XIV

[10]Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamavaa vinagreira.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.[11]Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas, etc.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.{124}XIVInnocencio Francisco da SilvaDevi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima pessoal e de consideração litteraria.Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia.Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser{125}um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente derol de roupa suja de livros velhos. Que revoltante injustiça! De mais a mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de bibliophilo.Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra umvencido da vida. Viveu atormentadamente; e assim morreu.Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de portuguez antigo!Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima em facilidades de linguagem.Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de bondade antiga.A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá de Miranda:Homem d'um só parecer,D'um só rosto, uma só fé,D'antes quebrar que torcer,Elle tudo póde ser,Mas de côrte homem não é.Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a impressão de ter deante de si um{126}velho militar rabujento,—um major revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito.Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal, de—digamol-o assim—bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois daBibliotheca Lusitanado abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á publicação daBibliotheca Lusitana.Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras representa oDiccionario Bibliographico Portuguezaté o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos restantes volumes doSupplemento!De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação ininterrupta.Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada:Emfim!O seuemfim!devia ser a morte.Todos os dias, de toda a parte—graças á actividade febril dos prelos nos ultimos vinte annos—recebia novos livros, que se iam empilhando em camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a{127}um novo supplemento, que decerto já não esperaria concluir.Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia doDiccionario Bibliographico Portuguez, como subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu tempo, é pouco.Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o conto—Como as borboletas se queimam—inserto no livroPORTUGAL DE CABELLEIRA(1875).Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado conta nasMil e uma historiaso caso interessante de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do Pote das Almas.D'esta vez Innocencio ficou codilhado.A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o artigoBibliophilos e biblomaniacos, naEncyclopedia litteraria, publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:«Na classe dos bibliomaniacosimproductivos, que capricham em accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os leilões e a classicafeira da ladra, na diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias{128}da republica litteraria gosa de algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação doDiccionario, com a riqueza dos thesouros acumulados por Innocencio.O predio em que habitava—e que tem hoje uma lapide commemorativa—estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos do predio, unicos disponiveis.{129}Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. E—circumstancia que n'este momento me está lembrando com viva saudade—foi com o seu collar de academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de Galles.Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi.Innocencio.» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «Emfim!»{130}XVTres actrizesVi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio profana—a de ter visto passar no palco de um theatro um cherubim de azas brancas e cabello loiro.Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua historia vulgar no amor—como as outras. Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e muito leve...Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e umcoupéque a conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.Vi-a representar no Porto aCorae recitar aStella matutina, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa com aVisão dos tempos.{131}Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do poeta:Eu sou a filha d'EvaGerada em outro amor!Caíndo a dôr me eleva...Senhor, Senhor, Senhor!Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa mulher, destinada a... servir de fallaÁ dôr que emmudeceuseria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, aJoanna a doida, aMulher que deita cartas, aMedea.Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso magestoso—como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte{132}na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos atroadores sempre que o himno dalinda Emilia, como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista Pires.Ahi vae a lettra do himno:O robusto leão da victoriaDe teus pés lambe a terra em redor;Tua vida é um archivo de gloria,O teu nome um augusto esplendor.Para ti nunca findam as palmas,Nem os bravos que fazem tremer;E do ouro de lei d'estas almasSó tu podes um throno fazer.Nós que vemos os lumes ardentesOnde Deus escondel-os nos quiz,Vimos hoje dizer-te frementes:«És sublime, és sublime, ó actriz!»Arde o peito em delirio o mais puro,Cada olhar ao teu nome reluz;Has de ser immortal no futuro,Que este fogo é baptismo de luz.CôroPara a fronte onde o genio rebentaÉ pequena a corda dos reis;Ha no mundo uma só que lhe assenta:A corôa dos nobres laureis.Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados{133}dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas com applausos de amigos ebouquetsque se vão buscar ao palco para tornar a atiral-os.N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente commovida.Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos para um album ou para uma festa theatral.Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em honra dalinda Emiliadois e tres epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os no album da grande actriz.Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas novos.{134}Darei uma pequena amostra:Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!Póde um peito conter oceanos de luz!Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,Como o braço de Deus, cria mundos a flux...Feliz o que no berço abraça em sonhos vagosUm phantasma de fogo e acorda pensativo!Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...E então é tanto o ardor a incendiar a mente,Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;Um descobre um Principio, um outro um Continente,O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12]Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados no seio da terra.Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle compôz:Curvamo-nos tambem... É Deus que passaOcculto nos monarchas do proscenio!É o seu braço de luz que, em fogo, traçaN'aquellas sombras o caminho ao genio.Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse:Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,Sente, mas não traduz;Mulher ou anjo, realidade ou sonho,Teu genio admiro, como admiro o Etna!O mar... a noite... a luz!...{135}Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural belleza.Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863mulher ou anjo.Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça,O meia azul, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas enfermidades.O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de declamação e caracterisação.E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida:Mulher ou anjo, realidade ou sonho...O que restava do sonho era apenas a realidade...Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.Este dissera a Emilia das Neves:Agora que aos teus pés, mais uma vez,As rosas vem cobrir a tua estrada,Acceita esta homenagem não comprada,Mas filha do caracter portuguez!Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragediaJudith. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas de guerreiro.{136}Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria ardido n'aquella noite.Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou com mais enthusiasmo do que archotes.Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um doshoteisda Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo.Emilia das Neves, abafada n'umacapelinebranca, recebia da janella dohotelas saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso pouco importa.Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno:Para a fronte onde o genio rebentaÉ pequena a corôa dos reis;Ha no mundo uma só que lhe assenta:A corôa dos nobres laureis.E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé.E eu era então um d'elles.Isto foi em 1863.Hoje... tudo são ruinas e cinzas: dabella Emilia, o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles a cantaram.{137}O tempo é um demolidor terrivel?Gertrudes... Gertrudes não sei de que—toda a gente dizia apenas aGertrudes—pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar degrande dame, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela morte.Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do publico.Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.Acabára de realisar-se em Paris apremièredeMr. Alphonsede Dumas Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a peça em tres dias.Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.D. Maria pôde finalmente dar a peça—por tal signal que em beneficio de Brazão.{138}Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena:—Vai-te d'aqui, meu estupor.Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos a Gertrudes.Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena.Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro.Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella tinham estado em scena, disse-me:—Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou.Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau gosto, o original de Dumas.E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um tom sentencioso, disse:—Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.»[12]Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.{139}XVIActores celebresConheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequenochaletalcandorado pittorescamente sobre a praia dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa convenção, o ar do mar.Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;golfão de riso e dôr, que ora serena,ora referve e escuma em sanha rude.Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.{140}Concorri com Marcolino, durante tres noites, a umoiteirono convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era umoiteiro. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por muito tempo. Ooiteiroera o festival com que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador deoiteiros. No meu tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção nagradeda abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra dagradehavia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial da festa, como n'outros tempos.Foi n'esseoiteiroque eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas uma poesia lirica,A borboleta, de Thomaz Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação.Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:Eu conheço-a! oh, se a conheço!sempre volitando anciosa,esbelta, fugaz, airosa,esquiva, amante, esquecida,eterno enygma na vida!...Eu conheço-a! ah, se a conheço!Estimo-a; estimal-a é grato;quero entendel-a... endoideço!As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,{141}tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio que foi a ultima da sua vida.Eram duas horas da noite quando saimos dagrade, e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:Tenho esta noite glosadoVersos a esmo, a granel.Consenti, minhas senhoras,Que eu d'esta feita termineE que a vossos pés se inclineVosso servo: Pimentel.Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se dooiteirode S. Bento, porque tambem lá esteve: o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança em Africa.Foi tambem no Porto que eu conheci o SantosPitorra, como dizia toda a gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, ogrande Santos.A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os espectaculos e os ensaios, o palco e ofoyer, e escrevi por essa occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavamLirios, e que Emilia Adelaide recitára.Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre irremediavel.{142}Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar todas as faltas da actriz.Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres noHotel Francfort, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por vezes as mãos dos convivas.Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel da saudade...N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.Paro um momento a lel-os:Foi aqui—a historia o conta...Que entre flôres, palmas, himnos,Dos talentos peregrinosBrilhou a constellação.Era um loureiral a scena,O theatro escola e templo,Cada talento um exemplo,Cada palavra—lição.{143}Formoso e esplendido quadro!As bellas frontes rasgadasResplandeciam banhadasEm misterioso fulgor...Grupo onde tudo era grandeMerecia moldura d'ouro,Se tantas cordas de louroNão o cingissem melhor.Foi o tempo devastandoAs maravilhas da tela.Onde a loira Manuela?Onde Epiphanio, o pharol?Onde Sargedas, a graça?Onde Tasso e a sua gloria?Mais quatro nomes na historia,Mas não é posto inda o sol.Não é. O quadro tem vida.Move-se, agita-se, falaRemurmuram n'esta salaOs eccos da sua voz...Supponde muitas palmeirasRasgando do céu as brumas...Quando o vento prostra algumas,As outras não ficam sós.Dos velhos heroes da scenaDescem hoje sobre o espolio,No theatro-Capitolio,Flôres d'antiga ovação.É que um talento robusto,Honrando um nobre legado,Resuscita hoje o passado,Renova as flôres d'então.E a sua voz, que dominaDa ovação a anciedade,É a voz da posteridade,Que da scena aos velhos reisDiz como um brado da historia:«La vos honrei o legado;«Se vos prostrou o passado,«Não sois mortos. Reviveis...»{144}E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção particularmente se detém:Mas não é posto inda o sol.Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do velho theatro normal.Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.Não era posto ainda o sol, porque elle era a luz crepuscular; não estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle.Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se.Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade...{145}Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a terceira no theatro da Trindade.Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a de Luiz XVI—que tantas vezes reproduzira—passando através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro.A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como umsans-culotteimplacavel, arrastava-o para oTemple, as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI:Ah! a natureza humana não tem força para mais!O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos doTemple: era a sua familia que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio!Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto{146}fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.Era o Delphim que pranteava a morte do rei...Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazerpartidas: algumas conta elle proprio nas suasMemorias. Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. Quando cantava com Taborda oduettodeMoysés, ou representava osDois candidatosePara as eleições, era da gente rebentar a rir.Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.No trato particular, um perfeito cavalheiro.Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia então um logar na alfandega.Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio doAdamastor, de Camões, e oFirmamento, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'umareprisedoMarquez de lá Seiglière, que foi o seu cavallo de batalha.{147}Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, de que tenho falado, o maisposeur: toda a gente se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis*Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»A sua dicção, um poucosaccadée, era cristallina, sonora. Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse estar melhor em scena.Vi o Sargedas noGaiato de Lisboa, no theatro de S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia oGaiatocomo se estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, só os consegue o talento.Antonio Pedro é um morto de outro dia.Fóra do theatro, a suagaucheriepassava em proverbio. No theatro era um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam{148}a ignorancia manifesta em questões de arte dramatica.Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua organisação artistica.*Com o Tasso convivi durante umatournée, no Porto; com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer diabrura tipographica.Já isso vai ha tanto tempo!{149}XVIIPintoresNo verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da commissão de exames de instrucção secundaria.Coimbra, aterra de encantos, só então me pareceu tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco agradavel.Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.Uma delicia!De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores{150}do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o rodeava.Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que destacavam á prôa do barco.Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse lado ficava aFonte dos amoresemboscada saudosamente na sombra de corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois kilometros da cidade, aLapa dos esteios, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta daPrimaverae os seus amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os amores.Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma alma de artista, era uma organisação{151}delicada como a de Raphael, que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam.Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma gondoleira.Ó dolce voluttá! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego sonhando sobre as aguas!Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece ao cabo de algumas horas de concentração.Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com o pintor Christino.Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente devoradores!...Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era comtudo facil e agradavel.Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que{152}os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por vinte e quatro horas.No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido repentinamente.E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia vender saude.Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'umasoiréelitteraria que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de convicção dava-me estimulo.Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar...{153}XVIIIUm grupo de academicosLendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet—Trente ans de Paris—lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de Villemessant.O livro (collecção Guillaume & C.ie) é illustrado, e até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me varias vezes com elle nassoiréespoliticas de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, umgentleman, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção doJornal da Noite. Eu precisava{154}trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança de que ogentlemandas salas havia de continuar a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de jornal.Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me.Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.Foi o que aconteceu comigo.Depois que sai da redacção doJornal da Noitevivemos deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio d'aquelle editor.{155}Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é conservar-se inedito.Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia.Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me.Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos.É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da livraria.»Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da Academia.Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo.Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do mesmo officio sem razões de{156}queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, que têem serralho.O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com um livro de versos, oDiwan. Mas á força de trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente novo.A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor com as rosas.Lembro-me de que á despedida elle me dissera:{157}—Olhe lá. Voce diz noGuia do viajante no Portoque eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como os mexilhões.Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua mocidade,A Semana, por exemplo. O que lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança e a Casa dos Bicos, bem como osEstudinhos de lingua patria, publicados noArchivo Pittoresco. De resto não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação.Quando eu escrevi oLivro das lagrimaspara a casa Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam do assumpto.E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros.Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.{158}Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, teve uma grande admiração.A Semana, jornal que Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente romancista.Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se noHotel Universal. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillopor mestre.{159}XIXConselheiro VialeUm dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever um romance historico.[13]Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romanceAnnel mysteriosocomeçou a ser publicado em fasciculos.Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente aoAnnel mysterioso.Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu succedesse a mim proprio.Non bis in idem, diz o proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse do que oAnnel mysterioso,{160}e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação doAnnel mysterioso, seguiu-se immediatamente a daPorta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,[14]com tipographia na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa.Comecei a escrever aPorta do Paraisono Porto. A meio do romance, caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de 600 réis por dia...Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.{161}Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de pronunciar havia umticoriginal, que fazia retinir algumas sillabas.Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos arraiaes litterarios, era «Place aux jeunes», ainda que para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos.Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.Falou-me daPorta do Paraiso, disse-me que o livro lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias:Apontamentos para uma biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima memoria, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando{162}a firmeza convicta de um crente. Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho daIlliadaou uma ode de Pindaro.Collaborou noJornal da Sociedade Catholica, redigiu oCatholico, traduziu o primeiro canto daOdissea, o sexto daIlliada, os cinco primeiros cantos doInferno de Dante, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado.A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema heroico,David triumphante, entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção{163}era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar um momento.Eu tenho aqui, deante de mim, asTentativas Dantescasdo conselheiro Viale, a sua traducção doInfernoprefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro V.As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das dedicatorias.Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse ministrar.Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.Maio de 1889.

[10]Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamavaa vinagreira.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.[11]Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas, etc.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[10]Falleceu prematuramente, minado pela doença nas asperezas do exhaustivo trabalho quotidiano—a que elle chamavaa vinagreira.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[11]Refiro-me a Julio Cesar Machado, Camillo Castello Branco, Pinheiro Chagas, etc.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

{124}

Devi sempre a este homem benemerito as mais subidas provas de estima pessoal e de consideração litteraria.

Foi elle que me propoz socio correspondente da Academia Real das Sciencias. E fel-o espontaneamente, penhorando-me sobremodo.

Mantive com Innocencio as melhores relações de amizade, inalteravel entre nós dois até os ultimos dias da sua attribulada existencia.

Digo attribulada, porque em verdade o foi: Innocencio não recebeu nunca do estado os beneficios a que, pela improba canceira a que se dedicou, tinha inquestionavel direito. Foi obrigado a dividir o seu tempo entre a funcção burocratica, que desempenhava no governo civil de Lisboa, e os seus valiosissimos trabalhos bibliographicos. Nem todos os homens de lettras lhe faziam inteira justiça; muitos d'elles investiram cruelmente com o pobre Innocencio, chegando a negar-lhe foros de escriptor, simplesmente pelo facto de não ser{125}um estilista. Alguns amesquinhavam o seu trabalho, que capitulavam desdenhosamente derol de roupa suja de livros velhos. Que revoltante injustiça! De mais a mais, Innocencio, na absorvente paixão que tinha pelos livros, não dispunha de meios bastantes para poder satisfazer todos os seus caprichos de bibliophilo.

Estas circumstancias explicavam inteiramente o tom por vezes azedo e irritado das suas apreciações litterarias, falando ou escrevendo. Innocencio devia pouco ao mundo para o qual sempre havia trabalhado dedicadamente. Tinha a consciencia de merecer mais do que lhe davam, e o seu espirito justiceiro revoltava-se contra essa flagrante ingratidão. D'elle é que com propriedade se poderia dizer que fôra umvencido da vida. Viveu atormentadamente; e assim morreu.

Mas, serenadas essas legitimas explosões de colera, que bello coração o seu e, a sobredoirar a bondade do coração, que excellente caracter de portuguez antigo!

Tinha coisas de creança, mutabilidades de genio verdadeiramente infantis. Passava rapidamente da indignação á bonomia, e então era adoravel a sua conversação familiar, sempre erudita, e muitas vezes liberrima em facilidades de linguagem.

Não era, nunca foi, um palaciano, um homem de sala. Não sabia enganar nem fingir. O que era, era. Mas havia na sua alma, repito, um grande e doce fundo de bondade antiga.

A sua individualidade ajustava-se de molde á conhecida quintilha de Sá de Miranda:

Homem d'um só parecer,D'um só rosto, uma só fé,D'antes quebrar que torcer,Elle tudo póde ser,Mas de côrte homem não é.

Homem d'um só parecer,D'um só rosto, uma só fé,D'antes quebrar que torcer,Elle tudo póde ser,Mas de côrte homem não é.

Quem o visse a primeira vez, e o ouvisse ralhar sanhudo, receberia a impressão de ter deante de si um{126}velho militar rabujento,—um major revoltado contra a sua reforma e a decadencia do exercito.

Mas, ouvindo-o falar em certas horas de mansidão patriarchal, de—digamol-o assim—bom humor tarimbeiro, ficava-se encantado de ouvil-o e de tratal-o, porque a sua erudição fazia desculpar as demazias de linguagem em que ás vezes caía.

Como bibliographo, elle edificou a mais notavel obra que, depois daBibliotheca Lusitanado abbade Barbosa, saiu dos prelos portuguezes. Não só melhorou o trabalho de Barbosa, corrigindo-o e ampliando-o, mas escripturou com larga noticia, quasi sempre impeccavelmente conscienciosa, todo o inventario dos livros estampados posteriormente á publicação daBibliotheca Lusitana.

Que somma de paciencia, de fadiga, de diuturna applicação, de buscas mallogradas ou felizes, de sacrificios pecuniarios, de caminhadas improductivas ou bem succedidas, de contrariedades vencidas ou vencedoras representa oDiccionario Bibliographico Portuguezaté o ponto em que o deixou publicado, e apparelhado para a continuação dos restantes volumes doSupplemento!

De mais a mais, a natureza da especialidade em que labutava não lhe consentia uma hora de descanso. Tarefa interminavel, porque um diccionario bibliographico não se completa nunca, arrastava-o a uma aspera applicação ininterrupta.

Elle jámais poderia dizer como os marinheiros que, ao cabo de uma longa viagem, avistam a terra desejada:Emfim!

O seuemfim!devia ser a morte.

Todos os dias, de toda a parte—graças á actividade febril dos prelos nos ultimos vinte annos—recebia novos livros, que se iam empilhando em camadas alterosas á espera que a alphabetação por auctores lhes fizesse lugar nos tomos seguintes, ou no retrocesso a{127}um novo supplemento, que decerto já não esperaria concluir.

Todos nós podemos hoje testemunhar a grande importancia doDiccionario Bibliographico Portuguez, como subsidio para os nossos trabalhos litterarios. Tem defeitos e lacunas, mas seria absurdo exigir que os não tivesse. O que elle dá, é bom; o que deixa de dar, em relação ao seu tempo, é pouco.

Como bibliophilo, Innocencio Francisco da Silva não era um avarento, um Harpagão egoista, que fechasse a sete chaves os seus livros e os seus manuscriptos. Facultava uns e outros aos seus amigos. Eu mesmo fui obsequiado por elle com a copia de algumas poesias ineditas de Gabriel Pereira de Castro, que me serviram para architectar sobre ellas o conto—Como as borboletas se queimam—inserto no livroPORTUGAL DE CABELLEIRA(1875).

Egoismo de bibliophilo só o tinha para os seus collegas em bibliomania. Era natural que, entre elles, disputasse encarniçadamente a presa. Julio Cesar Machado conta nasMil e uma historiaso caso interessante de Pereira Merello e Innocencio procurarem enganar-se um ao outro, com o fim de apanharem um livro raro, que ambos haviam lobrigado no Manuel Rodrigues, do Pote das Almas.

D'esta vez Innocencio ficou codilhado.

A este ou outros desastres alludia elle certamente quando, escrevendo o artigoBibliophilos e biblomaniacos, naEncyclopedia litteraria, publicada pelo sr. Antonio Maria Pereira (filho), dizia com visivel azedume:

«Na classe dos bibliomaniacosimproductivos, que capricham em accumular livros sobre livros, um conhecemos sobre todos digno de menção especial. Fareja este homem diariamente ha bons vinte e cinco annos, as lojas dos livreiros e alfarrabistas de Lisboa, sem que lhe escapem os leilões e a classicafeira da ladra, na diligencia de prover-se de tudo o que nas diversas provincias{128}da republica litteraria gosa de algum apreço por merito ou raridade. As linguas, o assumpto, a edade dos livros são para elle coisas indifferentes; sciencias, arte, litteratura, prosa e verso, impressos ou manuscriptos em qualquer lingua, e de qualquer tempo, tudo lhe serve e tudo abarca. D'este modo tem conseguido reunir copiosissima somma de volumes, e não sem grande dispendio, com quanto seja de genio naturalmente acanhado, e de uma mesquinhez que toca as raias da miseria, chegando por vezes a tornar-se insupportavel aos vendedores que o têem por um caustico volante. Pois esta originalissima creatura, cujo saber parece ser encyclopedico, apenas nos deu até hoje por suado fructo de tantas lucubrações um magrissimo artigo de vinte e tantas linhas, servindo de explicação a uma reles lithographia, que appareceu ha muitos annos em certo jornal artistico de Lisboa, de ephemera duração!...»

Aqui está o Innocencio azedo, despeitado, tal como elle era nas suas horas de indignação. Mas, bibliophilo productivo, auctor de um vasto repositorio bibliographico que a todos aproveitaria, comprehende-se e desculpa-se o desespero com que elle veria fugir-lhe um raro exemplar precioso, destinado a tornar-se improductivo para toda a gente, com excepção, talvez, do seu feliz possuidor.

Elle tinha a religião, o fetichismo do livro. Era um idolatra, um fanatico. Mas n'aquelle templo litterario da rua de S. Filippe Nery abriam-se de par em par as portas para os amigos que queriam estudar. E os que não eram seus amigos pessoaes, aproveitavam, mediante a publicação doDiccionario, com a riqueza dos thesouros acumulados por Innocencio.

O predio em que habitava—e que tem hoje uma lapide commemorativa—estava completamente cheio de livros, de alto a baixo. Innocencio e a sua pequena familia habitavam, os peores compartimentos do predio, unicos disponiveis.{129}

Foi na loja do Pereira pae, na rua Augusta, que eu conheci Innocencio. Elle ia ali todas as noites. Ali estreitamos relações de amizade cordealissima. Innocencio falava sempre, fumando muito, e habitualmente maus charutos. Tinha o costume de deixal-os apagar para que se tornassem mais fortes quando os reaccendesse. Em sua casa havia differentes caixas atulhadas de pontas de charuto, que elle fumava emquanto estava trabalhando.

Disse-se que esse abuso de mau tabaco contribuira para matal-o. Innocencio morreu de um scirro na lingua, que o fez soffrer terrivelmente. Não podia falar, não podia comer, não podia descansar com dores atrocissimas.

Que attribulada existencia, e que tormentosa morte!

Eu fui visital-o algumas vezes durante a sua longa e dolorosa agonia. Despedaçava o coração vel-o soffrer. E—circumstancia que n'este momento me está lembrando com viva saudade—foi com o seu collar de academico que eu concorri ao baile dado no Paço d'Ajuda em honra do principe de Galles.

Quando lh'o devolvi, Innocencio escreveu n'um bocado de papel: «Recebi.Innocencio.» Mas a sua lettra estava já inteiramente desfigurada. A morte ia apagando lentamente todos os vestigios da sua viril individualidade. Foram as ultimas palavras que recebi de Innocencio.

Dias depois morria, e só n'essa hora a sua alma, sempre trabalhada de canceiras e desgostos, poderia dizer, pela primeira vez, «Emfim!»

{130}

Vi no theatro de S. João do Porto representar a Manuela Rey, e parece-me, se penso n'isso, que estou sonhando ainda uma doce illusão meio sagrada, meio profana—a de ter visto passar no palco de um theatro um cherubim de azas brancas e cabello loiro.

Essa mulher idealmente bella tinha a sua chronica de actriz, a sua historia vulgar no amor—como as outras. Mas vel-a era o mesmo que divinisal-a, ouvil-a era esquecer a sua origem terrena, a sua vida mundana.

Dava vontade de roubal-a n'uma noite azul, envolvendo-a n'um veo de gaze branco e de conduzil-a á beira de um lago para que as estrellas e os lirios fossem testemunhas de um primeiro beijo de amor, muito casto e muito leve...

Era mulher para um idillio, para um sonho de poeta. E todavia, acabado o espectaculo, ella tinha um amante que a esperava e umcoupéque a conduzia para um leito onde nem os lirios nem as estrellas se prestariam a engrinaldar idealmente as almofadas de sumaúma.

Vi-a representar no Porto aCorae recitar aStella matutina, de Theophilo Braga, o qual tinha feito recentemente a sua estreia ruidosa com aVisão dos tempos.{131}

Nos labios de Manuela Rey passavam, como celeste harmonia, os versos do poeta:

Eu sou a filha d'EvaGerada em outro amor!Caíndo a dôr me eleva...Senhor, Senhor, Senhor!

Eu sou a filha d'EvaGerada em outro amor!Caíndo a dôr me eleva...Senhor, Senhor, Senhor!

Vendo-a e ouvindo-a comprehendia-se que se uma lagrima tivesse voz, vibraria exactamente na tremula modulação musical d'aquella garganta divina, e que se n'uma lagrima se houvesse gerado uma mulher, essa mulher, destinada a

... servir de fallaÁ dôr que emmudeceu

... servir de fallaÁ dôr que emmudeceu

seria personificada na formosura etherea e biblica de Manuela Rey.

A Emilia das Neves, a grande tragica portugueza, vi representar no Porto todo o seu velho repertorio, aJoanna a doida, aMulher que deita cartas, aMedea.

Era uma mulher da Grecia antiga, apta para interpretar Sophocles e Euripedes. A sua belleza decaía no esplendor de um occaso magestoso—como o sol. Via-se, atraves da neve com que a velhice lhe pulverisava os cabellos e as feições, a estatua que um Phidias cinzelára no seu corpo de marmore. A expressão tragica dos olhos, a riqueza dramatica da voz, a amplidão esculptural do peito tinham-n'a fadado para a scena antiga, onde as grandes paixões humanas, para expludirem theatralmente, exigiam um corpo que não ficasse vexado dentro de um manto real, uma plastica talhada a cinzel n'um bloco de Paros.

Entre as minhas recordações mais nitidas avulta a da apotheose que os estudantes do Porto realisaram no theatro Baquet, na noite de 26 de fevereiro de 1863, em honra de Emilia das Neves e Sousa.

Eu tinha então quatorze annos, e não tomei parte{132}na festa senão como espectador. Mas raro foi o estudante favorecido das musas que não afinasse a lira para aquella famosa noite. Lembro-me perfeitamente da difficuldade que a minha familia teve em obter um camarote de segunda ordem. Na platéa, os estudantes, empilhados como sardinha em tigela, vozeavam applausos atroadores sempre que o himno dalinda Emilia, como ainda então se dizia, era executado pela orchestra.

A lettra d'esse himno fôra escripta por Custodio José Duarte, um poeta que estudava medicina; compuzera a musica outro academico, João Baptista Pires.

Ahi vae a lettra do himno:

O robusto leão da victoriaDe teus pés lambe a terra em redor;Tua vida é um archivo de gloria,O teu nome um augusto esplendor.Para ti nunca findam as palmas,Nem os bravos que fazem tremer;E do ouro de lei d'estas almasSó tu podes um throno fazer.Nós que vemos os lumes ardentesOnde Deus escondel-os nos quiz,Vimos hoje dizer-te frementes:«És sublime, és sublime, ó actriz!»Arde o peito em delirio o mais puro,Cada olhar ao teu nome reluz;Has de ser immortal no futuro,Que este fogo é baptismo de luz.CôroPara a fronte onde o genio rebentaÉ pequena a corda dos reis;Ha no mundo uma só que lhe assenta:A corôa dos nobres laureis.

O robusto leão da victoriaDe teus pés lambe a terra em redor;Tua vida é um archivo de gloria,O teu nome um augusto esplendor.

Para ti nunca findam as palmas,Nem os bravos que fazem tremer;E do ouro de lei d'estas almasSó tu podes um throno fazer.

Nós que vemos os lumes ardentesOnde Deus escondel-os nos quiz,Vimos hoje dizer-te frementes:«És sublime, és sublime, ó actriz!»

Arde o peito em delirio o mais puro,Cada olhar ao teu nome reluz;Has de ser immortal no futuro,Que este fogo é baptismo de luz.

Côro

Para a fronte onde o genio rebentaÉ pequena a corda dos reis;Ha no mundo uma só que lhe assenta:A corôa dos nobres laureis.

Por mais de uma vez foi o côro repetido pelos espectadores, postos em pé sobre as cadeiras ou pendurados{133}dos camarotes de terceira ordem, por onde ainda outro dia as chammas alastraram as suas linguas de fogo.

Se houve ovação espontanea e enthusiastica foi aquella, tão differente, bem o póde dizer quem a viu, das ovações convencionaes que hoje se fazem aos nossos artistas com applausos de amigos ebouquetsque se vão buscar ao palco para tornar a atiral-os.

N'aquella noite havia uma tal abundancia de poetas e flôres, abundancia caudalosa, que a propria Emilia das Neves, habituada ás glorias da scena, estava profundamente commovida.

Qualquer poeta de hoje em dia a custo escreverá meia duzia de versos para um album ou para uma festa theatral.

Pois, n'aquella noite de ha vinte e cinco annos, os melhores poetas da Academia do Porto compuzeram em honra dalinda Emiliadois e tres epinicios cada um e, não contentes com imprimil-os ou recital-os, reproduziram-n'os no album da grande actriz.

Assim, Custodio Duarte, além de ter composto o himno, escreveu uns alexandrinos que foram distribuidos, e outros alexandrinos que foram recitados por Luiz de Azevedo Mello e Castro, estudante de medicina.

Este estudante de 1863 é hoje cirurgião do exercito. Recitava primorosamente. Vi-o ha poucos annos em Setubal, tomando cerveja á porta do botequim do Lapido, melancolico e concentrado como sempre. Tive vontade de chegar-me ao pé d'elle e perguntar-lhe: «Lembra-se da noite de 26 de fevereiro de 1863?» Se eu tivesse feito a pergunta, elle haver-me-hia respondido decerto: «Se lembro!» Aquella festa de estudantes ficou indelevel na memoria de quantos então o eram.

Os versos que o sr. Luiz de Castro recitou fôram trabalhados por Custodio Duarte sobre o modelo de Victor Hugo, que era então o mestre favorito dos poetas novos.{134}

Darei uma pequena amostra:

Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!Póde um peito conter oceanos de luz!Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,Como o braço de Deus, cria mundos a flux...Feliz o que no berço abraça em sonhos vagosUm phantasma de fogo e acorda pensativo!Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...E então é tanto o ardor a incendiar a mente,Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;Um descobre um Principio, um outro um Continente,O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...

Na fronte mais humilde ha uma coisa infinita!Póde um peito conter oceanos de luz!Ha um quê no coração, que, se um dia palpita,Como o braço de Deus, cria mundos a flux...

Feliz o que no berço abraça em sonhos vagosUm phantasma de fogo e acorda pensativo!Ao tecto do casal vem-lhe a estrella dos Magos,E sempre estrada immensa aponta-o lume vivo...

E então é tanto o ardor a incendiar a mente,Que se crê que lá dentro estalam mil vulcões;Um descobre um Principio, um outro um Continente,O Talma encontra um palco, uma lyra Camões!...

Custodio Duarte fez-se medico, e foi para a India. Era ha poucos annos professor de não sei quantas cadeiras na escola de Gôa. Depois esteve na Africa occidental. Ultimamente regressou á metropole.[12]

Mas não poucos dos moços poetas d'essa noite devem estar já pulverisados no seio da terra.

Um d'elles era Guilherme Braga. Posso reproduzir a quadra final que elle compôz:

Curvamo-nos tambem... É Deus que passaOcculto nos monarchas do proscenio!É o seu braço de luz que, em fogo, traçaN'aquellas sombras o caminho ao genio.

Curvamo-nos tambem... É Deus que passaOcculto nos monarchas do proscenio!É o seu braço de luz que, em fogo, traçaN'aquellas sombras o caminho ao genio.

Outro era Ernesto Pinto de Almeida, um lamartiniano de valor, que disse:

Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,Sente, mas não traduz;Mulher ou anjo, realidade ou sonho,Teu genio admiro, como admiro o Etna!O mar... a noite... a luz!...{135}

Eu, pobre espectador, do ignaro vulgo,Que, d'alta sciencia deslumbrando ideas,Sente, mas não traduz;Mulher ou anjo, realidade ou sonho,Teu genio admiro, como admiro o Etna!O mar... a noite... a luz!...{135}

Emilia das Neves já estava então longe da sua florida mocidade, que devia ter sido gloriosa de esculptural belleza.

Mas, ainda assim, os poetas portuenses de melhor quilate não duvidavam chamar-lhe em 1863mulher ou anjo.

Annos depois vi-a representar em D. Maria a sua ultima peça,O meia azul, n'uma decadencia pungitiva. A mulher luctava com a doença e com a velhice: duas enfermidades.

O anjo havia rasgado as azas nos espinhos de um esforço supremo de declamação e caracterisação.

E então passava nos meus ouvidos este verso de Ernesto Pinto de Almeida:

Mulher ou anjo, realidade ou sonho...

Mulher ou anjo, realidade ou sonho...

O que restava do sonho era apenas a realidade...

Outro dos poetas mortos chamava-se Nogueira Lima, ourives da rua das Flores. Um hipocondriaco fatalista e supersticioso.

Este dissera a Emilia das Neves:

Agora que aos teus pés, mais uma vez,As rosas vem cobrir a tua estrada,Acceita esta homenagem não comprada,Mas filha do caracter portuguez!

Agora que aos teus pés, mais uma vez,As rosas vem cobrir a tua estrada,Acceita esta homenagem não comprada,Mas filha do caracter portuguez!

Então ainda se não escrevia ideia com lettra grande, mas o genio dramatico de Emilia das Neves impunha-se de tal modo a admiração dos poetas, que não vacillavam em tratal-a com maiusculas, como se se estivessem dirigindo a uma verdadeira realeza.

Emilia das Neves representára n'aquella noite a tragediaJudith. Soberba, n'esse papel, em que nunca mais tornei a vel-a. Recordo-me nitidamente dos lances capitaes da peça, sobretudo d'aquelle em que ella degolava Holophernes, o qual Holophernes era o actor Maggioli com barbas de guerreiro.{136}

Se o fogo do enthusiasmo pudesse incendiar theatros, o do Baquet teria ardido n'aquella noite.

Quando o espectaculo acabou, a grande Emilia foi acompanhada a casa pela estudantada n'uma especie de «marche aux flambeaus», que se improvisou com mais enthusiasmo do que archotes.

Ella havia-se hospedado, se não estou em erro, n'um doshoteisda Praça da Batalha. Ahi recomeçou trovejante a ovação, ao ar livre, e frio como costuma ser o das noites do Porto em fevereiro. Mas os corações estavam quentes, e as saudações ininterruptas ribombavam estentorosas pela rua de Cima de Villa dentro e pela Calçada da Madeira abaixo.

Emilia das Neves, abafada n'umacapelinebranca, recebia da janella dohotelas saudações, alvejando como uma visão de Ossian ou de Macpherson; para o caso pouco importa.

Ranchos e ranchos, que tinham saido do Baquet no couce da archotada, assistiam gratuitamente a esse ultimo acto d'um espectaculo pago por bom dinheiro.

Os estudantes, voz em grita, entoavam o côro do himno:

Para a fronte onde o genio rebentaÉ pequena a corôa dos reis;Ha no mundo uma só que lhe assenta:A corôa dos nobres laureis.

Para a fronte onde o genio rebentaÉ pequena a corôa dos reis;Ha no mundo uma só que lhe assenta:A corôa dos nobres laureis.

E, á socapa, a alegre malicia dos estudantes commentava muito o terceiro verso d'esta quadra, segundo certa hermeneutica que passára despercebida ao proprio auctor e aos ouvintes de boa fé.

E eu era então um d'elles.

Isto foi em 1863.

Hoje... tudo são ruinas e cinzas: dabella Emilia, o alvo d'aquella ovação; de alguns poetas que endeusaram a grande tragica portugueza em versos de toda a especie; e até do theatro onde ella representou e elles a cantaram.{137}

O tempo é um demolidor terrivel?

Gertrudes... Gertrudes não sei de que—toda a gente dizia apenas aGertrudes—pertencia a essa raça privilegiada de mulheres fortes e bellas, em que Emilia das Neves brilhou como o sol no meio do sistema planetario.

Fôra no theatro portuguez, como actriz, uma das primeiras entre as segundas; como mulher, o seu corpo branco e opulento, a sua carnação sadia e válida, fazia pensar mais n'ella como mulher do que como actriz.

E era ainda o seu vulto distincto, o seu ar degrande dame, o seu bello collo de alabastro que, na velhice e na doença, triumphavam na scena de D. Maria, poucos mezes antes da pobre Gertrudes cair tocada pela morte.

Na intimidade do camarim, ella tinha a mais infatigavel mordacidade de que dou noticia em mulher. Mas sabia ser mordaz, porque entretinha, e dizia quasi sempre a verdade. Conhecendo muito bem a vida dos bastidores, os seus ridiculos e os seus pôdres, dava quasi todas as noites um curso de psichologia theatral. Punha a nú os segredos mais ou menos escandalosos, que as lonas encobriam; e a golpes de epigramma tesourava os anteparos de papelão, que armavam á credulidade ingenua do publico.

Estou-me lembrando de um quarto de hora de Rabelais, que ella me fez passar no theatro de D. Maria.

Acabára de realisar-se em Paris apremièredeMr. Alphonsede Dumas Filho, e Santos, então á frente da empresa de D. Maria, encarregára-me de traduzir a peça em tres dias.

Tres dias, é um modo de dizer. Eu só tinha livres as noites, e foi justamente á noite que, passeando e fumando, ia ditando a traducção a um amigo meu, que se prestára a esse serviço, e que já hoje não existe.

D. Maria pôde finalmente dar a peça—por tal signal que em beneficio de Brazão.{138}

Na segunda noite cheguei ao theatro, entrei na platea, encostei-me a uma porta. Eu recebia, como todos os traductores, uma percentagem sobre os bilhetes vendidos. Vi que a casa estava completamente cheia, alegrou-me esse facto, que redundava em proveito meu, e ia a sair da platea quando inesperadamente ouvi a Gertrudes dizer em scena:

—Vai-te d'aqui, meu estupor.

Rebentou em todo o theatro uma hilaridade retumbante, o publico riu longamente, mas eu, fulminado, desesperado, corri á caixa, procurei por todos os cantos a Gertrudes.

Ella tinha sido chamada uma vez, muitas vezes: estava ainda em scena.

Mal que a vi dirigir-se para o camarim, corri ao seu encontro.

Gertrudes, rindo muito, como todos os outros artistas que com ella tinham estado em scena, disse-me:

—Já sei, já sei. Então que quer? Escapou-me! Mas o caso é que agradou.

Observei-lhe que esse lapso me prejudicava litterariamente; que eu podia ser accusado, com apparente razão, de ter deturpado a meu bel-prazer, e com mau gosto, o original de Dumas.

E ella, sentando-se no sophá do camarim, ainda arquejante, tomando um tom sentencioso, disse:

—Olhe, meu amigo, não viu como o publico gostou? D'isto é que toda a gente entende, e gosta. Perdoe o mal que lhe fiz, pelo bem que soube ao publico.

E eu, que entrára zangado, acabei rindo... tambem.

Nos ultimos tempos, a doença cavára sulcos profundos no seu rosto. E aquella forte e bella mulher, que parecia talhada, como Emilia das Neves, pelo cinzel de um estatuario, expirou decerto poucos momentos depois do espelho lhe ter dito: «Estás irremediavelmente morta.»

[12]Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

[12]Já falleceu. Era irmão de outro poeta illustre, que felizmente ainda vive, Manuel Duarte d'Almeida.—NOTA DA 2.ª EDIÇÃO.

{139}

Conheci muito bem no Porto o actor Marcolino, já alcachinado pela terrivel doença que o matou. Soffria da spinal-medulla; estava perdido. Vivia n'um pequenochaletalcandorado pittorescamente sobre a praia dos Inglezes, na Foz. Os medicos haviam-lhe receitado, por piedosa convenção, o ar do mar.

Marcolino era um actor comico de subido merecimento, muito estimado em Lisboa. A doença afastou-o do palco, e da capital. Foi, pois, no Porto que o conheci, e eu podia então dizer com Thomaz Ribeiro:

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;golfão de riso e dôr, que ora serena,ora referve e escuma em sanha rude.

Eu nunca vi Lisboa, e tenho pena;mãe de sabios, de heroes, crime e virtude;golfão de riso e dôr, que ora serena,ora referve e escuma em sanha rude.

Mal pensava eu então que, annos volvidos, viria fixar residencia em Lisboa, mais attraido pelo seu movimento litterario e artistico do que pelas magras sopas que o orçamento me offerecia n'um prato de estanho.{140}

Concorri com Marcolino, durante tres noites, a umoiteirono convento de S. Bento da Ave-Maria. Os rapazes de hoje não sabem o que era umoiteiro. Pois deixaram de conhecer o melhor de todos os saraus litterarios, que a tradição da extincta Arcadia conservou ainda por muito tempo. Ooiteiroera o festival com que se celebrava a eleição da abbadessa em cada convento. Durava tres dias e tres noites. N'outro tempo, as freiras diziam das janellas para o pateo os motes que os poetas glosavam. Bocage foi um fogoso frequentador deoiteiros. No meu tempo, as coisas tinham mudado já. Havia recepção nagradeda abbadessa. O feminino superior do convento sentava-se, dentro da grade, em semicirculo, dando a presidencia á prelada recentemente eleita. Fóra dagradehavia um piano, um bufete permanente, e o masculino preciso para mundanisar a festa. Fazia-se musica, recitava-se, conversava-se. O mote era ainda obrigado, mas não constituia o unico elemento essencial da festa, como n'outros tempos.

Foi n'esseoiteiroque eu ouvi Marcolino recitar, não uma poesia comica, como se poderia esperar do genero que elle tão distinctamente cultivava no theatro, mas uma poesia lirica,A borboleta, de Thomaz Ribeiro, que elle disse com um notavel primor de interpretação.

Estou a vêl-o, e a ouvil-o ainda:

Eu conheço-a! oh, se a conheço!sempre volitando anciosa,esbelta, fugaz, airosa,esquiva, amante, esquecida,eterno enygma na vida!...Eu conheço-a! ah, se a conheço!Estimo-a; estimal-a é grato;quero entendel-a... endoideço!

Eu conheço-a! oh, se a conheço!sempre volitando anciosa,esbelta, fugaz, airosa,esquiva, amante, esquecida,eterno enygma na vida!...Eu conheço-a! ah, se a conheço!Estimo-a; estimal-a é grato;quero entendel-a... endoideço!

As freiras (comquanto n'esta designação generica fossem incluidas muitas coristas, algumas d'ellas gentilissimas) ficaram encantadas de ouvil-o, e nós, os homens,{141}tambem. Marcolino teve uma ovação estrondosa: creio que foi a ultima da sua vida.

Eram duas horas da noite quando saimos dagrade, e eu lembro-me ainda de que me despedi em verso n'um improviso de que apenas sei hoje as ultimas rimas:

Tenho esta noite glosadoVersos a esmo, a granel.Consenti, minhas senhoras,Que eu d'esta feita termineE que a vossos pés se inclineVosso servo: Pimentel.

Tenho esta noite glosadoVersos a esmo, a granel.Consenti, minhas senhoras,Que eu d'esta feita termineE que a vossos pés se inclineVosso servo: Pimentel.

Eu era então uma creança. Mal me penujava o buço. Mas que alegria, que felicidade a minha n'aquella noite! Á saida, as gentilisimas pensionistas vieram ainda despedir-se de nós á portaria. Uma d'ellas era filha natural de um antigo conde do Minho; morreu pouco depois. Outra era minha prima: quarenta annos e uns olhos, que não tinham mais de vinte. Tambem já morreu. Em Lisboa ha uma unica pessoa que póde lembrar-se dooiteirode S. Bento, porque tambem lá esteve: o escriptor Souza Viterbo, que, n'essa noite, com grande applauso da assistencia, glosou um mote n'um soneto, façanha comparavel á de ter mettido uma lança em Africa.

Foi tambem no Porto que eu conheci o SantosPitorra, como dizia toda a gente, sem embargo de elle ser, pelo seu altissimo valor artistico, ogrande Santos.

A companhia do theatro de D. Maria II, de que Santos era então um dos empresarios, dera alguns espectaculos no Porto, eu frequentava os espectaculos e os ensaios, o palco e ofoyer, e escrevi por essa occasião, julho de 1873, uns versos, que se intitulavamLirios, e que Emilia Adelaide recitára.

Por tal signal que Emilia Adelaide saltou, por deficiencia de memoria, dezenas de versos, o que eu julguei, n'aquella occasião, um desastre irremediavel.{142}

Fiquei surprehendido de ver que o publico applaudia; mas, a breve trecho, encontrei a explicação do facto. A memoria da actriz prejudicára os versos; comtudo a belleza da mulher era ainda bastante a perdoar todas as faltas da actriz.

Santos atára com Guilherme Braga e comigo estreitas relações de amizade. Lembro-me ainda com saudade de um jantar que tivemos os tres noHotel Francfort, onde elle estava hospedado. A esse jantar, tão alegremente conversado, assistiu tambem a actriz Amelia Vieira. Quando cheguei a Lisboa, Santos deu-me um banquete romano na sua casa da rua do Amparo. Estavam á mesa, entre muitos, Julio Cesar Machado e Miguel Queriol. Foi outra a actriz que assistiu a este festim: Emilia Letroublon, já então louca, mordia por vezes as mãos dos convivas.

Hoje, tres annos passados sobre a morte do actor Santos, abro o pequeno livro das suas memorias, que elle publicou já acorrentado ao leito da morte como o Prometheu ao rochedo, cerrados os olhos na escuridão com que a cegueira o quiz habituar á noite eterna do sepulcro, dilacerado o peito amante pelo abutre implacavel da saudade...

N'esse pequeno livro, que tem o que quer que seja de sagrado como os epitaphios, encontro uns versos meus escriptos para a noite do seu beneficio no theatro de D. Maria em 16 de maio de 1874.

Paro um momento a lel-os:

Foi aqui—a historia o conta...Que entre flôres, palmas, himnos,Dos talentos peregrinosBrilhou a constellação.Era um loureiral a scena,O theatro escola e templo,Cada talento um exemplo,Cada palavra—lição.{143}Formoso e esplendido quadro!As bellas frontes rasgadasResplandeciam banhadasEm misterioso fulgor...Grupo onde tudo era grandeMerecia moldura d'ouro,Se tantas cordas de louroNão o cingissem melhor.Foi o tempo devastandoAs maravilhas da tela.Onde a loira Manuela?Onde Epiphanio, o pharol?Onde Sargedas, a graça?Onde Tasso e a sua gloria?Mais quatro nomes na historia,Mas não é posto inda o sol.Não é. O quadro tem vida.Move-se, agita-se, falaRemurmuram n'esta salaOs eccos da sua voz...Supponde muitas palmeirasRasgando do céu as brumas...Quando o vento prostra algumas,As outras não ficam sós.Dos velhos heroes da scenaDescem hoje sobre o espolio,No theatro-Capitolio,Flôres d'antiga ovação.É que um talento robusto,Honrando um nobre legado,Resuscita hoje o passado,Renova as flôres d'então.E a sua voz, que dominaDa ovação a anciedade,É a voz da posteridade,Que da scena aos velhos reisDiz como um brado da historia:«La vos honrei o legado;«Se vos prostrou o passado,«Não sois mortos. Reviveis...»{144}

Foi aqui—a historia o conta...Que entre flôres, palmas, himnos,Dos talentos peregrinosBrilhou a constellação.Era um loureiral a scena,O theatro escola e templo,Cada talento um exemplo,Cada palavra—lição.{143}

Formoso e esplendido quadro!As bellas frontes rasgadasResplandeciam banhadasEm misterioso fulgor...Grupo onde tudo era grandeMerecia moldura d'ouro,Se tantas cordas de louroNão o cingissem melhor.

Foi o tempo devastandoAs maravilhas da tela.Onde a loira Manuela?Onde Epiphanio, o pharol?Onde Sargedas, a graça?Onde Tasso e a sua gloria?Mais quatro nomes na historia,Mas não é posto inda o sol.

Não é. O quadro tem vida.Move-se, agita-se, falaRemurmuram n'esta salaOs eccos da sua voz...Supponde muitas palmeirasRasgando do céu as brumas...Quando o vento prostra algumas,As outras não ficam sós.

Dos velhos heroes da scenaDescem hoje sobre o espolio,No theatro-Capitolio,Flôres d'antiga ovação.É que um talento robusto,Honrando um nobre legado,Resuscita hoje o passado,Renova as flôres d'então.

E a sua voz, que dominaDa ovação a anciedade,É a voz da posteridade,Que da scena aos velhos reisDiz como um brado da historia:«La vos honrei o legado;«Se vos prostrou o passado,«Não sois mortos. Reviveis...»{144}

E de todos estes versos, a que unicamente a saudade de José Carlos dos Santos poderia dar segunda edição, ha um em que a minha attenção particularmente se detém:

Mas não é posto inda o sol.

Mas não é posto inda o sol.

Então, em 1874, este verso era profundamente verdadeiro. O theatro de D. Maria fazia lembrar n'esse tempo um vasto pantheon onde alvejavam as urnas funerarias dos grandes vultos da scena portugueza. Emilia das Neves não tinha ainda morrido, mas a velhice aniquilava-a. Já se não contava com ella senão para relembrar-lhe a gloria. E n'esse venerando cemiterio, onde o cipreste e o loureiro coufundiam as suas ramagens, Santos sacrificava em honra de tantos mortos illustres, sacerdote solitario que devotadamente ia enflorando as lousas com as corôas e as palmas que elle proprio ganhava para perpetuar a tradição gloriosa do velho theatro normal.

Elle era, para que assim o digamos, o crepusculo interposto a um dia de victoria e a uma noite de decadencia.

Não era posto ainda o sol, porque elle era a luz crepuscular; não estava inteiramente deserto o templo, porque Santos o povoava ainda.

Mas não havia outro laço vivo a prender o passado ao presente senão elle.

Como Emilia das Neves, o Rosa e o Theodorico estavam velhos e doentes; Taborda principiava a retirar-se.

Santos, de pé, combatia intrepidamente sobre a barricada que ia render-se.

Uma fatalidade enorme viera fulminal-o de subito. Cegára tão rapidamente como se fechasse os olhos para dormir. E ao cair no seu posto de honra, similhante ao soldado abatido por uma bala, a medicina prophetisára que elle não tornaria a vêr a luz senão passada a barreira da eternidade...{145}

Santos quiz luctar ainda com a fatalidade que o ferira: appareceu cego no palco tres vezes, uma no theatro de S. Carlos, outra no theatro do Principe Real, a terceira no theatro da Trindade.

Já não era elle... O seu corpo estava ali, mas a alma confrangia-se sob as azas negras da cegueira. Era uma sombra que falava, uma realeza condemnada como a de Luiz XVI—que tantas vezes reproduzira—passando através dos bastidores, venerada ainda pelos velhos cortezãos, mas insultada já pelos estragos da doença.

Era aquelle um transito doloroso para a guilhotina, porque os actores morrem no dia em que são obrigados a abandonar o theatro.

A elle condemnara-o a desgraça, não a velhice. Cedia a uma revolução, ainda como Luiz Capeto, a revolução das trevas contra a luz. A cegueira, como umsans-culotteimplacavel, arrastava-o para oTemple, as quatro paredes do seu quarto, onde o carrasco, a doença, viria todos os dias annunciar-lhe a morte. N'esse angustioso despedaçar do corpo, ouvindo a voz do algoz que lhe disputava a vida, Santos mais de uma vez repetiria por certo a phrase notavel que Paulo Giacometti puzera na bocca de Luiz XVI:Ah! a natureza humana não tem força para mais!

O sacrificio havia de consumar-se, porque a sentença era irrevogavel. O condemnado sentira levantar os ferrolhos doTemple: era a sua familia que entrava para trocar com elle as effusões da ultima despedida. Despedida incomportavel! que devia durar cinco mezes, sem que os braços do amor pudessem afrouxar de tensão n'aquelle longo abraço, que era o derradeiro.

A morte parou respeitosa e timida ao limiar. O algoz commoveu-se. Tamanha era a magestade d'aquella realeza de infortunio!

Ghegou porém a hora fatal em que a terrivel sentença havia de cumprir-se. O condemnado offereceu a sua cabeça ao sacrificio, e uma familia coberta de luto{146}fôra regando de lagrimas, religiosamente, a via dolorosa por onde esse rei da scena era arrastado á tortura.

Mas, com a fronte mésta sobreposta ao grupo venerando de uma familia orphanada, o theatro portuguez soluçava n'um luto irremediavel, n'uma viuvez amarissima.

Era o Delphim que pranteava a morte do rei...

Do theatro antigo conheci muito bem tres actores: o Izidoro, o Theodorico, e o Rosa pae.

Izidoro era um excentrico alegre, amigo de fazerpartidas: algumas conta elle proprio nas suasMemorias. Como actor comico, mereceu a celebridade que teve. Quando cantava com Taborda oduettodeMoysés, ou representava osDois candidatosePara as eleições, era da gente rebentar a rir.

Theodorico, ao tempo em que o tratei mais de perto, estava doente, triste, muito velho. A troça indigena mettia a ridiculo a sua declamação emphatica, um pouco afinada pelo tom castelhano. Era certamente um defeito de escola, mas, em compensação, todos os artistas do seu tempo, incluindo elle proprio, sabiam representar. Muito escrupuloso, muito correcto, só tinha, para a nossa época, o defeito de haver envelhecido.

No trato particular, um perfeito cavalheiro.

Nos ultimos tempos, muito esverdeado das faces, dava todas as manhãs o seu passeio no Rocio, sentava-se a descansar n'um ou n'outro banco e, se a gente o conversava, todo o seu gosto era falar do filho, que pretendia então um logar na alfandega.

Ainda cheguei a ver em scena, tanto no Porto como em Lisboa, o Rosa pae. No Porto, ouvi-o recitar o episodio doAdamastor, de Camões, e oFirmamento, de Soares de Passos. Em Lisboa vi-o n'umareprisedoMarquez de lá Seiglière, que foi o seu cavallo de batalha.{147}

Pertencia, como Theodorico, a essa illustre phalange de actores antigos capazes de investirem com a tragedia e com a epopea. Mas possuia, como Theodorico, os defeitos das suas qualidades. Sem embargo, era dos tres, de que tenho falado, o maisposeur: toda a gente se lembra ainda de o ver passear nas ruas de Lisboa com um grande chapeu desabado e o sobretudo alvadio ao hombro. Gostando da celebridade, procurava-a até fora do theatro, colleccionando quadros e vendendo botas.

Quero falar agora, posto que rapidamente, de outros actores notaveis

*

Tasso era, em scena, um homem distinctissimo. O celebre alfaiate Humann dizia a respeito de Gavarni: «Não ha senão um homem que saiba desenhar uma casaca: é Gavarni.» O Catarro ou o Keil poderiam dizer, com igual justiça, a respeito do Tasso: «Não ha senão um homem que saiba vestir uma casaca: é o Tasso.»

A sua dicção, um poucosaccadée, era cristallina, sonora. Ainda não ouvi no theatro quem dissesse melhor do que elle. E decerto não tornarei a ver quem soubesse estar melhor em scena.

Vi o Sargedas noGaiato de Lisboa, no theatro de S. João, do Porto. Era dos bons, antigos. Apesar de velho, fazia oGaiatocomo se estivesse ainda em idade de jogar o pião. Estes milagres, que triumpham da velhice, só os consegue o talento.

Antonio Pedro é um morto de outro dia.

Fóra do theatro, a suagaucheriepassava em proverbio. No theatro era um grande actor por intuição, tropeçando por vezes em pequenas difficuldades de prosodia, simplesmente. Mas, no vôo impulsivo da sua assombrosa vocação theatral, esmagava, ao passar pelo palco, os que estudavam mais do que elle e lhe censuravam{148}a ignorancia manifesta em questões de arte dramatica.

Elle ia triumphando sempre e respondendo, com uma modestia phenomenal, aos que o elogiavam: «Isto calhou assim.» Esta phrase, tantas vezes dita por elle proprio, resumia, com effeito, todo o segredo da sua organisação artistica.

*

Com o Tasso convivi durante umatournée, no Porto; com Sargedas nunca tratei pessoalmente. Rectifico assim uma inexactidão que só agora notei na 1.ª edição d'este livro e que julgo ter sido devida a qualquer diabrura tipographica.

Já isso vai ha tanto tempo!

{149}

No verão de 1875 estive mais de um mez em Coimbra como vogal da commissão de exames de instrucção secundaria.

Coimbra, aterra de encantos, só então me pareceu tel-os, porque da primeira vez que a visitei, durante um dia triste e chuvoso, cheio de incertezas para mim, a cidade havia-me deixado uma impressão bem pouco agradavel.

Mas em 1875 estava-se em pleno estio, os arrabaldes verdejavam as suas galas roçagantes, o Mondego, manso e humilde, amenisava bucolicamente a paizagem, toda a natureza, n'uma palavra, sorria e cantava por entre os sinceiraes e as suaves quebradas dos montes.

Uma delicia!

De manhã ia-se-me o tempo no trabalho dos exames, arduo sempre, e por vezes doloroso como é. Mas de tarde eu desforrava-me passeando no Choupal, na Estrada da Beira e, não poucos dias, no Mondego.

A convivencia não podia ser melhor. Havia examinadores{150}do Porto, de Lisboa, e de Coimbra. Acompanhavamo-nos uns aos outros nos passeios de todas as tardes. Só um unico dos nossos collegas, aliás homem estimabilissimo, se furtava á nossa companhia para divagar sósinho: era o pintor Christino, que fazia parte do juri de desenho.

Christino embarcava quasi diariamente, Mondego acima, e, recostado na prôa do barco, parecia gosar n'um extasi pantheista o bello espectaculo da natureza que o rodeava.

Os seus olhos absorviam todas as ondulações luminosas d'aquella clara paizagem, lucida e placida como uma vista de stereoscopo.

Pois que o pintor Christino tinha a configuração de um eucalipto, alto e magro, nós, que da Ponte o ficavamos observando, podiamos distinguir, até grande distancia, a sua figura esguia, as linhas do seu busto, que destacavam á prôa do barco.

Subindo o Mondego, era quasi sempre para a margem do poente que a sua cabeça descoberta, e mal guarnecida de cabello, pendia scismadora. Comprehendia-se. Christino reunia mentalmente á belleza do panorama as tradições romanticas, as memorias lendarias d'aquella margem. D'esse lado ficava aFonte dos amoresemboscada saudosamente na sombra de corpulentos cedros, que ali ouvem a agua suspirar a elegia dos mallogrados amores de Ignez. Mais para cima, á distancia de dois kilometros da cidade, aLapa dos esteios, «retiro selvatico sem aspereza, e como enfeitado sem arte», segundo a phrase de Castilho, recordava os tempos semi-pagãos em que o poeta daPrimaverae os seus amigos ali foram, em plena mocidade, celebrar, no seio da natureza, a festa do equinoxio que traz as flores e os canticos, os perfumes e os amores.

Christino havia sido educado n'essas tradições romanticas, tinha uma alma de artista, era uma organisação{151}delicada como a de Raphael, que se devorava nas suas proprias impressões, e ninguem mais profundamente do que elle poderia sentir toda a poesia d'essa região encantada, que o Mondego banha, e que as recordações e as arvores povoam.

Elle ia, rio acima, tão sonhador e abstracto como se uma gondola de Veneza o fosse passeando no canal do Lido ao som da barcarola de uma gondoleira.Ó dolce voluttá! Ó deliciosa voluptuosidade espiritual dos artistas! Que doces horas aquellas que o Christino passou no Mondego sonhando sobre as aguas!

Muitas vezes, vendo-o partir, o meu espirito o ficou abençoando do alto da Ponte como se elle levantasse ferro para uma longa viagem aventurosa e arriscada. É que eu, talvez por experiencia propria, sei quanto a gente envelhece de vagas saudades n'esses passeios ao acaso, que desgastam a alma, e com ella a vida. Volta-se velho, como se realmente se tivesse feito uma longa viagem. O passado é um paiz ideal onde se envelhece ao cabo de algumas horas de concentração.

Depois que regressei a Lisboa poucas mais vezes tornei a avistar-me com o pintor Christino.

Esse excentrico scismador das tardes de Coimbra morrêra, e ouvi dizer que a luz da sua razão tinha empallidecido primeiro que a dos olhos...

Quanto lhe não teriam cavado a sepultura aquelles sonhos do Mondego, tão a miude repetidos, e tão docemente devoradores!...

Tratei de perto com o Annunciação, que foi um animalista notavel. Encontrava-o muitas tardes na alameda de S. Pedro de Alcantara passeando, quasi sempre só. Tinha uma phisionomia um pouco semita: faces morenas, olhos negros e brilhantes. O sorriso, apenas esboçado, era comtudo facil e agradavel.

Amador da natureza, ia procural-a no panorama que d'aquella alameda se descortina, talvez como para saturar a sua alma d'esse pantheismo artistico de que{152}os pintores que copiam do natural precisam impregnar-se.

Falei-lhe uma tarde na minha passagem habitual por S. Pedro de Alcantara. Estava bem disposto, communicativo. Os olhos conservavam o seu brilho agareno. Despedi-me d'elle com a ligeireza de quem o faz por vinte e quatro horas.

No dia seguinte, de manhã, pego n'um jornal: Annunciação havia morrido repentinamente.

E á tarde, quando tornei a passar por S. Pedro de Alcantara, o panorama oriental da cidade parecia provocar, na sua belleza tranquilla, a paleta de um pintor.

Chega ás vezes a causar desespero a ideia de que, sendo eterna a natureza, o homem, o mais perfeito dos seus organismos, seja quasi um ephemero!...

Miguel Angelo Luppi não se parecia phisicamente nem com o Christino nem com o Annunciação. Os cabellos branqueavam-lhe já, mas a sua phisionomia era aberta, alegre, levemente jovial. Nutrido, peito largo, parecia vender saude.

Tinha-me encontrado com elle, ha muitos annos, n'umasoiréelitteraria que o visconde de Castilho (Julio) déra na sua casa da rua de S. João da Matta em honra do illustre escriptor hespanhol Menendez Pellaio.

Fizemos então relações, que nunca diminuiram nem augmentaram de intimidade. Mas eu gostava de encontral-o porque elle, que era um trabalhador, tinha alegria, e o seu exemplo dava-me coragem, o seu tom de convicção dava-me estimulo.

Não ha nada que me entristeça tanto como encontrar na rua um homem que se mostra desanimado por ser obrigado a trabalhar...

{153}

Lendo ha poucos dias o livro de Alphonse Daudet—Trente ans de Paris—lembrei-me muito de Teixeira de Vasconcellos ao percorrer o capitulo que fala de Villemessant.

O livro (collecção Guillaume & C.ie) é illustrado, e até o retrato de Villemessant denuncia um homem robusto, nutrido, como era Teixeira de Vasconcellos.

Eu conheci este escriptor na sociedade e na Academia. Encontrei-me varias vezes com elle nassoiréespoliticas de Fontes Pereira de Mello. Visitei-o outras vezes em sua casa, graças á benevolencia com que desde o primeiro dia me havia tratado. Era um perfeito homem de mundo, umgentleman, espirituoso, algum tanto mordaz. Contavam-se a seu respeito anecdotas escabrosas, mas, no trato social, não havia homem que mais prendesse pela amabilidade e pela cortezia.

Um dia Teixeira de Vasconcellos convidou-me para fazer parte da redacção doJornal da Noite. Eu precisava{154}trabalhar: acceitei. A benevolencia, que elle sempre me tinha dispensado, fazia-me acalentar a esperança de que ogentlemandas salas havia de continuar a ser affavel para com o ultimo redactor do seu jornal. Mas, dentro da redacção, Teixeira de Vasconcellos era, pelo menos, um pouco Villemessant: auctoritario, por vezes brusco, um homem muito differente, tomando sempre á lettra o seu logar de chefe de redacção e de dono de jornal.

Toda a gente se queixava d'isto, e eu tive tambem razão para queixar-me.

Mas, logo que o redactor saía, o Villemessant, o dono do jornal desapparecia completamente. Teixeira de Vasconcellos voltava a ser, para o desertor do seu jornal, o homem de sala, amavel, serviçal, obsequiador.

As pequenas nuvens, que tinham empanado o céu, rasgavam-se. E Teixeira de Vasconcellos recebia cordealissimamente os homens com quem, no trato familiar de todos os dias, havia tido frequentes pegadilhas.

Foi o que aconteceu comigo.

Depois que sai da redacção doJornal da Noitevivemos deliciosamente. Se escrevia a meu respeito, fazia-o com extrema amabilidade. Se eu o visitava, acolhia-me gentilissimamente. E algumas vezes, na minha presença, vi soffrer torturas alguns dos seus redactores, como eu havia soffrido. Mas, acabando de ser Villemessant para os outros, voltava-se para mim sorrindo e continuando a conversar placidamente.

Visitei-o muito durante uma pneumonia dupla de que foi atacado, e assombrava-me o bom humor, sempre um pouco mordaz, só intermittente para os de portas a dentro, que elle conservava n'esse lance perigosissimo.

Já de Paris, onde morreu, e pouco antes de morrer, mandou-me um pequeno artigo, que eu lhe havia pedido para uma publicação do editor Chardron e que, não havendo sido publicado, deve ter apparecido no espolio d'aquelle editor.{155}

Foi o seu ultimo escripto, e tem, por isso, maior valia. Pena é conservar-se inedito.

Teixeira de Vasconcellos viveu uma vida accidentada, mas o seu lucido espirito colheu e aproveitou as lições da experiencia.

Sempre me hei de lembrar de um conselho que elle me deu:

—Se receber um livro mau, cale-se; se receber um livro bom, elogie-o.

Tenho-me dado bem com este conselho; e, quando o não sigo, arrependo-me.

Augusto Soromenho teve contendas, inimigos, desgostos. Passou metade da sua vida a estudar e outra metade a brigar. Quando entrei na Academia, estava ainda muito viva a lembrança de azedas discussões que elle lá tivera, com este e aquelle socio, por causa d'isto e d'aquillo. Sem embargo, e talvez por isso mesmo, Soromenho prestou bons serviços á Academia, de que fôra bibliothecario durante muitos annos.

É frequentissimo compulsar um livro qualquer da Bibliotheca de Jesus e encontrar dentro d'elle uma etiqueta que diz: «Adquirido pelo bibliothecario A. Soromenho para preencher a falta do exemplar da livraria.»

Bastaria só este serviço, muitas vezes repetido, para mostrar quanto Soromenho se dedicára pela causa da Academia.

Eu, que desde alguns annos converso mais os livros que os socios da Academia, lucrei sobremodo com a passagem de Soromenho pela bibliotheca d'aquelle estabelecimento, que ás vezes parece mais morto que vivo.

Não conheci nunca, no trato particular que tive com Soromenho, a irritabilidade agreste que muitos lhe attribuiam. Queixava-se, é certo, mas não se queixava mais nem menos do que todos quantos julgavam ter razão para o fazer. Não se vive largo tempo n'uma sociedade de homens do mesmo officio sem razões de{156}queixa. Peor do que uma sociedade de homens do mesmo officio só talvez uma sociedade de mulheres da mesma profissão. Quem melhor poderia dizer se isto é ou não inteiramente verdade, não o dirá por certo. Refiro-me ao sultão da Turquia e ao imperador de Marrocos, que têem serralho.

O que eu sempre reconheci em Augusto Soromenho foi um grande, um ardente desejo de estudar e saber. Elle defrontava-se corajosamente com todos os assumptos, por mais ponderosos que fossem. Tinha vindo socialmente de uma posição obscura, e litterariamente do lirismo romantico. Entrou no mundo das lettras com um livro de versos, oDiwan. Mas á força de trabalho e perseverança nobilitara-se social e litterariamente. Investiu com as mais intrincadas questões de philologia, de historia, de epigraphia e de direito. E conseguindo, por um grande esforço de naufrago, emergir á superficie do mundo litterario, como professor e academico, certamente teria que combater e que soffrer, porque ninguem vence os outros sem ficar vencido de si proprio...

Apesar de robusto—Soromenho era um homem forte, com uma phisionomia algum tanto arabe—morreu relativamente novo.

A ultima vez que lhe falei foi no Jardim da Cordoaria no Porto. Elle tinha ido áquella cidade como examinador de não sei que disciplina de instrucção secundaria; eu fui de Lisboa visitar a minha familia. Conversámos toda uma tarde. Soromenho contára-me casos, coisas da Academia e das litteratices lisbonenses. Animando-se na conversação, levantava-se, e então a sua bella figura de homem forte destacava-se como a de um luctador inquebrantavel. Usava sempre chapeu baixo, e a roseta de não sei que ordem portugueza ou estrangeira. Em rosetas não sou forte; entendo-me melhor com as rosas.

Lembro-me de que á despedida elle me dissera:{157}

—Olhe lá. Voce diz noGuia do viajante no Portoque eu nasci aqui. É engano. Sou de Aveiro—como os mexilhões.

Despedimo-nos rindo. Nunca mais falámos.

Antonio da Silva Tullio era um homem muito original, sempre atarefado, gritador, ás vezes tão precipitado que não se sabia bem o que elle queria dizer ou fazer. Muito activo, muito illustrado, não deixou comtudo uma obra litteraria que pudesse dar na vista á posteridade. Espalhou muito trabalho ás rebatinhas, e em pequenas doses, pelos periodicos litterarios da sua mocidade,A Semana, por exemplo. O que lhe conheço de melhor são as monographias sobre D. Catharina de Bragança e a Casa dos Bicos, bem como osEstudinhos de lingua patria, publicados noArchivo Pittoresco. De resto não consolidou o seu nome litierario n'um trabalho de folego. Faltavam-lhe, para isso, paciencia e methodo. Comtudo, era um homem de vastos conhecimentos litterarios.

Conservador da Bibliotheca Nacional de Lisboa, pôde ter muito emquanto teve boa saude. Era um catalogo vivo, e comtudo havia na Bibliotheca muita cousa que lhe escapára por falta de catalogação.

Quando eu escrevi oLivro das lagrimaspara a casa Mattos Moreira, quiz conhecer tudo o que na Bibliotheca havia com relação a Santo Antonio de Lisboa.

Esta investigação era difficil, mas Silva Tullio citou-me logo, de cór, mais de quinze livros que tratavam do assumpto.

E no dia seguinte mandou-me para casa não menos de outros quinze livros.

Era em extremo obsequiador, serviçal, amavel. Ás vezes pedia-lhe a gente qualquer cousa. Elle, parecendo sempre distraido, respondia affirmativamente. Passavam-se dias sem que cumprisse a promessa. «Lá se esqueceu o Tullio do que eu lhe pedi!» Pois não tinha esquecido. Quando já menos se esperava, dava accordo de si, satisfatoriamente.{158}

Viveu muito na intimidade de Alexandre Herculano, e pensava em colleccionar as cartas do grande historiador, mas não o chegou a tazer. O tempo fugia-lhe, não só porque elle o perdia com os outros, mas porque tambem lh'o levavam a Bibliotheca Nacional, a Academia, e o Conselho Superior de Instrucção Publica. E de mais a mais faltava-lhe methodo para trabalhar. Foi sempre o grande defeito das suas qualidades.

Conhecia bem a lingua portugueza e, sem ser um estilista, escrevia com pureza e elegancia. Apreciava muito estas qualidades nos outros, especialmente em Camillo Castello Branco, por quem, desde certo tempo, teve uma grande admiração.A Semana, jornal que Silva Tullio dirigira de 1851 a 1852, atacou violentamente Camillo no seu noviciado litterario. Mas o tempo passára evidenciando a supremacia intellectual de Camillo, o tempo sazonára as suas grandes aptidões litterarias, e Silva Tullio tornára-se um dos mais enthusiastas admiradores do eminente romancista.

Ha annos Camillo viera de fugida a Lisboa, e hospedára-se noHotel Universal. Jantei ali com elle e, quasi ao terminar o jantar, entrou Silva Tullio. Conversamos no quarto de Camillo até as dez horas da noite. Pois muitas vezes Silva Tullio tratou Camillopor mestre.

{159}

Um dia, sem que eu o pudesse esperar, chegou-me ao Porto uma carta dos srs. Lucas & Filho, proprietarios da Bibliotheca Universal, convidando-me para escrever um romance historico.[13]

Puz as minhas condições, que foram acceitas, e o romanceAnnel mysteriosocomeçou a ser publicado em fasciculos.

Ia em meio a publicação, quando nova carta dos srs. Lucas & Filho me instigou a escrever outro romance, para seguir-se immediatamente aoAnnel mysterioso.

Aquelles editores davam como razão d'esta proposta o facto de ser recebido com agrado o meu romance que estavam publicando.

Confesso francamente que me encontrei n'uma situação embaraçosa lembrando-me de que é sempre difficil agradar na repetição, e de que a empresa editora poderia ser prejudicada pela aventura de querer que eu succedesse a mim proprio.Non bis in idem, diz o proloquio. Escogitei então na escolha de um assumpto que lograsse despertar maior interesse do que oAnnel mysterioso,{160}e ao cabo de dois ou tres dias pareceu-me haver encontrado a chave do enigma. Não estando ainda explorada a lenda piedosa que se havia formado em torno do sarcophago de D. Pedro V, afigurou-se-me que esse assumpto valeria por sua mesma popularidade. Como eu era o primeiro a encher a bilha, teria em meu favor a abundancia da fonte. Acabada a publicação doAnnel mysterioso, seguiu-se immediatamente a daPorta do Paraiso, chronica do reinado de D. Pedro V. E assumpto foi esse tão simpathico aos leitores, que deixou lucros á empresa editora. Lucas filho morreu pouco tempo depois, mas ainda vive o pae,[14]com tipographia na rua dos Calafates, e esse poderá dar testemunho de que é inteiramente exacta a minha narrativa.

Comecei a escrever aPorta do Paraisono Porto. A meio do romance, caiu-me em casa um despacho para a secretaria da Procuradoria Regia de Lisboa, e vim tomar posse do logar. Escrevi em Lisboa alguns capitulos da novella. Voltei ao Porto, e continuei lá trabalhando. Vim definitivamente para Lisboa, e escrevi aqui os ultimos capitulos.

Estive dez annos na Procuradoria Regia vivendo como um Creso na rasão de 600 réis por dia...

Perdão! Não era isto o que eu queria dizer.

Foi depois da minha installação definitiva em Lisboa que conheci o conselheiro Antonio José Viale. Fui-lhe apresentado por Silva Tullio na Bibliotheca Nacional. Como eu não vim occupar uma posição brilhante, d'estas que logo põem em evidencia um homem, ainda que elle valha pouco, fui vagarosamente fazendo a minha provisão de relações sociaes, conhecendo hoje um politico notavel, ámanhã um litterato distincto; hoje um actor, ámanhã um jornalista: construindo eu proprio, laboriosamente, o meu edificio, pedra a pedra, dia a dia.{161}

Viale estava trabalhando n'um gabinete da Bibliotheca Nacional, quando eu cheguei com Silva Tullio. Agradou-me, logo ao primeiro relance, a sua cabeça de velho. Como fosse muito miope, Viale poz uma lente para fixar a minha phisionomia. Estive em foco alguns momentos. Falando-me com extrema amabilidade, destacava as suas palavras n'um tom gravemente conceituoso, que o habito do professorado explicava. E na sua maneira de pronunciar havia umticoriginal, que fazia retinir algumas sillabas.

Mostrou-se admirado de que eu, um recemchegado das lettras, quizesse espontaneamente conhecer um velho academico. Fez sentir que o grito de guerra, dos arraiaes litterarios, era «Place aux jeunes», ainda que para abrir logar aos moços fosse preciso demolir os velhos.

Viale tinha sido varias vezes tratado com injustiça pelos que chegavam. O seu resentimento era fundado. A injustiça desmandára-se até á jogralidade. E elle, que sabia profundamente o muito que sabia, magoava-se com razão de que a multidão dos novos passasse sob a sua janella, em tumulto revolucionario, apupando-o, ridicularisando-o no seu apego a Homero, no seu fanatismo por Pindaro. A maior parte dos novos não sabiam grego. Todo o crime de Viale era sabel-o.

Falou-me daPorta do Paraiso, disse-me que o livro lhe avivára recordações saudosas de el-rei D. Pedro V é da rainha D. Estephania; que de ambos fôra professor; e que tendo ido á Allemanha, para ensinar portuguez á mallograda rainha, havia publicado a seu respeito um opusculo, que eu alias só conhecia por uma transcripção. Offereceu-me esse opusculo e mandou-m'o d'alli a dias:Apontamentos para uma biographia de S. M. a rainha a senhora D. Estephania de saudosissima memoria, Lisboa, 1859, sem nome de auctor.

Os seus profundos e sinceros sentimentos religiosos evidenciaram-se logo ás primeiras palavras, denunciando{162}a firmeza convicta de um crente. Viale viveu sempre em plena religião. Catholico, adorava Deus e acatava profundamente a auctoridade da igreja romana; homem de lettras, adorava o classicismo, dormia, como Alexandre, com Homero á cabeceira, e adormecia talvez depois de ter rezado uma oração a Deus e recitado um trecho daIlliadaou uma ode de Pindaro.

Collaborou noJornal da Sociedade Catholica, redigiu oCatholico, traduziu o primeiro canto daOdissea, o sexto daIlliada, os cinco primeiros cantos doInferno de Dante, o episodio do conde Hugolino, e bosquejou em oitava rima a historia de Portugal, propagando pelas escolas de instrucção primaria as tradições gloriosas do passado.

A sua obra reflecte, como um espelho, a imagem da sua alma; traça com uma linha geographica os limites da sua honesta actividade intellectual. Educar pela lição grandiosa do passado e pela disciplina religiosa do catholicismo, foi o seu lemma, o seu fito, a sua tarefa.

Começou desde muito novo a trabalhar. Aos doze annos publicou um poema heroico,David triumphante, entrou no mundo das lettras pela porta da oitava-rima. Era a manifestação precoce de um espirito antigo, que parecia ter regressado n'aquelle momento de Constantinopla, invadida pelos turcos, salvando sobraçado o ultimo thesouro da civilisação greco-romana. Não chegou cantando o amor, como todos, adejando por sobre os rosaes floridos da poesia subjectiva. Não. Foi recolher-se na Italia, abrigar-se no palacio dos Medicis em Florença, conversar em Roma com Leão X e Julio II, preparar em espirito a Renascença. Assistiu mentalmente á dieta de Spira, e assim como apoiou os papas na resurreição artistica do passado, apoiou-os tambem na lucta tenaz do catholicismo contra Luthero. Partindo da Renascença, parou horrorisado deante da Reforma. Áquem da Reforma, eram tudo ruinas, a demolição do passado pela alavanca da impiedade. Mas a sua convicção{163}era de tal modo pura e profunda, entrincheirava-se tão fortemente n'um baluarte de sciencia, que conseguiu atravessar o mundo, até á extrema velhice, sem que os desgostos, as injustiças, os sarcasmos lograssem fazel-o vacillar um momento.

Eu tenho aqui, deante de mim, asTentativas Dantescasdo conselheiro Viale, a sua traducção doInfernoprefaciada por uma notabilissima carta de elrei D. Pedro V.

As palavras que o traductor me dirigiu, traçadas de seu proprio punho, na sua calligraphia senilmente arqueada, constituem a mais amavel das dedicatorias.

Eu era por esse tempo professor de historia de seu filho Luiz Filippe, um moço que ha de honrar largamente, nas lettras patrias, a tradição erudita do pae. O conselheiro Viale deu-me, durante esse anno lectivo, as mais subidas provas de consideração em que eu não deixei nunca de enxergar o coração affectuoso do pae através dos repetidos favores com que o academico, o professor, o hellenista confundiam a minha humildade de homem de lettras. Eu não havia de ser o juiz official dos meritos de seu filho, não dependia de mim a sentença do seu exame, mas comprehendia que Viale me pedia, de um modo captivante, que ensinasse áquelle que devia ser o successor do seu nome tudo quanto na exiguidade do meu peculio historico lhe pudesse ministrar.

Desde essa época, sobre a qual já vão passados alguns annos, nunca mais tornei a avistar-me com o conselheiro Viale.

Maio de 1889.


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