guerra que nos manda separar; é o clamor cioso e vigilante dos partidos que não tolera a nossa intimidade, que separa o irmão da irman, o pae do filho!..'—'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as —'Quem vem lá?' bradaram ainda mais forte as sentinellas; e ouviu-se aquelle stridor baço e breve que tam froixo é e tam forte impressãofaz nos mais bravos animos... era o som dos gatilhos que se armavam nas espingardas.O momento era supremo, o perigo imminente e ja inevitavel... alli podiam ficar ambos, traspassados das ballas oppostas dos dous campos contendores.Como esses que, fiados em sua innocencia e abnegação, cuidam podêr passar por entre as discordias civis sem tomar parte n'ellas, e que são, por isso mesmo, objecto de todas as desconfianças, alvo de todos os tiros—assim estavam alli os dous primos na mais arriscada e falsa posição que têem as revoluções.Joanninha conheceu o perigo que os ameaçava; e com aquella rapidez de resolução que a mulher tem mais prompta e segura nas grandes occasiões, disse para Carlos:—'Falla aos teus, faze-te conhecer e põe-te a salvo. Ámanhan nos tornaremos a ver: eu te avisarei. Adeus!'—'E tu, tu?.. E as sentinellas dos realistas?..'—'Não tenhas cuidado em mim. D'esta banda todos me conhecem'.Deu alguns passos para o lado da sua casa e levantou a voz:—'Joanninha! Sou eu, camaradas, sou eu!'Immediatamente se ouviu o som retinido das coronhas no chão, e o riso contente dos soldados que reconheciam a bemquista e bem vinda voz de Joanninha... da 'menina dos rouxinoes.'—'Ves, Carlos?.. Adeus! até ámanhan.' disse ella baixo.—'Até amanhan se...'—'Se!.. Pois tu?..'—'Ouve: não digas a tua avó que me viste, que estou aqui: é forçoso, é indispensavel, exijo-o de ti...'—'E ámanhan me dirás?..'—'Sim.'—'Prometto: não direi nada... Mas, oh! Carlos...'—'Adeus!'Carlos deu dous passos para a banda das suas vedetas, Joanna correu para o lado opposto. Mas elle parou e não tirou os olhos d'aquella fórma gentil que deslizava como uma sombra pelo horisonte do valle, até que desappareceu de todo.E elle immovel ainda!Faíscaram derepente como relampagos um, dous, tres... e as detonações que os seguiram, e o assovio das ballas que vinham depós ellas... Eram as sentinellas constitucionaes que faziam fogo sôbre o seu commandante que não conheciam, cujo silencio e immobilidade o fazia suspeito.Uma das ballas ainda o feriu levemente no braço esquerdo.—'Bem, camaradas!' bradou Carlos caminhando rapidamente para elles, e erguendo a voz forte e cheia que tam conhecida era nas fileiras:'Bem! Fizeram a sua obrigação. Um de vocês que me aperte aqui o braço com este lenço.'—'Carlos!' gritou ao longe uma voz fina, aguda, vibrante de terror pelo espaço 'Carlos! falla-me, responde: não te succedeu nada?'—'Nada, nada! Socega.'E tornou a cahir tudo no silencio. Carlos retirou-se ao seu quartel n'uma choupana proxima. Os soldados olharam-se entre si e surriram.Um mais doutor disse para os outros:—'O nosso capitão não se descuida: ainda hoje chegou, e já nós lá vamos, hem?'—'O nosso capitão é d'aqui: não sabes?'—'Hum! tenho percebido. E ainda lhe dura? O home' é capaz!'—'Silencio! Eu te direi logo a historia toda: é uma prima.'—'Ah! prima. Então não ha nada que dizer.'—'É a que elles chamam aqui...'—'A menina dos rouxinoes? Essa é maluca.'—'Gosta d'ellas assim, que elle tambem o é.'—'Pois a freira de San Gonsallo, na Terceira?'—'Maluca.'—'E a Lady ingleza que?..'—'Maluquissima essa! Não me hade admirar se a vir cahir do ar um dia por ahi como bomba. E não hade dar mau estallo!'—'Podéra! E incontrando-se com a prima então!..'—'Mas elle é prima ou é irman?'—'É uma tal parentella inrevezada a d'essa gente da casa do valle!.. dizem coisas por ahi, quese eu as intendo!.. E ha um frade no caso, ja se sabe...'—'Oh! elle ha frade no caso?'—'Ha, e que frade! Um apostolico ásdireitas! Tam feio, tão magro! apparece por ahi ás vezes. Eu já o lombriguei um dia: e que famoso tiro que era! Quasi que me arrependo de não ter...'—'Isso! hoje iamos matando o nosso capitão por instantes. Olha agora se lhe matas o tio, ou pae, ou o que quer que é...'—'Um frade!'—'Um frade não é gente?'—'Não senhor.'—'Está bom: basta de conversar por hoje. O que me eu parece é que nós temos cedo muita pancada rija.'—'Venha ella, que isto ja abhorrece.'Accenderam os cigarros e fumaram.Com o mesmo socêgo d'espirito... sancto Deus! accendem os homens a guerra civil, que altera e confunde por este modo todas as ideas, todos os sentimentos da natureza.CAPITULO XXII.Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.—Noite mal dormida.—Da conversa que teve Carlos com os seus botões.—A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.—Obrigações d'amor, triste palavra.—A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.—Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.—Quem hade levantar a primeira pedra?—Dous modos differentes de accudir uma coisa ao pensamento.No dia seguinte, mal rompia a manhan, um paizano que dizia trazer communicações importantes para o commandante do pôsto avançado, foi conduzido á presença de Carlos e lhe intregou uma carta: era de Joanninha.Fiel á sua promessa, ella não tinha ditto nada do incôntro da véspera: dizia a carta. E que a avó estava doente e afflicta; que para a animar e consolar, lhe dera notícias do primo, como vindas por pessoa que o víra e estivera com elle. Que ficava mais contente e socegada: mas que aquelle estado de anciedade não podia prolongar-se. Que a saude da pobre velha declinava de dia a dia; que se lhe ia a vida, que era matá-la não lhe dizer a verdade... Joanninha concluia com mil affectos e saudades; e aprazava por fim o mesmo sítio da véspera para se tornarem a ver, e para concertarem o que havia de fazer. Todas as precauções estavam tomadas, e o consentimento dado pelo commandante do pôsto contrário para haver toda a segurança n'aquella entrevista.Carlos tinha velado toda a noite; uma excitação extraordinaria lhe amotinára o sangue, lhe desaffinára os nervos. Bem tinha desejado vir para aquelle pôsto, bem contava, bem esperava elle, estando alli, saber de mais perto da sua familia, vê-los talvez, mais dia menos dia, incontrar-se com alguns d'elles... e de todos elles, a innocente e graciosa criança com quem vivêra comoirmão desde os seus primeiros annos, era quem elle mais esperava, mais desejava ver decerto.Mas uma criança era a que elle tinha deixado, uma criança a brincar, a colhêr as boninas, a correr atraz das borboletas do valle... uma criança que sim o amava ternamente, cuja suave imagem o não tinha deixado nunca em sua longa peregrinação, cuja saudade o accompanhára sempre, de quem se não esquecêra um momento, nem nos mais alegres nem nos mais occupados, nem nos mais difficeis nem nos mais perigosos da sua vida...Mas era uma criança!.. era a imagem d'uma criança.É certo, sim: e nas batalhas, em presença da morte... no longo cêrco do Porto entre os flagellos da cholera e da fome, nas horas de mais viva esperança, no descoroçoamento dos mais tristes dias, a doce imagem de Joanninha, d'aquella Joanninha com quem elle andava ao colo, que levantava em seus hombros para ella chegar aos ninhos dos passaros no verão, aos medronhos madurosno outomno, que elle suspendia nos braços para passar no hynvernoos alagadiçosdo valle,—essa querida imagem não o abandonára nunca.Nunca!.. nem quando as pennas d'amor, nem quando as suas glórias—mais esquecidiças ainda!—pareciam absorver-lhe todos os sentidos, e todo o sentimento de seu coração.A saudade, a memoria de Joanninha, suavemente impressa no mais puro e no mais sancto de sua alma, resplandecia no meio de todas as sombras que lh'a obscurecessem, sobreluzia no meio de qualquer fogo que lh'a allumiasse.Uma luz quieta, limpida, serena como a tocha na mão do anjo que ajoelha em innocencia e piedade deante do throno do Eterno!Mas, no mesmo dia em que chegou ao valle, quasi na mesma hora, cheio d'aquella luz, mais viva e animada agora pela proximidade do foco d'onde sahia... n'essa mesma hora, ir incontrar alli, n'aquella solidão, entre aquellas árvores, á tibia e seductora claridade do crepusculo...a quem, sancto Deus! Não ja a mesma Joanninha de ha tres annos, não a mesma imagem que elle trazia, como a levára, no coração; mas uma gentil e airosa donzella, uma mulher feita e perfeita, e que nada perdêra, comtudo, da graça, do incanto, do suave e delicioso perfume da innocencia infantil em que a deixára!Não esperava, não estava preparado para a impressão que recebeu, foi uma surpreza, um choque, um reviramento confuso de todas as suas ideas e sentimentos.Qual fosse porêm a precisa e verdadeira impressão que recebeu, nem elle a si proprio o podéra explicar: era de um genero novo, unico na historia de suas sensações: não a conhecia, extranhava-a, e quasi que tinha medo de a analysar.Sería annúncio d'amor?Mas elle tinha amado, amado muito e devéras... e cuidava amar ainda, e devia amar; por quanto ha sagrado e sancto nos deveres do coração, era obrigado a amar ainda.Oh obrigações d'amor, obrigações d'amor! se vós não sois, se vós ja não sois senão obrigações!..Não o pensava Carlos, não o cria elle assim: leal e sincero tinha intregue o seu coração á mulher que o amava, que tantas próvas lhe dera d'amor e devoção; que descançava em sua fé, que não existia senão para elle: mulher môça, bella, cheia de prendas e de incantos, mulher de um espirito, de uma educação superior, que atravessára, desprezando-as, turbas de adoradores nobres, riccos, poderosos, para descer até elle, para se intregar ao foragido, pobre, extrangeiro, desprezado.Quem era essa mulher?Aonde, como obtivera elle a posse d'essa joia, d'esse talisman com o qual se tinha por tam seguro para não ver na graciosa prima senão?..Senão o quê?A innocente criança que alli deixára?Mas não é verdade isso: outra era a impressãoque Joanninha lhe fizera, fosse ella qual fosse.O que era então?E sôbre tudo, quem era ess'outra mulher que elle amava?E amava-a elle ainda?Amava.E Joanninha?Joanninha era... nem eu sei o que lhe era Joanninha... o que lhe estava sendo n'aquelle momento.O que lhe ella fôra, assas t'o tenho explicado, leitor amigo e benevolo: o que lhe ella será... Pódes tu, leitor candido e sincero,—aos hypocritas não fallo eu—pódes tu dizer-me o que hade ser ámanhan no teu coração a mulher que hoje somente achas bella, ou gentil, ou interessante?Pódes responder-me da parte que tomará ámanhanna tua existencia a imagem da donzella que hoje contemplas apenas com olhos de artista, e lhe estás notando, como em quadro gracioso, os finos contornos; a pureza das linhas, a expressão verdadeira e animada?E quando vier, se vier, esse fatal dia de ámanhan, responder-me-has tambem da parte que ficará tendo em tua alma ess'outra imagem que lá estava d'antes e que, ao reflexo d'esta agora, d'aqui observo que vai impallidecendo, descórando... ja lhe não vejo senão os lineamentos vagos... ja é uma sombra do que foi... Ai! o que será ella ámanhan?Leitor amigo e benevolo, caro leitor meu indulgente, não accuses, não julgues á pressa o meu pobre Carlos; e lembra-te d'aquella pedra que o Filho da Deus mandou levantar á primeira mão que se achasse innocente... A adultera foi-se em paz, e ninguem a apedrejou.Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada, —— Pois é verdade: Carlos tinha amado, amado muito, e amava ainda a mulher a quem promettêra, a quem estava resolvido a guardar fé. E essa mulher era bella, nobre, ricca, admirada,occupava uma alta posição no mundo... e tudo lhe sacrificára a elle exilado, desconhecido.E Carlos estava seguro que nenhuma mulher o havia de amar como ella; que os longos e ondados anneis de loiro cendrado, que os languidos olhos de gazella, que o ar majestoso e altivo, que a tez d'uma alvura celeste, que o espirito, o talento, a delicadeza de Georgina... Chamava-se Georgina; e é tudo quanto por agora póde dizer-vos, ó curiosas leitoras, o discreto historiador d'este mui veridico successo: não lhe pergunteis mais, por quem sois. Carlos estava seguro, dizia eu, que todas essas perfeições, que o seu amor sem limites, que a sua confiança sem reserva, não podiam ter rival, nem a haviam de ter.Mas aquelle beijo, aquelle abraço de Joanninha... oh! que lhe tinha elle feito? Como o sentíra elle? Como lhe guardára o seu talisman o coração e a alma?..Não, Carlos estava certo de si, certo do seu antigo amor, lembrado de quanto lhe devia: e n'isso reflectiu toda aquella noite que se fôra em claro.A imagem de Joanninha lá apparecia, de vez em quando, como um raio de luz transiente e magica, no meio d'ess'outras visões do passado que a reflexão lhe acordava. Ai! essas era a reflexão que as acordava... aquella vinha espontanea; era repellida, e tornava, e tornava...Ha sua notavel differença n'estes dois modos de accudir ao pensamento.A manhan veio em fim; Carlos respirou o ar puro e vivo da madrugada, sentiu-se outro.Quando chegou a carta de Joanninha, leu-a e reflectiu n'ella sem sobresalto. Certo e seguro de si, resolveu ir ao prazo dado para a tarde.CAPITULO XXIII.

Guerra de postos avançados. Joanninha no bivac—De como os rouxinoes do valle se disciplinaram a ponto de tocar a alvorada e a retreta.—Quem era a 'menina dos rouxinoes,' e porque lhe poseram este nome.—A sentinella perdida e achada.

Joanninha adormecida—Odemi-jourda coquette.—Poesia do Flos-sanctorum*.—De como os rouxinoes acompanhavam sempre a menina do seu nome; e do bem que um d'elles cantava no bivac.—Retratto esquissado á pressa para satisfazer ás amaveis leitoras.—Pondera-se o triste e pessimo gôsto dos nossos governantes em tirarem as honras militares ao mais elegante e mais nacional uniforme do exército portuguez.—Em que se parece o auctor da presente obra com um pintor da edade-média.—De como os abraços, por mais apertados que sejam, e os beijos, por mais interminaveis que pareçam, sempre teem de acabar porfim.

Quem vem lá?—Como entre dous litigantes nem sempre gosa o terceiro.—Carlos e Joanninha n'uma especie de situaçãoordeira, a mais perigosa e falsa das situações.

Bilhete de manhan da prima ao primo. Inganam a pobre da velha.—Noite mal dormida.—Da conversa que teve Carlos com os seus botões.—A Joanninha que elle deixára e a Joanninha que achou.—Obrigações d'amor, triste palavra.—A mulher que elle amava, e se elle a amava ainda.—Quesitos do A. aos seus benevolos leitores. Declara que com os hypocritas não falla.—Quem hade levantar a primeira pedra?—Dous modos differentes de accudir uma coisa ao pensamento.


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