CAPITULO XXIV.

Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.—Dança de fadas e duendes.—Fr. Diniz o fado-mau da familia.—Veremos, é a grande resolução nas grandes difficuldades.—Carlos poeta romantico.—Olhos verdes.—Desafio a todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.Não ha nada como tomar uma resolução.Mas hade tomar-se e executar-se: aliás, se o caso é difficil e complicado, pouco a pouco asdúvidas solvidas começam a inliar-se outra vez, a inredar-se... a surgir outras novas, a appresentarem-se faces ainda não vistas da questão... em fim, se o intervallo é largo, quando a resolução tomada chega a executar-se, a maior parte das vezes ja não é por fôrça de razão e convicção que se faz, mas por capricho, ponto d'honra, teima.Carlos tinha resolvido ir ao prazo dado, no fim do dia. Mas o dia era longo, custou-lhe a passar. Todas as ponderações da noite lhe recorreram ao pensamento, todas as imagens que lhe tinham fluctuado no espirito se avivaram, se animaram, e lhe começaram a dançar n'alma aquella dança de fadas e duendes que faz a delicia e os tormentos d'estes sonhadores acordados que andam pelo mundo e a quem a douta faculdade chamanervosos; em stylo de romancesensiveis, na phrase popularmalucos.Carlos era tudo isso: para que o heide eu negar?Entre aquellas imagens que assim lhe bailavam no pensamento, vinha uma agora... talvez a queelle via mais distincta entre todas, a da avó que tanto amára, em cujo maternal coração elle bem sabía que tinha a primeira, a maior parte... da avó que tam carinhosa mãe lhe tinha sido! Pobre velhinha, hoje decrepita e cega... Cega, coitada! Como e porque cegaria ella?Havia ahi mysterio que Joanninha indicára, mas que não explicou.Atraz da paciente e humilhada figura d'aquella mulher de dores e desgraças, se erguia um vulto austero e duro, um homem armado da cabeça aos pés de ascetica insensibilidade, um homem que parecia o fado-mau d'aquella velha, de toda a sua familia... o cumplice e o verdugo de um grande crime... um ser de mysterio e de terror.Era Fr. Diniz aquelle homem; homem que elle desejava, que elle cuidava detestar, mas por quem, no fundo d'alma, lhe clamava uma voz mystica e íntima, uma voz que lhe dizia: 'Assim será tudo, mas tu não pódes abhorrecer esse homem.'Sim, mas sôbre Fr. Diniz pesava uma accusação tremenda, que o fizera, a elle Carlos, abandonara casa de seus paes! Accusação horrivel que tambem comprehendia a pobre velha, aquella avó que o adorava, e que elle, ainda criminosa como a suppunha, não podia deixar de amar...E d'estes medonhos segredos sabía Joanninha alguma coisa?Esperava em Deus que não.Desconfiaria alguma coisa?... O quê?E iria elle polluir o pensamento, desflorar os ouvidos, corromper os labios da innocente criança com o esclarecimento de taes horrores?Havia de lhe fallar na infamia dos seus? Havia de lhe explicar o motivo porque fugira da casa paterna?Havia de?..Não.—Se Joanninha tivesse suspeitas, havia de destrui-las antes; se ella soubesse alguma coisa, negar-lh'a.Mentiria, juraria falso se fosse preciso.E não havia de ir ver a avó, não havia de entrar na casa dos seus a consolar a infeliz que só vivia d'uma esperança, a de ver o filho de sua filha?Não, nunca... O limiar d'aquella porta, que elle julgava contaminado, infame, manchado de sangue e cuspido de opprobrios e deshonras, tinha-o passado sacudindo o po de seus sapatos, promettendo a Deus e á sua honra de o não tornar a cruzar mais.Mas que diria então elle a Joanninha? Como havia de explicar-lhe um proceder tam extranho, e apparentemente tam cruel, tam ingrato?Por emquanto as impossibilidades materiaes da guerra serviriam de desculpa, depois o tempo daria conselho.Veremos!—é a grande resolução que se toma nas grandes difficuldades da vida, sempre que é possivel espaçá-las.Carlos disse: 'Veremos!'Tomou todas as disposições para podêr estar seguro e socegado no sítio onde ia incontrar a prima: e o resto do dia, ancioso mas contente, occupou-se de seus deveres militares, fatigou o corpo para descançar o espirito, e em parte e por bastantes horas o conseguiu.Mas um dia de abril é immenso, interminavel. E as últimas horas pareciam as mais compridas. Nunca houve horas tammanhas! Carlos ja não tinha que inventar para fazer: pôz-se a pensar.Que remedio!Pensou n'isto, pensou n'aquillo... uma idea lhe vinha, outra se lhe ia. A imaginação, tanto tempo comprimida, tomava o freio nos dentes e corria á redea sôlta pelo espaço...Anneis dourados, transas de ebano, faces de leite e rosas como de cherubins, outras pallidas, transparentes, diaphanas como de princezas incantadas, olhos pretos, azues, verdes... os de Joanninha em fim... todas éstas feições, confusas e indistinctas mas de estremada belleza todas, lhe passavam deante da vista, e todas oinfeitiçavam. Odesgraçado...—Porque não heide eu dizer a verdade?—o desgraçado era poeta.Inda assim! não me esconjurem ja o rapaz... Poeta, intendamo'-nos; não é que fizesse versos: n'essa não cahiu elle nunca, mas tinha aquelle fino sentimento d'arte, aquelle sexto sentido dobello, doidealque so teem certas organizações privilegiadas de que se fazem os poetas e os artistas.Eis aqui um fragmento de suas aspirações poeticas. Vejam as amaveis leitoras que não teem metro, nem rhyma—nem razão... Mas emfim versos não são.'Olhos verdes!..'Joanninha tem os olhos verdes...'Não se reflecte n'elles a pura luz do ceo, como nos olhos azues.'Nem o fogo—e o fummo das paixões, como nos pretos.'Mas o viço do prado, a frescura e animação do bosque, a fluctuação e a transparencia do mar...'Tudo está n'aquelles olhos verdes.'Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?'Nos olhos azues de Georgina arde, em sereno e modesto brilho, a luz tranquilla de um amor provado, seguro, que deu quanto havia de dar, quanto tinha que dar.'Os olhos azues de Georgina não dizem senão uma so phrase d'amor, sempre a mesma e sempre bella:Amo-te, sou tua!'Nos olhos negros e inquietos de Soledade nunca li mais que éstas palavras:Ama-me, que es meu!'Os olhos de Joanninha são um livro immenso, escripto em characteres moveis, cujas combinações infinitas excedem a minha comprehensão.'Que querem dizer os teus olhos, Joanninha?'Que lingua fallam eles?'Oh! paraque tens tu os olhos verdes, Joanninha?'A assucena e o jasmim são brancos, a rosa vermelha, o alecrim azul...'Roxa é a violeta, e o junquilho côr de ouro.'Mas todas as côres da natureza vêem de uma so, o verde.'No verde está a origem e o primeiro typo de toda a belleza.'As outras côres são parte d'ella; no verde está o todo, a unidade da formosura creada.'Os olhos do primeiro homem deviam de ser verdes.'O ceo é azul...'A noite é negra...'A terra e o mar são verdes...'A noite é negra mas bella: e os teus olhos, Soledade, eram negros e bellos como a noite.'Nas trevas da noite luzem as estrellas que são tam lindas... mas no fim de uma longa noite quem não suspira pelo dia?'E que se vão... oh! que se vão emfim as estrellas!..'Vem o dia... o ceo é azul e formoso: mas a vista fatiga-se de olhar para elle.'Oh! o ceo é azul como os teus olhos, Georgina...'Mas a terra é verde: e a vista repousa-se n'ella, e não se cança na variedade infinita de seus matizes tam suaves.'O mar é verde e fluctuante... Mas oh! esse é triste como a terra é alegre.'A vida compõe-se de alegrias e tristezas...'O verde é triste e alegre como as felicidades da vida.'Joanninha, Joanninha, porque tens tu os olhos verdes?..'Ja se vê que o nosso doutor de bivac, o soldado que lhe chamoumalucoao pensador de taes extravagancias, tinha razão e sabía o que dizia.Infelizmente não se formulavam em palavras estes pensamentos poeticos tam sublimes. Por um processo milagroso de photographia mental, apenas se pôde obter o fragmento que deixo transcripto.Que honra e glória para a eschola romantica se podessemos ter a collecção completa!Fazia-se-lhe um prefacio incisivo, palpitante,britante....Punha-se-lhe um titulo vaporoso, phosphorescente... por exemplo:—Echos surdos do coração—ou—Reflexos d'alma—ou—Hymnos invisiveis—ou—Pesadellos poeticos—ou qualquer outro d'este genero, que se não soubesse bem o que era nem tivesse senso commum.E que viesse ca algum menestrel de frak echapeu redondo, algum trovador renascença de collete á Joinville, luctar com o meu Carlos em pontos de romantismo vago, descabellado, vaporoso, e nebuloso!Se algum d'elles era capaz de escrever com menos logica,—(com menos grammatica, sim) e com mais triumphante desprêzo das absurdas e escravizantes regras d'essa paleta d'essa eschola classica que não produziu nunca senão Homero e Virgilio, Sophocles e Horacio, Camões e o Tasso, Corneille e Racine, Pope e Moliere, e mais algumas duzias de outros nomes tam obscuros como estes?CAPITULO XXIV.Novo Génesis.—O Adam social muito differente do Adam natural.—Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por suas más reflexões.—De como Joanninha recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre elles se passou.—Dor meia dor, meia prazer.Formou Deus o homem, e o pôs n'um paraizo de delicias; tornou a formá-lo a sociedade, e o pôs n'um inferno de tolices.O homem—não o homem que Deus fez,mas o homem que a sociedade tem contrafeito, appertando e forçando em seus moldes de ferro aquella pasta de limo que no paraizo terreal se affeiçoára a imagem da divindade—o homem, assim aleijado como nós o conhecêmos, é o animal mais absurdo, o mais disparatado e incongruente que habita na terra.Rei nascido de todo o creado, perdeu a realeza; principe desherdado e proscripto, hoje vaga foragido no meio de seus antigos estados; altivo ainda e suberbo com as recordações do passado, baixo vil e miseravel pela desgraça do presente.D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal D'estas duas tam oppostas actuações constantes, que ja per si sos o tornariam ridiculo, formou a sociedade, em sua van sabedoria, um systema chymerico, desarrazoado e impossivel, complicado de regras a qual mais desvairada, incontrado de repugnancias a qual mais opposta. E vazado este perfeito modêlo de sua arte pretenciosa, metteu dentro d'elle o homem, desfigurou-o, contorceu-o, fê-lo o tal ente absurdo e disparatado, doente, fraco, rachitico; collocou-o no meio do Eden phantastico de sua creação,—verdadeiroinferno de tolices—e disse-lhe, invertendo com blasphêmo arremêdo as palavras de Deus Creador:'De nenhuma árvore da horta comendo comerás;'Porêm da árvore da sciencia do bem e do mal, d'ella so comerás se quizeres viver.'Indigestão de sciencia que não commutou seu mau estomago, presumpção e vaidade que d'ella se originaram—tal foi o resultado d'aquele preceito a que o homem não desobedeceu como ao outro: tal é o seu estado habitual.E quando as memorias da primeira existencia lhe fazem nascer o desejo de sahir d'esta outra, lhe influem alguma aspiração de voltar á natureza e a Deus, a sociedade, armada de suas barras de ferro, vem sôbre elle, e o prende, e o esmaga, e o contorce de novo, e o apperta no equuleo doloroso de suas fôrmas.Ou hade morrer ou ficar monstruoso e aleijão.Poucos filhos do Adam social tinham tantas reminiscencias da outra patria mais antiga, e tendiam tanto a aproximar-se do primitivo typo que sahíra das mãos do Eterno, forcejavam tanto por sacudir de si o pesado appêrto das constricções sociaes, e regenerar-se na sancta liberdade da natureza, como era o nosso Carlos.Mas o melhor e o mais generoso dos homens segundo a sociedade, é ainda fraco, falso e acanhado.Demais, cada tentativa nobre, cada aspiração elevada de sua alma lhe tinha custado duros castigos, severas e injustas condemnações d'esse grande juiz hypocrita, mentiroso e venal... o mundo.Carlos estava quasi como os mais homens... ainda era bom e verdadeiro no primeiro impulso de sua natureza excepcional; mas a reflexão descia-o á vulgaridade da fraqueza, da hypocrisia, da mentira commum.Dos melhores era, mas era homem.Os seus pensamentos, as suas considerações em toda aquella noite, em todo o dia que a seguíra, na hora mesma em que ia incontrar-se com o objecto que mais lhe prendia agora o espírito, senão é que tambem o coração, todas participavam d'aquella fluctuação inquieta e doentia de seu ser d'homem social, em quem o tibio reflexo do homem natural apenas relampejava por acaso.Dúvida, incerteza, vaidade, mentira deslocavam e annullavam a bella organização d'aquella alma.Assim chegou aopé de Joanninha que o esperava de braços abertos, que o appertou n'elles, que o beijou sem nenhum falso recato de maliciosa modestia, e com o riso da alegria no coração e na bôcca lhe disse:—'Ora pois, meu Carlos, sentemo-nos aqui bem junctos aopé um do outro e conversemos, que temos muito que fallar. Dá ca a tua mão. Aqui na minha... Está fria a tua mão hoje! Ehontem tam quente estava!.. Oh! agora vai aquecendo... tanto tanto... é demais! Terás tu febre?'—'Não tenho.'—'Não tens, não: a cara é de saude. E como tu estás forte, grande, um homem como eu sempre imaginei que um homem devia ser, como sempre te via nos meus sonhos!.. Que é extranho isto, Carlos: quando sonhava comtigo, não te via como tu d'aqui foste, magro, triste e doente; via-te como vens agora, forte, são, alegre. Mas tu não estás alegre hoje, como hontem; não estás... Que tens tu?'—'Nada, querida Joanninha, não tenho nada. Pensava...'—'Em que pensas tu? dize-me.'—'Pensava na differença dos nossos sonhos: que eu tambem sonhava comtigo.'—'Sonhavas, Carlos! E como sonhavas tu? como me vias nos teus sonhos?'—'Tudo pelo contrario do que tu. Via-te aquella Joanninha piquena, desinquieta, travêssa, correndo por essas terras, saltando essas vallas, trepando a essas árvores... aquella Joanninha com quem eu andava ao collo, que trazia ás cavalleiras, que me fazia ser tam doido e tam criança como ella, apezar de eu ter quinze annos mais. Via-te alegre, cantando...'—'Sonhos de homem! Creiam n'elles! Eu que nunca mais ri nem brinquei desde o dia que tu partiste... E oh que dia, Carlos!.. E os que vieram depois! Não houve nunca mais um so dia de alegria n'ésta casa. Oh!.. deixa-me te dizer: Fr. Diniz... Sabes que não gósto d'elle?'—'Não gostas?'—'Nada: tenho-lhe aversão. E Deus me perdoe! parece-me que é injusta a minha antipathia.'—'Porquê?'—'Porque elle é teu amigo devéras. Um pae, Carlos, um pae não tem maior ternura e desvellos por seu filho, do que elle tem por ti.'—'Deus lhe perdoe!'—'Deus lhe perdoe a quem...e que lhe hade perdoar? O amor que te tem?'—'Não, mas...'—'Bem sei o que queres dizer: e tens razão.'—'Tenho razão!'—'Tens: o que elle bem precisa que Deus lhe perdoe é um grande peccado.'—'Que dizes tu, Joanna! E como sabes?'—'Sei, sei tudo.'—'Tu!'—'Eu. Sei que foi elle quem fez cegar minha avó... a nossa boa, a nossa sancta avó, Carlos!.. quem a cegou á fôrça de lagrymas que lhe fez chorar áquelles pobres olhos que, de puro cançados, se apagaram para sempre... Minha ricca avó!—E porquê, meus Deus, porquê!'—'Porquê?'—'Por amor de ti, por escrupulos que lhe metteu na cabeça de tu seres mau christão, inimigo de Deus, que te não podias salvar... tu meu Carlos! Vê que cegueira a do triste frade.'—'Bem triste!'—'Mas olha que o diz de boa-fé e pelo muito amor que te tem... que é um amor que eu não intendo: e o mesmo é com minha avó, que treme deante d'elle. E mais elle estima-a, estou certa que dava a vida por ella... e por nós todos... por mim não tanto, mas por ti e por ella, dava decerto. Mas o seu amor é dos que rallam, que, apoquentam... quasi que estou em dizer que matam.'—'Matam, matam!'—'Nossa avó é elle que a mata decerto. Sempre a metter-lhe medos, sempre escrupulos! O seu Deus d'elle é um Deus de terrores, de vinganças, de castigos, e sem nenhuma misericordia. Oh! que homem! para elle tudo é peccado, maldade... Não o posso ver.'Carlos respirava como desopprimido de um grande pêso, ouvindo as explicações da prima que bem claro lhe mostravam a sua perfeita ignorancia dos fataes segredos da familia.—'E comtigo' disse elle ja n'outra voz mais desaffogada 'comtigo, Joanninha, como se avêm elle, como te tracta?'—'Commigo não se mette, e rara vez me falla. Mas oh, se elle soubesse que eu estava aqui comtigo, sancto Deus! o que ouviria a pobre da minha avó! Inda bem que hoje não é sexta-feira, senão não vinha eu ca.'—'Porquê? Ainda vem todas as sexta-feiras?'—'Sempre o mesmo. Ámanhan ca o temos por peccado, que é sexta-feira.'—'Não te vejo então ámanhan aqui?'—'Não decerto, aqui. Mas vamos, que a isso é que eu venho ca hoje, para te fallar n'isso... e para te ver, para fallar comtigo, para estarcom o meu Carlos... e ao mesmo tempo tambem para ajustarmos como isto hade ser. Quando has-de tu ir ver a avó?.. a nossa mãe; que ella é nossa mãe, Carlos, não conhecémos nunca outra, nem eu nem tu. Quando lhe heide eu dizer que estás aqui? A pobre velhinha está tam doente! Ha quinze dias que se não levanta da cama.'—'Coitada da minha pobre mãe!.. Oh! se não fosse!.. Deixa estar, Joanninha; um dia será. Por agora, não póde ser: bem vês. Como heide eu atravessar as sentinellas dos realistas, ir a um pôsto inimigo?—A minha vida... isso pouco importa, mas a minha honra ficava em perigo: por todos os modos a perdia, e talvez...'—'Não senhor, Sr. Carlos, essa desculpa não basta. Vai n'um anno que aqui temos a guerra á porta de casa, e ja sabemos como isso é e como as coisas se fazem. O commandante do nosso pôsto é um homem de bem, um cavalheiro perfeito. Em lhe eu dizendo quem tu es e a que ca vens... elle sabe o estado da minha avó, e tem-lhe muita amizade, da-nos decerto licença para tu vires em toda a segurança. Pensas que elle não sabe que estou comtigo aqui?Pois disse-lh'o eu; só lhe não expliquei quem tu eras; disse-lhe que eras um parente nosso que nos trazia notícias de outros, e que precisava fallar-te. Não pôs dificuldade alguma: é uma pessoa excellente, bom, bom devéras.'—'É môço o teu commandante?'—'Môço elle? coitado! Tem bons cinquenta annos, e creio que outros tantos filhos. Mas por que perguntas tu isso? E arqueaste as sobrancelhas com aquelle teu ar de antes quando te zangavas! Porque foi isso, Carlos?'—'Nada, criança, foi uma pergunta á toa.'—'Pois será; mas não me franzas nunca mais a testa assim, que te pareces todo... é que nunca vi tal parecença...'—'Com quem?'—'Com Fr. Diniz.'—'Eu com elle!'—'Tal e qual quando fazes essa cara. Olha: ahi estás tu na mesma. Vamos! ria-se e esteja contente se se quer parecer commigo, que todos dizem que nos parecemos tanto.'—'Querida innocente!'E beijou-lhe a mão que tinha appertada na sua, beijou-lh'a uma e muitas vezes com um sentimento de ternura misturado de não sei que vaga compaixão, vindo de lá de dentro d'alma com não sei que dor, meia dor meia prazer, que entre ambos se communicou e a ambos humedeceu os olhos.CAPITULO XXV.O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.—Pasmosa contradicção da nossa natureza.—De como os olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.—Que o coração da mulher que ama, sempre adivinha certo.Carlos tinha a mão de Joanninha appertada na sua; e os olhos humidos de lagrymas cravados nos olhos d'ella, de cujo verde transparente e diaphano sahiam raios de ineffavel ternura.Dizer tudo o que elle sentia é impossivel: tam incontrados lhe andavam os pensamentos, em tam confuso tumulto se lhe alvorotavam todos os sentidos.Por muito tempo não proferiram palavra, nem um nem outro; mas fallaram assim longos discursos.Emfim, Joanninha voltou á sua primeira insistencia e disse para o primo:—'Olha, Carlos, ámanhan é sexta-feira, ja te disse, vem Fr. Diniz: quando haja a menor difficuldade do commandante, a elle não lhe recusa nada...'—'Por quanto ha no ceo, Joanninha, pela tua vida, pela de nossa avó, nem uma palavra ao frade da minha estada aqui! A elle, oh! a elle jurei eu não tornar a ver. E se minha avó...'—'Basta: não lhe direi nada. Mas á nossa avó quando lh'o heide dizer, e quando hasde tu ir ve-la?'—'Porora não: preciso licença de Lisboa,ou do quartel-general quando menos, para fazer uma coisa que todas as leis da guerra prohibem, que nas actuaes circumstancias e em similhante guerra ainda é mais defesa. E sem isso—tu bem sabes que as minhas resoluções não se mudam—sem isso não o faço. Em todo o caso, que Fr. Diniz nem sonhe!..'—'E quanto tempo, quantos dias se hãode passar?'—'Eu sei? oito, quinze dias talvez, talvez mais.'—'E a minha pobre avó, coitadinha! a morrer de saudades...'—'Consola-a tu, Joanninha: dize-lhe que tiveste novas minhas, que estou bom, que me não falta nada, que tenho esperanças de vos ver muito cedo.'—'E eu... eu posso, eu heide ver-te todos os dias: não, Carlos?'—'Ámanhan é sexta-feira...'—'Ámanhan é o dia negro... nem eu queria: ámanhan não póde ser, bem sei. Mas, tirado ámanhan, meu Carlos, oh! todos os dias!'—'Sim, querido anjo, sim.'—'Promettes?'—'Juro-t'o.'—'Succeda o que succeder?'—'Succeda o que... So ha uma coisa que... Mas essa não... não é possivel.'—'O que é, Carlos? que póde haver, que póde succeder que te impeça de?..'Carlos estremeceu... hesitou, corou, fez-se pallido... quiz dizer-lhe a verdade e não ousou...Porquê?.. E que verdade era essa? Não a direi eu, ja que elle a não disse: fiel e discreto historiador, imitarei a discrição do meu heroe.Pois era discrição a d'elle?Não... em verdade, era outra coisa.Era um pensamento reservado?Não.Era tenção má, ingano premeditado, era?..Não, tambem não.O que era pois?Era a dúvida, era a fraqueza, era a vaidade, a mentira congenial e obrigada, a necessaria falsidade do homem social.Carlos mentiu e disse:—'Só se m'o prohibirem expressamente... os meus chefes.'Mas não era isso o que elle receiava; não era esse aquelle motivo unico e superior que elle temia podesse vir um dia derepente cortar as docesrelações de convivencia a que tam prestes se habituára, que ja lhe pareciam parte necessaria, indispensavel da sua vida. Não era, não; e Carlos tinha mentido...Joanninha olhou para elle fixa... Carlos corou de novo. Ella fez-se pallida... d'ahi corou tambem.—'Carlos, tu não es capaz de mentir...'—'Joanninha!'—'Tu es o meu Carlos... tu queres-me como me querias d'antes...'—'Sou... oh! sou. E amo-te...'—'Como d'antes?'—'Mais.'—'Pois olha, Carlos: eu nunca amei, nunca heide amar a nenhum homem senão a ti.'—'Joanna!'—'Carlos!'Iam a cahir nos braços um do outro... A singela confissão da innocencia ia ser acceita por quem e como, sancto Deus! Aquella palavra de oiro, aquella doce palavra que tanto custa a pronunciar á mulher menos arteira; que adivinhada, sabida, ouvida ha muito pelo coração, ditta mil vezes com os olhos, nenhum homem descança nem se tem por feliz, por certo de sua felicidade, em quanto a não ouve proferir pelos labios—essa palavra celeste que explica o passado, que responde do futuro, que é a última e irrevocavel sentença de um longo pleito de anciedades, de incertezas e de sustos—essa final e fatal palavraamo-te, Joanninha a pronunciára tam naturalmente, tam sincera, tam sem difficuldades nem hesitações, como se aquelle fosse—e era decerto—como se aquelle tivesse sido sempre o pensamento unico, a idea constante e habitual de sua vida.O excesso da felicidade aterra e confunde tambem. Um momento antes, Carlos dera a sua vida por ouvir aquella palavra... um momento depois—oh pasmosa contradicção de nossa dupplicenatureza! um momento depois dera a vida pela não ter ouvido. No primeiro instante ia lançar-se nos braços da innocente que lh'os abria n'um sancto extasi do mais apaixonado amor; no segundo, tremeu e teve horror da sua felicidade.—'Joanna' exclamou elle 'Joanna, querida, sabes tu se eu mereço... sabes tu se deves?..'—'Sei. Desde que me intendo, não pensei n'outra coisa; desde que d'aqui foste, comecei a intender o que pensava... disse-o a minha avó, e ella...'—'E ella?..'—'Ella abençoou-me, chamou-me a sua querida filha, abraçou-me, beijou-me, e disse-me que aquella era a primeira hora de felicidade e de alegria que ha muitos annos tinha tido.'Carlos não respondeu nada e olhou para Joanninha com uma indicivel expressão de affecto e de tristeza. Os raios de alegria que resplandeciam n'aquelle semblante—agora bello de toda a belleza com que um verdadeiro amor illuminaas mais desgraciosas feições—os raios d'essa alegria começaram a amortecer, a apagar-se. A lucida transparencia d'aquelles olhos verdes turvou-se: nem a clara luz da agua-marinha, nem o brilho fundo da esmeralda resplandecia ja n'elles; tinham o lustro baço e morto, o polido mate e silicioso de uma d'essas pedras sem agua nem brilho que a arte antiga ingastava nos collares de suas estátuas.—'Adeus Joanna!' disse Carlos perturbado e confuso.—'Adeus, Carlos!' respondeu ella machinalmente.—'Até depois de ámanhan, Joanna.'—'Pois sim.'—'Depois de ámanhan te direi...'—'Não digas.'—'Porquê?'—'Porque é excusado: ja sei tudo.'—'Sabes!'—'Sei.'—'O quê?'—'O que tu não tens ânimo para me dizer, Carlos; mas que o meu coração adivinhou. Tu não me amas, Carlos.'—'Não te amo! eu!.. Sancto Deus! eu não a amo...'—'Não. Tu amas outra mulher.'—'Eu! Joanna, oh! se tu soubesses...'—'Sei tudo.'—'Não sabes.'—'Sei: amas outra mulher, outra mulher que te ama, que tu não pódes, que tu não deves abandonar, e que eu...'—'Tu?'—'Eu sei que é bella, prendada, cheia de graças e de incantos, porque... porque tu, meu Carlos, porque o teu amor não era para se dar por menos.'—'Joanna, Joanninha!'—'Não digas nada, não me digas nada hoje... hoje sobretudo, não me digas nada. Ámanhan...'—'Ámanhan é sexta-feira.'—'Inda bem! terei mais tempo para reflectir, para considerar antes de tornar a ver-te. Adeus Carlos!'—'Uma palavra so, Joanna. Cuidas que sou capaz de te inganar?'—'Não; estou certa que não.'—'Até ámanhan... até depois de ámanhan.'—'Adeus!'Abraçaram-se, e d'esta vez froixamente; beijaram-se de um osculo timido e recatado... os beiços de ambos estavam frios, as mãos trémulas; e o coração comprimido batia, batia-lhes forte que se ouvia.Retirou-se cadaum por seu lado. A noite estava pura e serena como na vespera, as estrellas luziam no ceo azul com o mesmo brilho; o silencio, a majestade, a belleza toda da natureza era a mesma... so elles eram outros... outros, tam outros e differentes do que foram!Tinham-se dado cuidadosamente as providencias; ambos chegaram, sem nenhum accidente, ao seu destino.NOTASNOTASAO LIVRO PRIMEIRO.Nota A.

Continúa a accudir muita coisa vaga e incontrada ao pensamento de Carlos.—Dança de fadas e duendes.—Fr. Diniz o fado-mau da familia.—Veremos, é a grande resolução nas grandes difficuldades.—Carlos poeta romantico.—Olhos verdes.—Desafio a todos os poetas moyen-ages do nosso tempo.

Novo Génesis.—O Adam social muito differente do Adam natural.—Carlos sempre um por seus bons instinctos, sempre outro por suas más reflexões.—De como Joanninha recebeu o primo com os braços abertos, e do mais que entre elles se passou.—Dor meia dor, meia prazer.

O excesso da felicidade que aterra e confunde tambem.—Pasmosa contradicção da nossa natureza.—De como os olhos verdes de Joanninha se inturvaram e perderam todo o brilho.—Que o coração da mulher que ama, sempre adivinha certo.


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