IX

—Opporiamos programma a programma, tradição a tradição, doutrina a doutrina, mas quando tentassemos oppôr invectiva a invectiva, injuria a injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do campo regenerador achariam um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva de Carvalho.Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido, porque a calumnia não existiria.N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto por morto, tumulo por tumulo, as condições eram iguaes.Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar no deserto!Dezembro de 1882.[6][5]Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.[6]Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido e... visto!—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.{89}IXFontes Pereira de MelloA morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia.Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas, vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S. Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitára até á ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo José Braamcamp, o successor do duque de Loulé na chefatura do partido progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno, e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagração da morte, era já uma gloria nacional.É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda,{90}para fazer historia. Todavia eu não duvido affirmar desde já que, depois do marquez de Pombal, não tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor.Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello.Não são certamente dois reformadores da mesma indole, mas são, indiscutivelmente, dois grandes reformadores.O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional, animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que acontecese.Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda convulsão subterranea, mas um terremoto não menos perigoso e devastador havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira de Mello appareceu na scena politica com o movimento chamado daregeneração, palavra que é ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado e sempre querido.A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanças desorganisadas; os empregados do estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra viera a revolução, que é como o rescaldo de um grande incendio: á menor viração que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a administração publica na grande complexidade dos seus elementos componentes.{91}Pois bem, essa ardua missão coube a um homem novo, a um rapaz de pouco mais de trinta annos, o desempenhal-a.O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz.Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade poderosa de um estadista eminente.O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra.E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração, creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:—Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para que a consolide e complete.Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas{92}com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz.A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento ingenuo e sincero.Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão grandioso elle foi.Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital.Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por{93}onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre.E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára para o povo.Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que trabalham.Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e da cultura.Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para colher, a demolir o passado para construir o futuro.Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os outros.E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.Parar é morrer.Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham por si mesmos.Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que{94}tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal.Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.**     *Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.—Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o.Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço.—Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N.—Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M.{95}Eu vi-me obrigado a obtemperar:—Estou ás ordens de v. ex.asEntão o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse cartas.Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas—um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra occasião.A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis.Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por origem uma confissão ingenua.—Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. Nunca esta cifra me esqueceu.Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,{96}o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete...Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, doisfadistasparados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na almofada.—Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse.Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a historia, a que achava graça.**     *De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:—Tem muito empenho n'isto?—Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero.{97}Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me:—V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.Janeiro de 1887.[7]Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.{98}XAntonio Augusto de AguiarQuem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras vezes com vaga tristeza—que é talvez o estado mais doloroso da alma—desejado a morte?Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais tranquillo do que este...Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez sequer.A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não.Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se{99}na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa...Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido.Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.Estavamos, não sei quantos—poucos eram—no club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,{100}com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito longe de Lisboa—essa grande cidade ruidosa, que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, mas de que nós, aqui na Ericeira, apenasconservavamosuma vaga recordação...Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das mãos, a mala de couro na outra.O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades.Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas de jornaes—progressistas, regeneradores, republicanos—e algumas cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma verdadeira alluvião.E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o outro:—V. ex.ª hoje não tem nada.—Aqui estão os seus jornaes.—V. ex.ª tem só uma carta.—Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª{101}Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:—Morreu o Aguiar!—Quem? O que?!—Morreu o Aguiar!—O Antonio Augusto?!—Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, procurando os pormenores, lendo e dizendo:—De repente... de umaangina pectoris... ainda ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado norestaurant Rosa Araujocom o Luciano Cordeiro e com outro.Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes o referiam.Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado para domingo.Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão geral:—Um homem serio...{102}—Um homem de talento...—Um homem de saber...—Um bom caracter...—Um homem digno...Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo issoelle fôra, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que humilhar-se deante dos mortos.Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo tranquillamente o seu charuto:—Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos{103}sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.Eu gosto mais d'estes ultimos.1887.{104}XIMendes LealDois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a adoptar-lhe o nome.E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida.Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas{105}foi o romance historicoRáusso por homizio, publicado em 1842 naRevista universal Lisbonense. Com razão dizia aRevistareferindo-se a este romance: «Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu auctor:—que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito—¡quem no acreditaria!—¡de vinte annos!»Assombroso, em verdade.Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração.Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal.Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da epopea: hajam vista oPavilhão negro,Ave Cesar,Napoleão no Kremlin.Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro—e foi muito—póde ter defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento desavoir faire, opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde osDois renegadosaté aosPrimeiros amores de Bocage, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero e de cada época.Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem de lettras.Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de espirito.Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de modelo aos que, dentro e{106}fóra da camara, presam a lingua portugueza através dos arrebatamentos da paixão partidaria.Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle.Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por Mendes Leal—a quem, na dedicatoria do primeiro livro dasGeorgicas, divinamente traduzidas, chamou—caro Leal, gloria da terra lusa.Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas dehigh life.A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. Assim fomos conversando até{107}ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura intituladaHommage aux lettres latines, as suas ultimas composições poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e pendendo á terra.A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para depreciar um escriptor fallecido—especialmente para aprecial-o. Quanto tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle cantou em 1857 na poesiaMare magnum. A descripção dasfurnas, tão bellas e tão agrestes, é de mão de mestre:Não vos lembraes?—Além do manso pego,O mar, que vem do largo, e que não cessa,Da vaga arquea a cuspide irritada,E, com impeto cego,Á insensata escaladaDos immoveis penhascos se arremessa.Quem ha de commetter a louca empresaDe tentar a passagem tortuosaQue alguma convulsão da naturezaAbriu sobre a voragem tenebrosa?{108}Do rolo immenso a curva ameaçadoraInveste, galga, apruma-se, desaba;E quando o turbilhão que o ar devora,Trovejando rebenta,Parece que á tormentaA terra não resiste e o mundo acaba.Pelas rugas da penha sacudida,—De niveos flocos inda guarnecida,—Depois que o mar bramindo atraz volvêra,Um veio d'agua, rapido e sombrio,Deslisa; qual em rude face austeraDe um triste ancião, que a idade encanecêra,O pranto corre em fio.Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra asfurnasda Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente o nome de Mendes Leal.O oceano vingará a ingratidão dos homens.{109}XIIGonçalves CrespoTendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos primeiros annos da sua vida, e da minha.Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este pensamento de Garrett:Saudade, gosto amargo de infelizes,Delicioso pungir de acerbo espinho.Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á saudadeum mal de que se gosta, e um bem que se padece; comprehendi o rei D. Duarte quando{110}noLeal conselheiroescreveu da saudade com uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração...Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei.Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora—melhor por certo do que nunca.Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas creanças.Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços.Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos habituaes, que eu já historiei{111}largamente no livroAtravez do passado—o meu primeiro livro de saudades.Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o Angelo, um gallego.Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada o primor da suatoilette, quasi sempre irreprehensivel.Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e romances[8]; mas Gonçalves Crespoflanavaa pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento poetico com a publicação dasMiniaturas.Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo frequentava oCafé Portuense, na Praça Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando as nossas façanhas anti-ibericas.Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel era para mim. A amizade cegava-o.Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nosHomens e letras, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar{112}a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente está em Lisboa.Crespo dera-merendez-vouspara a noite, na livraria do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves Crespo viera passar o serão comigo noHotel dos caminhos de ferro, onde eu estava hospedado.Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como poeta.Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao capricho da sua inspiração, e no sonetoAnimal bravio, offerecido a mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica do seu espirito:{113}Preferiras um ramo caprichosoDe escolha rara e de um concerto fino,Onde visses o cacto purpurinoE os nevados jasmins do Tormentoso.Em vez do ramo exotico e oloroso,Casto recreio d'esse olhar divino,Acceita, Eugenia, este animal felino,Que o meu braço subjuga vigoroso.Tive artes de o amansar: eil-o sereno!Acode a minha voz, e ao meu acenoComo um jaguar a voz de um saltimbanco...Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!E á doce Eugenia, do sorriso honesto,A fimbria oscule do vestido branco!Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello soneto, que me offerecia, e que publicou depois nosNocturnos:ODOR DI FEMINAEra austero e sisudo; não haviaFrade mais exemplar n'esse convento;No seu cavado rosto macilentoUm poema de lagrimas se lia.Uma vez que na extensa livrariaFolheava o triste um livro pardacento,Viram-n'o desmaiar, cair do assento,Convulso e torvo sobre a lagea fria.De que morrera o venerando frade?Em vão busco as origens da verdade,Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.Consta que um bibliophilo compráraO livro estranho e que, ao abril-o, acháraUns dourados cabellos de mulher.{114}Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha biographia para oDiario de Portugal[9]. A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de alguns e das injurias de poucos.Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e perfido.Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da sua vida.{115}A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta dasMiniaturase dosNocturnos.Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dosContos para os nossos filhos, colleccionados e traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma.1883.[8]ATRAVEZ DO PASSADO:Na morte de um condiscipulo.[9]Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.{116}XIIIAntonio Maria PereiraQuando eu fazia parte da redacção doJornal do Porto, onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original.Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente.Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?!O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha{117}proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores em geral.Balzac, nasIllusões perdidas, tinha deixado a ethopea do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias por lhe acharpouco peso. O poeta respondêra que voltaria com os seus versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não pareciam resolvidos a substituil-os.Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada áquella época: «Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter.»Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar publico.Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos novos.O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido.Eu havia ido refugiar-me noJornal do Porto, onde a vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,{118}ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre dispendiosas, das impressões de luxo.Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela atoilettedos livros, passaste á historia, és uma recordadação apenas, nada mais!A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de estipendio certo.Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-iaO testamento de sangue. OJornal do Portoe o ensino livre absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,{119}que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle romance.O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de redacção, alludisse aoTestamento de sangue.Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando noJornal do Portose deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo publicadosOs dramas de Paris, de Ponson du Terrail, arranjados sobre uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secçãodo folhetimcom um romance que não fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dosDramas de Paris, nem tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera.—Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois publicarO testamento de sanguenoJornal do Porto, e escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu queria dar á novella.Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter sido publicado em folhetim.Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,{120}na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim diario—encargo que eu acumulava com a minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações quotidianas.Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.No livroNervosos, lymphaticos e sanguineosdeixei consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar noJornal do Porto.«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o{121}precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que oTestamento de sanguefôra escripto.No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos,A Porta do ParaisoeEntre o caffe e o Cognac. Tive então occasião de conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar alargando-a, tinha uma só porta e amontre. Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'esteeditorera insinuante; e as suas maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.{122}Era seu filho, o actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de umaEncyclopedia litteraria, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha collaboração.Escrevi ahi uns versos,Virgens loiras, cuja inspiração me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e asVirgens, que devem estar decrepitas—como os versos.Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel convivencia.Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na rua Augusta.Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio.Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa{123}hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos[11]—graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da gloria—editando-lhes os primeiros livros.

—Opporiamos programma a programma, tradição a tradição, doutrina a doutrina, mas quando tentassemos oppôr invectiva a invectiva, injuria a injuria, as flechas disparadas dos arraiaes progressistas encontrariam como barreira o tumulo de Rodrigues Sampaio, os projecteis vibrados do campo regenerador achariam um óbice á sua passagem no tumulo de Saraiva de Carvalho.

Ninguem poderia, em face da calumnia, julgar-se vencedor ou vencido, porque a calumnia não existiria.

N'este pacto, ninguem cederia terreno, ninguem abdicaria direitos: morto por morto, tumulo por tumulo, as condições eram iguaes.

Mas, no fim de contas, gastei um folhetim a prégar no deserto!

Dezembro de 1882.[6]

[5]Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.[6]Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido e... visto!—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[5]Foi na camara de 1882 que eu, graças ao feliz acaso de ter ficado vizinho de Saraiva de Carvalho, travei com elle as melhores relações de amizade.

[6]Ha 26 annos que no deserto clamou em vão a minha ingenuidade politica. Successivas lufadas de areia, revolvida por ventos tempestuosos, abafaram a minha voz e cegaram os homens de Portugal. O que desde então até hoje 1908 se tem lido, ouvido e... visto!—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

{89}

A morte vae a pouco e pouco derrubando os homens notaveis de que primeiro ouvimos falar na sociedade do nosso tempo, os homens cujo nome primeiro soou a nossos ouvidos desde a infancia.

Castilho e Herculano, os dois grandes vultos das lettras contemporaneas, vimol-os fulgir e cair; o marechal Saldanha, esse bravo militar cujo nome encheu o paiz, vimol-o entrar morto no pequeno pantheon de S. Vicente; o duque de Avila, um homem que o trabalho nobilitára até á ultima grandeza social, vimol-o desapparecer da scena dos vivos; Anselmo José Braamcamp, o successor do duque de Loulé na chefatura do partido progressista, vimol-o passar para o cemiterio ha pouco mais de um anno, e agora chegou a vez a Fontes Pereira de Mello, o grande, o eminente, o priveligiado estadista, cujo nome, ainda antes da consagração da morte, era já uma gloria nacional.

É por emquanto cedo, e a nossa commoção muito profunda,{90}para fazer historia. Todavia eu não duvido affirmar desde já que, depois do marquez de Pombal, não tinha havido em Portugal estadista que, como Fontes Pereira de Mello, pudesse medir-se com o seu notavel predecessor.

Ditoso se deve julgar o paiz que de seculo a seculo produz um estadista como o marquez de Pombal e como Fontes Pereira de Mello.

Não são certamente dois reformadores da mesma indole, mas são, indiscutivelmente, dois grandes reformadores.

O marquez de Pombal reorganisou o ensino publico, a industria nacional, animou o commercio portuguez, e, depois do terremoto, refundiu Lisboa.

Passára um seculo, e as circumstancias mudaram, como era natural que acontecese.

Portugal não fôra de novo experimentado, felizmente, por uma segunda convulsão subterranea, mas um terremoto não menos perigoso e devastador havia abalado a primeira metade d'este seculo: a guerra civil.

Foi depois d'esta vibração social que Fontes Pereira de Mello appareceu na scena politica com o movimento chamado daregeneração, palavra que é ainda hoje a divisa politica de um partido de que Fontes Pereira de Mello fôra até á morte o chefe sempre respeitado e sempre querido.

A industria e o commercio nacional estavam atrophiados; o credito abalado pelas consequencias da guerra civil; as finanças desorganisadas; os empregados do estado morriam á fome, porque o thesouro publico, que devia remuneral-os, não tinha ceitil. Depois da guerra viera a revolução, que é como o rescaldo de um grande incendio: á menor viração que possa soprar, o incendio atea-se de novo. Era preciso apagar as cinzas que fumegavam ainda e, depois de apagadas, reedificar a administração publica na grande complexidade dos seus elementos componentes.{91}

Pois bem, essa ardua missão coube a um homem novo, a um rapaz de pouco mais de trinta annos, o desempenhal-a.

O marechal Saldanha, costumado a conhecer os homens na guerra e para a guerra, mostrou que tambem sabia conhecel-os na paz e para a paz.

Foi elle, o bravo militar, o venerando vencedor das nossas luctas politicas que descobriu em Fontes Pereira de Mello a individualidade poderosa de um estadista eminente.

O marechal adivinhára que esse moço elegante, de maneiras distinctas, a que a rainha D. Maria II chamava o seu «ministro janota», havia de completar pela paz a obra que elle havia começado pela guerra.

E confiando-lhe as mais importantes pastas no ministerio da regeneração, creando até expressamente para elle uma pasta, a das obras publicas, pareceu dizer-lhe:

—Um velho, que trabalhou para dar á sociedade portugueza a liberdade a que ella tem direito, entrega a sua obra nas mãos de um homem novo para que a consolide e complete.

Fontes Pereira de Mello recebeu das mãos de um vivo esse nobre legado, e desde então, até á ultima hora da sua vida, não fez senão respeital-o e cumpril-o.

Desde então Fontes ficou pertencendo ao paiz, consagrou-lhe a existencia, trabalhou para enriquecer a patria, para desenvolver todas as forças vitaes da nação, para fomentar todos os elementos de riqueza publica, e esse homem, que não fez senão amontoar capital para os outros, esse homem que enriqueceu o commercio e a industria da sua terra, esse homem por cujas mãos passára a gerencia das receitas do Estado cada dia mais avantajadas, acaba de morrer pobre, com o nome que recebêra de seus paes, e foi conduzido ao cemiterio não sob a purpura dos principes, mas apenas{92}com a bandeira portugueza por cobertura do seu feretro.

Os funeraes de Fontes Pereira de Mello não foram a apotheose official dos altos funccionarios publicos; foram mais do que isso, e melhor do que isso, foram a glorificação de um cadaver feita por um povo inteiro do meio da mais profunda commoção que póde ferir o coração de um paiz.

A espontaneidade do sentimento nacional é a mais invejavel deificação dos homens illustres. Fontes Pereira de Mello acaba de ter essa deificação feita de lagrimas, essa grandiosa deificação que não se recommenda, que não se aconselha, que não se ensina, mas que rebenta do coração de todas as classes sociaes, como a lava rebenta da cratera de um vulcão, e que explude n'uma grande e profunda erupção de sentimento ingenuo e sincero.

Lisboa inteira acaba de assistir a esse espectaculo memorando, que ficará para sempre gravado na memoria infantil dos nossos filhos, tão imponente, tão grandioso elle foi.

Fontes Pereira de Mello, vivendo entre a primeira sociedade portugueza pelos elevados cargos que o seu merecimento pessoal lhe conquistára, não vivia todos os dias com as classes inferiores, não era um homem que o povo visse passar atraves da multidão nas ruas da capital.

Mas, o que é melhor, vivia mais no coração do que nos olhos do povo. Provou-se agora que isto era assim. Não obstante as luctas da politica, que por vezes procuravam deslustrar o caracter de Fontes Pereira de Mello, o povo conservava por elle um grande culto de estima e respeito, o povo comprehendia que aquelle homem trabalhava para a nação, não para si, e, quando soube que o illustre estadista morrera, ficou gelado de surpresa, correu a visitar a sua camara funeraria, foi postar-se, respeitoso e triste, nas ruas por{93}onde o feretro havia de passar, affluiu, n'uma agglomeração enorme, ao cemiterio onde o cadaver de Fontes Pereira de Mello repousa para todo o sempre.

E o povo não se enganou pensando que esse preclaro estadista trabalhára para o povo.

Todos os que trabalham para o futuro e pelo futuro é para o povo que trabalham.

Poucos estadistas haverão tido como Fontes Pereira de Mello mais confiança no futuro, e se o povo se não enganava, tambem não se enganava o estadista, porque o futuro ha de lhe dar rasão, como, na vida do campo, os beneficios da colheita justificam os trabalhos da sementeira e da cultura.

Fontes Pereira de Mello passou toda a sua vida publica a semear para colher, a demolir o passado para construir o futuro.

Elle bem sabia que, mortal como todos os outros homens, não teria tempo de ver completamente sazonada a messe que tão desveladamente semeára e cultivára.

Mas que lhe importava isso? Não trabalhava para si, trabalhava para os outros.

E trabalhava sem descansar, sacrificando ao trabalho a sua propria saude.

Parar é morrer.Eis o lemma glorioso da sua vida politica, eis a divisa cavalheirosa de toda a sua carreira de estadista.

Foi elle que imprimiu á moderna sociedade portugueza o movimento que n'este momento historico a vitalisa e anima. Abriu as portas do trabalho ás classes operarias, e impelliu-as para as conquistas pacificas do progresso. Os povos são como as machinas: o que é preciso é imprimir-lhes movimento para que adquiram velocidade. Depois trabalham por si mesmos.

Os canticos funebres que acompanharam ao cemiterio dos Prazeres o cadaver de Fontes Pereira de Mello não irromperam apenas dos labios dos sacerdotes que{94}tinham ali a desempenhar uma funcção liturgica. Irromperam ao mesmo tempo de todas as regiões do paiz, partiram de mil boccas, eram articulados por mil gargantas differentes: saiam de todas as fabricas, de todas as officinas, saiam dos teares e das locomotivas, eram, n'uma palavra, a grande voz do progresso que elle, primeiro do que ninguem e mais do que ninguem, fomentára em Portugal.

Não podia ter mais gloriosos responsos o cadaver de um morto illustre.

**     *

Estou agora a lembrar-me da primeira vez que fui recebido em sua casa.

Era na rua de S. Bento, em noite de recepção politica. Fontes, de casaca, viera ao meu encontro, dissera-me palavras amaveis. Perguntou-me se eu gostava de jogar. Respondi-lhe que apenas sabia jogar o voltarete.—Mas gosta certamente de ver jogar bem o bilhar, replicou Fontes; o meu collega Barjona está jogando, e vale a pena ir vel-o.

Fui. Meia hora depois, Fontes dirigira-se a mim pedindo-me que fosse fazer uma partida de voltarete com o visconde de N. e com o capitão de mar e guerra M. Eu quiz desculpar-me; mas Fontes, argumentando com a minha confissão anterior, insistiu. Foi apresentar-me aos dois parceiros, que já estavam abancados, e retirou-se.

Nas combinações preliminares do jogo, tratou-se do preço.

—Não sendo caro não diverte, disse o visconde de N.

—Como quizerem, respondeu o capitão de mar e guerra M.{95}

Eu vi-me obrigado a obtemperar:

—Estou ás ordens de v. ex.as

Então o visconde de N. estipulou que jogariamos a cinco tostões, talha de roda, duas talhas o que désse cartas.

Senti um frio glacial ao longo da espinha. Eu, que sempre fui pobre, vivia então com immensas difficuldades: tinha apenas na algibeira quatro libras incompletas—um acaso que eu reputaria feliz em qualquer outra occasião.

A preoccupação da situação embaraçosa em que me achava collocado desorientou-me e afugentou a sorte. Quando se serviu o chá, havia immensas remissas: as minhas deviam orçar por quarenta mil réis.

Emquanto os meus dois parceiros tomavam chá, corri as salas, n'uma grande excitação nervosa, á procura de um amigo. Encontrei-o, felizmente para mim, e expuz-lhe o embaraço em que me encontrava, e que tivera por origem uma confissão ingenua.

—Não se afflija, disse-me rindo esse bom amigo.[7]

Pegue lá a minha bolsa, que está recheada: recebi hoje umas rendas. Nem eu sei ao certo quanto é.

Acabavam os meus parceiros de tomar chá, quando eu voltei á sala do jogo. Continuamos jogando. A felicidade attrae o dinheiro, como o iman attrae o aço. Mais tranquillo de nervos, comecei ganhando. A bolsa do meu amigo foi para mim um talisman. Ás duas horas da madrugada, quando os meus parceiros quizeram, levantei-me do jogo ganhando 32$500 réis. Nunca esta cifra me esqueceu.

Em plena rua, respirei desafogadamente. E metti ao largo do Rato, tomei pela calçada do Salitre, pensando, como certo philosopho, que se a eloquencia é de prata,{96}o silencio é de oiro. Nunca eu tivesse feito aquella confissão ingenua de que jogava o voltarete...

Á esquina de Val-de-Pereiro encontrei dois homens, doisfadistasparados. A calçada estava deserta. Um d'elles atravessou, de modo que eu havia de passar entre ambos. Quando o da direita tinha avançado para mim, assomou no topo da calçada uma carruagem, que naturalmente vinha de casa de Fontes. O homem ainda chegou a perguntar-me que horas eram, mas, vendo a carruagem, estacou. Gritei ao cocheiro que parasse, e pedi á pessoa que ia dentro do trem que me permittisse tomar logar na almofada.—Aqui dentro, aqui dentro, sr. Alberto Pimentel, respondeu uma voz de homem. Agradeci, e subi para a almofada..

E se eu tivesse sido roubado! Se me tivessem roubado o dinheiro alheio, e o meu! Ah! que noite de torturas que essa foi!

No Rocio gratifiquei o cocheiro, apeei-me, e agradeci á pessoa que ia dentro do trem, a qual ainda hoje não sei quem fosse.

Passados annos contei este caso a Fontes. Elle riu-se muito, e, ás vezes, se estavamos n'um circulo de amigos, pedia-me que reeditasse a historia, a que achava graça.

**     *

De uma vez tive de pedir a Fontes um adeantamento para um amigo meu. Fil-o muito contrariado, por dever de amizade.

Fontes, que era então ministro da fazenda, poz a luneta, leu o requerimento, e perguntou-me:

—Tem muito empenho n'isto?

—Tanto, respondi, quanto se póde ter em servir um amigo sincero.{97}

Fontes despachou favoravelmente. E, entregando-me o papel, disse-me:

—V. é um homem novo na politica. Permitta-me um conselho: Estes favores são uma desgraça para a pessoa a quem se fazem. Esse homem vae ficar com a sua vida desequilibrada para sempre. Como é amigo d'elle, avise-o de que se está infelicitando irremediavelmente.

Janeiro de 1887.

[7]Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[7]Era o conselheiro Telles de Vasconcellos, já hoje fallecido.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

{98}

Quem ha que não tenha, umas vezes com fundamentada tristeza, outras vezes com vaga tristeza—que é talvez o estado mais doloroso da alma—desejado a morte?

Com razão ou sem ella, porque exageramos as nossas amarguras ou porque sejam realmente grandes, todos nós temos mais ou menos pensado, com uma certa caricia da nossa imaginação, na hora suprema em que o corpo ha de adormecer para sempre e a alma ha de partir para um mundo desconhecido, que, por estar mais proximo de Deus, deve ser decerto bem mais tranquillo do que este...

Não creio que haja uma só pessoa, por mais feliz que pareça, que não tenha desejado a morte uma vez sequer.

A felicidade é um dom celeste que parece ter fugido de nós para os outros, e que os outros dizem sempre que nós possuimos e elles não.

Como dom celeste que é, não póde a felicidade aclimar-se{99}na terra. Ave do azul, é no azul que passa ás vezes, mas tão alto, tão alto, que se por um momento a avistamos, logo os nossos olhos parecem cegar só de a haverem acompanhado cá de baixo n'uma grande avidez deleitosa...

Esse encanto desfaz-se breve, essa visão encantadora é ephemera, e o que fica depois é a realidade triste das coisas terrenas, a lucta, a batalha da vida, sangrenta e contínua, cheia de amarguras e desalentos, para os quaes a idéa da morte é como um doce raio de sol, ambicionado e querido.

Mas, por mais que tenhamos algumas vezes desejado a morte, quando ella passa perto de nós para ir fazer uma victima, quando sentimos o frémito das suas azas negras agitar presagamente o ar e entenebrecel-o, quando o seu gladio invencivel scintilla sinistramente como o relampago n'um céu caliginoso, faz-nos horror a morte, põe-nos medo a sua aproximação e a sua crueza, assombra-nos a sua lutuosa atmosphera de misterio e silencio...

Por que não hei de eu dizer francamente que no combate da existencia, n'esta lucta de todos os dias, cada manhã renovada, algumas vezes a idéa da morte me tem acariciado o espirito com uma certa voluptuosidade dolorida? A verdade é essa, e todos me hão de comprehender, porque todos somos iguaes. Mas a verdade é tambem que ainda esta semana, segunda feira, eu estremeci de horror deante d'esse indomito colosso que se chama a Morte, e cuja obra de devastação parece assombrar tanto mais quanto mais rapida é.

Estavamos, não sei quantos—poucos eram—no club da Ericeira. Jogava-se o voltarete n'uma tranquillidade paradisiaca, como poderia ser a do pae Adão, antes do peccado, se o voltarete já então houvesse sido inventado, e elle o estivesse jogando de quatro, com os seus tres filhos. Uma senhora ou uma creança tocava piano na sala proxima, esboçando apenas a musica,{100}com uma grande timidez de execução. O sol, alegre e bom, entrava docemente pelas janellas, como poeira de oiro finamente coada atraves de um crivo azul. De vez em quando vinha da sala do bilhar o som aspero do choque das bolas, ou de uma contada do taco sobre o pavimento. De resto, o mar parecia ter-nos aqui prisioneiros n'uma região remota, longe, muito longe de Lisboa—essa grande cidade ruidosa, que dizem ser feita de marmore e de granito, e banhada por um bello rio portentoso, mas de que nós, aqui na Ericeira, apenasconservavamosuma vaga recordação...

Pouco depois do meio dia entrou na sala de jogo, que tambem acumula a funcção de sala de leitura, o carteiro da villa, com o boné em uma das mãos, a mala de couro na outra.

O jogo interrompeu-se logo, todos os olhares se voltaram para o carteiro.

É preciso saír de Lisboa para comprehender bem o interesse que se póde ter em receber uma carta ou um jornal ainda que só esperemos banalidades.

Era o correio que chegava. Iamos receber noticias de Lisboa, essa longinqua cidade, de que apenas conservamos a vaga recordação de ser construida de marmore e de granito e banhada por um bello rio magestoso.

O carteiro começou a despejar a mala sobre a mesa de leitura: mólhadas de jornaes—progressistas, regeneradores, republicanos—e algumas cartas, poucas, sobretudo em relação aos jornaes, que constituem uma verdadeira alluvião.

E o carteiro apartava a correspondencia, dizendo para um lado e para o outro:

—V. ex.ª hoje não tem nada.

—Aqui estão os seus jornaes.

—V. ex.ª tem só uma carta.

—Está no correio uma encommenda postal para v. ex.ª{101}

Distribuidos os primeiros jornaes, eccoou na sala uma noticia profundamente dolorosa e inesperada:

—Morreu o Aguiar!

—Quem? O que?!

—Morreu o Aguiar!

—O Antonio Augusto?!

—Sim. O Antonio Augusto de Aguiar, elle mesmo...

E a pessoa que falava ia correndo com os olhos avidamente o jornal, procurando os pormenores, lendo e dizendo:

—De repente... de umaangina pectoris... ainda ante-hontem saiu... bem disposto... tinha jantado norestaurant Rosa Araujocom o Luciano Cordeiro e com outro.

Dizer-lhes quão pungente foi a impressão d'esse momento de tanta surpresa, é-me hoje impossivel. Ficámos fulminados, assombrados, como se Aguiar acabasse de morrer á nossa vista, tão rapidamente como os jornaes o referiam.

Então cada um de nós começou a lembrar-se da ultima vez que lhe falára, da boa disposição em que elle estava, do que dissera, do que contára. Havia apenas quinze dias que o ultimo banhista chegado á praia o tinha visto, e parecia-nos fabuloso que fosse possivel aniquilar um homem de valor em quinze dias. Todavia os jornaes que estavamos lendo eram d'aquelle mesmo dia, segunda feira, e accentuavam que a doença de Aguiar fôra rapidissima, apenas de duas ou tres horas, na madrugada de sabbado para domingo.

Dentro de um momento espalhou-se nas tres salas do Club a noticia da morte de Aguiar. Os jornaes passavam de mão em mão, qualquer novo pormenor era lido em voz alta, e breves commentarios, phrases soltas, resumiam, no primeiro momento, a impressão geral:

—Um homem serio...{102}

—Um homem de talento...

—Um homem de saber...

—Um bom caracter...

—Um homem digno...

Sim, é verdade, tudo isso elle era, tudo issoelle fôra, e todavia quantas vezes o ridiculo, a calumnia, e tambem a troça, não saiu ao encontro d'esse homem serio, d'esse homem de talento, d'esse homem de saber, d'esse bom caracter, d'esse homem digno?!

Tudo isso elle fôra, e sem embargo algumas vezes lh'o contestaram, porque ha pessoas que parece quererem aggredir os vivos para terem que humilhar-se deante dos mortos.

Não, nunca fui d'esses. Tenho sempre procurado dar o seu a seu dono, a Deus o que é de Deus, a César o que e de César. Qualquer que fosse a sua posição politica, eu conservei sempre por Aguiar a mesma consideração e o mesmo respeito. E de todas as suas qualidades a que eu achava que tornava maior as outras era a serenidade com que elle recebia todos os golpes, por mais envenenados e injustos que fossem. Ainda poucos dias antes de se fechar o parlamento, no momento de se commentar no corredor da camara dos pares a má intenção com que ás vezes, na politica, se deturpavam as palavras e os factos, elle dizia accendendo tranquillamente o seu charuto:

—Se isso me incommodasse, eu abandonaria a politica.

Estas palavras revelam bem a serenidade do seu espirito e da sua consciencia, o bem-estar interior, a paz inalteravel de um caracter sem manchas e sem remorsos.

Aguiar sabia o que valia, e por isso diziam ás vezes que era vaidoso. Não era, não. Era menos hipocrita do que os outros. Cada homem representa uma somma de trabalho, maior ou menor. E ninguem se esquece do tempo que gastou trabalhando. Por isso todos{103}sabem mais ou menos quanto valem, mas ha homens que recuam para avançar e homens que preferem ir caminhando serenamente, sem correr, mas tambem sem recuar.

Eu gosto mais d'estes ultimos.

1887.

{104}

Dois escriptores da geração que nos precedeu não estão tendo desde já a celebridade posthuma, que ás vezes começa para outros escriptores no proprio dia dos funeraes. Refiro-me a Rebello da Silva, e Mendes Leal.

Não se fala muito d'elles, não se cita a sua auctoridade litteraria, não se dá o seu nome a qualquer instituição, a qualquer philarmonica ou club de operarios em folga. Pois admira, que não morre homem conhecido que não appareça logo um gremio de classe, musical ou dançante, a adoptar-lhe o nome.

E todavia, Rebello da Silva, que eu aliás já não conheci pessoalmente, foi o mais brilhante estilista que até então floresceu em Portugal. Nunca ninguem antes d'elle, e não sei se depois, possuira uma paleta tão rica de tintas, uma palavra tão pomposamente e tão elegantemente colorida.

Assombra vêr como saíam perfeitas e primorosas as suas primicias litterarias aos vinte annos. Uma d'ellas{105}foi o romance historicoRáusso por homizio, publicado em 1842 naRevista universal Lisbonense. Com razão dizia aRevistareferindo-se a este romance: «Damol-o sem alteração de uma virgula, qual saiu da penna de seu auctor:—que seria sacrilegio tocar, nem de leve, nas primicias que á sua patria offerece um tal espirito—¡quem no acreditaria!—¡de vinte annos!»

Assombroso, em verdade.

Mendes Leal, que foi meu amigo, em algumas coisas meu patrono, tratei-o particularmente, tive sobeja occasião de avaliar a vasta erudicção do seu espirito e a fidalga grandeza do seu coração.

Mas quem o conhecer apenas pela sua obra litteraria, e n'ella bem attentar, reconhecerá que poucas vezes póde um escriptor reunir em si tantas e tão variadas aptidões como Mendes Leal.

Como poeta tinha vôos de inspiração que roçavam pelas cumiadas da epopea: hajam vista oPavilhão negro,Ave Cesar,Napoleão no Kremlin.

Como dramaturgo, foi o mais fecundo e o mais notavel continuador da obra de Garrett. Tudo quanto escreveu para o theatro—e foi muito—póde ter defeitos, mas affirma riqueza de imaginação, talento desavoir faire, opulencia de linguagem. Percorram toda essa vasta galeria de producções dramaticas, que vae desde osDois renegadosaté aosPrimeiros amores de Bocage, e digam depois se já conheceram, fóra do theatro hespanhol, engenho mais fertil, espirito mais maleavel ás exigencias de cada genero e de cada época.

Como romancista, se não attingiu nunca uma individualidade tão accentuada como dramaturgo, não deslisou comtudo um ápice dos seus bons creditos de homem de lettras.

Como academico, trabalhou por vezes, e sempre com notavel seriedade de espirito.

Como orador politico, deixou discursos parlamentares que podem servir de modelo aos que, dentro e{106}fóra da camara, presam a lingua portugueza através dos arrebatamentos da paixão partidaria.

Trabalhou muito, não obstante o tempo que foi obrigado a consagrar aos negocios administrativos, aos negocios politicos, aos negocios diplomaticos, e á vida de salão. Com uma organisação tão debil, com uma tão embaraçosa miopia, e com uma vida tão agitada de occupações e distracções, ninguem seria capaz de trabalhar mais do que elle.

Estive durante alguns annos em relação epistolar com Mendes Leal. Creio que foi Castilho que recommendou á sua benevolencia de mestre as minhas palidas estreias litterarias. Castilho tinha uma grande consideração por Mendes Leal—a quem, na dedicatoria do primeiro livro dasGeorgicas, divinamente traduzidas, chamou—caro Leal, gloria da terra lusa.

Quando vim para Lisboa, estava Mendes Leal no estrangeiro, em missão diplomatica. Só em 1882, vindo elle a Lisboa, o pude conhecer pessoalmente. Visitei-o frequentes vezes na sua casa da rua da Emenda, conversamos largamente, e era encantadora a simplicidade bondosa do seu trato. Mendes Leal dera-me provas de muita estima, tornando-se meu dedicado amigo.

Iam por esse tempo a sua casa todas as summidades do mundo politico e do mundo litterario, quasi todos os ministros estrangeiros acreditados em Portugal, e grande numero de pessoas que mais lustravam em pompas dehigh life.

A ultima vez que me demorei conversando largo tempo com Mendes Leal foi em dezembro d'esse mesmo anno, no dia do enterro de Saraiva de Carvalho.

O prestito funebre seguira a pé desde a igreja de Santa Isabel até ao cemiterio dos Prazeres. Mendes Leal encontrou-me n'aquelle ondular de pessoas de todas as classes sociaes, que foram prestar a derradeira homenagem ao mallogrado Saraiva. Chamou-me, e abordoou-se ao meu braço. Assim fomos conversando até{107}ao cemiterio occidental no meio da multidão immensa.

Um anno antes, em 1881, tinha Mendes Leal dado ao prelo, n'uma brochura intituladaHommage aux lettres latines, as suas ultimas composições poeticas. Ahi se póde ver com que primor elle manejava a lingua franceza, e com que duradoira mocidade de espirito ia envelhecendo e pendendo á terra.

A posteridade está sendo, porém, um pouco ingrata com este homem superior, que tão poderosamente contribuiu para impulsionar os progressos litterarios do seu paiz. O mesmo acontece com Rebello da Silva, e é caso para estranheza. Succede comtudo ás vezes que a opinião publica passa por uma evolução demorada tanto para apreciar como para depreciar um escriptor fallecido—especialmente para aprecial-o. Quanto tempo não foi preciso decorrer para rehabilitar a memoria de Fernão Mendes Pinto? E o proprio Camões teve que esperar trezentos annos por uma apotheóse nacional.

No que respeita a Mendes Leal devo lembrar uma honrosa, postoque modesta, homenagem que lhe prestou a villa da Ericeira. Ha ali uma rua com o seu nome. Devia-lhe este preito aquella pittoresca praia, que elle cantou em 1857 na poesiaMare magnum. A descripção dasfurnas, tão bellas e tão agrestes, é de mão de mestre:

Não vos lembraes?—Além do manso pego,O mar, que vem do largo, e que não cessa,Da vaga arquea a cuspide irritada,E, com impeto cego,Á insensata escaladaDos immoveis penhascos se arremessa.Quem ha de commetter a louca empresaDe tentar a passagem tortuosaQue alguma convulsão da naturezaAbriu sobre a voragem tenebrosa?{108}Do rolo immenso a curva ameaçadoraInveste, galga, apruma-se, desaba;E quando o turbilhão que o ar devora,Trovejando rebenta,Parece que á tormentaA terra não resiste e o mundo acaba.Pelas rugas da penha sacudida,—De niveos flocos inda guarnecida,—Depois que o mar bramindo atraz volvêra,Um veio d'agua, rapido e sombrio,Deslisa; qual em rude face austeraDe um triste ancião, que a idade encanecêra,O pranto corre em fio.

Não vos lembraes?—Além do manso pego,O mar, que vem do largo, e que não cessa,Da vaga arquea a cuspide irritada,E, com impeto cego,Á insensata escaladaDos immoveis penhascos se arremessa.

Quem ha de commetter a louca empresaDe tentar a passagem tortuosaQue alguma convulsão da naturezaAbriu sobre a voragem tenebrosa?{108}Do rolo immenso a curva ameaçadoraInveste, galga, apruma-se, desaba;E quando o turbilhão que o ar devora,Trovejando rebenta,Parece que á tormentaA terra não resiste e o mundo acaba.

Pelas rugas da penha sacudida,—De niveos flocos inda guarnecida,—Depois que o mar bramindo atraz volvêra,Um veio d'agua, rapido e sombrio,Deslisa; qual em rude face austeraDe um triste ancião, que a idade encanecêra,O pranto corre em fio.

Pelo menos o mar, nas suas incansaveis arremettidas contra asfurnasda Ericeira, recordará eternamente a verdade sublime, a hipotiposis felicissima d'este notavel trecho de poesia descriptiva, e simultaneamente o nome de Mendes Leal.

O oceano vingará a ingratidão dos homens.

{109}

Tendo de escrever a respeito de Gonçalves Crespo, deixei-me ir ao sabor da saudade, pelo mar das recordações em fóra, até o encontrar nos primeiros annos da sua vida, e da minha.

Foi uma viagem suavemente dolorosa, durante a qual eu comprehendi melhor que nunca toda a verdade e toda a philosophia que se encerram n'este pensamento de Garrett:

Saudade, gosto amargo de infelizes,Delicioso pungir de acerbo espinho.

Saudade, gosto amargo de infelizes,Delicioso pungir de acerbo espinho.

Comprehendi bem, melhor do que nunca, é certo, toda a observação psichologica que essa bella antithese contém; comprehendi Garrett n'esses dois admiraveis decassiliabos que já não esquecerão mais em lingua portugueza; comprehendi D. Francisco Manuel quando chama á saudadeum mal de que se gosta, e um bem que se padece; comprehendi o rei D. Duarte quando{110}noLeal conselheiroescreveu da saudade com uns finos toques de sensibilidade e uma nitida comprehensão d'esse agridoce sentimento, que ao mesmo passo despedaça e mitiga o coração...

Medi com o olhar nublado de lagrimas todo o caminho percorrido em poucos annos. A saudade fizera reverdecer todas as recordações, aquecêra todas as cinzas, despertára todos os mortos. Vivi por momentos a vida já extincta, enflorei-me das minhas antigas esperanças, remocei com as minhas illusões de outro tempo. Pareceu-me que essa reversão ao passado era completa e real, que tudo voltára effectivamente a ser o que tinha sido. Mas, de repente, o encanto dissipou-se, o sonho acabou, retrocedi pelo caminho que imaginariamente percorrera, e pareceu-me atravessar um deserto immenso, triste e arido, um cemiterio vasto e silencioso, onde tudo jazia sepultado na mudez da morte—esperanças deliciosas e amigos queridos, illusões que me fascinaram e pessoas que eu amei.

Entretanto, para suavisar a amargura d'essa perda enorme, eu só encontro a triste consolação de a recordar.

Tal é a saudade na sua essencia divina, e no seu influxo providencial.

Assim é que os poetas a definem; assim é que eu a sinto agora—melhor por certo do que nunca.

Em verdade, as circumstancias em que me encontro, para escrever de Gonçalves Crespo, são muito especiaes. Elle teve muitos amigos, e merecia-os, mas as nossas relações vinham de longe, eram antigas na proporção da nossa idade, ataram-se no Porto quando eramos apenas duas creanças.

Estou a vel-o então, no meu quarto de estudante, rodeado de antigos amigos, quasi todos mortos já, apesar de moços.

Crespo tomava parte activa em todas as nossas façanhas mais ou menos habituaes, que eu já historiei{111}largamente no livroAtravez do passado—o meu primeiro livro de saudades.

Brigavamos patrioticamente quasi todas as noites com o criado da casa: o Angelo, um gallego.

Crespo era então o mais janota de nós todos, tinha a linha elegante e aristocratica. Mas desconcertava-se n'aquellas brigas nocturnas, gostava d'ellas tanto como nós, e não duvidava arriscar n'essa folia asselvajada o primor da suatoilette, quasi sempre irreprehensivel.

Coisa notavel! Crespo não era então para nós um poeta: um elegante, sim. Eu fazia versos de pé quebrado; Alfredo Leão lia chronicas e romances[8]; mas Gonçalves Crespoflanavaa pretexto de estudar. E todavia, annos depois, affirmava notavelmente o seu talento poetico com a publicação dasMiniaturas.

Houve um periodo em que me separei de Gonçalves Crespo;—quando foi para Coimbra. Mas em quasi todas as ferias elle passava no Porto em direcção a Braga, onde seu pae residia. Viamo-nos então e falavamos. Crespo frequentava oCafé Portuense, na Praça Nova, e continuava a ser um elegante. Mas quando eu o via, sempre me perguntava pelo Angelo—recordando as nossas façanhas anti-ibericas.

Resolvi vir em 1873 para Lisboa, e a primeira felicitação que recebi, ainda antes de partir, foi de Gonçalves Crespo. Enviava-m'a de Coimbra. O que elle me dizia não posso, não devo eu repetil-o aqui, tão agradavel era para mim. A amizade cegava-o.

Quando na viagem passei por Coimbra, a primeira pessoa que procurei ali foi Gonçalves Crespo. Conheci então o seu celebre quarto da Couraça de Lisboa, tão fielmente descripto por Candido de Figueiredo nosHomens e letras, e tão falado ainda na tradição academica. Crespo estava adoentado, e não me pôde mostrar{112}a cidade, mas encarregou d'essa missão, a que elle chamou diplomatica, outro estudante, que actualmente está em Lisboa.

Crespo dera-merendez-vouspara a noite, na livraria do Melchiades. Ahi conheci eu Julio de Vilhena, que era já muito respeitado pela academia. Laranjo tambem ahi estava. Demorámo-nos conversando de litteratura, porque não se falava então de outra coisa, e Gonçalves Crespo viera passar o serão comigo noHotel dos caminhos de ferro, onde eu estava hospedado.

Foi lá que recitou muitas das suas novas poesias, com o primor que elle sabia dar á recitação. Burilador da phrase, um esmaltador do verso como Gautier o fôra da prosa, Crespo fazia sentir, quando recitava, todas as bellezas, por mais subtis que fossem, do seu buril de artista. Tinha uma inflexão especial para cada meandro das phantasiosas filigranas que a sua musa tecia; de modo que dava relevo a todas as bellezas, a sua voz contornava todos os rendilhados da estrophe, avivava todas as côres harmoniosas do verso. Miniaturisava com a voz como com o espirito. Via-se o que elle dizia; pintava falando. Eis o seu grande segredo como poeta.

Muitas vezes lhe pedi que escrevesse um poema, de costumes brazileiros sobretudo. Era tão primoroso, tão notavel nos quadros da vida americana, tinha uma visão tão delicada da natureza dos tropicos, que se me afigurava que devia produzir uma obra prima n'esse genero. Desculpava-se allegando que o intimidavam as largas dimensões de um poema, e que se sentia á vontade nas pequenas estrophes, cujas difficuldades elle effectivamente sabia domar como poucos. O metro vergava como o aço ao capricho da sua inspiração, e no sonetoAnimal bravio, offerecido a mademoiselle Eugenia Vizeu, elle reconhece, brincando, esta aptidão artistica do seu espirito:{113}

Preferiras um ramo caprichosoDe escolha rara e de um concerto fino,Onde visses o cacto purpurinoE os nevados jasmins do Tormentoso.Em vez do ramo exotico e oloroso,Casto recreio d'esse olhar divino,Acceita, Eugenia, este animal felino,Que o meu braço subjuga vigoroso.Tive artes de o amansar: eil-o sereno!Acode a minha voz, e ao meu acenoComo um jaguar a voz de um saltimbanco...Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!E á doce Eugenia, do sorriso honesto,A fimbria oscule do vestido branco!

Preferiras um ramo caprichosoDe escolha rara e de um concerto fino,Onde visses o cacto purpurinoE os nevados jasmins do Tormentoso.

Em vez do ramo exotico e oloroso,Casto recreio d'esse olhar divino,Acceita, Eugenia, este animal felino,Que o meu braço subjuga vigoroso.

Tive artes de o amansar: eil-o sereno!Acode a minha voz, e ao meu acenoComo um jaguar a voz de um saltimbanco...

Vamos, soneto! a prumo! ajoelhe, presto!E á doce Eugenia, do sorriso honesto,A fimbria oscule do vestido branco!

Em 1875 voltei a Coimbra n'uma commissão de instrucção publica. Crespo estava então em Lisboa. Certo dia recebi pelo correio um cartão de visita seu, que conservo, e em cujo reverso estava escripto este bello soneto, que me offerecia, e que publicou depois nosNocturnos:

ODOR DI FEMINAEra austero e sisudo; não haviaFrade mais exemplar n'esse convento;No seu cavado rosto macilentoUm poema de lagrimas se lia.Uma vez que na extensa livrariaFolheava o triste um livro pardacento,Viram-n'o desmaiar, cair do assento,Convulso e torvo sobre a lagea fria.De que morrera o venerando frade?Em vão busco as origens da verdade,Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.Consta que um bibliophilo compráraO livro estranho e que, ao abril-o, acháraUns dourados cabellos de mulher.{114}

ODOR DI FEMINA

Era austero e sisudo; não haviaFrade mais exemplar n'esse convento;No seu cavado rosto macilentoUm poema de lagrimas se lia.

Uma vez que na extensa livrariaFolheava o triste um livro pardacento,Viram-n'o desmaiar, cair do assento,Convulso e torvo sobre a lagea fria.

De que morrera o venerando frade?Em vão busco as origens da verdade,Ninguem m'a disse, explique-a quem puder.

Consta que um bibliophilo compráraO livro estranho e que, ao abril-o, acháraUns dourados cabellos de mulher.{114}

Em 1881, Gonçalves Crespo honrara-me sobremodo escrevendo a minha biographia para oDiario de Portugal[9]. A sua antiga amizade foi tão prodiga de amabilidades para comigo, que eu cheguei a desconhecer-me, por muito favorecido do biographo. Mas o que principalmente me encantou n'esse escripto foi a minuciosidade com que elle acompanhara todos os pormenores da minha existencia obscura. O seu espirito dedicado tinha-me seguido de longe como ao perto, com o interesse de um amigo leal. Esta convicção foi-me extremamente agradavel e consoladora. Crespo era um homem de talento superior e de caracter honestissimo; a sua dedicação compensava-me sobejamente da ingratidão de alguns e das injurias de poucos.

Este homem, este amigo querido com o qual eu me encontrára na adolescencia e na litteratura, encontrara-o ainda a meu lado na politica e na camara electiva. O destino parecia n'este ponto fazer-me a vontade, porque eu teria um profundo desgosto em separar-me de Gonçalves Crespo por qualquer divergencia de opinião, grave ou insignificante.

O destino, porém, esse mesmo destino que parecia querer estreitar cada vez mais os nossos velhos laços de amizade, acabara por ser enganador e perfido.

Juntara-nos até na mesma repartição publica, onde deviamos trabalhar em commum, promettia associar-nos na velhice como na mocidade, e tão depressa promettera como traíra a sua promessa, arrebatando Gonçalves Crespo d'entre o numero dos vivos, elle, um moço! elle, que tinha finalmente chegado a uma situação, que lhe permittia viver inteiramente tranquillo na decencia modesta que soube conservar em todos os actos da sua vida.{115}

A morte fôra d'esta vez horrivelmente cruel. Pareceu apostada em enfeixar esperanças para as despedaçar depois. A sorte havia dado a Gonçalves Crespo uma familia que elle tanto amava, uma esposa digna d'elle pelo espirito e pelo coração, dois filhos adorados, meios de fortuna, considerações politica e honras litterarias, gloria, amigos e admiradores, e de emboscada, a morte, depois de lhe ter consentido que entrasse na Terra da Promissão, cuja porta perfidamente lhe dera tempo de transpôr para que o supplicio fosse ainda maior, assassinou-o cobardemente aos trinta e sete annos de edade, enlutando para todo o sempre o coração da mais illustrada senhora que Portugal possue, e de todos quantos amavam e estimavam o notavel poeta dasMiniaturase dosNocturnos.

Traçando estas linhas, deixei que a penna escrevesse da abundancia do coração. Outra coisa não fiz, nem de outra coisa curei. Emquanto Gonçalves Crespo esteve baloiçado entre a vida e a morte, na mais cruel das agonias, recommendei expressamente a tres jovens leitores dosContos para os nossos filhos, colleccionados e traduzidos por Gonçalves Crespo e sua esposa, que pedissem a Deus pela saude de um dos traductores d'esse livro, que elles sabiam de cór. As orações de meus filhos não puderam disputar á morte a existencia preciosa do velho amigo de seu pae. Não me restava portanto senão o triste desafogo de escrever com lagrimas estas linhas que vão, adejando para o seu tumulo, levar-lhe o ultimo preito da minha amizade, o écco sincero do luto da minha alma.

1883.

[8]ATRAVEZ DO PASSADO:Na morte de um condiscipulo.[9]Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[8]ATRAVEZ DO PASSADO:Na morte de um condiscipulo.

[9]Não vem incluida na edição posthuma das suas obras, o que aliás duplica o valor d'esta especie bibliographica.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

{116}

Quando eu fazia parte da redacção doJornal do Porto, onde recebia apenas 500 réis diarios por o encargo de traduzir o noticiario estrangeiro acumulado muitas vezes com o trabalho de rever as provas das edições que o proprietario do jornal, Cruz Coutinho, vendia no seu estabelecimento de livreiro, escrevi um dia, no apuro de augmentar a escassa receita do meu orçamento, ao editor lisbonense Antonio Maria Pereira, propondo-lhe a acquisição de um romance original.

Dois dias depois recebia a resposta, que me surprehendeu vivamente.

Estava tão habituado ao embate das mais rudes contrariedades, que qualquer sorriso da boa-fortuna me parecia, por excepcional, irrealisavel.

Annos duros da vida, quem lograria vencel-os, se não viessem ordinariamente na idade em que o coração é forte e a imaginação exaltada?!

O sr. Pereira não só respondia acceitando a minha{117}proposta, mas dirigia-me palavras de amabilissima cortezia. Offerecia-me o seu prestimo como auxilio á minha vida litteraria, que sabia ser trabalhosa. Declarava concordar com todas as condições que eu lhe propuzesse.

Esta fidalga resposta destoava do juizo que então se fazia dos editores em geral.

Balzac, nasIllusões perdidas, tinha deixado a ethopea do editor. Era uma anatomia. Contavam-se dezenas de anecdotas que depunham em favor do escalpelo de Balzac. Um editor lisbonense rejeitára um livro de poesias por lhe acharpouco peso. O poeta respondêra que voltaria com os seus versos copiados em papelão. O tempo dos Mecenas tinha passado, e os editores não pareciam resolvidos a substituil-os.

Nunca a celebre phrase de Villemain fôra tão verdadeira como applicada áquella época: «Les lettres ménent à tout, à condition de les quitter.»

Camillo trabalhava como um moiro para sustentar-se. Arnaldo Gama vivia com difficuldades. Evaristo Basto, o brilhante folhetinista portuense, mendigára um logar publico.

Os jornaes principiavam a dar vasão, com o estipendio de 500 réis por dia, ás ambições litterarias dos novos.

O que os estreantes queriam era sequer ao menos encontrar guarida na imprensa periodica, esquecidos, ai d'elles! de que, como disse Roqueplan, o jornal é uma galé de que de dez em dez annos se evadem dois forçados, que aliás ficam sempre com o ferrete de o terem sido.

Eu havia ido refugiar-me noJornal do Porto, onde a vinda de Ramalho Ortigão para Lisboa deixára aberta uma vaga. Confiei a essa vaga o meu fragil batel, mas a carga, por demasiado pesada, ameaçava naufragio. Tornava-se necessario recorrer de quando em quando, financeiramente, a uma boia de salvação, que só poderia ser o livro. Mas os editores eram difficeis, e hoje,{118}ainda o são mais, porque a febre das gazetas, e a variedade de materias a que a concorrencia as obriga, têem posto o livro pelas ruas da amargura. Os jornaes enxameam, pululam, atropelam-se, esmagam-se. E no meio d'este conflicto de interesses similares, o livro, como a cidade sitiada, espera, privado da sua liberdade de circulação, que a revolução dos jornaes acabe, tendo morrido os fracos, e subsistindo apenas os fortes. Gutenberg experimenta a lei de Darwin. Dos trezentos novos jornaes que se publicam cada anno, apenas 50 chegam ao dia de S. Silvestre. Mas esses cincoenta bastam para prolongar a crise que o livro vem atravessando ha dez annos a esta parte.

O que não deixa de ser curioso é que, justamente no momento em que o mercado mais falta ao livro, o publico exige, como está acontecendo, que o trabalho tipographico do livro seja não só perfeito, mas brilhante.

De resto, o facto percebe-se. O consumidor, assaltado pela lettra redonda dos jornaes, só se deixa tentar pela belleza dos chromos. Tudo o que não seja isto, cheira-lhe a jornal, e de jornaes está farto o consumidor. Mas o editor é que tem de aguentar-se nas aventuras, sempre dispendiosas, das impressões de luxo.

Tempo das edições em papel pardo, tempo dos habitos simples e honestos, em que tambem era singela atoilettedos livros, passaste á historia, és uma recordadação apenas, nada mais!

A resposta do sr. Pereira não só teve para mim o encanto de uma surpresa pelo que respeitava á difficuldade de encontrar um editor accessivel, mas tambem a refulgencia de uma aurora polar que deixava cair, sobre a minha longa noite de incertezas, um clarão doirado irradiando de estipendio certo.

Puz mãos á obra. Escolhi o assumpto e o titulo do romance. Chamar-se-iaO testamento de sangue. OJornal do Portoe o ensino livre absorviam-me o dia; foi pois á noite, depois de um dia inteiro de labutação litteraria,{119}que eu tracei os primeiros capitulos d'aquelle romance.

O enthusiasmo que me despertava esse trabalho, com que eu entraria no mercado lisbonense pela mão de um editor acreditado, fez que por mais de uma vez, conversando com Cruz Coutinho e com os meus collegas de redacção, alludisse aoTestamento de sangue.

Tinha escripto quatro capitulos do romance, quando noJornal do Portose deu o que eu chamarei uma crise de folhetim. Estavam ali sendo publicadosOs dramas de Paris, de Ponson du Terrail, arranjados sobre uma edição lisbonense. A publicação da obra atrazára-se em Lisboa, de modo que era preciso acudir á secçãodo folhetimcom um romance que não fosse tão longo que prejudicasse a sequencia dosDramas de Paris, nem tão breve que deixasse de preencher um compasso de espera.

—Se o teu romance não estivesse destinado para Lisboa, poderia servir para o jornal, dissera alguem.

Cruz Coutinho apoiou desde logo esse alvitre com uma insistencia, que me deixou embaraçado. Allegavam que eu não tinha marcado prazo ao sr. Pereira, nem estava obrigado a determinado assumpto. Poderia pois publicarO testamento de sanguenoJornal do Porto, e escrever outro romance para Lisboa. Observei em primeiro logar que não tomaria resolução alguma sem ter previamente consultado o sr. Antonio Maria Pereira; em segundo logar, que estando apenas traçados os primeiros capitulos, eu teria, para a publicação em folhetim, de escrever os outros dia a dia, o que certamente obstava a um tal ou qual acuro que eu queria dar á novella.

Cruz Coutinho conveio em que eu consultasse o sr. Pereira, e, para que o romance pudesse ser retocado, comprometteu-se a publical-o em volume depois de ter sido publicado em folhetim.

Nenhum obstaculo oppoz o sr. Pereira, dizendo-me,{120}na volta do correio, que me editaria um livro, qualquer que fosse, e quando me aprouvesse. A sua carta era gentilissima de amabilidade.

Comecei então a escrever precipitadamente o romance, a fim de satisfazer ao pesado encargo de um folhetim diario—encargo que eu acumulava com a minha collaboração no noticiario estrangeiro, e outras occupações quotidianas.

Uma vez, lembra-me bem, cheguei a desfallecer, exhausto de forças. Morava eu então no predio n.º 456 da rua do Almada. Da minha janella avistava-se a quinta do Pinheiro, e havia ahi um moinho-de-vento que, se eu olhava para elle, parecia dar-me estimulo á faina de todos os dias. Nem elle, nem eu paravamos nunca.

No livroNervosos, lymphaticos e sanguineosdeixei consignada, a pag. 86, uma recordação d'esse moinho com que eu tão irmanado estava—pelo destino. Arranco-a, para transcrevel-a, a uma carta dirigida a Alexandre da Conceição, com quem eu sustentava polemica epistolar noJornal do Porto.

«A esse, não a si, digo eu que, não tendo merecimentos litterarios para reivindicar, não estou disposto a desapossar-me da unica qualidade boa que, como homem, me pertence,—o amor ao trabalho. Os meus amigos conhecem-n'a e respeitam-n'a. Sinto-me então contente, e mais ainda quando, ao romper da manhã, vejo do meu gabinete, ao tempo que nem fumegam as casas vizinhas para a refeição matinal, a canceira com que um moinho-de-vento proximo vae rasgando o nevoeiro com os seus quatro braços alvejantes. A essa hora, quando ainda não martelam as officinas nem estrondea na rua o pregão dos bufarinheiros, os unicos trabalhadores que estão despertos, é o moinho e sou eu.»

Pude vencer a canceira que uma tal acumulação de trabalho importava. Escrevi o romance dia a dia, e no mez de setembro, finda a publicação em folhetim, revi-o, para sair em volume. O pequeno prologo que o{121}precede é de todo o ponto exacto quando explica a pressa com que oTestamento de sanguefôra escripto.

No anno seguinte, 1873, vim para Lisboa, com dois livros novos,A Porta do ParaisoeEntre o caffe e o Cognac. Tive então occasião de conhecer pessoalmente o sr. Antonio Maria Pereira.

Entrei um dia na sua pequena loja da rua Augusta n.° 50, 52. Seriam duas horas da tarde. Um calor abafadiço pesava sobre a cidade baixa. A loja, que o filho e successor de Antonio Maria Pereira acaba de transformar alargando-a, tinha uma só porta e amontre. Sobre o balcão havia uma grande agglomeração de livros e folhas impressas. Ao fundo da loja, de pé a uma escrivaninha, estava um homem que, ouvindo perguntar pelo sr. Antonio Maria Pereira, levantou a cabeça. Era elle. Á ilharga d'esta escrivaninha havia outra em que trabalhava um homem de barba e cabello preto: era o antigo caixeiro do estabelecimento, Pedro de Sousa. Em frente d'esta escrivaninha havia ainda outra, em que um rapaz, de bigode, parecia tomar notas. Era o Francisco, o segundo caixeiro da casa. Todos tres estavam trabalhando, ao som impertinente dos martelos do caldeireiro Lourenço, proximo vizinho.

Eu disse quem era, e o sr. Pereira veio ao balcão cumprimentar-me. A phisionomia um pouco arabe d'esteeditorera insinuante; e as suas maneiras distinctas. Bigode e cabello grisalhos, com uns tons luminosamente argenteos. Os olhos grandes e vivacissimos. A face morena e alegre. Um ar de riso, que lhe desfranzia os labios, inspirava confiança. Estava todo vestido de preto, e, na occasião em que entrei, fumava charuto.

Fóra do balcão havia dois bancos de palhinha. Fez-me sentar n'um d'elles, e debruçou-se no balcão conversando comigo. Poucas palavras haviamos ainda trocado, quando entrou um mocinho imberbe, cujas feições tinham uma notavel similhança com as do sr. Pereira.{122}Era seu filho, o actual editor[10]. Tempo antes, seguindo o exemplo paterno, havia começado a trabalhar, emprehendendo a publicação de umaEncyclopedia litteraria, para a qual tivera a amabilidade de solicitar a minha collaboração.

Escrevi ahi uns versos,Virgens loiras, cuja inspiração me parece hoje bastante macrobia: vinte e tres annos pesam sobre elles, e asVirgens, que devem estar decrepitas—como os versos.

Desde a hora da minha apresentação, ataram-se entre mim e o sr. Antonio Maria Pereira relações de agradavel convivencia.

Eu arrendei casa na rua Nova de S. Mamede, aos Caldas, perto do palacio do marquez de Penafiel, onde por signal entrei no dia do leilão e assisti ao desalfaiar d'aquellas opulentas salas, que deram brado em Lisboa.

Poucas pessoas terão como eu um tão affectuoso apêgo bairrista. Custa-me realmente sair do meu bairro, tanto me affeiçôo ás arvores e ás pedras que estou costumado a ver. De modo que o giro dos meus passos habituaes era limitado pelo Rocio, oude morava o meu editor Mattos Moreira, e a loja do sr. Pereira, na rua Augusta.

Muitas noites ia eu conversar á loja do sr. Pereira, onde havia, quando menos, dois cavaqueadores: o dono da casa e o bibliographo Innocencio.

Digo-o francamente: aprendia sempre alguma coisa n'esses serões litterarios, que se prolongavam ordinariamente até ás dez horas, e ás vezes até ás onze.

O sr. Pereira, que jantava muito tarde, voltava depois de jantar ao seu estabelecimento, disposto a distrair o espirito na conversação de um pequeno grupo de amigos. Havia quasi a certeza de o encontrar a essa{123}hora, e disse quasi, porque ás vezes, durante o estio, elle fugia alguns dias para o Alfeite ou para Cintra, e apreciava muito essas fugidas á sua labutação quotidiana.

Taes são as recordações, agradaveis e saudosas, que eu conservo d'esse illustrado editor, que prestou relevantes serviços ás lettras portuguezas pondo em evidencia o talento de muitos homens já hoje fallecidos[11]—graças talvez, e não pareça isto desacerto, á felicidade de haverem encontrado quem lhes abrisse a porta da gloria—editando-lhes os primeiros livros.


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