A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romanceUm conflicto na côrte, baseando-me nos documentos que espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas eclogasAleixoeAndrésque José Gomes Monteiro encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito daArte de monteria, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos{48}os que podiam servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto.Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das suas obras impressas.Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo deEccos da lyra teutonica.Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das poesias a traducção vem a par do original.Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de Castilho—desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas—com a publicação do livroOs criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho. Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,{49}sempre que na redacção doPrimeiro de Janeirorecebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a traducção doFausto, lavrava um protesto energico em nome da velhice desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo—a tão pequena distancia da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José Gomes Monteiro a proposito da publicação dosCriticos do Fausto. Essa carta, era breve, mas profundamente energica.Nunca as mãos lhe doiam, dizia o auctor daHistoria de Portugaláquelle que muitas pessoas denominavam oAlexandre Herculano do Porto.Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite misteriosa da morte...Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,{50}das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dosLusiadas, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua preciosacamoneana, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo.A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade dos mortos.** *Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso{51}productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio eterno dos livros.A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e austeros.—Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de ser aspirado pelos estranhos.[1]Pag. 236.[2]Diccionario bibliographico portuguez, vol. 4.º, pag. 363.[3]O sr. conde de Ficalho contradictou naFlora dos Lusiadas, em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, mas honra-o dizendo que a suacartacontém, na parte exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.[4]Vol. 2.º, pag. 401.{52}VNo parlamentoEm Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, eleito por um circulo do districto de Vizeu.A minha eleição não pesou na balança dos destinos politicos de Portugal, e muito menos da Europa. Os fundos não subiram nem desceram. Mas, em compensação, a minha eleição apresentára tres aspectos completamente novos:1.º—O circulo conhecia-me.2.º—Eu conhecia o circulo.3.º—Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, derramar-se o sangue de ninguem—nem mesmo de um carneiro.A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente possivel. Nada d'isso. E o mesmo circulo, que me elegeu facilmente, porque me conhecia desde pequeno, deixou de me eleger dois annos depois com igual facilidade.A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda.O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico{53}dando de mão beijada o circulo de Sinfães a um candidato progressista. E os fundos, por este facto, tambem não subiram nem desceram. A substituição de deputado por deputado operou-se, com grande proveito do partido regenerador, sem agitar a politica da Europa.N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não valeria chronica.Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado lá.Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou, graças á minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que não perdi o meu tempo.No mez de outubro proximo findo, concorreram á bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:Leitura diurna: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6.Leitura nocturna: leitores, 1:494; volumesimpressos, 2:482; manuscriptos, 31.O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam de ler.Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campeões experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando careci de justificar o meu voto.{54}Da pequena bagagem que deixei depositada noDiario dos sessõesescolherei um unico discurso, não só para comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predilecções de um homem que, até dentro da politica, estima os assumptos historicos.Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal.Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras:«O sr. Alberto Pimentel:—Cumprindo as disposições do regimento, começo por ler a minha proposta.(Leu).A camara tem ouvido benevolamente considerações, se não diametralmente oppostas, pelo menos um tanto contradictorias, e espero que ella me dispensará igual benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, sobre este assumpto, as minhas opiniões.Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um grande enthusiasmo pelo centenario do marquez de Pombal; em minha consciencia, e só em nome d'ella falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda muitissimo cedo para qualquer solemnidade publica, para qualquer demonstração de applauso nacional em honra de Sebastião José de Carvalho e Mello.A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda que tenho uma profunda estima por todas as iniciativas que partem do coração ardente da gente moça, ainda que me sinto impellido para acceitar todos os pensamentos em que palpita exuberantemente a seiva da idade juvenil, não devo esquecer que os academicos são moços e que as idéas da mocidade são quasi sempre flores e não fructos.Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno tão extraordioario na natureza como na sociedade. Nós, os legisladores, temos obrigação de ser menos apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade.{55}A reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos tel-a.Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam depressa, muitas vezes, para a nossa saudade, se desapparecem rapidamente na sua balada phantastica, caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, como se lhes pesasse sobre os hombros o enorme lenho da Historia, que é, ao mesmo tempo, uma cruz e uma glorificação.E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não estão ainda perfeitamente liquidadas.Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, sempre inspirada e eloquente do sr. Pinheiro Chagas, defendendo brilhantemente a causa do centenario.Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro Chagas a respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal.Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores contra D. José I.A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, ambas contemporaneas, para provar a minha asserção de que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas ainda.Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:«Nos dominios severos da historia ainda não passou em julgadonem a sentença que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e triste captiveiro, attenuado unicamente{56}pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e desvelos a educação maternal.»Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro Chagas, que sinto não ver presente, e que tão enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional.«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que não deviam ser condemnados,pois que havia falta absoluta de provas, alguns dos desgraçados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, masnão sabemosse devemos attribuir todas as culpas a Carvalho.Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos que podessem lançar luz n'este drama tenebroso.»Depois da citação d'estes periodos, arrancados áHistoria de Portugal, do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença para referir um facto, que é um traço anecdotico da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as condições de bem-estar.Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a retirar-se.—Por que? perguntou-lhe Figueiredo.{57}—Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de dizer mal d'elles, e de si.A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seusPortuguezes illustres. Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista Pelle,clamam alto contra o marquez de Pombal.»Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando n'este momento com relação ao marquez de Pombal.Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra.É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para os legisladores, por isso que são frias, austeras como elles.Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das praças, como ha pouco teve Camões.José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.{58}Camões é muito maior nosLusiadasdo que na estatua do Loreto.Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente pombalina que partia da iniciativa particular, academica ou não academica, para se erguer uma estatua ao marquez de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto.O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas de concorrer apenas com uma simples esmola para a celebração do centenario. O governo, sr. presidente, não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, e eu n'este ponto fui prevenido em grande parte pelo discurso do illustre deputado sr. Emygdio Navarro, visto que a palavra, por infelicidade minha, me chegou tão tarde.Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia bronze inutilsado em quantidade sufficiente para a estatua, porque d'esse metal existiam umas antigas peças de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas em peças raiadas.Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado nos arsenaes, e por isso o governo, por muito pouco que se proponha gastar, não gastará menos de 6:000$000 réis, justamente n'uma época em que se está pedindo ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos alimenticios de primeira necessidade.Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação da estatua, na Avenida da Liberdade, um raio de 100 metros, é forçoso que a estatua do marquez de Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi as mesmas, circumstancia a que não devemos deixar de attender, visto que somos chegados á parte menos attraente d'esta discussão, o capitulo das despesas a fazer.Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me comtudo licito exprimir o desejo de que quem quizer levantar estatuas, as pague.{59}Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? Isto a proposito de estatuas, de monumentos.Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, n'aquella cidade, tinham um grande culto pelo sr. D. Pedro V, de saudosa memoria. Pois quando morreu D. Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, mandou erigir-lhe á sua custa um monumento.Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que tinha igualmente uma grande veneração por aquelle monarca, mandou levantar-lhe um novo monumento, sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que a auxiliasse na realisação do seu emprehendimento.E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um monumento, creio que a um medico illustre, por iniciativa particular.Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro a esta paixão pelos centenarios e pelos monumentos, que já se vae tornando demasiadamente extensa.Quer v. ex.ª saber o que acontece?Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será facil organisar um kalendario sob esse ponto de vista. Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção da camara...Vozes:—Ouçam, ouçam.O Orador:—Em 1885 teremos o setimo centenario de Affonso Henriques.Este vale bem uma festa nacional, creio eu.Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da Cunha, uma das victimas mais illustres da inquisição em Portugal.Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, e é justo celebrar-se o centenario d'este reformador litterario, tendo-se celebrado o do marquez de Pombal, que o encarregou de negociações em Roma para a abolição da companhia de Jesus.Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello e Castro, que coadjuvou as reformas de Pombal, a quem aliás não era affeiçoado.{60}Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio Vieira.Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso de Albuquerque.Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da Gama.Em 1928 teremos o centenario de Brotero.Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares Pereira.Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro.Em 1954 teremos o centenario de Garrett.Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. Henrique.Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, o celebre inventor doNonio.Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. Fernando. (Vozes:—Muito bem).E assim por diante.Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da continuação d'esta lista espero que algum dia se encarregarão os meus netos ou os seus filhos...Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administração do marquez de Pombal, tambem o 24 de julho é uma festa que entristece profundamente muitas familias portuguezas.Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu já a sancção official, porque está traduzida n'uma fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que{61}alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações de desagrado.Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faça-se a festa com ordem e com moderação.Estes creio eu que são os votos de toda a camara.Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital.O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a justiça se vá fazendo lentamente.Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não quiz resar umrequiem; hoje é a academia que lhe quer fazer um triumpho, embora contestado ainda...Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o mais.Disse.»A minha passagem por S. Bento não vale chronica de maior folego.Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o capitulo. Não tenho pelo parlamento saudades nem desdens. Mas dos homens com quem lá convivi e tratei mais intimamente conservo gratas recordações, e essas quero-as deixar archivadas n'este livro.P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito{62}por um circulo do districto do Porto. Tambem d'esta vez não tive que sacrificar carneiros para voltar. Mas que differença! Os homens são quasi todos os mesmos de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes politicos têem peorado consideravelmente. Ouvi discursos que expludiam como bombas de dinamite, e na tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos de mãos e pés. É a melhor maneira que eu encontro para dizer que houve vias de facto, e pateada. Que differença! que differença!Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo é... o parlamento.{63}VIAntonio Rodrigues SampaioO maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta phrase que todos têem repetido: «É um homem que faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam servir para tudo, é uma glorificação.Sãoa rodoos jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaiofaz falta.E assim é.Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não{64}acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que não tivesse chegado mais cedo.Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair.Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das pastas dos ministros!Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a{65}provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:Faz falta.Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, por que o bom humor era n'elle uma philosophia.O marquez de Caraccioli chamava a istogaieté philosophique, alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Osespinhos do poder! repetia muitas vezes Sampaio,isso é apenas uma metaphora. E tinha razão, porque elle exercia o cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por se ver obrigado a passar do trem para oamericano. Dizia-o muitas vezes, rindo.Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem.J'ai ri, me voilà désarmé.Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem{66}ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente articulista daRevolução de Setembro, semeando ás vezes resentimentos pessoaes que poderia ter evitado.De uma vez certo titularvieille rochefoi pedir-lhe um favor politico.—Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de chapeu na mão.—Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio para se oppôr ao despacho de um governador civil.Sampaio respondeu-lhe:—Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos que o ministro do reino governe n'um.Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro intituladoViagens á roda do codigo admistrativo.Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:—Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como d'antes.A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seucorreio.Fui immediatamente saber o que elle queria.{67}—Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio.—Por que? perguntei eu muito intrigado.—Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado meu.—Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.—Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio.Assim fiz; assim se fez.Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros.Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as injurias.Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, que redigia então asInstituições.Certo dia asInstituiçõeschamaram a Sampaiopedaço d'asno, com todas as lettras.No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia seguinte corri a ler aRevolução de Setembro. O artigo de Sampaio principiava assim: «O homem dasInstituiçõeschamava-nos hontempedaço do seu todo.»Soberbo!Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice.L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter, observa o marquez de Caraccioli. Os artigos daRevoluçãopunham bem em evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles proprios se collocavam.{68}Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico,malgré lui. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom.** *No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a monarchia.»Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como um evangelho.Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir.Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio guerreavaà outranceo ministerio de 1846, porque entendia que esse ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção monarchica.Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso{69}do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de conservar. Elle nunca o ultrapassou.Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do estado concede a todos e a cada um.Sampaio viveu muito; viu muito.Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.»E é.Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma administração{70}rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha.Mas para que o consigamos é preciso não adormecer:é preciso defender a monarchia.{71}VIIA livraria de SampaioNão ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e os movimentos do leiloeiro. E para um lado:Comprou bem; para outro lado:Comprou mal; ou, para um espectador{72}que lhe diz:—Quem comprou bem foi o senhor,—como se um livreiro pudesse comprar mal algum dia:Acredite que não ganho senão a encadernação.Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava o seu thesouro com orgulho:Veja lá isto! Que me diz a isto?—uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros.Livre preté, livre perdu, diz um proverbio francez. Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me pedisse emprestada minha mulher!»Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja{73}uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda quando elle se não perdesse de vista um momento.Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que fazem todos os funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na voragem do cemiterio.«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a guardar por um eunuco.»Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que{74}se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se vende a quem mais der.Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho da sua phantasia.Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de Sampaio.Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do conselho de ministros.Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente fechada, batêra muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.{75}Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos habitaram n'aquella casa.A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que primeiro haviam de ser postos em praça.N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão...Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam{76}sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao menos.Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.No leilão, vendeu-se um exemplar dosSophismas parlamentares, de Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham:«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede.«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço.«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados{77}velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.»«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»Ainda mais alguns aphorismos:«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util ensinamento.«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.»«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que essas circumstancias.»«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.»De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados era com certeza aHistoire des origines du gouvernement representatif en Europe, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:{78}«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.«Ha duas grandes theorias de soberania.«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade.«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio.«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo representativo.»O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica do annotador.Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco.{79}VIIISaraiva de Carvalho[5]O scenario era triste.A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento.Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas{80}pela chuva, sem brilho e sem consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne, através de um silencio lugubre.Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento.A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade.Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois, os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua devastação prematura...{81}Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da politica do que uma conquista por direito.Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente. Vinha doGremio Litterario, onde mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem completamente inutil.Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios{82}premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder em 1870.A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo.Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir.Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do mais glorioso dos direitos—aquelle que o talento confere.Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para colhel-o.E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista politico, não posso concordar{83}com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro proferira na camara dos pares.Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera por um só acto ou por uma só phrase, até nas questões mais apaixonadas que se travaram no parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára a formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz.N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpação de uma existencia cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade, porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de um homem não está concluida, a sua perda equivale a duas: é um trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. Faz portanto falta ao presente e ao futuro.** *Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestação funebre feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um poucobercépela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a copa do meu chapeu n'um rithmo monotono.No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma{84}illusão, talvez; e, sob este ponto de vista, não podia achar vocabulo mais expressivo do que obercerfrancez, visto que este verbo significa não só o acto material de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas esperanças.Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto solemne.Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do parlamento.Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si proprios. Se se trata de um correligionario, exalçam-n'o ao sete-estrello nas azas d'esse novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, porém, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o deixar amolgado.Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento conhecem este defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle. Dias depois, o mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente os ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce rebuçado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto tão amavel comocretinoou tão gentil comomarinelo.Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo de intensidade, e o sujeito apparece chrismado emtolocom todas as lettras, sendo maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe.Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os contrarios, como um valentão de feira.E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas vezes por outras descarrega o{85}fueiro sobre os seus proprios amigos—por engano, é claro.Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se rapidamente por meio de umclichéinalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores é quasi um luxo.Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas no dia seguinte:«É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar.»Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando um orador da opposição:«A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira com uma posta gorda.»No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou um homem do governo.A mutação de scena é completa, n'este caso.Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum{86}dos que ali estão—que lhe fizeram a mesma coisa com tinta de escrever e lama das ruas.Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:—Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma que lhe désse!E a respeito de um opposicionista morto:—Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia...Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás portas da morte:—Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim!O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular...No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro.São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por deshonesto aos olhos de si mesmo.Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...{87}O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens mais importantes e populares. Era o Sampaio daRevolução. Ninguem mais apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestação de respeito.O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande.Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir, concorreram, n'uma concentração respeitosa, centenas de pessoas de todas as parcialidades politicas.Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos preciosos para qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasião de sobre elles fazer um pacto solemne—o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, não é preciso combater os homens. Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e dêmos a Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que é de Deus, isto é, um cadaver.Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda, qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles estão de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as circumstancias em que nos achamos.Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia quiz tornar mais eloquente a sua lição fazendo que sobre o campo neutro da morte, sobre o mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo regenerador.Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se em honra dos dois mortos illustres.{88}
A vida de Sá de Miranda fôra por José Gomes Monteiro laboriosamente investigada, alcançando extrair das proprias composições do poeta illações luminosas e não esperadas. A este respeito, permitta-se-me dizer que por indicação sua introduzi Sá de Miranda no romanceUm conflicto na côrte, baseando-me nos documentos que espontaneamente me facultou, e que claramente revelavam a intervenção do poeta na dramatica paixão do marquez de Torres Novas por D. Guiomar Coutinho. Foi nas eclogasAleixoeAndrésque José Gomes Monteiro encontrou a prova d'essa intervenção, de que resultou ser preso Sá de Miranda como punição ás ousadas allusões que, para desaffrontar o marquez, fizera á perfida dama. Apraz-me renovar esta declaração que já fiz no segundo volume do romance. A minha divida para com a memoria de Gomes Monteiro é tamanha, que não posso desaproveitar qualquer ensejo de relembral-a.
Além d'estes manuscriptos, outros muitos, e variadissimos, enchiam as suas pastas. Lembro-me agora de um extenso artigo a respeito daArte de monteria, de D. João I, e de uma infinidade de apontamentos sobre varias especies, entre os quaes folheei em 1877 todos{48}os que podiam servir á elaboração de uma interessante monographia da cidade do Porto.
Mas, já transviados da rigorosa ordem chronologica, temos que retroceder na biographia de Gomes Monteiro, para completarmos a pequena lista das suas obras impressas.
Um anno antes da publicação da carta sobre a ilha de Venus, isto é, em 1848, deu José Gomes Monteiro em volume a traducção de algumas baladas dos poetas mais populares da Allemanha, sob o titulo deEccos da lyra teutonica.
Este livro está completamente fóra do grande programma dos seus estudos predilectos, e dos seus trabalhos habituaes. São recordações da sua vida na Allemanha, enfeixadas por um viajante erudito, que perfeitamente conhecia as duas linguas, e que, sem ser propriamente um poeta, mostrava que os processos de metrificação lhe eram conhecidos, se bem que em muitos relanços sacrificasse a correcção metrica, a elegancia da fórma, á fidelidade da traducção. Procedendo assim, obedecia simplesmente aos seus escrupulos de investigador litterario. Queria dar a conhecer ao nosso paiz a poesia moderna da Allemanha, respeitando comtudo a exactidão dos textos, como quem perfeitamente conhecia o justo valor das palavras, e por elle fazia obra. A sua lealdade de traductor póde ser confirmada por todos quantos saibam allemão, porque em muitas das poesias a traducção vem a par do original.
Em 1873, José Gomes Monteiro saiu a vingar a velhice de Castilho—desaffrontando-a de accusações que lhe foram feitas—com a publicação do livroOs criticos do Fausto do sr. visconde de Castilho. Estava já a esse tempo no plano inclinado por onde a velhice enferma resvala á sepultura. Não obstante, cobrou forças para escrever rapidamente um livro de 190 paginas, que Camillo Castello Branco e eu vimos nascer quasi dia a dia. Não me admirei do esforço, e a mim proprio o explicava,{49}sempre que na redacção doPrimeiro de Janeirorecebia um bilhetinho de Gomes Monteiro concebido n'estes termos: «Ámanhã, a tal hora, em casa do Camillo». José Gomes Monteiro, replicando com auctoridade ao azedume com que os criticos de Castilho cairam sobre a traducção doFausto, lavrava um protesto energico em nome da velhice desconsiderada, e desabafava, n'uma dolorosa fadiga para a sua penna, as maguas intimas que as ingratidões de que a vida das lettras está eriçada tinham posto no seu coração. Esse livro era o seu testamento litterario, resalta d'elle a indignação da senectude desgostosa, que sente fugir-lhe de um lado, roubado pela morte, o apoio dos seus pares, e do outro o respeito da gente moça. N'este caso a velhice morre como os dois Carvajal, que emprazaram Fernando IV a comparecer no tribunal de Deus; a velhice empraza a mocidade irreflectida a comparecer no tribunal da Historia. «Não ha espectaculo mais repugnante do que o d'um mancebo insultando um ancião benemerito, dizia elle na penultima pagina. É um parricidio moral de que todo o homem honesto affasta a vista com horror.» A sua alma precisava d'este desafogo—a tão pequena distancia da sepultura. Alexandre Herculano, movido por igual impulso, escrevia, do fundo da solidão de Val-de-Lobos, uma carta de congratulação a José Gomes Monteiro a proposito da publicação dosCriticos do Fausto. Essa carta, era breve, mas profundamente energica.Nunca as mãos lhe doiam, dizia o auctor daHistoria de Portugaláquelle que muitas pessoas denominavam oAlexandre Herculano do Porto.
Depois de um tão aguerrido desabafo, a sua alma ficou tranquilla mas fatigada. Nunca mais, dizia-me elle, nunca mais escreverei. Vivendo unicamente de recordações, parecia esperar serenamente a noite misteriosa da morte...
Mas, um dia, foram evocar-lhe uma das mais doces,{50}das mais gratas recordações da sua vida. O sr. Emilio Biel, do Porto, appellando para os seus antigos estudos sobre Camões, convidára-o a rever a edição dosLusiadas, que foi publicada n'aquella cidade por occasião do terceiro centenario da morte do grande epico. A este nome prestigioso, a alma de José Gomes Monteiro teve ainda um relampago de vida. Rodeando-se pela sua preciosacamoneana, pondo diante de si as suas excellentes notas sobre a vida e a obra de Camões, José Gomes Monteiro pretendeu encerrar a sua carreira d'escriptor honrando a memoria do maior poeta que tem tido Portugal. Esse trabalho é perfeito. É o ultimo raio de luz do seu espirito, estrella cadente que sulcando a noite da velhice foi abismar-se na sepultura já aberta para receber o douto bibliophilo.
A 12 de junho de 1879, José Gomes Monteiro adormecia na traquillidade dos mortos.
** *
Ligado por antigos laços d'amizade, atados no exilio, a todos os homens importantes de Portugal, elle poderia ter-se saciado de honras, se fôra um espirito vulgar. Mas até n'isso pensava com o seu Camões. Distincções litterarias tinha apenas aquellas que o procuraram: era socio correspondente da Academia Real das Sciencias de Lisboa e membro de varias academias estrangeiras. O seu nome apparecia pouco, occultava-se como elle proprio, e todavia, outros muitos que ajudára a crear com o seu conselho, com os seus livros, com a sua protecção passavam por diante d'elle, na pompa do triumpho, sem que o menor assomo de inveja viesse perturbar-lhe a habitual serenidade de animo.
Onde estava bem, onde se sentia viver, era no meio da sua vasta livraria. Tinha razão. As livrarias são cidades de mortos, onde os livros falam como os tumulos. A paz creadora, a meditação tranquilla, o descanso{51}productivo, estão ali. Os outros amigos vão rareando dizimados pela morte os contaminados pela ingratidão; mas os livros, amigos inalteraveis, não faltam nem atraiçoam. Na saude ou na doença, no trabalho ou no ocio, fortes na sua immobilidade, grandes no seu silencio, são sempre uma companhia, uma guarda, uma força. O velho Castilho tinha o seu leito entre elles. Não os via, mas sentia-os. Não tinha olhos para os procurar, mas conhecia-os pelo tacto. Muitas vezes me pareceu que elles lhe diziam quando os buscava: «Procuras-me? Aqui estou. Como não vês; ajudo-te.» Entre elles morreu. O seu cadaver depositado na livraria parecia escutar, na concentração placida dos cegos, o que Virgilio estava dizendo e Anacreonte cantando no silencio eterno dos livros.
A bibliotheca de Gomes Monteiro era uma necrópole immensa. A antiguidade tinha ali, fechados em pergaminho, os seus thesouros classicos. A renascença enfileirava os seus volumes em linha de batalha. A um lado, a Grecia antiga cantava os seus heroes; a outro lado, Roma, a Grecia italiana, pendurava as suas liras coroadas de mirtho e louro. Os paizes do norte da Europa combatiam com o ardor dos seus poetas os gelos dos seus climas. O occidente punha os seus trovadores a par dos seus cavalleiros. A central Allemanha entoava as suas baladas vaporosas como o véu azul do seu Rheno. Finalmente, a Asia depositava n'um berço de luz os seus velhos poemas guerreiros e divinos, os seus codigos religiosos e austeros.
—Aqui ha tudo! dizia muitas vezes José Gomes Monteiro com certa alegria lisonjeada, a todos quantos lhe perguntavam se possuia este ou aquelle livro.
Bibliophilo por vocação, ele tinha o grande defeito dos bibliophilos: a avareza. Os seus livros pareciam-se n'isto com as flores, que pertencem principalmente a quem as possue, sem que por isso o seu perfume deixe de ser aspirado pelos estranhos.
[1]Pag. 236.[2]Diccionario bibliographico portuguez, vol. 4.º, pag. 363.[3]O sr. conde de Ficalho contradictou naFlora dos Lusiadas, em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, mas honra-o dizendo que a suacartacontém, na parte exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.[4]Vol. 2.º, pag. 401.
[1]Pag. 236.
[2]Diccionario bibliographico portuguez, vol. 4.º, pag. 363.
[3]O sr. conde de Ficalho contradictou naFlora dos Lusiadas, em 1880, sob o ponto de vista botanico, a asserção de Gomes Monteiro, mas honra-o dizendo que a suacartacontém, na parte exclusivamente litteraria, apreciações justas e novas.
[4]Vol. 2.º, pag. 401.
{52}
Em Janeiro de 1882 entrei na camara dos deputados, eleito por um circulo do districto de Vizeu.
A minha eleição não pesou na balança dos destinos politicos de Portugal, e muito menos da Europa. Os fundos não subiram nem desceram. Mas, em compensação, a minha eleição apresentára tres aspectos completamente novos:
1.º—O circulo conhecia-me.
2.º—Eu conhecia o circulo.
3.º—Não foi preciso, para que eu viesse a S. Bento, derramar-se o sangue de ninguem—nem mesmo de um carneiro.
A minha eleição foi feita o menos carneirocombatatasmente possivel. Nada d'isso. E o mesmo circulo, que me elegeu facilmente, porque me conhecia desde pequeno, deixou de me eleger dois annos depois com igual facilidade.
A gratidão dos circulos é uma coisa bicuda.
O sr. Barjona de Freitas fizera um filasterio politico{53}dando de mão beijada o circulo de Sinfães a um candidato progressista. E os fundos, por este facto, tambem não subiram nem desceram. A substituição de deputado por deputado operou-se, com grande proveito do partido regenerador, sem agitar a politica da Europa.
N'um livro de memorias, que abrange vinte annos da minha vida, julgo-me obrigado a falar dos dois em que passei pelo parlamento. D'outro modo a coisa não valeria chronica.
Trepado ao poleiro de S. Bento, todo o meu ideal era auxiliar lealmente a politica do meu partido, sem deixar comtudo de prestar algum serviço ás lettras portuguezas, que indirectamente me tinham levado lá.
Tive mais trabalho em fazer vingar um projecto de minha iniciativa, estabelecendo a leitura nocturna nas bibliotheca publicas, do que aquelle que seria preciso para me fazer visconde. O projecto passou, graças á minha teimosia, e hoje, 12 de novembro de 1889, posso avaliar por dados estatisticos, hoje mesmo publicados n'um jornal, que não perdi o meu tempo.
No mez de outubro proximo findo, concorreram á bibliotheca nacional de Lisboa 2:586 leitores, assim divididos:
Leitura diurna: leitores, 1:092; volumes impressos, 2:061; manuscriptos, 49; visitantes, nacionaes e estrangeiros, 6.
Leitura nocturna: leitores, 1:494; volumesimpressos, 2:482; manuscriptos, 31.
O numero dos leitores nocturnos é já excedente ao dos leitores diurnos, o que prova que a lei não foi inteiramente inutil aos que n'este paiz gostam ou precisam de ler.
Para os torneios da eloquencia havia, n'aquella legislatura, campeões experimentados e insignes. A minha humilde e desauctorisada palavra não se tornava precisa. Limitei-me portanto a fazer uso d'ella apenas quando careci de justificar o meu voto.{54}
Da pequena bagagem que deixei depositada noDiario dos sessõesescolherei um unico discurso, não só para comprovar o que deixo dito, mas tambem porque o assumpto era de geito a tentar as predilecções de um homem que, até dentro da politica, estima os assumptos historicos.
Tratava-se do projecto de lei relativo ao monumento do marquez de Pombal.
Eu tive então occasião de dizer as seguintes palavras:
«O sr. Alberto Pimentel:—Cumprindo as disposições do regimento, começo por ler a minha proposta.
(Leu).
A camara tem ouvido benevolamente considerações, se não diametralmente oppostas, pelo menos um tanto contradictorias, e espero que ella me dispensará igual benevolencia, por mais excepcionaes que lhe pareçam, sobre este assumpto, as minhas opiniões.
Devo começar por dizer a v. ex.ª que não tenho um grande enthusiasmo pelo centenario do marquez de Pombal; em minha consciencia, e só em nome d'ella falo aqui, porque tenho direito de falar, acho ainda muitissimo cedo para qualquer solemnidade publica, para qualquer demonstração de applauso nacional em honra de Sebastião José de Carvalho e Mello.
A iniciativa partiu da mocidade academica, e ainda que tenho uma profunda estima por todas as iniciativas que partem do coração ardente da gente moça, ainda que me sinto impellido para acceitar todos os pensamentos em que palpita exuberantemente a seiva da idade juvenil, não devo esquecer que os academicos são moços e que as idéas da mocidade são quasi sempre flores e não fructos.
Uma primavera carregada de fructos seria um phenomeno tão extraordioario na natureza como na sociedade. Nós, os legisladores, temos obrigação de ser menos apaixonados, e menos enthusiastas do que a mocidade.{55}A reflexão é uma velhice precoce, e nós devemos tel-a.
Eu entendo, sr. presidente, que se os mortos passam depressa, muitas vezes, para a nossa saudade, se desapparecem rapidamente na sua balada phantastica, caminho da eternidade, os legisladores vão de vagar, vergados ao peso das suas proprias responsabilidades, como se lhes pesasse sobre os hombros o enorme lenho da Historia, que é, ao mesmo tempo, uma cruz e uma glorificação.
E tanto isto é verdade, que eu entendo que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não estão ainda perfeitamente liquidadas.
Nós ouvimos, na sessão anterior, a palavra enthusiastica, sempre inspirada e eloquente do sr. Pinheiro Chagas, defendendo brilhantemente a causa do centenario.
Pois bem, soccorrer-me-hei a uma citação do sr. Pinheiro Chagas a respeito de um dos actos mais importantes da vida do marquez de Pombal.
Refiro-me ao processo dos conspiradores ou suppostos conspiradores contra D. José I.
A este respeito citarei a v. ex.ª e á camara duas auctoridades, ambas contemporaneas, para provar a minha asserção de que as responsabilidades politicas do marquez de Pombal não me parecem inteiramente liquidadas ainda.
Diz algures o sr. Teixeira de Vasconcellos:
«Nos dominios severos da historia ainda não passou em julgadonem a sentença que condemnou a perpetua infamia o nome dos Tavoras, nem a que depois pretendeu lavar de qualquer mancha a memoria de tão numerosa e esclarecida familia. Não nos cabe apreciar a sanguinolenta catastrophe de Janeiro de 1759. Basta-nos recordar que as duas filhas do marquez de Alorna, uma de oito e outra de sete annos, padeceram innocentes longo e triste captiveiro, attenuado unicamente{56}pela consolação de viverem com a mãe, mitigando-lhe as amarguras da sorte, e recebendo com os carinhos e desvelos a educação maternal.»
Não citarei só a opinião do sr. Teixeira de Vasconcellos, cuja perda todos lastimamos, e eu mais que ninguem; citarei tambem a propria opinião do sr. Pinheiro Chagas, que sinto não ver presente, e que tão enthusiasta se tem mostrado por esta festa, que qualifica de nacional.
«Temos agora a notar que morreram innocentes, ou, pelo menos, que não deviam ser condemnados,pois que havia falta absoluta de provas, alguns dos desgraçados de Belem. Parece-nos isso incontestavel, masnão sabemosse devemos attribuir todas as culpas a Carvalho.Pesa ainda um grande mysterio n'esse periodo da nossa historia, e nenhum dos escriptores que d'elle se occuparam, trouxe a lume todos os documentos que podessem lançar luz n'este drama tenebroso.»
Depois da citação d'estes periodos, arrancados áHistoria de Portugal, do sr. Pinheiro Chagas, e que por isso mesmo devem ser insuspeitos á camara, peço licença para referir um facto, que é um traço anecdotico da vida de Bocage, mas que me parece vir a proposito.
Bocage tinha sido recebido em casa de Thomé Barbosa de Figueiredo, que lhe dava a mais cordeal e franca hospitalidade, que lhe fazia offerecimentos de dinheiro, que lhe proporcionava, finalmente, todas as condições de bem-estar.
Thomé Barbosa de Figueiredo sentia-se muito honrado com a co-habitação de Bocage, e Bocage parecia ter chegado ao ideal da sua felicidade. Comtudo, uma bella manhã, Bocage bateu á porta do quarto do seu amigo, e disse-lhe que agradecia todos os obsequios que lhe havia proporcionado, mas que era obrigado a retirar-se.
—Por que? perguntou-lhe Figueiredo.{57}
—Por que conheço os seus defeitos e sinto uma invencivel necessidade de dizer mal d'elles, e de si.
A respeito de Sebastião José de Carvalho e Mello póde dizer-se a mesma cousa, porque todos aquelles que mais enthusiastas se revelam por elle, esses mesmos são obrigados a notar-lhe graves defeitos, e eu vou citar á camara ainda algumas palavras do meu illustre amigo, o sr. Pinheiro Chagas, nos seusPortuguezes illustres. Cito a obra, para tornar mais veridica a citação:
«Mas o patibulo de Belem, a alçada do Porto, a fogueira de Malagrida, o supplicio atroz de João Baptista Pelle,clamam alto contra o marquez de Pombal.»
Eis aqui a applicação da anecdota de Bocage. Ella explica, a meu ver, eloquentemente, o que se está passando n'este momento com relação ao marquez de Pombal.
Como a iniciativa do centenario partisse da mocidade academica, o governo viu por ventura, e principalmente, no marquez de Pombal, o reformador dos estudos, e propoz uma estatua em sua honra.
É certo, sr. presidente, que eu entendo que as estatuas devem ser para os legisladores, por isso que são frias, austeras como elles.
Para os grandes artistas, para os grandes pintores, para os grandes poetas, para os grandes oradores e para os generaes victoriosos cuido eu que devem ser as ruidosas ovações populares, as solemnes deificações publicas e augustas, os imponentes cortejos civicos, os arcos de triumpho, ondeantes de galhardetes inquietos, n'uma palavra, a monumental apotheose das ruas e das praças, como ha pouco teve Camões.
José Estevão, sr. presidente, está ainda muito mais vivo e completo nos seus discursos parlamentares, que remurmuram nos eccos saudosos d'esta casa, do que na estatua fria e severa que se levanta ali fóra, em frente d'este edificio, que elle glorificou com a sua palavra.{58}
Camões é muito maior nosLusiadasdo que na estatua do Loreto.
Mas, emfim, o governo não se furtou á corrente pombalina que partia da iniciativa particular, academica ou não academica, para se erguer uma estatua ao marquez de Pombal, e é d'isso que se trata n'este projecto.
O governo foi accusado aqui pelo sr. Pinheiro Chagas de concorrer apenas com uma simples esmola para a celebração do centenario. O governo, sr. presidente, não dá tão pouco como ao sr. Pinheiro Chagas se afigura, e eu n'este ponto fui prevenido em grande parte pelo discurso do illustre deputado sr. Emygdio Navarro, visto que a palavra, por infelicidade minha, me chegou tão tarde.
Já aqui se disse que nos nossos arsenaes não havia bronze inutilsado em quantidade sufficiente para a estatua, porque d'esse metal existiam umas antigas peças de alma lisa que têem sido ultimamente transformadas em peças raiadas.
Póde dizer-se que não ha bronze nenhum inutilisado nos arsenaes, e por isso o governo, por muito pouco que se proponha gastar, não gastará menos de 6:000$000 réis, justamente n'uma época em que se está pedindo ao povo o sacrificio de novos impostos sobre generos alimenticios de primeira necessidade.
Alem de que, tendo a praça destinada para a collocação da estatua, na Avenida da Liberdade, um raio de 100 metros, é forçoso que a estatua do marquez de Pombal tenha dimensões iguaes á de José I, ou quasi as mesmas, circumstancia a que não devemos deixar de attender, visto que somos chegados á parte menos attraente d'esta discussão, o capitulo das despesas a fazer.
Levantem-se, porém, estatuas, sr. presidente; seja-me comtudo licito exprimir o desejo de que quem quizer levantar estatuas, as pague.{59}
Sabe v. ex.ª o que aconteceu ha annos no Porto? Isto a proposito de estatuas, de monumentos.
Os proprietarios da fabrica de estamparia do Bolhão, n'aquella cidade, tinham um grande culto pelo sr. D. Pedro V, de saudosa memoria. Pois quando morreu D. Pedro V, a fabrica de estamparia do Bolhão, no Porto, mandou erigir-lhe á sua custa um monumento.
Uma familia de Braga, a familia Cunha Rebello, que tinha igualmente uma grande veneração por aquelle monarca, mandou levantar-lhe um novo monumento, sem que se lembrasse de recorrer ao estado, para que a auxiliasse na realisação do seu emprehendimento.
E ainda ultimamente, no Algarve, se levantou um monumento, creio que a um medico illustre, por iniciativa particular.
Eu entendo, sr. presidente, que precisamos pôr cobro a esta paixão pelos centenarios e pelos monumentos, que já se vae tornando demasiadamente extensa.
Quer v. ex.ª saber o que acontece?
Nós vamos ter centenarios por muitos annos. Até será facil organisar um kalendario sob esse ponto de vista. Quer v. ex.ª ver? Eu peço a attenção da camara...
Vozes:—Ouçam, ouçam.
O Orador:—Em 1885 teremos o setimo centenario de Affonso Henriques.
Este vale bem uma festa nacional, creio eu.
Em 1887 teremos o centenario de José Anastacio da Cunha, uma das victimas mais illustres da inquisição em Portugal.
Em 1892 temos o centenario de Luiz Antonio Verney, e é justo celebrar-se o centenario d'este reformador litterario, tendo-se celebrado o do marquez de Pombal, que o encarregou de negociações em Roma para a abolição da companhia de Jesus.
Em 1895 teremos o centenario de Martinho de Mello e Castro, que coadjuvou as reformas de Pombal, a quem aliás não era affeiçoado.{60}
Em 1897 teremos o bicentenario do padre Antonio Vieira.
Em 1915 teremos o quarto centenario de Affonso de Albuquerque.
Em 1924 teremos o quarto centenario de Vasco da Gama.
Em 1928 teremos o centenario de Brotero.
Em 1931 o quinto centenario de D. Nuno Alvares Pereira.
Em 1949 o terceiro centenario de João Pinto Ribeiro.
Em 1954 teremos o centenario de Garrett.
Em 1960 teremos o quinto centenario do infante D. Henrique.
Em 1977 teremos o quarto centenario de Pedro Nunes, o celebre inventor doNonio.
Em 1993 teremos o quinto centenario do infante D. Fernando. (Vozes:—Muito bem).
E assim por diante.
Páro por aqui para não abusar da paciencia da camara, e mesmo porque da continuação d'esta lista espero que algum dia se encarregarão os meus netos ou os seus filhos...
Sr. presidente, o sr. Pinheiro Chagas falou aqui do 24 de julho e disse que, se ha familias ainda maguadas pela memoria da administração do marquez de Pombal, tambem o 24 de julho é uma festa que entristece profundamente muitas familias portuguezas.
Mas isto, a meu ver, prova simplesmente que D. Pedro IV, por uma excepção historica, andou mais depressa do que o marquez de Pombal, cumprindo tambem notar que a idéa que o 24 de julho significa recebeu já a sancção official, porque está traduzida n'uma fórma de governo, e eu não creio que um paiz conserve uma fórma de governo que inteiramente lhe repugna.
Não posso affirmar á camara se o dia 8 de maio irá ou não cobrir de luto muitas familias; mas a prova de que as paixões estão ainda muito vivas e accesas é que{61}alguns dos conferentes, que se têem occupado do assumpto do centenario do marquez de Pombal, têem ouvido, por entre o ruido das ovações, corajosas demonstrações de desagrado.
Faça-se a festa, em todo o caso, visto que o governo entende não se dever oppor a ella nem deseja conservar-se indifferente, mas faça-se a festa com ordem e com moderação.
Estes creio eu que são os votos de toda a camara.
Finalmente, sr. presidente, a estatua erigir-se-ha. Mas a estatua, se não diminue, tambem não augmenta, a meu ver, a gloria do marquez de Pombal, reformador dos estudos, protector das industrias e restaurador de Lisboa. Quanto a mim, entendo que significa apenas um acto de deferencia do governo para com as letras, as industrias e a capital.
O marquez de Pombal vive ainda na universidade de Coimbra, nas fabricas da Covilhã, de Portalegre e em muitas outras; vive nos bellos arruamentos uniformes da cidade baixa. Quanto ao mais, esperemos que a justiça se vá fazendo lentamente.
Quando Sebastião José de Carvalho e Mello morreu, D. Francisco de Lemos, que lhe compoz o epitaphio em latim, disse n'elle que a propria academia lhe não quiz resar umrequiem; hoje é a academia que lhe quer fazer um triumpho, embora contestado ainda...
Deixemos passar os seculos, e elles talvez façam o mais.
Disse.»
A minha passagem por S. Bento não vale chronica de maior folego.
Rememorei o facto; e mais nada. Cerro por aqui o capitulo. Não tenho pelo parlamento saudades nem desdens. Mas dos homens com quem lá convivi e tratei mais intimamente conservo gratas recordações, e essas quero-as deixar archivadas n'este livro.
P. S. Voltei ao parlamento em abril de 1890, eleito{62}por um circulo do districto do Porto. Tambem d'esta vez não tive que sacrificar carneiros para voltar. Mas que differença! Os homens são quasi todos os mesmos de 1882, poucos a morte dizimou; mas os costumes politicos têem peorado consideravelmente. Ouvi discursos que expludiam como bombas de dinamite, e na tempestuosa sessão de 15 de setembro vi as opposições, pondo de parte a eloquencia, levantarem conflictos de mãos e pés. É a melhor maneira que eu encontro para dizer que houve vias de facto, e pateada. Que differença! que differença!
Decididamente, o maior inimigo do parlamentarismo é... o parlamento.
{63}
O maior elogio de Sampaio está precisamente n'esta phrase que todos têem repetido: «É um homem que faz falta.» Fazer falta, n'uma época em que todos julgam servir para tudo, é uma glorificação.
Sãoa rodoos jornalistas e os politicos; em nenhum tempo houve tantos como agora. Desde o artigo de fundo até á pasta vae augmentando todos os dias o formigueiro dos homens celebres, que pretendem caminhar para o poder carregados, como as formigas, com o peculio do seu trabalho ou das suas honras vans. Pois no meio d'esta enorme concorrencia, n'esta conflagração geral de pretensões e vaidades, os mais egoistas e os mais vaidosos são os primeiros a confessar que Antonio Rodrigues Sampaiofaz falta.
E assim é.
Faz falta, porque era um homem superior, tinha o seu logar na imprensa e na politica, chegou a elle sem pressa e sem impaciencia, não pisou ninguem, não{64}acotovelou os invejosos, foi andando e parando, e quando chegou ao apogeu das honras sociaes já toda a gente o esperava lá, todos reconheciam que devia ahi chegar, e alguns, os mais justos, estranhavam que não tivesse chegado mais cedo.
Tendo um passado politico, foi ministro depois de o ter. No nosso paiz isto é raro. Muitos escalam o poder pela trapeira; elle entrou pela porta da rua, e da primeira vez que foi ministro (1870) não passou do patamar da escada. Outro qualquer, n'essas circumstancias, em lhe dizendo que lá em cima, no primeiro andar, estava a dictadura, haveria galgado os degraus quatro a quatro, para que se lhe não escapasse a occasião de ser dictador como Cesar. De mais a mais, tendo por guarda-costas a espada prestigiosa do marechal Saldanha, poucos fariam o que elle fez: pôr o chapeu na cabeça e sair.
Tinha luctado pela liberdade; repugnava-lhe firmar-se no poder pela dictadura. Mas de que modo elle havia luctado! Como um forte, um valente, um athleta; os nossos revolucionarios de hoje são ridiculos se os medimos com Sampaio. Quanto a nós, essa é a phase mais gloriosa de toda a sua vida. Com a sua penna e a sua coragem, elle só, deu que fazer ao governo dos Cabraes. O ministerio empregava todos os meios ao seu alcance para supprimir o jornal e inutilisar o jornalista. Andavam açulados os Argus da espionagem ministerial no empenho de farejar o esconderijo de Sampaio, e, durante quasi um anno, esse jornal, tão perseguido officialmente, apparecia em toda a parte, até dentro das pastas dos ministros!
Os revolucionarios de hoje seguem um caminho muito mais commodo: mediante uma estampilha de dois réis e meio fazem-se lêr pelas suas victimas.
Depois da perseguição, da caça ao jornalista por parte do governo, vieram as tentativas de suborno. Sampaio repelliu-as nobremente. Appellou-se para a{65}provocação. Sampaio foi reptado: bateu-se em duello. Era um homem, um verdadeiro homem de lucta. E, quando o conde de Thomar caiu, quando para Sampaio chegára a hora de receber a féria, recusou ao ministerio Palmella todas as vantagens que este lhe propunha. D'isto não ha hoje; o ultimo exemplar d'esta raça de homens foi ha annos sepultado no cemiterio dos Prazeres. Eis o seu epitaphio, a sua glorificação:
Faz falta.
Tendo conhecido os homens e os tempos, tratando de perto todas as vaidades irritantes e todas as ambições irritadas, conhecendo bem o mundo, atravessava-o com a serena philosophia do seu bom humor habitual, por que o bom humor era n'elle uma philosophia.
O marquez de Caraccioli chamava a istogaieté philosophique, alegria philosophica; pois seja. «Feliz o homem, diz elle, que contente com a sua sorte e com o seu paiz, procura tornar-se a vida agradavel por uma maneira de pensar que, permanecendo inalteravel, repelle os pesares como tentações, e só procura os objectos consoladores. É por um tal sistema de felicidade que se consegue resistir ás impertinencias e aos soffrimentos, e eis aqui por que eu chamo alegria philosophica a esse contentamento da alma, que se não altera nem pelos remorsos, nem pelas inquietações.» Osespinhos do poder! repetia muitas vezes Sampaio,isso é apenas uma metaphora. E tinha razão, porque elle exercia o cargo de ministro de estado com a mesma alegria philosophica, a mesma honestidade tranquilla com que exercia todos os outros cargos. Sentindo-se velho e pesado, apreciava sobremodo o poder andar de trem. Era, depois de cair, que elle começava a achar os espinhos da lenda, por se ver obrigado a passar do trem para oamericano. Dizia-o muitas vezes, rindo.
Rindo, desarmava a colera dos adversarios, que acabavam rindo tambem.J'ai ri, me voilà désarmé.Rindo, sabia perdoar. Ninguem o podia tratar de perto sem{66}ficar sendo seu amigo. Na vida intima, poucos homens haverá tão bondosos, tão infantilmente bons. Custava a comprehender como esse velho placido e alegre, cheio de bonomia e de serenidade, se transmudava de um momento para o outro no ardente articulista daRevolução de Setembro, semeando ás vezes resentimentos pessoaes que poderia ter evitado.
De uma vez certo titularvieille rochefoi pedir-lhe um favor politico.
—Custa muito, dissera elle a Sampaio, andar por aqui a pedir favores de chapeu na mão.
—Pois ponha-o na cabeça e fale, respondeu Sampaio.
Um politico muito conhecido em Lisboa e na provincia procurou Sampaio para se oppôr ao despacho de um governador civil.
Sampaio respondeu-lhe:
—Meu caro amigo, você já governa em vinte districtos; consinta ao menos que o ministro do reino governe n'um.
Eu, que acabava de passar tormentosamente pela vida administrativa, combati algumas disposições do codigo de 1878 n'um capitulo do livro intituladoViagens á roda do codigo admistrativo.
Quando em 1881 alguns amigos de Sampaio e meus apoiavam a minha candidatura pelo circulo de Sinfães, Sampaio, consultado a esse respeito, foi á sua bibliotheca buscar o livro e disse com bondosa tranquillidade:
—Elle zangou-se muito comigo por causa do codigo, mas eu não me zangarei com elle por causa do circulo. Que venha á camara, e ficaremos amigos como d'antes.
A minha eleição foi causa indirecta da transferencia de um empregado. Passados dias, estava eu já eleito, Sampaio mandou-me chamar pelo seucorreio.
Fui immediatamente saber o que elle queria.{67}
—Dei corda para me enforcar, disse-me abruptamente Sampaio.
—Por que? perguntei eu muito intrigado.
—Por que, meu caro amigo, as influencias locaes, que o elegeram, mandaram de casa mudada um afilhado meu.
—Mas, conselheiro, eu fui estranho a tudo isso.
—Tambem eu. Agora, mandei-o chamar para que trate de remediar o mal que está feito. Vá ter com o ministro F. e combine com elle o remedio.
Assim fiz; assim se fez.
Deve notar-se que Sampaio era então presidente do conselho de ministros.
Na imprensa, Sampaio respondia a todas as accusações, e a todas as injurias.
Pouco antes de morrer andava em discussão accesa com Eduardo Tavares, que redigia então asInstituições.
Certo dia asInstituiçõeschamaram a Sampaiopedaço d'asno, com todas as lettras.
No centro regenerador discutiu-se á noite se Sampaio tambem responderia a isto ou se deixaria de responder. Eu apostei que responderia. No dia seguinte corri a ler aRevolução de Setembro. O artigo de Sampaio principiava assim: «O homem dasInstituiçõeschamava-nos hontempedaço do seu todo.»
Soberbo!
Talvez por ser alegre foi que logrou conservar-se forte na velhice.L'homme gai ne vieillit point, et paroit toujours se bien porter, observa o marquez de Caraccioli. Os artigos daRevoluçãopunham bem em evidencia esta verdade. Sampaio até no ataque era jovial; ria combatendo. E os seus profundos conhecimentos de latinidade traziam-lhe á memoria e á mão, a maior parte das vezes, citações que elle aproveitava habilmente para acerar a mordacidade com que sabia rir da má situação em que deixava os adversarios politicos, ou em que elles proprios se collocavam.{68}
Em 1881 foi feito dictador como Sganarello foi feito medico,malgré lui. Mas nas suas mãos a dictadura foi uma arma completamente inoffensiva; depois de cobrar os impostos partiu-a, atirou com ella para o mesmo armario em que a havia fechado em 1870. Estava-se em dictadura, e ninguem dava por isso. O dictador Sampaio distraia-se ás noites no Passeio Publico, e dizia como o feroz Sylla ao povo: «Lisbonenses, aqui estou para vos dar conta do sangue derramado.» E o povo deixava-o estar. Sabia que era um homem bom, e ninguem receia a dictadura de um homem bom.
** *
No delirio, que precedeu a morte, Sampaio disse: «É preciso defender a monarchia.»
Esta phrase, na bocca do velho liberal moribundo, deve ser recebida como um evangelho.
Quando uma idéa nos tem preoccupado vivamente o cerebro, até no sonho nos avassala. O delirio da febre deve ser alguma coisa de nebuloso e de vago como o sonho, e o pensamento constante de toda a nossa vida deve enlear-se-nos no espirito, em spiraes dominadoras, tanto mais apertadas quanto mais o espirito lucta para desembaraçar-se e partir.
Sampaio foi toda a sua vida um ardente partidario da realeza. A monarchia havia saido ungida, sagrada do baptismo da liberdade. Sampaio guerreavaà outranceo ministerio de 1846, porque entendia que esse ministerio, apoiando-se na força e na oppressão, desvirtuava a idéa de liberdade que na Europa progressiva servira de base á reconstrucção monarchica.
Se depois do estabelecimento do regimen constitutional a monarchia se desprestigiasse prematuramente, seria um sistema perdido, uma fórma de governo apodrecida antes de amadurecer. Como adversario valoroso{69}do antigo regimen, Sampaio combatia as ultimas raizes do absolutismo que tinham ficado ainda arraigadas em derredor do throno constitucional.
Depois da organisação regular dos partidos politicos, Sampaio foi sempre um monarchico, e muitas vezes atiçava a lucta jornalistica entre esses partidos, porque perfeitamente comprehendia que sem lucta partidaria as fórmas de governo degeneram na tirannia ou na anarchia: ou uma só facção dispõe de todos e de tudo, ou todos governam em tudo. Elle claramente percebia que a divisão dos partidos é um elemento de fiscalisação e de estimulo na gerencia dos negocios publicos, e de correcção e aperfeicoamento para o regimen estabelecido.
Grande parte da sua vida passou-a n'essas luctas, em interesse da monarchia. Frequentando o paço, foi sempre um monarchico, nunca foi um aulico. Para os monarchicos sinceros é esse um justo-meio difficil de conservar. Elle nunca o ultrapassou.
Mas para a sua velhice estava guardado o espectaculo do conflicto pela inversão violenta dos principios estabelecidos, pela postergação desordeira dos direitos sociaes, pelo desacato ás leis vigentes do reino, e pela irreverencia ás garantias que o codigo fundamental do estado concede a todos e a cada um.
Sampaio viveu muito; viu muito.
Ainda teve tempo para vêr isto. E como n'esta hora morria, era com essa idéa que sonhava no delirio da febre: «É preciso defender a monarchia.»
E é.
Os campos politicos estão claramente definidos, nitidamente demarcados: monarchicos a um lado, inimigos da monarchia a outro lado.
Os meios, que os nossos adversarios escolheram, são de sua inteira responsabilidade: nada temos com isso. Empreguemos nós os nossos, purifiquemos os nossos costumes politicos, procuremos fazer uma administração{70}rigorosa, firmar o credito nacional, velemos á porfia pelo exacto cumprimento da lei, melhoremos as nossas escolas e as nossas industrias, aproveitemos os serviços dos homens de boa vontade que nos offerecem a sua cooperação, e veremos depois quem triumpha.
Mas para que o consigamos é preciso não adormecer:é preciso defender a monarchia.
{71}
Não ha nada que me entristeça tanto como assistir ao leilão de uma livraria, e comtudo attraem-me sempre esses espectaculos que me são dolorosos, e que se repetem em Lisboa quasi todos os dias.
São ordinariamente duas as causas que determinam este genero de leilões: a pobreza ou a morte. Qualquer d'ellas faz uma profunda impressão a todos quantos estimam os livros, não para os revender com lucro, mas para os ler com interesse. Os livreiros de profissão assistem a um leilão de livros com a indifferença profissional com que um medico assiste a uma operação cirurgica, e um enfermeiro á agonia de um moribundo. Estão á vontade, de chapeu na cabeça, fumando, commentando na giria do negocio o que se vae passando em torno d'elles, mas acompanhando sempre, com um fino olhar de raposa, a apparição dos livros e os movimentos do leiloeiro. E para um lado:Comprou bem; para outro lado:Comprou mal; ou, para um espectador{72}que lhe diz:—Quem comprou bem foi o senhor,—como se um livreiro pudesse comprar mal algum dia:Acredite que não ganho senão a encadernação.
Trata-se ás vezes de um livro, de uma obra que foi por muitos annos talvez o ideal d'esse pobre bibliophilo fallido ou fallecido. Não a podia comprar por ser pouco vulgar no mercado ou muito elevado o seu preço; mas pensava n'ella muitas vezes, tinha ciumes dos que a possuiam, corría todos os alfarrabistas a procural-a, havia muitos annos; fez porventura um grande, um enorme sacrificio para a comprar, mas finalmente achou-a, adquiriu-a, teve n'isso uma extraordinaria alegria, mostrava o seu thesouro com orgulho:Veja lá isto! Que me diz a isto?—uma edição muito bem conservada, uma verdadeira preciosidade!
Ha bibliophilos, honrados para todas as coisas d'este mundo, excepto para os livros. A Victor Cousin emprestaram de uma vez um manuscripto de Mallebranche. Reclamaram-lh'o; deu desculpas. Apesar de Cousin ser n'essa occasião ministro da instrucção publica em França, o dono do manuscripto mandou-lh'o pedir categoricamente. Cousin recusou-se a restituil-o. «Mas o manuscripto foi apenas emprestado, disse o intermediario; o dono exige-o, tem o seu direito.» «Sim, respondeu Cousin, elle tem o seu direito, mas eu tenho a minha paixão.» Nós cá, em Portugal, tambem temos bibliophilos d'este feitio, que se desculpam com a sua paixão, e vão ficando com os livros dos outros.
Livre preté, livre perdu, diz um proverbio francez. Os proverbios são filhos da experiencia, e convém por isso respeital-os. Gifanius respondeu uma vez a Gaspar Schopp, que lhe pedia emprestado um manuscripto de Simmaco: «Pedir-me emprestado o meu Simmaco! É como se me pedisse emprestada minha mulher!»
Uma livraria é um edificio que se constroe lentamente, dia a dia, e a que o proprio constructor não chega nunca a pôr a cupula. Por muito longa que seja{73}uma vida, toda ella se gasta a fazer uma bibliotheca, que se deixa sempre incompleta no momento em que a vida foge. Se essa bibliotheca é de livros antigos, se é classica, por muito que o bibliophilo investigue o passado, não consegue, á força de canceiras e dispendios, reconstruir toda a litteratura dos seculos que o antecederam. Ha sempre um thesouro encanado que elle não póde descobrir, que não póde achar. Se é moderna, é tão precipitado, tão febril o movimento litterario de nossos dias, que não seria possivel acompanhal-o ainda quando elle se não perdesse de vista um momento.
Pois bem. Esse edificio architectado dia a dia, hora a hora, com uma perseverança apaixonada, com um enthusiasmo sempre vivo, com uma fé sempre nova, e muitas vezes, por uma cruel sentença da sorte, desmoronado pela propria mão d'aquelle que o erigiu, e que primeiro despedaça o coração antes de derrubar a sua obra querida. Um dia vê-se obrigado a vender os seus livros, a atirar—elle mesmo!—esses volumes, tão amoravelmente guardados e lidos, para as mãos mercenarias dos livreiros—os gatos pingados da bibliographia—que fazem todos os funeraes das livrarias com a mesma indifferenca com que os outros arrancam os cadaveres do interior de cada casa para os irem despejar na voragem do cemiterio.
«Amigos, dizia Scaligero, quereis conhecer uma das grandes desgraças da vida? Vendei os vossos livros.»
Quasi todos os bibliophilos são ciosos dos seus livros; não consentem que ninguem lhes toque, muitos não querem que ninguem os veja. O cardeal Passionei tomou para o seu serviço um bibliothecario ignorante, e dava a razão d'isso: «A minha bibliotheca é o meu serralho: portanto, faço-a guardar por um eunuco.»
Mas se o bibliophilo se vê obrigado a vender os seus livros, a noticia de todos esses thesouros misteriosos, a revelação de todo o segredo da sua riqueza litteraria vae ser assoalhada em longos catalogos impressos, que{74}se espalham de graça, com uma publicidade profana, e esses proprios thesouros vão ser expostos a um publico de amadores e de vendilhões, de interessados e de interesseiros, que caem famintamente sobre elles, que os devoram com o olhar, que os disputam na praça, como se se tratasse apenas de uma barregã que se offerece ao publico, e se vende a quem mais der.
Até ahi, esses livros eram outras tantas vestaes, que alimentavam o fogo sagrado do espirito. Com ellas ninguem communicava profanamente. Só o sacerdote d'aquelle templo exercia o culto, n'um misterio impenetravel, como o da festa da Bona Dea na Roma antiga. Mas uma chusma de Clodios ousados e sacrilegos invade o santuario, desacata-o, profana-o, commette um sacrilegio atroz, e as vestaes de outr'ora volvem-se Messalinas, offerecem-se do alto das estantes, com uma crua impudicicia mercantil, á cupidez daquelles que não duvidam abrir a bolsa para satisfazer um capricho da sua phantasia.
Mas n'um leilão de livros, que se faz pela morte do seu dono, a profanação é ainda maior—talvez!
Pensei n'isto durante o leilão da bibliotheca de Antonio Rodrigues de Sampaio.
Este homem que a posteridade não poderá esquecer, comquanto houvesse nascido obscuro, chegára no seu paiz ás mais altas honras politicas, fôra ministro varias vezes, e, pouco tempo antes de morrer, presidente do conselho de ministros.
Á porta da sua casa—aquella mesma casa—ordinariamente fechada, batêra muita gente, timidamente, respeitosamente, para solicitar de Sampaio um favor. Todo o pretendente era introduzido por um criado na saleta, e ahi esperava, com o coração ancioso, que apparecesse, com o seu grande ar de bonomia, o velho Sampaio. Elle sabia bem o que era ter começado de baixo, ter entrado pela porta, ter subido degrau a degrau, e, ordinariamente, não se fazia esperar muito.{75}
Apparecia, pois, levantando o reposteiro de uma pequena porta á esquerda: era a sua livraria. Estava ali sempre, quasi sempre, de dia. Á noite, recebia os seus intimos, e tomava regaladamente o seu chá, com o guardanapo ao pescoço, como um bibe, mostrando-se guloso por bolos finos.
Pois desde que o leilão começára, a porta da rua estava aberta de par em par, escancarada, franca para todos os que passavam, e que subiam á vontade, falando uns com os outros, rindo, não encontrando criado algum que lhes tomasse o passo, não vendo em logar nenhum o correio do ministro do reino, que por tantos annos fez estação n'aquelle portal—ninguem, nem uma só das pessoas que tambem por tantos annos habitaram n'aquella casa.
A saleta estava quasi despida. As cortinas apanhadas, arregaçadas; das antigas alfaias apenas restava o candieiro de cristal. No sitio onde estivera o piano, entre a janella e o escriptorio, havia um grupo de bibliophilos que esperavam o principio do leilão. Á porta do escriptorio, estava atravessada uma longa mesa, a que os livreiros abancaram. Enquadrada na porta, a ampla figura do pregoeiro, que mascava um charuto, emquanto, dentro, os seus ajudantes preparavam os livros que primeiro haviam de ser postos em praça.
N'uma palavra, a morte profanára aquelle recinto que estava, para assim dizer, impregnado da individualidade de Sampaio. Havia em tudo aquillo um ar de terrivel devastação; parecia que o vento ardente do deserto passára por ali resequindo o coração de quantos haviam conhecido Sampaio. Sentia-se o simoun da morte que, ao passar, derrubara as alfaias e os livros, muitos dos quaes estavam amontoados no chão...
Não havendo catalogo impresso, o publico não sabia o que ia comprar. Esperava um pouco ao acaso que passasse por diante de si um livro bom; por isso, quando cada volume apparecia, as pessoas que estavam{76}sentadas levantavam-se para vel-o, as que estavam em pé estendiam curiosamente o pescoço para ler-lhe o titulo—ao menos.
Sampaio sublinhava a lapis algumas passagens dos seus livros.
No leilão, vendeu-se um exemplar dosSophismas parlamentares, de Bentham, edição de 1840, prefaciada por Elias Regnault. Arrematei-o para offerecel-o a Julio de Vilhena, que tinha sido collega de Sampaio no ministerio de 1881. Em muitas paginas d'esse livro ha traços sinuosos, rapidamente lançados, denotando certamente que Sampaio estava lendo com interesse e que, desejando marcar um pensamento original, não queria retardar a leitura. Commentava mais com o espirito do que com o lapis; deixava apenas no papel um rapido signal indicativo para facilitar a busca.
Traduzirei alguns dos pensamentos sublinhados por Sampaio.
No prefacio de Regnault estão marginados todos os que se referem ao poderio politico da imprensa. Por exemplo: «Á imprensa pertence a iniciativa; á camara, a sancção; á imprensa, a invenção; á camara, a realisação.» «Antigamente, as communas tinham um simples direito de petição para obter a reparação dos aggravos, hoje, a imprensa é uma petição perpetua.»
No texto, estão sublinhados, além de outros, estes pensamentos de Bentham:
«Entre individuos que vivem no mesmo tempo, e na mesma situação, o que é velho possue, por esse motivo, mais experiencia do que o novo. Mas entre duas gerações, posto se chame velha á geração que precede outra, não se póde sustentar que tenha mais experiencia do que a que lhe succede.
«Por conseguinte, reconhecer como mais velhas as gerações primeiras, é cair n'um erro tão grosseiro como o de chamar velho a uma creança de berço.
«Qual é, pois, a sabedoria d'esses tempos denominados{77}velhos? É a sabedoria dos cabellos brancos? Não, é a sabedoria dos moços imberbes.»
«Um homem morto não tem rivaes, e não faz sombra a ninguem. Não se encontra no caminho com os ambiciosos; e estes, mudando repentinamente de linguagem, dão-se, louvando-o, uns certos ares de justiça e benevolencia, que não lhes custam nada. O respeito pelos mortos fornece-lhes occasião de satisfazerem o seu odio pelos vivos.»
«Deante d'este talisman (a imprensa) desappareceram de vez os diabos, os espectros e os vampiros. A agua benta fez-lhes muito menos mal que a tinta de imprimir.»
Ainda mais alguns aphorismos:
«Uma opinião insensata leva a um procedimento insensato; um procedimento insensato produz crueis desastres; d'esses desastres vem o mais util ensinamento.
«É pois, á loucura dos nossos antepassados, e não ao seu saber, que se deve pedir conselho; e é por isso que os sophistas invocam sempre a sabedoria dos velhos.»
«Em resumo, toda a formula que coarcta a soberania é absurda; toda a lei que a si mesma se declara irrevogavel, é perigosa.»
«Qualquer lei, feita em dadas circumstancias, não póde durar mais do que essas circumstancias.»
«A resistencia não é um direito; o triumpho, sim. Resisti, e Blackstone vos condemnará; mas triumphae resistindo, e Blackstone vos adorará.»
De quantos livros se venderam no leilão Sampaio, um dos mais annotados era com certeza aHistoire des origines du gouvernement representatif en Europe, de Guizot, edição de 1851. Duas passagens d'esta obra, sempre notavel, estavam marginadas por abreviaturas, que não pude entender. Mas as sublinhas a lapis são tão frequentes, sobretudo em certas passagens, que chegam a tracejar toda a pagina.
Um dos trechos sublinhados é o que respeita á theoria da soberania:{78}
«A idéa mais geral, que se póde procurar n'um governo, é a sua theoria de soberania; isto é, a maneira por que elle concebe, colloca, e attribue o direito de dar e de fazer executar a lei na sociedade.
«Ha duas grandes theorias de soberania.
«Uma procura-a e colloca-a nas forças reaes que existem sobre a terra, qualquer que seja a força: povo, monarcha, ou principaes do povo. Outra sustenta que a soberania de direito não póde existir na terra, e não póde ser attribuida a força alguma, porque não ha força terrestre que conheça e queira inalteravelmente a verdade, a razão e a justiça, unicas fontes da soberania de direito, que devem regular a soberania de facto.
«A primeira theoria de soberania funda o poder absoluto, seja qual fôr a fórma de governo. A segunda combate o poder absoluto sob todas as fórmas, e não reconhece em caso algum a sua legitimidade.
«Não se diga que qualquer d'estas theorias reina exclusivamente nos diversos governos. Ao contrario, misturam-se n'uma certa medida, porque não ha nada que seja completamente destituido de verdade nem inteiramente isento de erro. Todavia é sempre uma ou outra que predomina em cada fórma de governo, e que póde ser considerada como seu principio.
«A verdadeira theoria da soberania, isto é, a illegitimidade radical de todo o poder absoluto, quaesquer que sejam o seu nome e logar, é o principio do governo representativo.»
O estudo feito sobre as passagens sublinhadas ou annotadas por Sampaio é altamente curioso como elemento critico para a caracterisação historica do annotador.
Não foi, porém, isso que desejamos fazer. Propuzemo-nos apenas lançar no papel as impressões que nos deixou o desmoronar da sua livraria. Ellas ahi ficam expostas com a sinceridade que sempre tivemos para com o illustre jornalista, e que elle sempre teve para comnosco.
{79}
O scenario era triste.
A atmosphera estava de uma dureza sombria. Uma chuvinha miuda, como se caisse de um crivo, parecia cristalisar em missangas na copa dos chapeus de feltro, nas barretinas dos soldados, e nos tricornes dos cocheiros das berlindas. Das arvores do cemiterio dos Prazeres, e da cimalha do portico, escorriam gottas de agua como lagrimas. O Tejo, visto da explanada, estava crespo e amarello, erriçado de pequenas ondas revôltas e torvas. O povo, n'uma attitude respeitosa e concentrada, esperava. Algumas senhoras erguiam os seus chapeus-de-chuva franjados de rendas de orvalho, que se desfaziam e renovavam a cada momento.
Finalmente, a cruz alçada appareceu, precedendo duas filas de padres, cujas sobrepelizes pendiam, amolecidas{80}pela chuva, sem brilho e sem consistencia. Atrás, a urna de mogno, que continha os restos mortaes de Saraiva de Carvalho, caminhava vagarosamente, n'uma oscillação solemne, através de um silencio lugubre.
Nada mais triste do que o enterro de um homem novo, sobretudo quando esse homem vivera pelo espirito nas luctas do talento.
A velhice é uma justificação da morte. Ella tem, com effeito, o direito cruel de matar. Ninguem lhe pergunta por que o fez. Reconhece-se que a sua missão é extinguir e decompôr. Lamenta-se o facto, mas ninguem se revolta contra elle. De mais a mais, as longas existencias deixam após si uma extensa chronica, cheia de opisodios, de alternativas, de cambiantes e de anecdotas. Recordal-as, é desviar por momentos a attenção para um assumpto menos triste do que a morte; é fugir do facto material do aniquilamento para o mundo pittoresco da imaginação, que se compraz em reconstruir épocas passadas, em resuscitar homens que já não existem, e que foram no seu tempo o mobil ou os actores de acontecimentos importantes na politica, na litteratura, nas sciencias, nas artes, na industria, no commercio ou nos salões elegantes da sociedade.
Deante, porém, do cadaver de um homem novo, o espirito encontra n'esse mesmo espectaculo motivos de sobejo para accusar a morte por ter invadido os direitos da velhice e por haver, como um tigre, surprehendido por assalto uma victima desprevenida e tranquilla. Depois, os que morrem novos deixam uma pequena biographia, por maior que haja sido o seu talento e o seu poder. Á beira do seu tumulo, todas as attenções se fixam n'elle; a imaginação não encontra um passado bastante longo para se demorar reconstruindo-o. De modo que, á força de olharmos para o cadaver, sente-se mais o frio da morte e o effeito terrivel da sua devastação prematura...{81}
Saraiva de Carvalho, tendo morrido com quarenta e tres annos de idade, foi tres vezes ministro. Não basta isto para o julgarmos velho na politica, e para imaginarmos que elle tivesse concluido a sua missão de homem publico. Longe d'isso. Para nós, francamente o dizemos, o seu periodo de verdadeira gloria começava apenas, e as suas qualidades de estadista principiaram a definir-se durante o ultimo dos seus tres ministerios, porque os dois primeiros foram mais uma contingencia da politica do que uma conquista por direito.
Além de que, seriamos injusto se n'um pequeno periodo de nove dias, que tantos foram aquelles em que Saraiva de Carvalho geriu a pasta da fazenda, quizessemos encontrar um profundo vestigio da sua passagem pelo poder em 1869.
Então, era Saraiva, como todos os homens da sua idade, um theorico, um preleccionador, um inexperiente. Vinha doGremio Litterario, onde mostrára as suas aptidões intellectuaes, que eram já então incontestaveis. Mas a intelligencia, por mais brilhante que seja, precisa amadurecer. Não ha estufas para o espirito. É, pelo contrario, nas intemperies, é nas mil conflagrações da atmosphera social, que elle se robustece e fructifica. Mas, como homem intelligente que era, Saraiva de Carvalho comprehendeu que precisava justificar no futuro a posição honrosa que por nove dias occupára. 1869 era para elle um estimulo, e uma responsabilidade. E como fosse tambem um homem brioso, deixou-se dominar pela idéa fixa de mostrar ao seu paiz que servia para mais alguma coisa do que ser ministro por nove dias, e que o marquez de Sá da Bandeira não fizera emergir nos conselhos da corôa um homem completamente inutil.
Desde o dia em que o ministerio caiu, Saraiva de Carvalho pôz toda a sua energia e toda a sua intelligencia ao serviço d'este nobre pensamento: não recuar. Estudou, trabalhou, perseverou, e os seus partidarios{82}premiaram os seus esforços honrados e justos levando-o de novo ao poder em 1870.
A politica portugueza estava então n'um periodo agitado, que tornava ephemera a vida dos ministerios, e as origens revolucionarias do movimento popular de 1868 deram ás luctas da politica um caracter de ardor e de enthusiasmo que não era decerto o mais conveniente para tornar friamente reflexiva a cabeça de um homem novo.
Saindo pela segunda vez dos conselhos da corôa, Saraiva de Carvalho conservou ainda por algum tempo todo o afôgo que a sua proveniencia politica explicava, e a sua idade mal sabia reprimir.
Nas pugnas da palavra avançava para a brecha, cheio d'essa coragem que chega ás vezes a parecer precipitação, cheio d'esse ardor indomavel que não raro se confunde com a impaciencia. Todavia, ainda quando mais vehemente era nos seus discursos, e houve alguns em que o foi muito, os seus proprios adversarios reconheciam que elle não usurpava o logar de ninguem combatendo na primeira linha de atiradores. Então tinha já conquistado o seu posto de honra, tinha ganho as suas esporas de cavalleiro; não era um intruso, um adventicio; achava-se investido do mais sagrado e do mais glorioso dos direitos—aquelle que o talento confere.
Para ser um completo homem de estado, faltava-lhe todavia alguma coisa, a evolução por que o espirito dos homens passa quando na arvore da sua experiencia o primeiro fructo desponta, e elles levantam a mão para colhel-o.
E na vida de Saraiva de Carvalho esse periodo evolutivo havia chegado agora, definitivamente. Voltando ao poder em 1879, occupára-se dos assumptos da pasta das obras publicas com uma attenção intelligente e com uma grande perseverança trabalhadora. Debaixo do meu ponto de vista politico, não posso concordar{83}com alguns dos seus actos; mas não posso deixar de reconhecer que o seu espirito havia passado por uma transformação fructuosa e largamente promettedora. Como orador, comprehendeu profundamente as exigencias da sua posição official, e modificou-se notavelmente, sobretudo no discurso que como ministro proferira na camara dos pares.
Saindo novamente dos conselhos da corôa, não desmerecera por um só acto ou por uma só phrase, até nas questões mais apaixonadas que se travaram no parlamento, a opinião que em torno do seu nome principiára a formar-se, de que seria um dos homens de estado mais notaveis, mais estudiosos e mais trabalhadores do nosso paiz.
N'estas circumstancias foi que a morte o prostrou. Amigos e adversarios protestaram, n'uma tregua lutuosa, contra a usurpação de uma existencia cuja utilidade todos agora reconheciam. Foi uma dupla perda, em verdade, porque perdemos um homem, e deixamos de ter outro. Sempre que a obra de um homem não está concluida, a sua perda equivale a duas: é um trabalhador que se ausenta, e que não mais voltará. Faz portanto falta ao presente e ao futuro.
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Emquanto alguns oradores discursavam junto ao jazigo de Saraiva de Carvalho, dizendo provavelmente coisas bellas, mas por certo muito menos eloquentes do que a imponencia d'aquella grande manifestação funebre feita por todos os partidos politicos militantes, eu pensava, um poucobercépela chuva que principiava a cair mais insistentemente sobre a copa do meu chapeu n'um rithmo monotono.
No que pensava eu? Ah! no que pensava eu! N'uma{84}illusão, talvez; e, sob este ponto de vista, não podia achar vocabulo mais expressivo do que obercerfrancez, visto que este verbo significa não só o acto material de baloiçar o berço mas tambem o devanear falsas esperanças.
Sobre este tumulo que se fecha agora, pensava eu, bem podiam os partidos politicos monarchico-liberaes sellar com um juramento sagrado um pacto solemne.
Desde muitos annos a esta parte que os homens publicos do paiz andam a insultar-se quotidianamente nas luctas politicas da imprensa e do parlamento.
Primeiro que os indifferentes os amesquinhem, amesquinham-se elles a si proprios. Se se trata de um correligionario, exalçam-n'o ao sete-estrello nas azas d'esse novo Icáro chamado o elogio-mutuo; se, porém, se trata de um adversario, enrolam-n'o dentro d'um novello de adjectivos picarescos, e jogam a pella com elle até o deixar amolgado.
Todos os recem-chegados á imprensa ou ao parlamento conhecem este defeito da politica portugueza, e protestam candidamente contra elle. Dias depois, o mangoal dos adversarios começa a escacar violentamente os ovos de paschoa com que na primeira hora o receberam, e o mais doce rebuçado com que lhe atiram vem sempre embrulhado n'um epitheto tão amavel comocretinoou tão gentil comomarinelo.
Algumas semanas depois, o diapasão vae subindo de intensidade, e o sujeito apparece chrismado emtolocom todas as lettras, sendo maiuscula a primeira, para que se veja bem de longe.
Então, a victima começa a sentir picar-lhe nas carnes a urticação da colera, arranca a gravata com que entrára na arena, despe a sobrecasaca, empunha o cacete do seu estilo, e principia a atirar bordoada de cego sobre os contrarios, como um valentão de feira.
E como vá ganhando gosto a este exercicio de jogador de pau, já umas vezes por outras descarrega o{85}fueiro sobre os seus proprios amigos—por engano, é claro.
Segundo os nossos habitos politicos, os jornaes podem fazer-se rapidamente por meio de umclichéinalteravel; estão sempre feitos, e o terem redactores é quasi um luxo.
Referindo-se a um orador governamental, dizem as folhas opposicionistas no dia seguinte:
«É incalculavel o numero de babuseiras que o sr. F. teve a ousadia de despejar hontem em pleno parlamento. A verdade andou a pontapés pela sala, e o orador parecia satisfeito de vêr que estava agradando ao governo que lhe encommendou o sermão, talvez para lh'o não pagar.»
Mas os papeis invertem-se, se é uma folha do governo que está apreciando um orador da opposição:
«A comedia foi bem representada. Como truão, o orador é perfeito. Fingiu-se indignado, bateu murros sobre a carteira, arremessou ao chão varios papeis, e entornou pelas costas de um collega o copo de agua. No fim de contas, para que? Para ver se o governo se intimida, e lhe atira com uma posta gorda.»
No meio d'este tiroteio de calumnias e de insidias, uma pneumonia, um tipho, uma apoplexia lembram-se de atirar para o cemiterio um homem da opposição ou um homem do governo.
A mutação de scena é completa, n'este caso.
Toda a gente gasta quinze adjectivos para elogiar o morto, e quinze tostões para o acompanhar ao cemiterio. Cada um empunha reverentemente uma tocha para allumiar o feretro com a mesma mão com que ha dias empunhava a penna para lhe denegrir a reputação. E quando o prior, manejando o hissope, borrifa de agua benta o cadaver, não passa pelo espirito de nenhum{86}dos que ali estão—que lhe fizeram a mesma coisa com tinta de escrever e lama das ruas.
Perante a verdade terrivel dos gatos pingados e da berlinda, diz-se a respeito de um ministerial fallecido:
—Era um homem honrado, e serio. Foi um correligionario dedicado, e o governo não teve coisa nenhuma que lhe désse!
E a respeito de um opposicionista morto:
—Era um homem serio, e honrado. Nunca procurou um ministro para lhe pedir qualquer coisa! Isto é raro hoje em dia...
Dizia com graça um homem politico importante, que se achou de uma vez ás portas da morte:
—Estive tão mal, que já os periodicos começavam a dizer bem de mim!
O que seria se tivesse fallecido! Nem elle podia calcular...
No fim de contas, isto é um paiz de gente honrada. Os ministros saem do poder insultados e empenhados. Toda a gente deve. Todos padecem dôr de colica no dia em que são obrigados a pagar a renda das casas. Os homens mais poderosos na politica ficam arruinados com os direitos de uma gran-cruz, e se teem duas já não podem desentalar-se mais. As repartições de fazenda sabem-n'o bem. Se os delegados do thesouro quizessem, e os seus subordinados obedecessem, a maior parte das familias do paiz ficava arruinada de um dia para o outro.
São rarissimas em Portugal as pessoas que podem adormecer sem que uma espada de Damocles impenda sobre ellas. A penhora é uma ameaça eterna n'este paiz. Mas, em compensação, ninguem se desacredita mais do que os portuguezes, nenhum outro povo parece fazer maior gosto de passar por deshonesto aos olhos de si mesmo.
Ora, a respeito da politica, eu deixava-me embalar por uma doce illusão. Parece-me que ia dizendo isto...{87}
O partido regenerador perdeu, ha dois mezes apenas, um dos seus homens mais importantes e populares. Era o Sampaio daRevolução. Ninguem mais apedrejado do que elle, ninguem mais ferido pelos adversarios. Esse homem morreu, e em volta do seu tumulo fez-se uma enorme manifestação de respeito.
O partido progressista perdeu agora Saraiva de Carvalho, um dos seus mais poderosos esteios. Tambem Saraiva foi muitas vezes aggredido na imprensa, muitas vezes amesquinhado na sua importancia, que era grande.
Sem embargo, ao cemiterio que o recebeu, e que o vae consumir, concorreram, n'uma concentração respeitosa, centenas de pessoas de todas as parcialidades politicas.
Pois bem. Ahi estão dois tumulos que encerram despojos preciosos para qualquer dos dois partidos. Era talvez chegada a occasião de sobre elles fazer um pacto solemne—o de entrar n'uma nova vida politica, de mutuo respeito, e de mutua hostilidade. Para combater os principios, não é preciso combater os homens. Deixemos á rua a lama que lhe pertence, e dêmos a Cesar o que é de Cesar, sem que seja preciso darmos a Deus o que é de Deus, isto é, um cadaver.
Qualquer dos dois grupos politicos acaba de soffrer uma grande perda, qualquer dos dois partidos chora um correligionario; ambos elles estão de luto. Morto por morto, tumulo por tumulo, a dôr nivela as circumstancias em que nos achamos.
Os dois cadaveres jazem no mesmo cemiterio; parece que a Providencia quiz tornar mais eloquente a sua lição fazendo que sobre o campo neutro da morte, sobre o mesmo chão sagrado, regeneradores ajoelhassem deante de um tumulo progressista, progressistas ajoelhassem perante um tumulo regenerador.
Nenhum outro monumento mais bello ou mais grandioso poderia levantar-se em honra dos dois mortos illustres.{88}